Brasília, capital do sexo pago

Brasília, capital do sexo pago

Maurício Fernandes, Jornalista

 

Se Deus está morto e nada é proibido, Brasília leva isso bem a sério. Autoridades improváveis, moças voluptuosas, assessoras parlamentares, lobistas dedicados, prefeitos em passagem – enfim, toda sorte de visitantes costuma se entregar às ofertas inesgotáveis da luxúria que a cidade promove. Especialmente de terça a quinta-feira, nada surpreendentemente os mesmos dias em que o Congresso funciona com mais vigor, a capital federal também é a capital do sexo pago do país.

De ministros a vereadores dos confins de Roraima, de executivos de multinacionais a sortudos office-boys, os clientes chegam em profusão em busca das meretrizes locais – e também para as que migram nas temporadas de caça ao tesouro (quase sempre) público. Mansões sigilosas à beira do Lago Paranoá, hotéis sérios e luxuosos (ou nem tanto) ou prostíbulos patéticos – o roteiro brasiliense do sexo pago, como tudo no quadradinho instalado no coração de Goiás, é questão de hierarquia. Mas na comparação com a cidade bíblica de Sodoma – destruída pela ira de Deus por conta da luxúria de seus cidadãos – Brasília não corre risco: o pecado faz parte de suas engrenagens há 51 anos e não dá sinais de exaustão. Nos anos 1960, o urbanista Lucio Costa montou a cidade com um zoneamento racional, com quadras, blocos e divisões baseadas em posições de cartografia. E já ali, para atender aos desejos dos fundadores, havia a devida zona da luz vermelha na região da atual Ceilândia, no caminho do aeroporto internacional Juscelino Kubitschek – um dos piores do mundo, segundo a revista “Forbes”.

Hoje existem quatro vezes mais garotas de programa do que deputados federais em Brasília: são 2 mil de um lado e 513 do outro. Curiosamente, a média de clientes das acompanhantes entre terça e quinta-feira é de quatro homens por jornada. Nas noites de mais movimento, os serviços sexuais costumam parar às 4h – horário em que as acompanhantes menos endinheiradas vislumbram os primeiros ônibus saindo da garagem para levá-las. Das quatro unidades federativas da Região Centro-Oeste, o Distrito Federal concentra metade dos 300 pontos de prostituição nessa área. Custa R$ 40 uma breve sessão de sexo oral com as garotas de programa menos disputadas, estrategicamente posicionadas nas ruas sem esquinas da cidade. Esse é o mesmo preço de uma caipirinha em uma das boates adoradas por prefeitos e políticos locais. Já os mais endinheirados podem pagar R$ 400 pela diária de um hotel para diversões noturnas. Poderosos no Congresso se dispõem a repassar até R$ 4 mil por mês a fim de receberem alívio e conforto quando quiserem, com funcionárias, digamos, especiais.

Quatro quilômetros separam a Praça dos Três Poderes do puteiro mais idílico da capital federal, o Apples (no dialeto local, procure pelo “eipouls”). Fica ao lado de um templo da Igreja Renascer. Também a quatro quilômetros, no sentido inverso, aparecem as mansões de orgias e festas dionisíacas para VIPs. Finas ou brutas, lindas ou recauchutadas, custosas ou baratas, todas são chamadas – não pela frente, é claro – por um popular nome de quatro letras. É fácil conversar com as bem-educadas, universitárias, secretárias bilíngues. Mas existem pessoas que você só consegue chamar pelo primeiro nome – mesmo que não seja o real. Ana é uma delas – está entre as mais de 2 mil garotas de programa dessa Brasília superpovoada com quase 4 milhões de habitantes.

Na noite em que Ana estava parada ao lado de um ponto de ônibus e me ofereceu seus serviços, havia uma fila de colegas dela – da quadra 516 da Asa Norte, onde estávamos, até a 502, já perto da entrada da Esplanada dos Ministérios. São sete quilômetros de possibilidades no meio fio de uma das principais vias da cidade. Elas ficam encostadas em três restaurantes nordestinos ou atrás de dois supermercados 24 horas – onde há caixas eletrônicos que funcionam pelo mesmo período. Para os apressados e para os que horas depois estarão em um avião voltando para casa, sempre haverá uma pousada a 30 metros do local de encontro. Apesar da vulgaridade do excesso de maquiagem, das calcinhas à mostra e das bolsinhas rodantes, todas ali já levaram um poderoso para a cama. “Se não fosse por eles, nenhuma de nós estaria aqui”, conta Ana.

Graças ao desenho da cidade, em Brasília ninguém pega táxi na rua. Mas quem quer uma legítima representante do baixo meretrício tem local certo para pegá-las: a via W3 – uma das componentes da sopa de letrinhas da cidade. Mas nem tente aparecer lá no fim de semana. Só estarão lá as mocinhas mais desesperadas, que muitas vezes pegam o ônibus da meia-noite no sábado após uma noite de absoluta falta de clientes. As melhores ofertas insistem em aparecer entre terça e quinta-feira e ficam até o movimento esfriar, normalmente às 3h. É claro que muitas delas também estão operantes durante o dia, às vezes nas casas de massagem ao redor do hotel Garvey, no Setor Hoteleiro Norte, perto das redações dos principais jornais do país. Mas esse não é o caso de Ana, que, segundo ela própria, tem 25 anos de idade (parece bem mais). Na ativa há dois anos, ela não frequenta festas VIPs, não disfarça sua verdadeira função em casas de massagem ou vai a outro dos 150 pontos de prostituição da cidade. Não é uma operária do sexo para pagar a faculdade, nem para ajudar parentes doentes ou sustentar os filhos. “Sou manicure e faço um extra à noite”, resume. Chega ao ponto na quadra 508/509 Norte às 22h – “Sempre depois da novela” – e fica pelo menos até as 3h. Pede aos clientes que a deixem onde a colheram. Anda algumas quadras depois de dar duro e dorme até as 10h, em um apartamento que diz ser melhor do que o de várias vizinhas mais pudicas. “Podia ser pior. E se eu estivesse no Pistão Sul de Taguatinga?”, diz, referindo-se a um local tradicional das garotas de programa do entorno da cidade. “Pelo menos eu estou aqui, no Plano Piloto, onde as coisas acontecem.” De terça a quinta, acontecem como em nenhum outro lugar.

Nos três dias em que Brasília goza dos benefícios de capital nacional do sexo pago, Ana espera dez minutos e logo chega um interessado. Não há muitos clientes fiéis que telefonem para agendar – ela depende da sorte e das habilidades. Cobra R$ 30 por uma breve sessão de sexo oral e R$ 80 para um engajamento mais profundo em um dos abatedouros de R$ 20 por hora na mesma W3. Nas melhores noites, leva seis clientes a um dos 15 quartos da Pousada Nacional, decorados com plantas de plástico e imagens de tigres-de-bengala prontos para atacar. Não se enganem: as profissionais mais custosas e mais belas que Ana não se põem à disposição menos vezes só por ganharem mais. Isso permite calcular que, na capital federal, nas noites de mais volúpia, pode haver até 12 mil camisinhas sendo preenchidas sofregamente por fãs do sexo pago.

 

Discrição acima de tudo

Hoje os clientes poderosos estão mais discretos do que nunca. Com a ajuda da tecnologia, poucos são os que realmente se expõem ao escolherem suas damas de companhia noturna. Mas os mais assíduos confiam nas indicações feitas pelos colegas. Ainda assim, anos e anos depois, reverberam as histórias do presidente do Banco Central, que usava carro oficial para procurar garotas baratas na mesma W3 de Ana. Ou ainda a do ministro que gostava de ser assistido e fotografado na cama com uma acompanhante em lençóis devidamente banhados com gotas do perfume Obsession, by Calvin Klein. Os dias de farra explícita minguaram, mas o mercado continua aquecido.

O motivo da nova modéstia surgiu em 2005: depois que o escândalo do mensalão expôs uma cafetina local, Jeany Mary Corner, a recrutadora de acompanhantes sugeriu a suas protegidas que evitassem transitar livremente pela honrada Casa do Povo. Era isso que elas costumavam fazer, em trajes sóbrios e elegantes, confundindo-se entre advogadas e jornalistas. Os clientes mais assíduos costumam gozar de pudor e discrição. Seus assessores ainda flanam pelo Congresso, em especial nas tardes de segunda e de quinta-feira, quando os nobres parlamentares estão chegando ao aeroporto ou já embarcando de volta para casa. Esses ajudantes fazem a ponte. Primeiro levam uma foto da candidata ao chefe. Se ela é aprovada, há uma conversa ao pé do ouvido. Até que chega o momento da visita. Dali podem surgir agendas tanto para trabalhos ocasionais como para acompanhá-lo em um jantar, ou decorar o gabinete em algumas tardes, contratada para o cargo de coordenadora executiva da Secretaria Especial para Assuntos Especiais do Gabinete Parlamentar. Tudo para conforto e qualidade da atividade legislativa. Agora, em vez de desfiles pelo Salão Verde em busca de poderosos carentes, elas esperam pelos telefonemas, que só diminuem com a chegada do recesso e a distância.

Muitas das garotas de programa se concentram hoje no distante Anexo IV da Câmara, separado do edifício principal por uma rua e uma passagem subterrânea. O prédio está repleto de escritórios de empolgados deputados de primeiro ou segundo mandato. Além das servidoras sensuais, muitos deles também apreciam as visitas de garotas de programa travestidas de ativistas. Com visitantes menos republicanas, Suas Excelências promovem importantes despachos de fim de dia, em um discreto tête-à-tête.

Não que os mais sérios entre os 513 deputados aprovem a prática, mas evitam denunciar por temerem retaliações. A maioria dos parlamentares que apelam aos serviços, garantem as garotas, realmente prefere a privacidade de ambientes menos legislativos e mais confortáveis, como os flats no fim da Esplanada dos Ministérios, a 5 quilômetros da Praça dos Três Poderes. No anedotário do Congresso, os encontros furtivos nos gabinetes são tão malvistos que se chamam “medida provisória”.

Apesar disso, não estão na Câmara dos Deputados – o lugar mais agitado da cena política brasiliense – os maiores fãs de sacanagem paga. Ao menos duas vezes por ano, as já famosas Marchas de Prefeitos, que viajam a Brasília para pedir dinheiro no Palácio do Planalto, distribuem renda entre as garotas de programa. “Eles são os mais generosos porque vêm de fora, estão longe dos eleitores e da família. Não tem risco, podem até sair abraçados com a gente na rua”, diz a maranhense de nom de guerre Amanda, supostamente 23 anos, em Brasília desde 2008. “Eles não choram pelo preço e sempre voltam. Os que moram aqui também são clientes fiéis e mais egoístas. Podem ficar com ciúmes se você sair com um amigo deles, por exemplo. Quando isso acontece, um fica queimando o filme do outro. Tenho de ser política nessa hora para não perder grana.” Encontros de partidos também costumam privar a cidade de táxis e de prostitutas.

Além dos flats e gabinetes, Amanda já frequentou as renomadas festinhas do Lago Sul, onde autoridades alugam por até R$ 2 mil por dia mansões com até dez quartos para organizar reuniões nada republicanas. “Alguns a gente nem sabe que cargo ocupa. Teve um ministro que eu só reconheci meses depois quando vi na TV”, lembra. Para entrar em uma dessas farras, só com um convite expresso do organizador do encontro e nome na lista. Broches de parlamentar na lapela do terno não bastam para garantir acesso. Geralmente o encontro começa com uma reunião de trabalho, por mero escrúpulo. Depois são servidos os drinques e o jantar. Nesse momento, os mais ariscos já têm suas preferências. Quem demora perde essa primazia, mas a fartura e a qualidade do serviço não trazem arrependimentos aos que não têm tanta pressa na seleção. Por uma noite inteira, cada garota costuma cobrar, no mínimo, R$ 1 mil. A discrição é condição para o negócio. Bem antes de o sol nascer, todas se vão.

 

Os múltiplos caminhos das pedras

Muitos poderosos chegam a elas por meio de sites: o sigilo e o cardápio online facilitam. Há louras, morenas, ruivas, orientais e também transexuais. Fora das festas, nenhum programa dura menos de uma hora e meia, nem custa menos de R$ 300 – R$ 400 no caso das descendentes de asiáticos. “As que se dão melhor são as que emitem recibos de outros lugares”, diz uma garota de programa, que preferiu se identificar pela internet apenas como Menina. “Essas podem cobrar bem mais porque os homens ganham reembolso do que gastam. Não é honesto, eu sei. Mas é um jeito de recuperarmos de algum jeito tudo que eles roubam da gente no resto do ano”, resume.

Quando falta uma agenda mais específica, Menina, que diz ter 22 anos, gosta de se mostrar disponível nas noites do bar do hotel Bonaparte – o Bona Pub. Ali, cobra-se uma entrada modesta de R$ 30, embora cada dose de uísque ou caipirinha custe imodestos R$ 40. A primeira olhadela no ambiente já demonstra que os valores nada têm a ver com a estrutura do local, com suas cadeiras de alumínio distribuídas toscamente em um espaço de não mais de 80 metros quadrados. Não há pista de dança, não há sequer fotos de mulheres na entrada. O balcão onde um segurança faz sua triagem fica atrás de uma pilastra, de frente para o lobby do hotel. Ainda há um salão de beleza que escamoteia o real interesse dos visitantes noturnos do local. “Aqui somos discretos e temos alto nível”, diz um funcionário, responsável pelas meninas e pelos clientes. Com olhos claros e barriga proeminente, ele impõe respeito.

De terça a quinta-feira, a lotação máxima – 150 pessoas – é garantida. Muitos clientes estão hospedados em um dos 94 apartamentos acarpetados do hotel, sob a desculpa de reuniões, conversas agendadas com ministros, lobbies no Congresso. Esses nada pagam para entrar no bar. Os políticos menos conhecidos costumam aprovar o Bonaparte, porque não têm chances de ir às festas em mansões e tampouco querem se expor nas boates mais escrachadas, onde também estão funcionários de terceiro escalão, microempresários e os mais temidos de todos (ao menos por eles): jornalistas. Tampouco aparece por ali algum dos três calangos do cerrado que montam guarda diante da Pousada Nacional, na W3 – o lugar tão limpo quanto uma prostituta que atende no próprio flat; algumas delas, inclusive, moram no Bonaparte. O bar do hotel fica bem em frente da sede do PTB-DF (Partido Trabalhista Brasileiro). Mas a sigla presidida por Roberto Jefferson chegou depois.

As garotas que não passam pelo controle de qualidade do gerente barrigudo de olhos claros acabam nas ruas ao lado, esperando por um apaniguado perdido por aí ou um aspone deprimido após um açoite do patrão. Alguns desses acabam na boate Queens, na distante Taguatinga. Antes de se tornar atendente de lanchonete nos Estados Unidos, a ex-vedete Gretchen batia cartão no local. Mas no Bona Pub, com suas disputadas 42 cadeiras de ferro, ela não seria bem-vista. Ali não há nenhum tipo de exibição, strip tease ou jogo erótico: it’s only business.

“Aqui é cada um por si. Você bebe no bar, as meninas vão andando por aí e você chega junto se quiser. Também se quiser tem quarto no hotel para passar a noite. Não tem segredo”, diz o barrigudo, com um sóbrio sotaque do Sul. Uma suíte no Bonaparte, no Setor Comercial Sul de Brasília, custa pelo menos R$ 530 em alta temporada – leia-se: períodos de marchas de prefeitos, votações parlamentares que invadem a madrugada ou posse presidencial. A duplex pode chegar a R$ 1 mil. Funcionários do hotel torcem o nariz para os frequentadores do bar, de acordo com um segurança. “Eles devem se achar de outro nível, porque o hotel é de uma empresa estrangeira importante”, comentou, referindo-se à rede Bluepoint, que, na verdade, é brasileira. As aparências importam bastante.

A menos de um quilômetro dali está outro endereço da prostituição discreta de Brasília. Colado no lobby do hotel Meliá, fica o bar Churchill. Sob os olhares de um grande quadro do primeiro-ministro britânico durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945) e de um pianista que toca músicas melancólicas de mexer o gelo no uísque com o dedo, senhoritas provocam à mesa. O objetivo: chegar à suíte de algum poderoso, político ou empresário. Muitos deles moram ali mesmo e parecem ser clientes fiéis. Um quarto custa pelo menos R$ 235. O preço mais modesto que o do Bonaparte e a entrada livre no bar são garantias de casa cheia – tanto de clientes menos endinheirados como de acompanhantes não tão sensacionais.

Existem em Brasília cerca de 45 hotéis capazes de oferecer, habitualmente, um ambiente de desejos diversos por visitantes da cidade. Destes, meia dúzia tem cinco estrelas – exibem o mais alto luxo, e alguns deles são os mais caprichados e discretos na produção dos books apresentados a hóspedes interessados na luxúria paga. Outros 15 hotéis descem uma escada apenas no nível de estrelas. E, num padrão menor de três estrelas, mas igualmente desejável, outros 13 hotéis. O restante se encontra na faixa de duas estrelas e tem menos ibope no roteiro do sexo pago. Somados, eles oferecem ao curioso uma ideia dos superlativos brasilienses em matéria de luxuriantes ofertas. Somente entre os seis tops, são 1.500 quartos disponíveis, numa considerável média de 250 possibilidades de abrigo confortável para aventuras noturnas e diurnas. Se contabilizados os de quatro estrelas, esse número sobe para 4.390 quartos. Com os de três estrelas, são mais de 6.000 apartamentos oferecidos.

O vistoso número, porém, pode ser enganoso. Descontados os visitantes sem interesse pela rede do sexo pago, e mesmo levando em conta o mercado das noitadas das mansões destinadas a tanto ou ainda os caminhos alternativos trilhados pelos mais criativos, há frequentadores de maior apetite que garantem: pode faltar cama na capital do Brasil. Claro, alertas do gênero podem não passar de um enorme exagero. Passemos.

No meio do caminho entre a discrição e o escracho, está o Parthenon Night Club, no Setor de Indústrias Gráficas – uma região mais afastada do centro da cidade. Mas a boate está em baixa nos últimos meses: ameaças de fechamento por denúncias de prostituição de menores, problemas com os alvarás de funcionamento e dificuldades no site que promovia a casa estão travando os negócios. Estranhamente, outros endereços menos cotados padeciam de males bastante semelhantes. “Ali o problema deve ser político”, diz um funcionário do Senado que costumava visitar a casa. “Para um puteiro fechar em Brasília, o problema só pode ser político.”

O clube Parthenon deve mais de R$ 60 mil em multas. Nada que 100 clientes não pudessem pagar – a entrada custava exatamente R$ 100. Lendas urbanas dão conta até de que ex-presidentes da República já se divertiram por ali. Os anos de ouro da casa que se considera “a primeira, a maior e a mais luxuosa boate de strip tease de Brasília” se concentraram no primeiro governo do Luiz Inácio Lula da Silva e durante as privatizações do governo Fernando Henrique Cardoso, segundo ex-clientes.

No outro extremo do mercado do sexo está a

boate Star Night, no Setor Comercial Sul. Iluminação regular, poltronas reclináveis, palco mal-ajambrado com até dez shows eróticos por noite. As garotas, garante um jovem que se apresenta como gerente do local, distribuem apertadelas genitais nos clientes. Tudo ali configura um local de baixo meretrício: pôsteres de borracharia, TVs ligadas ininterruptamente em canais esportivos, pole dancing aleatório antes mesmo de a casa abrir. Os prefeitos adoram. “A gente busca onde o senhor estiver. O senhor e todos da sua comitiva”, diz o rapazote. “Se vier com mais de cinco a gente faz preço especial em tudo: nas meninas, na cerveja, na entrada. Se for aniversário ou despedida de solteiro, a gente também arruma pelo menos uma bebidinha por nossa conta. Podemos marcar?” Em dezembro, janeiro e fevereiro, período de recesso parlamentar, lugares como esse ficam às moscas.

No imaginário candango, no entanto, é a Apples (novamente, leia-se “eipols” ou a boate-que-divide-parede-com-uma-igreja-renascer). A casa de tolerância tem vizinhança imediata com a sede local da igreja daquela bispa dos anéis gigantescos que enfiou dinheiro na Bíblia para entrar nos Estados Unidos. Quem for ao último culto de cada jornada, que ocorre às 20h, encontrará sobre as cadeiras um pequeno envelope para contribuir financeiramente com a obra de Cristo. Cinco metros e uma parede depois, os convites são as cintas-ligas de 25 dançarinas que se revezam no pole dancing. Mesmo assim, a convivência parece possível. “Aos domingos, nós temos de pedir aos irmãos para desocuparem as vagas de carro da boate para que os clientes de lá possam parar seus carros”, revela, com tom de orgulho, Irene, uma das coordenadoras do estabelecimento religioso. Enquanto os últimos fiéis saem do ritual derradeiro de uma quarta-feira, o mal-encarado gerente da “eipols” está sozinho, iluminado por luzes vermelhas enquanto come um bife notoriamente seco por cima de uma curiosa mistura de arroz, feijão e beterraba. “Aqui é só depois das 23h”, resume.

 

Um roteiro contra a solidão

A Rua das Farmácias (uma das poucas que têm nome na cidade) está cheia de clientes comprando camisinhas por volta das 22h entre terça e quinta-feira. Mas não dá para dizer que a volúpia sexual aumenta no momento em que alguém pisa no aeroporto. A verdade é que Brasília é um lugar bastante solitário. Graças à concepção urbanística e arquitetônica da cidade, não há como não se sentir muito, muito, muito pequeno ali. Esse estranhamento, único no Brasil, não é alheio aos que fazem Brasília funcionar por três dias na semana.

Letras e números dão nomes a ruas, avenidas, quadras. Caminhar de um quarteirão a outro leva no mínimo 10 minutos. Cruzar o Eixo Monumental, que corta da Asa Sul à Asa Norte, só é possível passando por sinistras passagens subterrâneas. Os bares e restaurantes fecham às 2h, inexoravelmente. Apenas as boates com alvará para shows e os bares de hotéis se permitem invadir a madrugada. Encha esse lugar de pessoas de todo o país, privadas da família, dos amigos, do seu time de futebol, das garantias de sexo casual e voilà: por que não pagar por sexo se quem me conhece intimamente está por aqui? Provavelmente elas não enxergam opção melhor.

Tiremos dessa equação os funcionários públicos entediados. Tiremos dessa equação as pessoas mais simples, quase todas das isoladas cidades-satélites. Tiremos dessa equação a maioria dos fiéis da igreja Renascer e de todas as outras erguidas na cidade. Quem vem de fora estará sempre exposto ao sexo pago em Brasília, porque ele é uma alternativa eficaz para diversão fácil e tem força até entre aqueles que se pintam de vestais morais da sociedade brasileira.

Exceto pela minoria genuinamente candanga, a sensação da maioria dos habitantes transitórios da capital federal é de que a cidade é um verdadeiro acampamento. O caráter provisório – assim como as medidas aplicadas por alguns deputados no Anexo IV da Câmara – está em toda parte. Na essência, não há diferença entre levar uma acompanhante da W3 a uma pousada por uma horinha de diversão ou ser uma autoridade dissimulando uma reunião para passar um tempo um pouco maior no quarto de uma mansão com uma modelo parecida com uma coelhinha da Playboy. Todos buscam um conforto que não está na possibilidade de ver o céu livre de prédios nem na de tomar decisões que influam nos rumos do país. Os que depositam no sexo pago a confiança para se tranquilizarem acreditam que o negócio vale a pena. Afinal, de terça a quinta-feira, a capital federal vai achacá-los no Congresso, na igreja ou no puteiro. A própria vice-presidente do Senado já recomendou: relaxa e goza.

 

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