castro – a falta que ele faz

castro – a falta que ele faz

RODRIGO DE ALMEIDA, Jornalista e cientista político

 

Seu dia começava invariavelmente cedo. Numa espécie de sacerdócio, acordava por volta das seis horas da manhã e seguia uma rotina linear na forma e complexa no resultado. Lia atentamente os jornais e os recortava segundo um vasto campo de tópicos de interesse, mais tarde cadastrados em inúmeras pastas e guardados nos arquivos de metal de seu escritório. O arquivamento, a bem da verdade, só vinha após um acúmulo considerável num canto de sua mesa, a ponto de achar impossível trabalhar daquela maneira. Religiosa e incansavelmente fazia anotações, igualmente classificadas em numerosos fichários, também organizados por tema e por ano.

Com uma caligrafia aparentemente incompreensível, exibida em múltiplas cores de canetas, enchia as folhas de reflexões, dúvidas, inquietações, insights, notas, referências bibliográficas que, depois, iria pesquisar, conclusões, antevisões, conceitos ou pré-conceitos, indícios em geral daquilo que mais tarde transformaria em artigos, conferências, livros ou simplesmente hipóteses para a compreensão de fenômenos econômicos e sociais do momento. As anotações eram geradas não só pelas leituras. A estas, também rotineiramente eram sucedidos alguns poucos telefonemas, ainda de manhã cedo, a amigos e interlocutores privilegiados. Eram conversas em geral interrompidas bruscamente com um sonoro ponto final no papel – o sinal de que teria de “começar o trabalho” a partir dali. E assim Antonio Barros de Castro trabalhava de domingo a domingo.

Uma das manhãs desses domingos de trabalho, porém, seria tisnada de maneira trágica ao ruir parte da laje do cômodo anexo da casa, onde instalara o escritório. O teto desabado atingiu a cabeça de Castro, com uma irônica e cruel precisão: o computador em que trabalhava nem sequer foi danificado. A filha Ana Clara Barros o encontrou sob os escombros. Quando a equipe de socorro do Corpo de Bombeiros chegou, ele já estava morto.

Hoje, pouco mais de um ano depois, a casa centenária de arquitetura em estilo normando continua lá, no Humaitá, Zona Sul do Rio, mantendo o ar da graça da presença de Castro em todos os cômodos. O “pequeno altar” na sala, expressão usada pela mulher, a também economista Ana Célia Castro, para descrever a mesa onde estão um álbum da família Castro, duas peças trazidas de da China e placas de homenagem recebidas por ele. Na mesma sala, parte da biblioteca e das pastas com as últimas anotações – aquelas organizadas diariamente, em letras que ainda hoje só a mulher compreende e lê em voz alta com uma quase inacreditável fluência. O ambiente da casa informa ao visitante aquilo que está espalhado por salas de aula da Unicamp e da UFRJ, onde era professor emérito, pelos ambientes institucionais de onde passou (como o BNDES, banco que presidiu no início dos anos 90), pelos livros por ele publicados e, sobretudo, pela memória de quem conviveu, estudou, trabalhou e aprendeu com ele – amigos próximos, distantes ou simplesmente admiradores à distância. Invariavelmente há um sentimento inquietante, mantido no tempo e assegurado por uma constatação de vazio. Coisa de quem sabe a falta que Castro faz.

Pois faz falta o brilhante professor, o “inconformista”, segundo definem Ana Célia Castro e a filha Lavinia Barros de Castro, economista do BNDES e professora do Ibmec. Para elas, Castro era um “pensador rebelde”, jamais resignado às ideias dominantes do momento. Para o amigo Cezar Medeiros – que trabalhou com Castro no Instituto de Economia da UFRJ e no Banco do Brasil, onde ambos prepararam formulações para um inovador modelo de privatizações – tratava-se de um professor e economista com especial talento para perceber antes o que muitos enxergariam e absorveriam depois, transformando em sabedoria convencional.

Uma espécie de “heterodoxo dentro da heterodoxia”, como define o economista, amigo e parceiro Francisco Eduardo Pires de Souza, no que reforça Fernando Cardim, professor do Instituto de Economia da UFRJ, de quem Castro foi professor e orientador na Unicamp, além de amigo de toda a vida. O “homem que pensava e estimulava o pensamento”, na visão do economista Luiz Carlos Bresser-Pereira. Um “professor com fala de mel”, um “docente respeitoso da dignidade e do compromisso essencial do ser professor”, palavras do amigo Carlos Lessa. Segundo o economista Ricardo Bielschowsky, “um polemizador, um debatedor por natureza e um refutador de dogmas e, ao mesmo tempo, corajoso em concordar, sem preconceitos ideológicos, com intelectuais em qualquer posição ideológica, à sua direita ou à esquerda, quando achava justo e importante”.

Para o economista David Kupfer, aluno de Castro na UFRJ, onde é professor, o mestre dava muita atenção “pragmaticamente aos processos reais que dão base à teoria econômica. Modelos que não se aplicam bem à realidade, por mais elegantes que fossem, não tinham utilidade na visão dele”. Hoje, sublinha o presidente do BNDES, Luciano Coutinho, faz falta “ainda mais intensa” a “grande capacidade de análise” de Castro para compreender as rápidas transformações do mundo, “num momento de grande complexidade no cenário econômico internacional”.

Tais hipérboles são justificáveis. Recluso em seu trabalho, Antonio Barros de Castro jamais se permitia deixar de ficar a par do que ocorria ao seu redor. Dedicava-se especialmente à economia brasileira e seus desafios diante das mudanças internacionais. Ao apresentarem “Do desenvolvimento renegado ao desafio sinocêntrico – Reflexões de Antonio Barros de Castro sobre o Brasil”, livro no qual organizaram editam artigos relevantes do marido e pai, Ana Célia e Lavinia lembram que frequentemente o ouviam dizer, fascinado, diante de um grande artigo sobre a atualidade: “É interessantíssimo. Só que agora mudou tudo – tem que repensar tudo!”.

Era assim: Castro pensava e repensava. Escrevia e reescrevia. Ao ser recomendado a ler um texto instigante, adornava sua empolgação com uma certa aflição: “Preciso ler isso. Mas preciso mesmo, para ontem”. Mergulhava numa tarefa sem fim, em intermináveis revisões de artigos ou livros que preparava. Num artigo publicado no jornal O Globo, três dias depois de sua morte, Lavinia escreveu: “Tratava os problemas como diamantes e ficava lapidando, lapidando, para depois admirar e começar um infindável trabalho de pensar uma solução”. Cezar Medeiros conta que não raro Castro adiava uma reunião com a editora, se acordasse no dia do encontro com uma nova ideia. “Por essa razão ele tinha material para publicar mais quatro ou cinco livros”.

No dia sua morte, Castro preparava um artigo que seria base de uma palestra que daria na quinta-feira seguinte, no anfiteatro da UFRJ, na Praia Vermelha, sobre a China. Na véspera, disse: “Aconteceu uma desgraça: tive uma ideia nova”. Era a senha para compartilhar a angústia habitual diante de um artigo que, mais uma vez, não seria finalizado. A China era um dos temas que mais vinha estudando nos últimos tempos. Em maio, três meses antes de sua morte, participara do Fórum Nacional, organizado pelo ex-ministro João Paulo dos Reis Velloso, numa mesa cujo tema era “A competição do século – China, Índia e Brasil? Lideranças”. Castro estava especialmente inquieto em identificar como o Brasil e a China poderiam superar a armadilha tecnológica dos países de renda média. Para ele, o desenvolvimento chinês alterou radicalmente a economia mundial e isso exigia do Brasil uma reinvenção para manter-se competitivo.

Enxergava um país estruturalmente diferente da China, da Índia e da Rússia – temos água, enorme potencial energético, sol, chuva e terra para produzir alimentos. Assim, deveríamos perseguir, sem cessar, a rota de um estruturado plano de desenvolvimento sustentável. Para tornar esse grande projeto exequível, eram necessárias “grandes mudanças estruturais”, segundo escreveu em suas anotações. Em seus papéis, uma nota relevante sobre “três grandes eventos” que eclodiram num curto espaço de tempo: a crise financeira internacional, a incrível ascensão chinesa e a tomada de consciência ambiental.

A China era, segundo ele, o “grandalhão que muda o jogo”. Aliás,

as metáforas da corrida e do jogo mostravam-se criativamente contrastadas no texto de sua participação no Fórum Nacional. “A primeira é aquela que absolutiza a ideia da competitividade, aqui e agora, na produção do mesmo. É preciso aumentar a competitividade para se posicionar melhor, para ganhar posições na corrida. Implicitamente essa metáfora pressupõe tudo dado e revelado”. A metáfora do jogo seria proposta para a reflexão sobre a posição do Brasil no novo jogo internacional: “O jogo mudou e mudaram também os jogadores. Entrou outro time em campo, um time com características historicamente únicas que veio para transformar o panorama de forma radical”.

Castro parecia simultaneamente pessimista e otimista. Embora enfrente sérios problemas ao entrar na órbita da China, o Brasil, segundo ele, tinha diante de si “uma possível e provável grande trégua”: uma capacidade exportadora enorme, cujo coroamento será o pré-sal, o que lhe garantirá, a partir de 2015, uma relativa folga assegurada no balanço de pagamentos. “Essa trégua”, escreveu, “nos daria talvez 10, 12, 15 anos – ninguém sabe precisar –, para fazer mudanças profundas no aparelho produtivo”. Castro já havia chocado seus interlocutores, inclusive amigos próximos acostumados ao vê-lo propor ideias surpreendentes à primeira vista, ao sugerir que os caminhos do futuro se desenhavam no gigante asiático e que caberia ao Brasil não só compreender, mas integrar-se a essa trajetória, tarefa vital para o desenvolvimento. O que não significaria transformar-se em satélite da China potência ou da dualidade geopolítica EUA-China, como ressalta Carlos Lessa.

Se o milagre chinês era seu foco último, o milagre brasileiro foi um dos primeiros objetos de estudo de Castro, numa trajetória intelectual marcada por um variado cardápio de temas de interesse e análise. Numa entrevista à economista Leda Paulani, publicada na revista Economia Aplicada, da USP, em dezembro de 2000, ele lembrou: “O Paul Baran [marxista nascido no Império Russo, atual Ucrânia, com carreira acadêmica desenvolvida nos EUA] tinha dito que o Japão era o análogo do besouro: pelas leis da aerodinâmica, não pode voar, mas voa. Essa frase nunca saiu da minha cabeça. Eu acredito que isso é (ou deveria ser) uma espécie de ideal científico, ou seja, descobrir besouros, perceber aquilo que não pode acontecer, mas acontece, para tentar com isso entender o que realmente se passa”.

Um desses besouros descobertos por Castro foi sua análise sobre o milagre brasileiro: numa conferência em 1968, que Luiz Carlos Bresser-Pereira registraria em um paper dois anos depois, Castro mostrou que a concentração de renda deveria ser um entrave ao crescimento da economia brasileira, mas não era. O Brasil viveria um período de elevado crescimento no início da década seguinte, porque a renda concentrada nos 10% do topo da pirâmide revela-se um importante mercado para a indústria, montada sob inspiração dos seus congêneres internacionais. Essa tese ficaria famosa depois com a publicação do livro “Além da estagnação”, escrito por Maria da Conceição Tavares e José Serra.

Esta foi a primeira fase do pensamento de Castro, a dedicação a reflexões sobre a economia brasileira, com uma visão histórica à moda de Celso Furtado. Uma segunda fase viria no momento em que trabalhou na Cepal, a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe, no Chile, onde funcionava a instituição. Deu-se entre 1963 e 1973, quando trabalhou bastante com Maria da Conceição Tavares e Carlos Lessa. É desse período o ingresso nos estudos marxistas – sempre de maneira não dogmática – e a publicação de um dos clássicos da literatura econômica do país, “Introdução à Economia: uma abordagem estruturalista”, escrito em coautoria com Lessa, publicado em 1967 e reeditado mais de 40 vezes. Entre 1972 e 1973, deu aulas na Universidade do Chile.

Com o golpe no Chile, e por indicação de Raul Prebisch, ele passaria um ano acadêmico em Cambridge, Inglaterra. Já com o doutorado iniciado na Unicamp, Castro ficou como visiting scholar no Center for Latin American Studies. Ingressava ali na sua terceira fase acadêmica, que resultaria na defesa de sua tese de doutorado, em Campinas: Escravos e Senhores nos Engenhos do Brasil. Na tese, orientado por Jorge Miglioli, Castro lembrava que o sistema colonial, de acordo com a visão marxista predominante, deveria ser incompatível com o progresso técnico. Mas no caso do escravismo brasileiro, ressaltava, não o era. Havia inovações técnicas relevantes, que tinham forte impacto nas relações sociais da colônia. Polêmica líquida e certa: sua defesa durou árduas seis horas, com intensas arguições e debates, dos quais se saiu muito bem.

Ainda na década de 70, Castro seguiria para Princeton, de onde se tornou mais tarde membro do Institute for Advanced Studies. Deu-se ali uma nova fase de seus estudos, a reflexão sobre política econômica. Estava entusiasmado com Keynes, era leitor de Kalecki e, já há algum tempo, admirador das ideias de Schumpeter. Castro participara, naquela década, do debate com os seus então colegas da Unicamp, Maria da Conceição Tavares e Luiz Gonzaga Belluzzo, sobre a relevância de Kalecki para a compreensão da dinâmica do capitalismo e, em última instância, para o estudo da economia brasileira.

Essa discussão foi chamada de “Controvérsia sobre a demanda efetiva” e originou o livro “O capitalismo ainda é aquele”, outra de suas obras mais relevantes, publicado em 1979. Seria a base para o seu livro de maior impacto, escrito em parceria com Francisco Eduardo Pires de Souza: “A economia em marcha forçada”. Nele, os autores examinavam o desenvolvimento econômico e os caminhos às vezes imprevistos pelo qual ele pode ser alcançado. Mais uma pedreira no debate econômico: a maioria dos economistas condenava de mãos dadas o esforço de combate às crises que atingiram o país nos anos 1970, fruto dos dois choques do petróleo, enquanto Castro punha o dedo em riste para apontar a natureza inovadora da aposta feita no II PND, o Plano Nacional de Desenvolvimento concebido pelo ministro João Paulo dos Reis Velloso durante o governo Geisel.

A interpretação geral era de que o Brasil, diante do primeiro choque de petróleo, deveria ter feito um ajustamento, mas julgou que a crise era passageira e usou os recursos externos para se financiar. Assim, dizia a leitura mais ortodoxa, o país teria continuado a crescer de forma artificial, seguindo uma estratégia de curto prazo, sem antever o segundo choque, e com graves consequências que seriam detectadas nos anos 1980.

Castro pensava diferente. Para ele, apesar da necessidade de legitimação no curto prazo do regime militar, o Brasil teria, ao contrário, uma visão de longo prazo – e bastante ousada. O II PND investiu em setores de longa maturação e não fez nem ajustamento, nem financiamento, defendeu na tese da “marcha forçada”. Segundo a tese, o governo usou recursos externos, mas para fazer uma transformação estrutural na matriz industrial e energética do país.

O país – disse Castro na época, em entrevista à revista Veja – se tornara mais industrializado do que a Inglaterra. Deveria parar de crescer, mas cresceu em marcha forçada. Insistiu no seu voo pesado, mas com rumo. Para ele, o Brasil atravessava ali a primeira fase do chamado catching up – a busca de padrões internacionais de competitividade, uma assimilação do novo paradigma industrial tecnológica, com a superação do paradigma fordista, de produção em massa de produtos homogêneos. Um extraordinário “ganho de autonomia” fora adquirido. O processo de restruturação das empresas continuaria na década de 1990, durante o processo de privatização e de abertura da economia brasileira. Apesar da estagnação das duas décadas, estaria ocorrendo ali um segundo processo de catching up. Um reposicionamento estratégico das empresas, com transformações relevantes no tecido industrial brasileiro.

A nova fase do pensamento de Castro ganharia vigor com a tese do desenvolvimento renegado. Publicada originalmente num artigo pouco conhecido, com o título “Renegade Development: Rise and Demise of a State-Led Development in Brazil”, a ideia era negar que a crise brasileira das duas últimas décadas fosse uma consequência “natural” de uma economia que optara pelos desvios da doutrina de mercado. Para ele, o crescimento brasileiro tinha sido longo demais para ser chamado de modelo fracassado.

Castro mencionava duas convenções fundamentais para explicar o sucesso do modelo brasileiro: a “convenção do crescimento” e a “convenção da estabilidade”. Ao rejeitar a “convenção do crescimento”, o Brasil exibia dificuldades de sair da medíocre trajetória a que se resignou entre os anos 1980 e 1990. Tinha como crescer, mas não crescia. Podia voar, mas ficava no chão. Faltavam-lhe crenças compartilhadas e instituições capazes de reduzir incertezas e tornar o crescimento viável. “A maioria dos textos de Castro”, sublinha Ricardo Bielschowsky, “são engajados no debate nacional”. Tornaram-se referência e mostram a aderência com a história corrente e um profundo envolvimento na discussão sobre o desenvolvimento no Brasil, no contexto e no calor de diferentes conjunturas econômicas e ideológicas”.

Castro reafirmaria sua vocação para a dissonância no período em que foi assessor do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), entre 2003 e 2004. Com o presidente Lula recém-instalado no Palácio do Planalto e iniciando um mandato espremido entre uma política econômica restritiva, desconfianças dos mercados financeiros e heranças pesadas sobre a economia, o pessimismo parecia generalizado. Sérios problemas fiscais e de balança de pagamentos pareciam claros e certos no horizonte próximo. Eram “pessimismos infundados”, escreveu Castro.

Os chamados entraves macroeconômicos tidos como permanentes na economia brasileira – e o pessimismo deles decorrentes – assentavam as bases da descrença na possibilidade de retomar a rota do crescimento. Para Castro, “o quadro macroeconômico encontrava-se sob controle”. O crescimento viria com ímpeto inesperado. O “voo da galinha”, apresentado como surtos de baixo crescimento, ou os stop-and-go característicos da economia brasileira, dariam lugar a um “voo do besouro”. Besouro porque ainda sem rumo, mas que poderia ir “mais além”, caso fossem aproveitadas as oportunidades criadas a partir das novas tendências do capitalismo. A China abria tais oportunidades.

Castro havia preparado uma relevante agenda de pesquisa para o Ipea, na época dirigido por Glauco Arbix. Convencera-se de que era fundamental conhecer por dentro as empresas industriais e sua capacidade de competir no novo cenário, marcado pelas tendências pesadas. O estudo chamava-se “A empresa e o crescimento da economia” e ficou conhecido como pesquisa ABC. A sigla não se referia a Antonio Barros de Castro, mas a uma tipologia de empresas diferentemente posicionadas quanto à capacidade de competir no novo cenário. Suas ideias ajudaram a fundamentar a Política Industrial, Tecnológica e de Comércio Exterior (PITCE), um dos marcos do primeiro mandato do presidente Lula. Como lembra Bresser-Pereira, para Castro, a política industrial devia ser taylor made. Devia variar de acordo com o momento, o setor e a empresa.

A intervenção nas políticas públicas tornou-se prática comum na vida de Antonio Barros de Castro, não só por meio de suas ideias e de suas relevantes contribuições ao pensamento econômico, mas também como gestor público. Para o atual presidente do BNDES, Luciano Coutinho, Castro “teve a rara capacidade de conciliar uma brilhante carreira acadêmica com uma destacada atuação como homem público, dando inestimáveis contribuições ao

BNDES e ao Brasil”.

Durante vários momentos ele ocupou cargos no governo. Entre outubro de 1992 e março de 1993, durante o governo de Itamar Franco, foi presidente do BNDES. Voltou ao banco como diretor de Planejamento e assessor da presidência entre 2004 e 2010, nas gestões de Carlos Lessa, Demian Fiocca, Guido Mantega e Luciano Coutinho. A presidência do BNDES foi talvez o período mais difícil. Ficou especialmente magoado ao receber ataques e criticado como “privatista” – algo que nunca foi. (A crítica era decorrente do fato de o banco ser o gestor do Plano Nacional de Desestatização e do Fundo Nacional de Desestatização, além de responsável pelo apoio técnico, administrativo e financeiro ao PND). Castro só permaneceria ali por curtos cinco meses.

Anos antes, havia sido convidado para assessorar Cezar Medeiros, então coordenador do trabalho de elaboração de um novo planejamento estratégico do Banco do Brasil para a década de 1990. “Identificamos que um novo plano estratégico para o banco deveria contemplar mecanismos para sua participação como ativo instrumento no processo de desenvolvimento nacional”, conta Medeiros. “Convidamos Castro para definir as diretrizes do novo modelo de desenvolvimento e para orientar a elaboração do novo Plano Nacional de Desenvolvimento (PND) para o Brasil”. Castro propôs o modelo “Consumo de massas e retomada do crescimento” como fio condutor para orientar o novo PND e as ações estratégicas do BB.

Estava antecipado ali o modelo implantado muitos anos depois, durante o governo Lula, responsável por sustentar a ascensão de milhões de pessoas à classe média e abrir um horizonte novo para o país. Mais um exemplo da visão privilegiada de Castro. Infelizmente o último.

 

Com a colaboração dos jornalistas Olivia Alonso e Vinicius Oliveira.

rod.dealmeida@gmail.com

 

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