Ciência 3G – A aura persiste

Ciência 3G – A aura persiste

Hermano Roberto Thiry Cherques, administrador

 

A injustificada aura que glorifica os saberes estabelecidos data da primeira geração da Ciência, quando, ainda com mandato sobrenatural, foi puramente normativa.
Tomemos o caso, próximo a nós, de José Francisco António Inácio Norberto Agostinho, Rei de Portugal e Algarves (1714-1777). Absolutista, D. José I governou “por mandato de Deus, de ciência certa e vontade esclarecida”. O mistério aurático não recai sobre a Ciência de primeira geração, a G.1, mas em como se chegou a nela crer. Pois, corria à boca pequena que o saber de el-Rei era pouco, e a sua vontade, frágil. Alguns historiadores até sustentam ter sido Sua Majestade uma toupeira. Outros, mais compreensivos, o têm como carola e hesitante.
Beato terá sido D. José, e a inapetência decisória, mesmo afiançada por Deus, se esclarece: teve como Secretário do Reino o enérgico Sebastião José de Carvalho e Melo, primeiro Conde de Oeiras, e, como ficou conhecido, Marquês de Pombal. É crível que, tirânico, o Marquês não lhe tenha permitido dar um pio nas coisas do reino. Mesmo assim, os Arautos do Paço da quarta dinastia, a de Bragança, o apelidaram de “o Reformador”.
Aí já lá vai outro enigma que cerca a ciência de D. José. Reformas de fato as teve seu reinado. Mas se devem à Mãe Natureza e ao Marquês, e não a ele. A primeira, no terremoto de 1º de novembro de 1755 – aquele mesmo, de Voltaire, que, a custa do supradito, desabonou a ciência divina – fez ruir sobre a cabeça da corte e do povo palácios, casas e casebres. O segundo, reorganizou a desmoronada Lisboa, façanha de que dá testemunho a baixa pombalina.
Sobreviveu D. José à fatalidade sísmica por conveniente ausência – havia ido tomar a fresca à Belém. Mas, depois dessa data, encarolou de vez. Puxava novenas dia e noite. Também ganhou uma fobia a edifícios de pedra e cal, indo viver em um complexo de tendas no Alto da Ajuda, onde veio a expirar. Sua alma foi levada pelos anjos, ou foi carregada pelo demônio. Há controvérsia.
A hipótese diabólica deve ser atribuída à sua bem-amada filha, Maria Francisca Isabel Josefa Antónia Gertrudes Rita Joana, futura Rainha de Portugal e Algarves. Explica-se o crédito: tendo el-Rei supostamente sido objeto de um atentado, o Marquês, de olho nas fortunas dos Távora e dos Aveiro, ordenou que os insurretos fossem torturados até a morte. Deu-se então que, na mais cruel advertência aos vivos e às gerações futuras, os malogrados regicidas tivessem seus corpos dilacerados na Roda.
Isso se passou em Belém, em praça pública, à vista da corte e de todos. A se fiar nos sábios lentes de Coimbra, a opinião de D. Maria sobre o destino paterno decorre de que o somatório da paúra sísmica, do desconforto de viver em barracas como uma berbere, da obrigação de rezar ladainhas infindáveis, tudo isso rematado pelo espetáculo de gritos lancinantes e sangreira desatada dos Távoras e Aveiros feitos em pedaços, alucinaram a infeliz primogênita. Daí que, no seu desvario, sua Alteza não arredasse que D. José fora carregado aos infernos, de onde, desesperadamente, a chamava.
Teria a pobre atendido à invocação do amado pai, se antes, doida varrida, não tivesse sido feita Rainha do Brasil, e para cá remetida, o que, parece, em nada ajudou seu caso. Apesar disso, como a cientificidade na primeira geração fosse normativa, seguiu D. Maria I detendo oficialmente Ciência certa. Mas sabiam todos da sua condição. Tanto que, apesar dos esforços dissimulantes e camuflantes, Maria ficou conhecida entre nós como “a Louca”.
Enquanto isto, na parte mais civilizada da Europa florescia a segunda geração da Ciência, a G.2. A Encyclopédie, de Denis Diderot e Jean le Rond d’Alembert, havia sido concluída uma década antes. Estava-se em pleno “Século das Luzes”. A aura perdida da sabedoria divina dos reis requeria substituta à altura. E esta veio sob a forma da Ciência ela mesma, sem intermediários e mais certa do que nunca.
Certus deriva do particípio passado de cernere, discernir, decidir. Uma ciência certa é a que decide sem erro possível. Como na nossa época, em que a fé na ideologia vai perdendo espaço para a confiança na tecnologia, no século XVIII a perda da fé na garantia divina foi substituída pela certeza no poder abstrato da mente humana.
A Ciência G.2 propagava as virtudes unitárias do incrível e do invisível: a eletricidade, a fermentação e a decantação.
Como não poderia deixar de ser, no início daquele cintilante século atribuiu-se tudo à eletricidade. Para a geração 2.1 da Ciência, a eletricidade era a causa dos terremotos e a proteção contra suas consequências. Os experimentos elétricos e eletrizantes assumiam as mais diversas modalidades, sempre respeitados os cânones epistêmicos de então, tal como se respeita a estocástica numérica de hoje. Houve um cientista que chegou a enfiar um par de fios de prata narina adentro, provocando um formidável choque. Concluiu que a eletricidade tinha odor pútrido. Acreditava tanto no experimentalismo que não atinou que a putrefação era a da narina, sacrificada em nome do conhecimento.
Eletrificou-se tudo, desde seres vivos, como os elefantes de circo, até, e especialmente, os alimentos – o leite, o vinagre, a carne – para que não se estragassem. Ao cabo, tentou-se até mesmo ressuscitar cadáveres mediante a eletrificação das orelhas, tão a propósito dispostas. Isto porque longas e acuradas observações haviam levado à crença de que a eletricidade era um ente vivo, gerado pelo choque entre o branco e o negro. Mais ou menos como hoje se pretende quantificar tudo: das relações interpessoais à imaginação, do sofrimento à felicidade.
As falhas e desastres da geração 2.1 não abalavam a fé na Ciência. Mas, pelo meio do século, tinha ficado evidente que se haviam esgotado as possibilidades da eletrificação universal. Sobreveio, então, a G.2.2: a da fermentação.
A fermentação, concebida como movimento espontâneo da natureza, passou a ser a causa de tudo. Misturava-se carne, pão e água (o reino animal, o vegetal e o mineral) para se obter a fermentação salvadora. Cientistas seríssimos, como Geoffroy Saint-Hilaire, estudando de ratos a elefantes, concluíram que a própria existência humana derivava da fermentação: do processo digestivo que nos mantém vivos. Ao ponto em que, para que tivessem uma boa fermentação, recomendava-se que as crianças, depois de amamentadas, fossem freneticamente chacoalhadas.
Findas as Luzes, já na volta para o século XIX, mas ainda na ordem da Ciência de paradigma unitário, sucedeu à eletrificação e à fermentação, a geração 2.3, regida pelo ideal epistêmico da decantação.
Acreditava-se que ao se decantar encontrar-se-ia a essência, o espírito ou a virtude de qualquer matéria. Decantaram-se, evidentemente, todos os líquidos disponíveis, mas também, pedras moídas e madeiras nobres. Foram decantados cachorros, gatos, muitos coelhos (cuja “essência” é ainda hoje usada em perfumaria). Na documentação científica dos experimentos ocorridos na Paris de então, há registro dos custos e dos resultados da decantação de pelo menos um elefante inteiro, sem que, no entanto, se conseguisse precisar as virtudes elefantinas essenciais.
Esgotadas as possibilidades da Ciência de eixo único, a fraqueza humana ou a resignação face ao desconhecido ou a combinação de ambos continuam embasando o halo que dignifica a Ciência. Os experimentos e os relatos de casos da terceira geração mantêm grande prestígio, embora seus resultados sejam particulares e efêmeros, e nem a pretensão de essencialidade sustentem.
As estratégias da Ciência 3.G continuam focadas na obscuridade descabelada. Ainda assim, cremos, ou nos fazem crer, na razoabilidade dos cientistas, uma gente que domina saberes que nunca entenderemos.
Dois exemplos fartamente documentados.
Na sexta-feira, dia 3 de agosto de 1962, Warren Thomas, diretor do zoológico municipal de Oklahoma, injetou em Tusk, o elefante, 297 miligramas de LSD. A dose era 3 mil vezes superior a que os humanos costumam experimentar. Tusk, trombeteou, volteando sobre o seu próprio eixo durante alguns minutos, deu um salto digno de uma cheerleader, soltou um cagalhão descomunal e caiu de pernas para o ar. Morto.
Em Oklahoma, como descreveu Kafka sem nunca lá ter estado, passam-se coisas inexplicáveis. Como ninguém sabia ao certo a causa mortis de Tusk, após dois anos de intensas controvérsias, Ronald Siegel, da Universidade de Los Angeles, decidiu dar fim ao mistério. Administrou a mesma dose de LSD a dois outros elefantes, só que diluída em água. Desta vez os paquidermes sassaricaram para frente e para trás e emitiram melódicos trinados. Mas sobreviveram. Desconhece-se a contribuição para ciência do paquidérmico experimento. Para um leigo, a conclusão é de que no fundo da alma elefantina dorme o sonho de ser uma cotovia.
Passemos ao segundo e derradeiro exemplo, o dos tempos e circunstâncias mais recentes, em que a ciência 3.2 G triunfa impávida.
Nada parece ter mudado. Se poucos efetivamente entendem as razões dos desígnios reinóis de ordem divina, os poderes da eletricidade, as benesses da chacoalhação fermentadora dos nenéns, os saberes decorrentes de extração das essências e as consequências do canto dos elefantes chapados, o que se dirá da física dos quanta, que, altaneira, arremete pelo século em curso?
Pois, como quase ninguém sabe, na física quântica o Princípio da Incerteza de Heisenberg diz que é impossível ter consciência simultaneamente do momento e da posição de uma partícula. Conhecer uma dessas propriedades afeta a precisão com que se pode conhecer a outra. Já a Demonstração do Entrelaçamento dispõe que, romanticamente enredadas, as partículas se comportam como se estivessem “trocando informações”. Se não bastasse isso, a atualíssima teoria da Ação Fantasmagórica veio a demonstrar que o Princípio de Heisenberg associado à Demonstração do Entrelaçamento, resulta na coordenação totalmente estranha entre partículas afastadas entre si.
Não por acaso Albert Einstein foi um dos que opinaram que o mundo quântico era tão estranho que a teoria devia estar errada. O fato é que, se no tempo de D. José a aura da ciência era garantida pelo rei, e Deus o seu ponto de apoio, se depois o mancal foi o da ciência unitarista propriamente dita, nos tempos que correm a Ciência e sua aura parecem ter se fundido, além de terem deixado em paz os elefantes.
Seja como for, a nós, leigos contemporâneos, parece não restar senão a habitual fraqueza de ter fé no que garante a Ciência estabelecida e nos resignarmos à dissociação entre tempo e lugar e à possibilidade do alegre diálogo entre partículas longínquas, inertes, invisíveis e telepatas.

O autor é doutor em Ciências de Engenharia de Produção pela Universidade Federal do Rio de Janeiro
hermano.thiry@gmail.com
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