Carta aos descrentes

Carta aos descrentes

Maria da Conceição Tavares, Economista

 

Meus caros, dirijo-me a vocês para estimulá-los a não se abater. Sei que há motivos de sobra para o desalento, a frustração e o cansaço. As coisas andam ruins, bem ruins. E os acontecimentos tristes do nosso lado, do lado da nossa gente, não eram previstos e não podiam ter ocorrido. Mas paciência! A aposta tem que ser na esperança. Temos que atuar,  arregimentar, buscar uma nova articulação em condições de enfrentar
as forças do atraso, que buscam eliminar nossas conquistas.

Temos que avançar, mas ampliando o leque de alianças. Não há alternativa. Portanto, está fora de consideração uma frente só de esquerda. Radicalizar só fortaleceria o oponente. Na atual circunstância, só uma frente da sociedade pode se contrapor ao ódio, ao desejo de extermínio, ao descontrole de alguns dos poderes instituídos e à capacidade das oposições de gerar fatos ignominiosos.

Minha bandeira é por uma frente ampla que também contribuísse para purgar nossos erros, os equívocos que foram cometidos do nosso lado. Estou falando de empresários, lideranças sindicais e de entidades do setor social, a universidade, formadores de opinião e alguns poucos parlamentares. Destes últimos, só os raros que têm espírito público. Não é a luta de um grupo ou um partido, mas a manifestação da sociedade através da construção de consensos. É no interior dessa frente que vislumbro condições para a construção de um pacto por fora das instituições convencionais.

Para a partida precisamos de um núcleo. E o governo tem condições de criar esse embrião. Acredito que a retomada em outro molde do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social (CDES) seria esse reinício. Na forma sua forma original, o CDES não funcionou, pois a agenda não era determinada e não se buscava o consenso. A proposta é que esse foro seja o espaço para a construção de acordos em torno de ideias, programas e projetos; que possa nos valer como arma e escudo político.

Hoje, o CDES está totalmente paralisado. Ficaram sem saber o que fazer com ele. Pois, nós precisamos relançá-lo. Ele pode tornar-se uma instância importante da luta política. Se não abrirmos o leque das alianças, a coisa vai ficar ainda mais feia. Ou vamos pela via da sociedade, ou será difícil aguentar o tranco.

Os meninos que ora estão me lendo devem achar que a crise maior é a econômica. Não sabem nada. Temos problemas nessa área, mas nada que se compare com outras crises que atravessamos. Ninguém amassa esse país. É uma nação com graves problemas conjunturais, mas rica sob todos os aspectos, inclusive cambialmente, que era a fragilidade que sempre nos pegava pelo pé. Pois hoje somos credores líquidos em moeda forte e fala-se disso menos do que se devia.

A nossa história tradicionalmente foi a de remar contra a maré. Não custa lembrar que o II Plano Nacional de Desenvolvimento foi feito em meio à crise internacional. À época, a ideia que se espalhava é que estávamos todos de cócoras. Não estávamos coisíssima nenhuma. Agora, repete-se a cantilena.

Parece-me que temos uma saída pela substituição de importações. O câmbio já permite e deverá assegurar condições ainda melhores: o que se precisa é de investimento nas cadeias produtivas. Talvez seja o caso de, além de financiamento público, dar um pequeno estímulo, fazer alguma proteção tarifária disfarçada. É uma política que todos os países adotam, mas que aqui provoca a maior gritaria sem nenhum motivo, a não ser o exagero ideológico. As exportações também podem melhorar um pouquinho, notadamente para o nosso continente, pois o mercado mundial está muito ruim.

Mas, se vocês prestarem atenção, verão que não estamos tão ruins assim. Do lado cambial, conforme eu disse, não devemos perder – e você veja que os investimentos diretos não param de vir, e eles não são burros   do lado do agrobusiness também não, o sistema financeiro é sólido. Pelo lado endógeno, o abastecimento não apresenta riscos, e o mercado interno, como já dizia mestre Furtado, deve ser a principal via de expansão. É claro que preocupam um aumento de desemprego que vem vindo por aí e a tentativa de surrupiarem o salário mínimo. A malta não acredita, mas esse negócio de o Brasil ser a oitava economia do mundo é sério.

O que mais me atemoriza é a questão do Estado, e aí entram do fiscal ao político em sentido amplo. Nesse âmbito a coisa vai muito mal. É preciso reconstruir o Estado, mas isso exige uma pactuação, pois se tentarmos intervir apenas pelas representações clássicas isso não vai dar em nada. O país vive uma situação inusitada, que exige novas formas de representação política para avançar. Ou vamos caminhar através de uma frente da sociedade, ou não vamos a lugar nenhum.

As unidades federativas estão sendo empurradas no precipício. Já dizíamos há décadas que não é com esse tipo de ajuste que está ai que vamos arrumar a parte fiscal. Imagine-se querer arrumar as contas públicas com uma política monetária às avessas. Veja só, dão uma pancada nos juros, colocam a taxa no espaço sideral, em 14,25% e querem reduzir a dívida bruta fazendo cortes de gastos. Vão ter que cortar o Estado inteiro e não chegarão ao superávit permanente que defendem. Com essa receita, o ajuste é inviável.

Os ortodoxos enlouqueceram com os juros, e dispararam as taxas como se a inflação fosse de demanda. Você destrói a economia e piora o fiscal. O suposto remédio é um veneno, da pior espécie. E ainda tem essa fixação de a meta de inflação ser praticamente para o curtíssimo prazo. Ora, é draconiano perseguir uma inflação mais baixa sem tempo para efetuar as políticas alternativas. Como não é possível reduzi-la com tamanha velocidade, tome de recessão.

É preciso mexer profundamente nessas políticas e proteger o Estado desse ataque destrutivo. Para consertar o fiscal sem simplesmente detonar o salário real, produzir as maiores recessões da história e dizimar toda a nossa base de desenvolvimento e seu capital simbólico – Petrobras, BNDES, etc. – precisamos construir os consensos por fora. A pactuação das medidas é que vai empurrá-las para que elas sejam aprovadas pelo Congresso, que não é mais um facilitador fiscal.

Confesso que nunca vi um “antidesenvolvimentismo” tão grande em minha vida, quanto neste nosso tempo. Todos os instrumentos que foram criados no interior do Estado para alavancar o desenvolvimento estão sendo aniquilados. E parece haver um prazer sádico em fazer com que isso aconteça. A verdade é que aqui e no resto do mundo os empresários seguiram a reboque do investimento público, que construiu a pauta, deu as diretrizes e o financiamento dos projetos. Será que pensam que os chineses vão ser a vanguarda do desenvolvimento nacional? Ou os bancos piranhas internacionais?

Um dos problemas mais graves é a Petrobras, que, além da importância econômica, tem uma representação simbólica maior do que o Pré-sal. Ela está sendo dizimada. A Petrobras é um problema do Estado brasileiro, e como tal tem que ser enfrentado. Não é aceitável abandoná-la e dizer que ela é um problema per si ou do acionista minoritário. Até porque uma Petrobras fortalecida faz uma brutal diferença para toda a economia.

Talvez uma aliança pró-Petrobras seja uma forma de galvanizar a juventude, essa mesma que em junho foi para as ruas, mas sem foco, sem organização. Manifestações precisam de slogans simples. Um programa de governo não faz acontecer uma manifestação. A Petrobras talvez possa fazer.

Eu quero acreditar que o CDES, nesse novo modelo, possa contribuir para que a sociedade organizada constitua uma nova liderança sob a forma de pactos. Ele tem tudo, empresário, sindicalista, mulher, intelectual etc. Mas não adianta só escolher pessoas, tem que fazer uma pauta fechada, discutir as prioridades e sair das questões que, mesmo importantes, atendem só a demandas específicas.

Eu nunca vi um tempo ideologicamente tão ruim. O que pode confrontar os grupos de interesse, abrir espaço nessa mídia horrorosa e quebrar a inércia é essa outra via. Os neoliberais e os protofascistas já acharam as deles. Inclusive acamparam dentro do aparelho institucional. A nossa via tem de vir da construção do consenso. Se não buscarmos a saída unidos e cedermos ao pessimismo é melhor colocar uma bala na cabeça.

Eu prossigo na resistência, até onde der.

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