Com a palavra, a direita templária

Com a palavra, a direita templária

Entrevista com o “olavete”

 

Non nobis, Domine, non nobis, sed Nomini tuo da gloriam, repetem os templários do nosso tempo. Eles formam uma seita, fundada sobre a interseção entre o místico e o reacionário. Seu ideal é mimetizar o guru-mor nos mínimos detalhes. Da agressividade desbragada à filosofia mais conservadora. Do extremismo de direita à vocação para o destampatório. São um exército de contingência esotérico e em guerra permanente. Tudo em nome daquele que veneram: o grão-mestre dessa nova maçonaria. Insight Inteligência submergiu nessa sociedade secreta para destrinchar quem são os seguidores de Olavo de Carvalho. Com a palavra, o “olavete”.

 

Olavo de Carvalho e, consequentemente, seus segui­dores, talvez sejam, neste momento, os mais bem-sucedidos intérpretes do profundo conservadorismo brasileiro. Como se deu a gênese do “olavismo”? Quem é o “olavete”?

Em sua maioria, o “olavete” é, antes de tudo, um desertor, um vira-casaca. Assim como eu, a grande parcela dos seguidores de Olavo de Carvalho é composta por egressos da esquerda, absolutamente desiludidos com o seu ideário. Nós nos cansamos do materialismo histórico, da sua inutilidade. A esquerda perdeu a capacidade de oferecer respostas. E respostas é tudo o que Olavo de Carvalho tem a nos dar. Olavo não cabe em rótulos. É algo completamente diferente, novo. De repente, começam a surgir explicações a partir de um caminho híbrido, que combina o conservadorismo com o misticismo, a alta cultura com a grande tradição ocidental, tudo temperado com uma notável capacidade de sedução. Olavo é um hipnotizador, um encantador de serpentes. É tudo o que um jovem descrente das forças de pensamento hegemônicas nas últimas décadas busca e precisa. Havia uma demanda reprimida por um novo tipo de conhecimento. Olavo identificou essa lacuna e nos capturou. Por muito tempo, ele foi lido secretamente. Talvez isso ainda ocorra hoje. Professores universitários e acadêmicos leem Olavo, concordam com o que leem, mas não admitem. O fato é que Olavo já está introjetado na universidade há algum tempo; é lido e debatido. A campanha presidencial e a eleição de Bolsonaro apenas fez o vulcão entrar em erupção. Mas o magma já estava lá, pulsando principalmente entre jovens. Olavo se propôs a ser uma espécie de menestrel de pessoas que não mais toleravam o status quo vigente. Mas, como disse, havia resistências ou certo pudor mesmo entre aqueles que já haviam sido conquistados por ele. Eu demorei a admitir publicamente que era um “olavete”, desde os gestos mais banais que entregariam essa condição, como curtir um post no Facebook. Tinha receio de que isso me marcasse junto às pessoas com as quais eu trabalhava, ligadas às ciências humanas, às artes. A maioria era de esquerda e eu não podia me expor.

 

O que mais seduz em Olavo: o conteúdo ou a forma?

O grande charme do “olavismo” veio exatamente do seu caráter secreto, obscuro, como se fosse algo proibido. Ressalto, mais uma vez, que nós mesmos, seus seguidores, tínhamos receio de nos apresentar publicamente como entusiastas do seu pensamento. Então, ao menos no início, ser um “olavete” também significava adotar um comportamento sigiloso. Por algum tempo, formamos praticamente uma sociedade secreta, que se comunicava e trocava informações quase que aos sussurros. Convenhamos: tudo isso confere um charme ainda maior ao processo de adesão ao “olavismo”. Tudo que envolve Olavo é encantador. Mas a importância da forma não diminui ou muito menos se sobrepõe à relevância do conteúdo da sua obra. Pelo contrário. Quando eu li “Introdução à Vida Intelectual”, fiquei de olhos esbugalhados. O misticismo faz parte da história do Olavo. Ele foi um excelente astrólogo, tornou-se famoso nesse ofício. Formou gerações de astrólogos no país. Muitos, inclusive, ficaram decepcionados quando ele abandonou a astrologia. Aliás, é interessante comparar o Olavo com outros intelectuais conservadores influentes que o antecederam. Gilberto Freyre também tinha esse lado místico, também era um conservador. Mas, como ele morreu associado à ditadura, quando o regime estava desmoralizado e o marxismo cultural estava em ascensão, seus discípulos se criaram fora do campo conservador. Freyre, no entanto, era um aristocrata e estava longe de ser um sujeito escrachado como o Olavo.

 

A polêmica que Olavo provoca, por vezes, não é mais importante do que propriamente a essência de seus pensamentos?

Não! Entendo que uma razão importante do êxito e da propagação das ideias de Olavo se deva ao domínio do meio. Não há registro de qualquer outro intelectual conservador usar as redes sociais de forma tão eloquente. Ele viu a capacidade de viralização de certas ideias muito antes de todo mundo. A principal característica do Olavo é que ele não tem intermediário. Trata-se de uma relação direta aluno-mestre. No ensino convencional, essa convivência tem atravessadores, digamos assim: a universidade, instituições culturais, casas de artes etc., todas funcionando como um interveniente entre o intelectual e o seu público. Olavo não tem mediador ou anteparos, até porque brigou com todas as instituições. Foi expulso do Globo, da Folha. Nunca chegaria à universidade por causa da forma como age. Então, Olavo ficou sem intermediário e teve de criar seu próprio meio. Bendito foi esse expurgo dos canais convencionais de disseminação de conhecimento. A criação de seus próprios canais gerou uma força política sem precedentes. Olavo se tornou tão autossuficiente que não há alguém superior, um árbitro ou patrão capaz de controlá-lo. Eu não diria que Olavo cria polêmica. Ele é, sim, provocativo. Seu pensamento é afiado, cortante, por definição. Seu comportamento tem um preço. Ele se mudou para os Estados Unidos porque começou a receber muita ameaça de morte. Acho, inclusive, que é o que vai acontecer comigo muito em breve. A situação ficou insustentável: ele tinha muita briga aqui no Brasil. Quando deixou o país, nem estava mais no circuito Rio-São Paulo, mas em Curitiba. O mais curioso é que ele criou o COF (Curso Online de Filosofia) menos por razões acadêmicas e mais por necessidade financeira. Além da sua subsistência, precisava pagar a faculdade da filha nos Estados Unidos. O COF acabou virando um sucesso brutal.

 

Como os “olavetes” atuam?

O termo “olavete” é razoavelmente amplo. Há seguidores que se limitam ao burburinho das redes sociais, mas nunca leram a obra ou participaram de algum curso de Olavo. Uma parte expressiva, na qual me incluo, devorou toda a obra. E ainda há uma legião de anônimos, pensadores ocultos que leem os livros, compartilham do ideário, até o disseminam em pequenos círculos de convivência intelectual, mas não usam as redes sociais. Ou seja: estudam, produzem conhecimento em cima da obra de Olavo, mas geram uma disseminação mínima ou inexistente. Alguns dos melhores alunos do Olavo são assim, o que é lamentável. Essa situação cria um paradoxo que não nos ajuda: muitos que têm uma produção intelectual consistente não se expõem, criando um vácuo no qual despontam “olavetes” com baixo embasamento teórico. Na maioria dos casos, quem acaba se destacando publicamente são aqueles que lacram nas redes sociais, mas não os “olavetes” com profundidade intelectual. É como se criar ou participar de uma grande polêmica seja o passaporte, o ritual de entrada em uma nova direita. Esse fenômeno irrompe em 2013. Com o lançamento do “O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota”, o mercado editorial da direita explodiu. As pessoas simplesmente tiravam uma foto com o livro e a postavam nas redes sociais. Muitas pessoas começaram a fazer as fotos para o Olavo compartilhar. Esse processo de viralização, esse boca a boca digital, transformou o livro em best-seller. Curiosamente, tudo que está nesse livro já estava disponível gratuitamente no site do Olavo. Esse tipo de movimento pode até ser útil para criar espuma, ou likes e shares, as moedas de valor dos tempos atuais. No entanto, o “olavismo” precisa de porta-vozes mais refinados.

 

A rede social é um habitat mais propício à nova direita?

A nova direita brasileira tem enorme capacidade de manejar esse meio, sem dúvida. Olavo se espalha nas redes sociais; o bolsonarismo se espalha nas redes sociais. Carlos Bolsonaro teve a ideia de fazer as redes sociais da família, abrindo o perfil no Twitter do pai, do irmão, dele próprio. As pessoas começaram a criar memes para o Bolsonaro. Não sei se eram alunos do Olavo, mas ouviam o True Outspeak (programa no formato de rádio que Olavo fazia pela internet). O True Outspeak é uma gênese dessa linguagem de memes, porque é uma forma de se falar uma verdade tão na cara da pessoa, que ela fica chocada. Aquilo viraliza de alguma forma. A verdade pode ser muito dura, e o programa do Olavo era basicamente isso. Parte dessa gente, formada por alunos ou ao menos admiradores do Olavo, foi trabalhar com Bolsonaro e hoje compõe aquilo que ficou conhecido como o “gabinete do ódio”. Há, portanto, uma notória conexão entre os “olavetes” e as propagandas nas redes sociais da família Bolsonaro. Um seguidor da direita posta uma coisa e tem mil curtidas; o pessoal da esquerda posta e tem dez. Eles dizem que é robô, mas não é robô nada. Eu encontro com os robôs na rua; o pessoal que me segue no Twitter vem falar comigo. Em português claro, as pessoas ficaram de saco cheio com o bom-mocismo revolucionário, e isso se reflete no pensamento político e na internet. A comunicação através das redes sociais se tornou uma maneira de união entre essas pessoas.

 

O quanto o “Fator Olavo” teve de peso na eleição do presidente Bolsonaro?

Olavo de Carvalho foi vital para organizar o ideário em torno da candidatura de Jair Bolsonaro. Talvez, vejam sua importância, ele tenha organizado o que sequer estava muito bem conceituado no círculo mais próximo de Bolsonaro. Em 2008, Olavo disse: se um candidato perfeitamente conservador falar a verdade, ele vai ser eleito sem precisar de máquina, sem precisar de nada. Então, a profecia foi bastante acertada. Começou em 2014. O movimento foi crescendo através das redes sociais. Por exemplo: como é que se descobriu Felipe Martins, que veio a ser assessor internacional da Presidência? Foi através de rede social! Ele estava viralizando; os posts dele tinham muitas curtidas. Ele acabou dentro do governo. Mas, voltando no tempo, ainda à época da eleição, tudo era muito improvisado. A forma como Bolsonaro entrou no PSL, de última hora, foi caótica. A campanha dele para presidente foi mais precária do se possa imaginar.

 

Como se dá a participação dos “olavetes” no governo Bolsonaro? Ela é sistematizada, orgânica, ou as indicações se dão de maneira dispersa, aleatória?

Em primeiro lugar, é importante enfatizar que Olavo recebeu convite para ser ministro da Educação ou da Cultura, mas recusou. Como ministro, ele ficaria bastante engessado. Corria o risco de se manter confinado ao perímetro da sua Pasta. Sem cargo, Olavo tem um papel muito amplo, transversal, que perpassa a gestão nas mais diversas áreas. Dito isso, há um ponto central: ao contrário do que a maioria deve supor, os “olavetes” proeminentes do governo não têm necessariamente contato com o próprio Olavo. Alguns sequer foram seus alunos. Há pessoas que simplesmente veiculam as ideias dele nas redes sociais e foram alçadas ao governo por sua popularidade no ambiente digital. Roberto Alvim (ex-secretário de Cultura) estragou muito o movimento. Sua queda deu argumento para a mídia. Mais do que isso, revitalizou os militares dentro do governo. Eles são organizados, ao contrário dos “olavetes”, que não têm qualquer regra ou hierarquia.

 

Hoje, Olavo de Carvalho é um agente de participação assídua nas decisões do governo?

Não! Há um pouco de mito nessa questão. A maior influência de Olavo se dá no ideário, na construção de pensamento e, ainda que indiretamente, na ocupação de alguns cargos. Mas ele não tem participação no dia a dia, na tomada de decisões. Ele mantém interlocução com Bolsonaro, que o consulta em alguns temas. Sei, por exemplo, que o presidente ligou para ele para perguntar sobre a indicação da Regina Duarte e ele concordou. Mas, ao contrário do que muitos pensam, não partiu do Olavo a nomeação do Ernesto Araújo para o Itamaraty. Nem com o Ricardo Vélez, primeiro ministro da Educação do governo Bolsonaro e ligado a ele, Olavo mantinha interlocução sobre questões da Pasta. Ele organiza as ideias intelectualmente, mas, na prática, sua atuação política é caótica. O próprio Olavo fala politicamente, mas não no sentido partidário. Ele não quer se meter nessa seara. Está envolvido na luta ideológica. Ele não chega a fazer política partidária.

 

Quem forma o núcleo duro do “olavismo”?

Quem consegue agregar o universo do “olavismo” é Silvio Grimaldo, que criou o True Outspeak. Ele era aluno e amigo dos filhos do Olavo. Tornou-se ele próprio praticamente um filho do Olavo. Mais do que isso: hoje ele tem o poder de decidir quem se aproxima ou não do Olavo. Silvio permite a chegada de poucos e conduz o expurgo de muitos. Além dele, havia outras pessoas mais próximas ou mais eminentes, como o Carlos Andreazza. Ele era o editor do Olavo. A verdade é que, no fim das contas, todo mundo que aspira a um cargo no governo passou a se dizer “olavete”. Teve gente perguntando: “Será que o Olavo não ajuda a me manter no cargo, não?” Esses foram aconselhados a não pedir, porque é capaz de piorar. O próprio governo já notou que o pessoal relacionado ao Olavo tende a ser desorganizado. Além do mais, existem muita inveja e competição entre os “olavates”. Muitos se revoltaram contra ele porque não conseguiram se aproximar.

 

Qual o futuro do “olavismo”?

Por mais contraditório que possa parecer, o “olavismo” não tem muito futuro no governo. Essa falta de organização e traquejo político são elementos que ajudarão a deteriorar o poder de influência do Olavo. Gilberto Freyre tinha vários alunos e admiradores e depois seu pensamento se dispersou. Não sei se vai se criar uma cultura conservadora em torno do Olavo. De toda a forma, creio que daqui a 20 ou 30 anos muitos estarão lendo e discutindo Olavo. Ele fará parte da história intelectual brasileira. Talvez não faça da história política.

One response to “Com a palavra, a direita templária”

  1. nelson jobim disse:

    Gostaria de voltar a ler esta revista. Lembro-me que a lia quando Wanderlei Guilherme esta na edição (?).
    Obrigado

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *