Cadernos para todos os tempos

Cadernos para todos os tempos

Cristina Buarque de Hollanda, Cientista Político

Na literatura sobre os caminhos de institucionalização das Ciências Sociais no Brasil, muito se disse – e disputou – sobre o Instituto Superior de Estudos Brasileiros (ISEB) e suas interpretações e imaginações de realidade nos tempos que antecederam o golpe de 1964. À sombra de sua memória, vultuosa, permaneceu o Instituto Brasileiro de Estudos Sociais e Políticos (IBESP) – ainda aquém da fórmula pública imaginada por Hélio Jaguaribe e realizada pelo ISEB, mas já vivamente orientado pelo idioma político do nacional-desenvolvimentismo.

Neste artigo, dedico-me ao protagonismo de Jaguaribe nessa cena pouco comentada, apoiada no seu voluntarismo político e financeiro e ainda sem esteios no governo. Mais especificamente, observo a experiência editorial do Cadernos do Nosso Tempo,1 principal legado da curta vida do IBESP. Foram cinco números publicados entre os anos de 1953 e 1956 por um corpo enxuto de conselheiros-autores orquestrados por Jaguaribe. Entre eles, Candido Antonio Mendes de Almeida, Guerreiro Ramos, Heitor Lima Rocha, Ignacio Rangel, Nelson Werneck Sodré, Osacar Lourenzo Fernandez e Roland Corbisier. As nuances e até mesmo as diferenças mais significativas de perspectiva entre esses homens não ofuscaram a afinidade nos diagnósticos e prognósticos sobre o “nosso tempo” e o Brasil. Diante de um mundo dividido pela disputa ideológica entre capitalismo e socialismo e de uma sociedade refém de elites que extraíam vantagens do atraso, convergiam em torno dos objetivos de ativação do nacionalismo e do desenvolvimento como meios de transformação social essencial e superação de infortúnios.

Em ambiente amalgamado por um projeto coletivo, não prevaleceu nos Cadernos um princípio forte de autoria: foram muitos os artigos e editoriais sem assinatura. A maior parte deles, contudo, sabe-se e presume-se, eram de Jaguaribe. Se e quando não foram, poderiam ter sido, tal foi a aproximação de estilo e ideias, consagrada por seu crivo editorial.

De todo modo, a leitura dos Cadernos revela autores engajados que atribuíam a si próprios e a extratos progressistas – ou potencialmente progressistas – da sociedade um papel-chave na condução da política nacional por bons rumos. A superação do atraso não viria, afinal, de um movimento espontâneo das populações subjugadas. Se deixada a si própria nas condições que então se verificavam, a sociedade brasileira, cindida em interesses antagônicos, tenderia a reproduzir indefinidamente as condições do seu infortúnio. Era preciso prever operadores da transformação. Schwartzman chega a identificar um sentido “radicalmente novo” nesta responsabilidade autoatribuída pelos intelectuais reunidos no ISEB: “pela primeira vez”, um grupo de intelectuais “se propõe a assumir uma liderança política nacional por seus próprios meios”. Supondo-se habilitados a enxergar o país acima do horizonte de classes, eles reconheceriam em si próprios “um papel muito mais importante” do que aquele que Karl Manheim “havia pretendido para sua intelligentsia”. (Schwartzman, s.d.: 4, 6). Nos Cadernos, a busca de entendimento sobre o estado da arte da sociedade e da política confunde-se com a imaginação de meios e fins da sua transformação. A via nacionalista afirma-se como boa ideologia, alternativa autêntica à querela entre comunismo e capitalismo.

Para tratar do percurso intelectual de Jaguaribe nesse contexto editorial, organizo este artigo em três partes. A primeira delas é dedicada a sua compreensão sobre a situação política do Brasil, amalgamada a narrativas sobre o passado e receitas de futuro. Jaguaribe apresenta a seus leitores uma espécie de tempo encruzilhada, que reúne as possibilidades de progresso e também de seu perfeito avesso, o aprofundamento do atraso. A experiência de um ou outro caminho dependeria de uma economia delicada entre as circunstâncias que escapam ao domínio da vontade e a ação oportuna dos operadores da política. A segunda parte é dedicada ao diagnóstico sobre o que seriam três obstáculos ao interesse nacional: o vício internacionalista (de comunistas e udenistas), o conservadorismo da classe média conservadora e o populismo ademarista. Por fim, a terceira e última parte tem por objeto a reflexão de Jaguaribe sobre os ecos políticos do suicídio de Getúlio Vargas, tomado como uma espécie de evento potencialmente acelerador de consciências sobre a condição nacional. Sem considerar méritos ou deméritos de seu governo, Jaguaribe interpreta a reação ao reacionarismo dos opositores de Vargas como sinal de vitalidade de segmentos da sociedade que, até então, desconheciam o interesse nacional. Cogita e almeja uma metamorfose política do getulismo: do personalismo a ideologia e nacionalismo. Um passo na direção do progresso.

Diagnóstico da crise nacional: paradigmas histórico e sociológico

Parte significativa do esforço de Jaguaribe nos Cadernos está voltada para os contornos históricos e sociológicos da crise política nacional. Já na primeira edição do periódico, em A Crise Brasileira, Jaguaribe narra a permanência do vício espoliador da Colônia na experiência política em curso. Ele teria sobrevivido à “expansão da economia urbana, ao crecimento demográfico e à industrialização”. O povo não teria alcançado, segundo ele, “espírito de iniciativa” e a circulação de elites seguia a ritmo lento, apesar do golpe ao clientelismo representado pelo ingresso das massas na política, com o Estado Novo de Getúlio Vargas. Refém de “crenças arcaicas” e esvaziado de “autênticos estímulos para uma reação original”, o pensamento brasileiro seguiria “desabituado de reflexão própria” (Jaguaribe, Cadernos 1: 128-129). Não era possível esperar autonomia de um povo inerte, refém da circunstância política.

Em linha com esta perspectiva, em Para Uma Política Nacional de Desenvolvimento, publicado na quinta e última edição da revista, Jaguaribe narra a história do Brasil em três etapas. A primeira delas, do colonialismo, pautou-se em economia de produção escravocrata e sobreviveu até meados do século XIX. Nele, a comunidade nacional se organizou a serviço da metrópole e teve seu desenvolvimento animado por impulsos externos. Como uma “peça da economia europeia”, o país então experimentou a forma limite da dependência (Jaguaribe, Cadernos 5:70). Destituída de movimento e impregnada de um sentido estático, a vida nacional fora esvaziada de política.

Abolido o tráfico de escravos, o Brasil teria ingressado em fase semicolonialista, intermediária entre o colonialismo original e a autonomia econômica-social. Nela, o país combinava legados da situação anterior, como a forte vinculação da produção a demandas externas de consumo, e novidades que apontavam em direção à superação da condição de dependência. Entre elas, a formação de uma reserva nacional de mão de obra. O período em questão estende-se até a crise do café em 1930, que combinou o auge da política de acumulação dos excedentes não exportados de café ao colapso da economia mundial em 1929.

Os anos 30 teriam inaugurado, por fim, a passagem para um momento mais avançado da transição em direção à autonomia nacional. Eles representam a terceira fase da cronologia proposta por Jaguaribe, que constitui o cenário de observação dos Cadernos de um modo geral. No novo tempo, cidades e indústrias retroalimentam-se. A expansão do mercado interno associada ao fenômeno da urbanização seria, ao mesmo tempo, origem e efeito da nova realidade industrial no país, impulsionada pela longa permanência de Vargas na presidência da República e pelos desdobramentos da Segunda Guerra Mundial na economia nacional: a necessidade de substituição das importações. O contraste com a situação anterior de dependência era notável.

A despeito disso, persistiam entraves ao pleno desenvolvimento, vinculados ao regime semicolonialista. O progresso observado era tímido, se comparado a suas potencialidades. A indústria nacional ainda dependia da importação de bens de produção e matérias-primas. Além disso, o país encontrava-se em “estágio rudimentar” na produção de energia, apresentava “tendência regressiva dos transportes ferroviário e marítimo” (Autor não identificado, Cadernos 5:85) e, por fim, estava abatido por um processo inflacionário alarmante, resultado da insuficiência da oferta de gêneros em relação à procura – isto é, da impossibilidade da produção nacional atender à demanda do mercado nacional em franca expansão. O progresso inaugurado em 30 poderia estancar ou mesmo retroagir. No panorama sociológico em evidência, a possibilidade do retrocesso era representada pelos segmentos da sociedade que extraíam benefícios do atraso, isto é, pelos latifundiários, pela burguesia comercial e pela classe média parasitária, alocada em postos públicos e desinteressada na eficiência do Estado. Associados a um modelo anacrônico, baseado na exportação de matéria-prima e na importação de bens manufaturados, eram um legado vicioso em sociedade que transitava para condição industrial. Estes setores fixaram vínculos com o modelo da dependência e projetavam o passado no futuro. A condição de sintonia com a vida moderna era, portanto, a transformação do horizonte econômico.

No novo paradigma, as “velhas oligarquias latifúndio-mercantis” deviam converter-se em “classe de modernos agricultores e de eficientes homens de negócio”. Para tanto, no lugar de explorarem a escassez e beneficiarem-se da “sub-remuneração do trabalho”, deveriam ser capazes de produzir “lucro técnico, auferido mediante a crescente redução dos custos, através da adoção de processos tecnológicos mais avançados e de formas mais eficientes de organização do trabalho” (Jaguaribe, Cadernos 5:126).

Na prática, para Jaguaribe e os ibespianos, a experiência estática desses grupos, imunes à modernização, contrastou com a vitalidade potencial – e escassamente manifesta – da burguesia industrial, do operariado urbano e dos setores progressistas da classe média. Embora associados à virada recente em direção a um modelo econômico autônomo, esses segmentos progressistas não teriam alcançado consciência de sua posição estratégica no processo social em curso. Junto aos trabalhadores e aos técnicos e administradores de classe média, a fração moderna da burguesia faria jus ao protagonismo da cena política, mas ocupava de fato um lugar coadjuvante, ofuscada pelo espectro anacrônico do agrarismo irrefletido. Apenas a inflexão nacionalista poderia corrigir esse equívoco e ajustar o desempenho real desses setores a suas potencialidades. Tendo em vista um forte sentido de convergência e coesão na política, esta metamorfose não se faria em detrimento das classes com aspecto e atuação passadistas. Diferentemente do paradigma colonial e seus princípios de espoliação e dependência, a virada em direção ao progresso, harmonizada pelo interesse nacional, teria fundamento integrador. Todos os segmentos da sociedade teriam lugar nela.

Nas intervenções de Jaguaribe, o contraste entre as leituras sobre passado e presente, de um lado, e a projeção de futuro, de outro, é bem ilustrado pelas imagens de divisão e unidade. Na sua perspectiva, a consolidação do moderno não está contida na simples inversão de protagonismos. Era preciso transitar de um regime de oposição das diferenças para outro de complementaridade entre elas. O sentido de conflito figura apenas no curto prazo, como motor de superação do equívoco divisionista. A imaginação de futuro não acolhe interesses contrapostos. Integração e unidade compõem a imaginação sociológica e política de Jaguaribe.

Os lastros do atraso: moralismo, internacionalismo e populismo

Estancada entre o atraso e o progresso, a nação poderia rumar em direção a um ou outro destino. Nos Cadernos, o otimismo de futuro é alternado com a investigação sobre os obstáculos ao progresso. Nesta seção, dedico-me ao diagnóstico de Jaguaribe sobre três lastros (ou ismos) do atraso que perturbam o bom curso do interesse nacional: o moralismo, o internacionalismo e o populismo.

O primeiro deles – o moralismo – tem uma origem social bem delimitada: as classes médias. Nascidas da urbanização, ainda em tempos do Império, elas se acomodaram em profissões liberais e também em quadros militares e burocráticos do Estado. Ali teriam firmado o “clientelismo eleitoral” como solução de compromisso com os latifundiários (Jaguaribe, Cadernos 1:124). No editorial O Golpe de Agosto, da terceira edição dos Cadernos, Jaguaribe acusa o “parasitismo burocrático” da classe média e também sua incompreensão sobre o benefício particular e geral de alteração da estrutura econômico-social do país. A inconsciência sobre seu lugar potencial a teria tornado “caudatária da burguesia mercantil”, aliada aos interesses retrógrados da classe agrária (Jaguaribe, Cadernos 3:6).

Em artigo da segunda edição, O moralismo e a alienação das classes médias, Jaguaribe antecipa esta perspectiva e identifica o moralismo como principal instrumento de ação política da UDN, criada contra o legado de Vargas à época da reabertura democrática. Segundo ele, a partir da lente moral, “tudo depende de os homens que dirigem os acontecimentos serem considerados bons ou maus”. Nesta perspectiva, a vontade individual é tida como “fundamento único do ser”, soberana, indiferente e imune a todo condicionamento exterior (Jaguaribe, Cadernos 2:152).

A “campanha moralista” teria como estrutura motivacional de fato o interesse mal compreendido da burguesia mercantil sobre sua classe. O setor da burguesia vinculado às trocas comerciais, inebriado por avaliações imediatistas, de curto alcance, teria envolvido também a pequena burguesia num movimento oposicionista superficial, descolado da compreensão abrangente do seu verdadeiro interesse. Ainda segundo o autor, “o moralismo reveste os sintomas da aparência de causa” e não contribui para uma reflexão consistente sobre as origens dos problemas nacionais. O moralismo teria a alienação como contraface necessária. E, como consequência, a reiteração de uma consciência equívoca sobre o interesse nacional.

Para o autor, a burguesia mercantil teria se colocado, como classe, contra o governo e teria levado adiante uma “estratégia de neutralização e desmoralização” que culminou no golpe branco dos coronéis e estaria caminhando para a deposição de Vargas (Jaguaribe, Cadernos 2:154). Objetivos de classe, realistas e imediatos, eram investidos de feição universalista.

Ao generalizar a “teoria da corrupção do Estado”, o segmento mercantil liderava a demanda pela suspensão dos controles estatais sob a aparência de oportuna reivindicação moralista. Os operadores do moralismo, segundo Jaguaribe, desconheciam ou negligenciavam as raízes da corrupção no país, associadas ao subdesenvolvimento, às práticas de clientelismo e à espoliação econômica. De modo conveniente a seus propósitos de curto termo, produziam crítica superficial à política e passavam ao largo das “causas e condições da inautenticidade do governo” (Jaguaribe, Cadernos 2:159). Atingiam o objeto da sua crítica – o governo – por um ângulo inoportuno e desviavam a compreensão da política do seu bom curso.

Além dos setores médios udenistas, o “frisson moralista” também teria movido comunistas empenhados na crítica a Vargas. Fora dos quadros formais dos partidos, o PCB teria pretendido “capitalizar em seu favor a agitação levada a efeito pela oposição moralista ao governo”. Interessado em fragilizar o governo, o partido teria instruído seus comandados a “denunciarem os escândalos e a corrupção administrativos”. Em seguida, teria se lançado em “aliança tácita” com a “imprensa popular e os órgãos da oposição moralista”, apesar da “mútua hostilidade em matéria de política internacional” (Jaguaribe, Cadernos 2:132).

Alheia às bases de reprodução do atraso, a retórica moralista despolitizava e simplificava a insatisfação: o protagonismo da cena pública deslocava-se para a vontade e a ação individuais e, com tal, corroborava a insensibilidade para a observação das condições mais amplas de reprodução do infortúnio social. Jaguaribe produziu valiosa – e quiçá pioneira – reação ao moralismo como teoria da política.

Mas o surto moralista não esgotava o equívoco político capitaneado pela classe média. Entre os partidários da UDN, o entusiasmo desmedido pelos Estados Unidos e por seus universos político e cultural também colidia com o interesse nacional. E no vício internacionalista – que constitui o segundo lastro do atraso na narrativa de Jaguaribe – os udenistas vinham acompanhados dos comunistas. No artigo Três Etapas do Comunismo Brasileiro, de autoria presumida de Jaguaribe, acusa-se, entre os líderes do PC brasileiro, a aversão por “qualquer teoria autêntica ou qualquer atividade autêntica do pensamento”. Marcado pelo “estreito empirismo”, combinação de “praticismo e ignorância teórica”, o partido teria cerceado até mesmo a extraordinária capacidade política de Carlos Prestes, capturado pelas mediações da Comissão Executiva do Comitê Nacional. O líder político teria saído da prisão física para a “clausura intelectual” (Jaguaribe, Cadernos 2:133). Haveria entre os comunistas brasileiros baixa “vitalidade intelectual” e “consciência dos seus próprios problemas”. A subserviência do partido às “conveniências estratégicas e táticas da URSS” significaria perigosa oscilação entre linhas políticas tão diversas quanto o “terrorismo anarquista” e o “franco oportunismo de direita”. A menos que suas “deficiências” fossem “sanadas”, o partido seguiria produzindo “pesado ônus para as forças que lutam de maneira autônoma pelo desenvolvimento nacional” (Jaguaribe, Cadernos 2:135).

Por fim, além do moralismo e das manifestações várias do internacionalismo, Jaguaribe se dedica ao terceiro lastro de e inconsciência nacional: o populismo. No artigo Que é o ademarismo?, o tema foi abordado a partir da crítica a Ademar de Barros, ainda sob impacto da notável expressão que o político havia alcançado no contexto paulista, associando votos urbano e rural. Segundo o intelectual carioca, o sucesso eleitoral de Ademar de Barros não dependia da mediação de chefes locais, tal como o esquema clássico que atendia aos interesses dos chefes estaduais do PSD. Embora o político também se beneficiasse dos recursos típicos da política de clientela, sua influência sobre o eleitorado rural de base era direta. Por meio de “ideologia primária e infusa” e “verborragia pseudossocial” (Jaguaribe, Cadernos 2:141), seduzia o eleitor do campo e também da cidade, o que incluía proletariado e setores da pequena burguesia.

Em sintonia com o propósito de consolidar o capitalismo mercantil, o ademarismo seria retrógrado, lesivo ao interesse nacional. Por sua face popular, era confundido com fenômenos políticos de esquerda, leitura apressada que chegou a inspirar apoio dos comunistas. Na contramão deste equívoco, Jaguaribe afirma não existirem laços necessários entre a composição social de um grupo político e sua filiação ideológica. A influência marxista no imaginário político seria responsável pela associação indevida entre progressismo e povo, reacionarismo e elites.

Essa leitura rudimentar apagaria as distinções essenciais entre grupos de esquerda, vinculados à consciência e vontade de superação das estruturas de dominação, e movimentos de massa, “expressão confusa e primária de aspirações instintivas” perfeitamente integrada às relações de exploração em curso. De acordo com o autor, “a massa é conglomerado multitudinário de indivíduos, é o produto final da espoliação de classe” (Jaguaribe, Cadernos 2:142). Como tal, é facilmente instrumentalizada: não pode ser sujeito da política, mas apenas objeto a serviço de interesses de poder. Distingue-se essencialmente do proletariado por faltar-lhe consciência de classe. Nesta perspectiva, as pessoas que sofreram o fenômeno de massificação da política representariam um tipo psicossocial, o homem-massa. Esse fenômeno seria resultado da combinação de três condições: a inconsciência de segmentos expressivos da sociedade a respeito do lugar inferior que ocupam na estrutura de dominação social, a ineficiência da classe dirigente e, por fim, a existência de um líder carismático.

Na genealogia nacional do populismo, o autor chama atenção para a correlação significativa entre a formações urbanas e a massificação. A partir dos anos 30, mas sobretudo depois de 1939, o recrutamento de camponeses para compor os quadros da indústria em formação lançou nas cidades um exército de trabalhadores com baixas possibilidades de alcançar consciência de sua condição de classe. Este desenho original da cena industrial urbana acomodou-se sem grande tensão a um processo de sindicalização iniciado pelo Estado, esvaziado de iniciativa popular. Quinze anos depois, em meio a sinais esparsos de amadurecimento cívico, os homens da cidade seguiam vulneráveis a movimentos como o ademarismo.

Ao imaginar o futuro da nação, o autor concebe dois cenários possíveis. O primeiro deles, positivo, é o de formação de uma “ampla frente nacional democrática de esquerda”, constituída pela burguesia industrial, pelos “setores esclarecidos da classe média e pela parcela politizada do proletariado”, capaz de contornar os desvios do interesse primordial, o interesse nacional. O outro cenário, prejudicial ao desenvolvimento econômico e social do país, é o de intervenção do Exército com apoio do segmento superior da classe média, dos latifundiários remanescentes e do extrato da “burguesia mercantil contrário ao ademarismo” em razão da suposição equívoca de seu alinhamento “de esquerda” (Jaguaribe, Cadernos 2:145). Mais uma vez, observa-se, na taxonomia de Jaguaribe, a polarização entre forças progressistas e retrógradas, respectivamente alinhadas e desalinhadas com o interesse nacional.

Sem desvios demofóbicos, Jaguaribe atenta para uma condição frágil do povo, incapaz de autonomia política. A crítica, contudo, não é dirigida apenas aos baixos extratos sociais urbano e rural, presas fáceis das estratégias retóricas e de ação do populismo. Ela se dirige de forma mais contundente aos setores em condições de maior esclarecimento político que chegam a aderir a ele com entusiasmo, inebriados, genuinamente ou não, por uma suposta essência popular.

Vargas e o varguismo: a pedagogia do suicídio

A época das edições dos Cadernos viveu convulsionada pelas ameaças do golpe. A relativa normalidade da cena institucional conviveu com a incerteza sobre o futuro político próximo. Os intelectuais do IBESP dedicaram-se, entre outros temas, à ideia de uma política vivida em suspenso, com baixa institucionalidade e alta imprevisibilidade. Nesta cena, a expectativa do golpe figurava tragicamente no horizonte da política, mas não esgotava suas possibilidades. O tom mais geral dos Cadernos aponta para a existência de sinais ainda tímidos – embora potentes – de renovação nacional pela estabilização da democracia.

Curiosamente, o artigo sobre ademarismo não menciona Getúlio Vargas, protagonista da política nacional marcado pelo estigma do populismo. Em mais um artigo de autoria presumida de Jaguaribe, a fala sobre Vargas é ambígua, como seria ambígua sua política, oscilante entre “tendências de autodeterminação do país” e articulação com “grupos internacionais” que se beneficiam da “exportação de gêneros alimentícios e matérias-primas em troca de produtos acabados e semiacabados” (Jaguaribe, Cadernos 3:49). Embora tenda a um tom crítico contra Vargas, notando, por exemplo, o que seriam práticas de “maquiavelismo psicológico” e “indigência ideológica” com os trabalhadores, Jaguaribe pondera os prós e contras de sua ação política e, ainda, em alguns momentos, chega a identificar na sua direção da política um importante impulso para a condição moderna.

A inflexão na interpretação do intelectual carioca sobre o getulismo aconteceu na altura do suicídio do líder político, evento que teria repercutido “profunda e subitamente nas massas operárias”. Para Jaguaribe em O Golpe de Agosto, a carta-testamento teria operado uma “iluminação emocional na consciência do proletariado, fazendo-o compreender que o móvel real da luta contra Vargas e do golpe que o havia deposto era o interesse de classe das forças reacionárias e antinacionais” (Jaguaribe, Cadernos 3:19). A brusca e inesperada saída de cena do personagem que estava no centro do debate público, teria tido o efeito de um amadurecimento por choque. Na nova condição, o getulismo converte-se numa “pré-ideologia” potencial. Entenda-se por isso sua capacidade de atender, “nas condições concretas do Brasil, aos interesses dialeticamente solidários do proletariado, da intelligentsia técnica e da burguesia industrial”, ajustando-se ao interesse nacional, embora sem “fundamentação teórica” (Autor não identificado, Cadernos 3:20).

A hipótese ensaiada era que o conteúdo da política varguista se separava do seu suporte físico, humano, e passava a constituir um modo de fazer política, despersonalizado. O “getulismo ideológico” nasce do “getulismo histórico” e carrega a possibilidade de transmutar-se em ideologia do desenvolvimentismo nacionalista (Jaguaribe, Cadernos 5:5). O suicídio libertou o getulismo de Getúlio e instituiu sua conversão potencial em ideologia do desenvolvimento nacional. A perspectiva de Jaguaribe faz transparecer certa pedagogia pública do suicídio, isto é, a suposição de que a tragédia pessoal de Vargas amadureceu e fez precipitar, entre as classes dominadas, uma consciência mais fiel à configuração de fato das forças sociais.

A experiência do varguismo extrapolava, portanto, a consideração do personagem e constituía-se como força da política que dava sinais de autonomização em relação à sua origem. Em março de 1956, os colaboradores dos Cadernos tinham a expectativa de uma inflexão próxima na cena pública. Embora cogitassem um desdobramento político positivo do legado de Vargas, grave incerteza pairava sobre seu destino.

Dois percursos possíveis, de ruptura ou permanência, anunciavam-se como possibilidade para o getulismo: seguir em trajetória virtuosa como alternativa à “atual alienação” da burguesia industrial e da intelligentsia técnica, ainda sob a esfera de influência dos interesses latifúndio-mercantis, ou “confundir-se com uma das muitas versões do populismo demagógico, de tipo ademaresco, conduzindo o país para uma solução primária e brutal” (Autor não identificado, Cadernos 3:22). Mais uma vez, as forças do atraso constituem ameaça ao progresso, forma por excelência do verdadeiro interesse nacional.

Notas finais

Ao longo das intervenções de Jaguaribe nos Cadernos, prevalece o sentido de um tempo encruzilhada, vivido em suspenso, sem sinais evidentes de desfecho. Embora as forças do atraso em curso tivessem perdido a vitalidade de outros tempos, ainda configuravam o ambiente político a seu modo. Não havia clareza sobre o futuro.

Além do entrave econômico, o progresso também esbarrava na democracia incipiente. A sensação de iminência do golpe seria, por si só, uma forma de golpe, um ruído no andamento regular da política. Os sentidos de cooperação e equilíbrio, imprescindíveis para o desenvolvimento nacional, só poderiam se instalar num ambiente de permanência. A indefinição e a ameaça tendiam a estancar o processo político num compasso de espera agônico.

Para Hélio Jaguaribe, seria tempo de superar o Estado Cartorial, impregnado de “funcionalidade aparente” e de fato destinado à “política de clientela”, e alcançar a forma moderna do Estado Serviço, comprometido com a “prestação de serviço público”. Embora a “maquinaria cartorial” já tivesse se confrontado com “novas forças e novas relações sociais”, que “escaparam às possibilidades de manipulação por via meramente clientelística”, não chegou a ser desmontada e ainda experimentava perigosa sobrevida política (Cadernos 5:136).

Na sua perspectiva, a iniciativa do progresso não se esgota, contudo, nos quadros do Estado: o princípio móvel do progresso distribui-se, entre política e sociologia, entre vontade e contingência. Em A crise do nosso tempo e do Brasil, Jaguaribe afirma a pertinência da “autoconsciência histórica” do século XIX, pautado na suposição de que “é preciso compreender o mundo para nele operar eficazmente”. (Jaguaribe, Cadernos 2:2). A teoria da ideologia presente nos Cadernos supõe atos de inteligência e vontade como móveis da ação, mas também atenta às “condições objetivas de possibilidade”. Trata-se de um idealismo que se quer afinado com as “reais possibilidades” de desenvolvimento social. Os operadores da ideologia – bem como as pessoas em geral – não dispõem de “liberdade incondicionada” mas tampouco são objeto de um “processo natural”, definido a priori (Jaguaribe, Cadernos 2:2).

Consideradas as condições específicas do desenvolvimento no país, a maior presença do Estado na política e na economia não constituía ameaça socialista, mas medida oportuna. Afinal, deixadas a si próprias, em estado ainda imaturo de desenvolvimento das consciências, as forças progressistas poderiam sucumbir ao legado cartorialista e deixar imprimir no futuro as marcas do passado. O triunfo do interesse nacional resultaria, portanto, da delicada simbiose entre consciência social e direção política.

 

A autora é professora adjunta do Instituto de Estudos Sociais e Políticos (IESP)-UERJ cristinabuarque@iesp.uerj.br

 

BIBLIOGRAFIA

 

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. (1954), “Situação Política brasileira”. Cadernos do Nosso Tempo, nº 2, janeiro-junho, pp. 101-122.

. (1954), “Três etapas do comunismo brasileiro”. Cadernos do Nosso Tempo, nº 2, janeiro-junho, pp. 123-128.

. (1953), “A Crise brasileira”. Cadernos do Nosso Tempo,

nº 1, outubro-dezembro, pp. 120-160.

SCHWARTZMAN, Simon. (s/d), “Introdução”, in .  O pensamento nacionalista e os “Cadernos de Nosso Tempo”. Brasília, UnB, Câmara dos Deputados, pp. 3-6.

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