Cada pescoço, uma sentença

Cada pescoço, uma sentença

Gustavo Maia Gomes

 

Na República Velha, diziam-se “degolados” os políticos de oposição a quem o Congresso Nacional, invariavelmente, de maioria governista, impedia de tomar posse, mesmo quando eles tinham vencido as eleições. Mas, esse é o sentido figurativo da palavra. No literal, o único de que cuidarei, no prosseguimento, “degolar” (ou “decapitar”) é uma ação física violenta, que só se aplica a seres dotados de cabeça e, mais do que isso, de cabeça nitidamente distinta das outras partes do corpo. Seria impossível, por exemplo, decapitar um caranguejo. Ou um marisco. Inicio minhas considerações, portanto, com um pensamento básico: onde houver degolas, haverá cabeças. Se bem que, na República Velha, uma coisa não necessariamente tinha a ver com outra.

Há quem as tenha em excesso (uma cobra com duas cabeças foi fotografada no Kansas, Estados Unidos), e quem, por pouco, não teve a sua extirpada, como Nick-Quase-Sem-Cabeça, personagem de Harry Potter. Vítima de golpe desferido por machado cego, a cabeça de Nick ficou presa ao restante do corpo por apenas um nervo. E, assim, ele vai levando. Mas, o seu caso não é o pior. Na fazenda de Clara Olsen, no Colorado, o frango Mike viveu 18 meses sem a cabeça, decepada pelo dono, com vistas à preparação de uma sopa. Essa história é real. Já nos domínios da ficção, em alguns locais do Brasil, ainda se pode ver a mula sem cabeça, que nasceu quando linda moça namorou um padre, recebendo o castigo de se transformar naquele ser monstruoso às noites de quinta-feira e lua cheia. O Cavaleiro sem cabeça, título brasileiro de filme americano (Heads will roll, de Tim Burton, com Johnny Depp), também poderia ser lembrado.

Existem ainda os que, se a perdem hoje – a cabeça, digo –, a recuperam amanhã. Por exemplo: “Fez-se esta experiência: cortou-se a cabeça e o rabo de uma tubulária. Nasceram nova cabeça no lugar da cabeça e novo rabo no lugar do rabo. Aí, repetiu-se a experiência com outra tubulária, mas, antes, mediu-se o campo elétrico do tubo. Na zona da cabeça, o campo era positivo; na zona do rabo, negativo. Com um mecanismo magnético, inverteu-se o campo elétrico do tubo e o resultado foi que cresceu a cabeça no lugar do rabo e o rabo no lugar da cabeça” (Realidade, 1973). O que é uma tubulária? O dicionário a define como “gênero de cnidários hidrozoários, hidroides, que reúne pólipos antozoários”. Fiquei na mesma, mas sei que, de gente com o rabo na cabeça, o mundo anda cheio.

Também houve quem teve a cabeça dividida em duas e soube tirar vantagem disso. O Barão de Münchhausen conta a história do homem bem entrado nos anos que se sentava à mesa de um bar e bebia por horas sem fim. Enquanto seus companheiros sucumbiam um a um, ele continuava firme. Então, alguém resolveu decifrar o segredo do bebedor imbatível. Observou que, a intervalos, ele saía da mesa para ir ao banheiro. Voltava revitalizado. O observador deduziu que alguma coisa importante acontecia durante aquelas breves paradas. Passou a espreitar o velho. Percebeu que ele tinha o crânio cortado em dois, no sentido horizontal, possivelmente, por um golpe de sabre. O pedaço móvel ainda estava com ele, que o portava como se fosse um chapéu. Quando ia ao banheiro, levantava a metade superior da cabeça por uns minutos, deixando evaporar o álcool ali acumulado. Depois disso, estava pronto para recomeçar a bebedeira. O barão não é muito confiável, admito, porém, o neurocientista Phil Kennedy se dispôs a pagar até 25 mil dólares a fim de que outro médico lhe serrasse a parte superior do crânio e implantasse eletrodos no seu cérebro. Se essa experiência foi inspirada em Münchhausen, não fiquei sabendo. Nem de seus resultados.

Ah, ia esquecendo os que ficam “por uma cabeça”, ou a perdem só por momentos. Como o brasileiro Ramires, que “perdeu a cabeça na derrota do seu clube no campeonato chinês de futebol. O jogador foi expulso e partiu para cima da arbitragem”. Ou Zezé de Camargo, que também “perdeu a cabeça e xingou mulher pelas redes sociais: lixo, feia, burra”. O cantor britânico James Arthur foi “agredido por ter dormido com a namorada de outro: Agressor perdeu a cabeça quando encontrou o rival em uma boate”. Aliás, Rita Lee já dizia: “Desculpe o auê / Eu não queria magoar você / Foi ciúme, sim / Fiz greve de fome, guerrilhas, motim / Perdi a cabeça / Esqueça”. E, antes dela, acima de todos, Carlos Gardel:

 

Por una cabeza,

todas las locuras

Su boca que besa

Borra la tristeza

Calma la amargura

Por una cabeza

Si ella me olvida

Qué importa perderme

Mil veces la vida

Para qué vivir

 

Resta considerar a portabilidade cefálica, pois já se fala em transplante de cérebros humanos. (O médico italiano Sergio Canavero garante que fará o primeiro em breve.) Quando isso se tornar corriqueiro, a degola terá ganho status medicinal e cabeças intercambiáveis serão tão comuns quanto cílios postiços. As implicações poderão ser vastas e complexas, dado o perigo de que o dinheiro venha a comprar a inteligência. Alguém imagina Wesley Safadão explicando a Relatividade Geral? Chitãozinho e Chororó escrevendo a edição de bolso da Suma teológica? Dilma Rousseff falando bobagens novas, depois de equipada com o cérebro de um economista francês defensor da sustentabilidade ambiental antiglobalizante com distribuição de renda? Sérgio Cabral saindo da cadeia por se ter tornado pessoa honesta, após receber o cérebro de Frei Betto que, na ocasião, estaria portando a cabeça de São João Batista, disponível há séculos?

Infelizmente, a cobra do Kansas, o Nick de Harry Potter, o frango do Colorado, as mulas sem cabeça do folclore brasileiro e as tubulárias do experimento científico são eventos raros. Münchhausen, um mentiroso. O transplante de cérebros, uma quimera. Carlos Gardel, apesar de continuar vivo, deixou de ir às corridas. No geral, só se tem uma cabeça e ninguém dela abre mão por vontade própria. A despeito disso, muitos a perdem em tragédias que se repetem infinitas vezes, sem despertar atenção. Dou um exemplo: dois bilhões, cento e noventa e sete milhões, oitocentos e vinte e seis mil, oitocentos e vinte e oito camarões tiveram a cabeça decepada, no Brasil, em 2016.

Incluí no cálculo todos os tamanhos, dos extrapequenos, pequenos, médios, grandes, extrajumbos, colossais, supercolossais, aos extracolossais. Essa é a classificação oficial. Tive de conhecê-la, para calcular o número de descabeçados. Também aprendi que a produção anual de camarões tem sido próxima de 70 mil toneladas. Excluo os pescados no mar; falo, apenas, dos criados em viveiros. As toneladas produzidas, porém, não revelam, diretamente, o número de indivíduos degolados. Para chegar a esse número, precisei fazer hipóteses, como a de que a população de camarões tem uma distribuição normal, segundo as classes de tamanho. Dessa forma, separei as 70 mil toneladas pelas oito classes. É claro que a média e o desvio-padrão da distribuição não me são conhecidos. Dei-lhes valores que parecem razoáveis. Com um pouquinho mais de hipóteses e operações aritméticas, cheguei ao número anunciado.

Diante daquele número de camarões anualmente decapitados (por sinal, com ou sem cabeça, camarões são uma delícia), os fatos a seguir descritos se veem desprovidos de qualquer importância quantitativa. Na guerra civil do Rio Grande do Sul, conhecida como Revolução Federalista e exaltada na História como a mais sanguinária que já houve no Brasil, os dois lados, juntos, cortaram a cabeça de apenas mil prisioneiros. O Exército republicano brasileiro decapitou (quantos? 500? 600?) combatentes inimigos presos na guerra de Canudos, incluindo Antonio Conselheiro, degolado depois de morto. Um grupo chefiado pelo ex-deputado Hildebrando Pascoal motosserrou a cabeça de 30 a 40 pessoas no seu estado, o Acre. Decapitaram Lampião e Maria Bonita. Não só eles, também os demais cangaceiros emboscados na fazenda Angicos, Sergipe. Eram dez. A guilhotina, na França revolucionária, foi equitativa: num dia, cortou a cabeça de 45 adversários de Robespierre; no outro, degolou o próprio todo-poderoso de ontem e mais uma centena de seus partidários.

Na lista dos peixes mais procurados está a cavala sem cabeça. Com toda a razão. No Rio de Janeiro, mas poderia ser em qualquer lugar. Com quantas cavalas sem cabeça se sacia a fome anual de uma grande cidade? Com milhões, certamente. Mal pensamos nisso. Sabemos bem, contudo, que David cortou a cabeça de Golias; Ana Bolena e Jane Grey foram decapitadas; Luiz XVI e Maria Antonieta tiveram as cabeças decepadas; Santa Bárbara, idem; Maria Stuart da Escócia, igualmente. Que Perseu entrou na gruta em que Medusa estava dormindo, cortou sua cabeça e a entregou a Minerva. Que Salomé, neta de Herodes, foi responsável pela execução de João Batista, de quem cortaram a cabeça (a ser, proximamente, usada por Frei Betto). Que São Tiago, o mutilado, também perdeu a cabeça; Santo Hermenegildo foi degolado; Santa Saturnina queria casar com Jesus – e cortaram-lhe a cabeça porque ela não aceitou outro noivo. Que Santa Solange, Santo Eulogio, Santo Emiliano… todos eles tiveram a cabeça decepada. Que São Dionísio de Paris, depois de ter sua cabeça extirpada do pescoço, caminhou ainda seis quilômetros com ela nas mãos, pregando o Evangelho. (Foi o que me disseram, não garanto.) Todos esses eventos, entretanto, envolveram pouca gente. Em conjunto, não dão cinco minutos de camarões decapitados.

Os números do alho são ainda mais impressionantes. No Brasil, em 2016, aproximadamente, 10 bilhões de cabeças de alho foram extirpadas com violência do restante da planta. O cálculo é simples: produzimos 120 milhões de quilos. Se cada cabeça de alho tem, em média, 12 gramas, haverá 83 delas em cada quilograma. Multiplicando esse número por 120 milhões, cheguei aos 10 bilhões anunciados. O detalhe é que a produção – que já foi atividade de fundo de quintal, mas hoje concorre com a soja e o milho em algumas regiões – corresponde a apenas um terço do consumo, de onde se conclui que os brasileiros são responsáveis pela decapitação anual de 30 bilhões de cabeças de alho. Um horror. Com quatro dentes desse inocente vegetal (meia cabeça, mais ou menos), uma cebola, duas colheres de sopa de azeite, 500 ml de água, duas lagostas grandes (de, aproximadamente, 1 kg), 260 ml de molho de tomate, salsinha e cebolinha a gosto, sal e pimenta a gosto, um limão e duas xícaras de arroz, se faz um delicioso risoto. O modo de preparo consiste em cozinhar as lagostas sem cabeça na pressão com um fio de azeite, esperar esfriar para descascar e picar. (Picar alho, não aconselho.) Lagostas sem cabeça…

Dez bilhões de cabeças cortadas e ninguém chora pelo alho, exceto quando o espreme muito perto dos olhos. Mas, o povo se empolga com eventos estatisticamente insignificantes. Cícero, um advogado, político, escritor, orador e filósofo na Roma Antiga, foi decapitado por ordem de Marco Antonio. Cosme e Damião também foram degolados. André Furtado de Mendonça cortou o pescoço de Zumbi dos Palmares. Judite fez o mesmo com Holofernes. Antoine Lavoisier perdeu a cabeça na guilhotina. Um homem sem cabeça foi visto no metrô de Londres. Homem foi degolado e a cabeça achada em calçada de padaria de São Carlos, diz a notícia no jornal. De um porteiro de prédio, lhe cortaram a cabeça por mudar horário de trabalho: “funcionário de restaurante teria sido morto por cozinheiro inconformado com a perda de adicional noturno”. Adolescente foi decapitado pelo Estado Islâmico por ouvir música pop no Iraque. Um menino foi “degolado e carbonizado por causa de videogame em Brasília. Moradores encontraram corpo em lixão”. Um homem teve a cabeça e o órgão genital arrancados na Grande Belo Horizonte. Tudo isso encontrei em jornais. Santa Solange era uma pastorinha nascida na aldeia de Villemont, perto de Bourges. Ela foi assassinada por Bernardo, conde de Bourges, “o qual, depois de havê-la perseguido muito tempo com suas assiduidades, e vendo-se definitivamente repelido por ela, lhe cortou a cabeça, num momento de exasperação”. (Revista da Semana, 1941.) Gostei das “assiduidades”. De Tiradentes, também cortaram a cabeça, tronco e membros. Cromwell mandou decapitar o rei Carlos I. Na Inglaterra, faz tempo.

Existem os pregos sem cabeça, muito úteis para quem está confiante de que jamais precisará arrancá-los. Mas, não era disso que eu estava falando. Volto ao ponto: nem mesmo as degolas rituais e continuadas produzem multidões de vítimas. “Em Doba Dalma de Urama, veem-se estantes cheias de caveiras humanas dos inimigos mortos nos campos de batalha e comidos em casa. A religião dessas tribos é um misto de culto dos antepassados com a adoração de caveiras. Nesses crânios humanos pregam uma placa ancestral e, enquanto elas não se desprenderem das caveiras, é crença que o espírito dos inimigos degolados continua escravo do guerreiro que lhe cortou a cabeça.” Os caçadores de cabeças cortam-nas bem rente ao tronco. “Para prepará-las, tiram o couro cabeludo, fazendo um corte desde a nuca até à fronte. Separam-na do crânio e extraem os miolos e as partes carnosas da cabeça, submetendo-a a uma longa maceração dentro da água. Raspam-na depois com facas de bambu e, quando a caveira está bem limpa, tornam a colocar o couro cabeludo, depois de rechear o crânio com fibra de coco. A boca, grandemente desfigurada, é conservada aberta, metendo-se dentro dela uma bola de gesso e outro tanto fazem com as órbitas que enchem com sementes de cor vermelha. São, ainda, submetidas à ação do fumo, conseguindo, assim, a conservação desses troféus por muitos anos.” (Correio Paulistano, 1930).

Continuo com os eventos que as pessoas julgam merecer atenção, embora camarões e alhos discordem: “o assassino do rei Faiçal foi decapitado ontem com uma espada de ouro, na presença de cerca de seis mil pessoas, em Riad, na Praça Dira, na qual estão o Palácio do Governo e a grande mesquita de Riad”. A multidão gritou: “Alá é grande”. (Diário de Pernambuco, 1975). Se fosse na China de outros tempos, teriam dito “Mao é o Grande Timoneiro”. “Jihad aberta do Estado Islâmico degolou um padre francês de 86 anos”. Homem mata esposa em igreja e lhe corta o pescoço, após ela exigir senha do Facebook. “Rapaz que degolou a avó diz que agiu em legítima defesa”. Preso em Assis Chateaubriand, ele foi apresentado na manhã seguinte em Goioerê. Confessou ter matado a avó e lhe cortado o pescoço, mas alegou legítima defesa. A anciã, presumo, partiu para cima dele armada com uma folha de alface. “Médica é presa acusada de degolar o marido para ficar com seguro”. “Homem corta cabeça da esposa com espada e faz desfile macabro. Mulher o teria traído”. Jornais, jornais.

Mágico errou o truque e decapitou assistente. Namorado corta cabeça de grávida e posta foto no Facebook: “Traição dá nisso. Mentiras, odeio”, escreveu ele sobre a degola que lhe despertou o talento para a literatura. Outro entregou à polícia cabeça de adolescente. Um terceiro foi preso após divulgar vídeo em que degola pássaro com tesoura. “Crime Bárbaro: homem cortou a cabeça do irmão deficiente por ter bebido sua garrafa de Pitu”. Pitu é marca de cachaça; ele bebeu o conteúdo, provavelmente. Ainda este: “Juiz de futebol é esquartejado e tem cabeça enfiada em estaca após expulsar jogador”. “Fazendeiros cortam cabeça de crocodilo e sorriem da agonia do animal.” (É, mas o inverso acontece com maior frequência e, neste caso, quem ri mais do que um jacaré de boca aberta?) Úrsula manda oficiais cortarem a cabeça de Samara em “A Terra Prometida”. “Ela merecia, diz rapaz que levou cabeça da namorada à delegacia em São Paulo”. Merecia o transporte, ou a decapitação? Três homens cometeram assassinato. Foram presos por esquartejar a vítima e jogar bola com a sua cabeça. O jogo ainda estava zero a zero, quando a Polícia chegou. Foi permitido terminá-lo no tempo regulamentar, sem direito a prorrogação. Homem cai de vagão e perde a cabeça em Bruxelas. Recuperou-a no setor de achados e perdidos da empresa ferroviária. Bisontes reaparecem trajando apenas as partes abaixo do pescoço em parque natural espanhol.

Também tem o caso das sardinhas. No Brasil, uma das maiores companhias produtoras de sardinhas sem cabeça foi fundada por um português. Líder do mercado, tem 41% de participação. Sua fábrica produz mais de dois milhões de latas todos os dias. São 730 milhões por ano, cada uma delas contendo quatro sardinhas degoladas. Somente essa empresa, portanto, põe 2,8 bilhões de sardinhas sem cabeça nas prateleiras dos supermercados. Como a fatia de mercado que ela detém é conhecida, posso dizer que a quantidade anual de sardinhas degoladas no Brasil ultrapassa sete bilhões. Sete bilhões! E os frangos? Ah, os frangos! O Brasil produz, anualmente, 13 milhões de toneladas de frangos. De todos eles, se cortam as cabeças. Se o peso médio desses animais for de 1,5kg, teremos 8,7 bilhões de degolas por ano. É um crime, por assim dizer, moderno e democrático. Tem indústria. Cria empregos. Gera renda. De acordo com o censo agropecuário, “a produção de frangos se concentra em propriedades com até 100 hectares, o que confirma seu caráter familiar”. O emprego industrial é um dos pontos fortes do setor: segundo a Relação Anual de Informações Sociais, o número de empregos gerados no abate e processamento de carne de frangos é de aproximadamente 150 mil. Na produção primária de frangos, têm-se mais de 90 mil postos formais de trabalho. No Brasil, cerca de um milhão de empregos se devem à existência da cadeia produtiva de frangos. Todos são decapitados, no devido tempo, por sinal, cada vez, menor. Haja cabeça.

Essas são as histórias que eu queria contar, sobre cabeças e seu súbito desaparecimento. Concluo dizendo que somente Pol Pot, o líder comunista cambojano (responsável pelo assassinato de dois milhões de pessoas, cujas cabeças eram empilhadas), poderia competir em decapitações com um pequeno plantador de alho no Brasil.

– Terminou?

– Sim.

– Camarões, Robespierre, o alho, Zumbi, os frangos, Cromwell, sardinhas sem cabeça, Pol Pot… Aonde tudo isso nos leva?

– Para ser sincero, não sei. Mas, eu não queria escrever o que os leitores mais teriam gostado de ler. Sobre essas matanças horríveis de há um mês, sobre pescoços cortados de presos. Não queria dizer que as prisões brasileiras são uma vergonha. Que facções criminosas as dominam, desafiando e vencendo um Estado frouxo, este mesmo que nos asfixia em impostos, mas é ocupado por governantes pusilânimes. Quase todos, comprometidos com o lado errado. Não queria dizer que as prisões estão cheias de bandidos, sim, mas também, em menor número, de gente inocente ou com penas cumpridas, porém pobre, que ali fica esquecida durante dias, semanas, meses, enquanto os juízes, desembargadores e ministros discutem se vaquejadas devem ser permitidas. Não queria dizer que, das cadeias, os criminosos governam uma parte crescente do mundo, incluindo aquela onde você, leitor, e eu estamos. Que incendeiam ônibus, ordenam assassinatos e sequestros, fazem extorsão. Eu não queria falar disso – e não falei. Não queria confundir degolou geral com general De Gaulle – e não confundi.

 

gustavomaiagomes@gmail.com

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