BNDES do A versus BNDES do B

BNDES do A versus BNDES do B

Acareação entre dois bancos com a mesma identidade

O BNDES perdeu sua condição de consenso. Deixou de ser uno, indivisível. Tornou-se múltiplo, fracionado. Não são raros os que defendem até sua extinção. O desafio, portanto, era criar as condições para que se desse, não uma entrevista convencional, mas uma acareação entre bancos tão distintos. Somente dois esgrimistas. Escolhemos o “BNDES” desenvolvimentista e o “BNDES” liberal para que se desse a confrontação. A própria Insight Inteligência assumiu o papel do banco mais tradicional. Para defender o “BNDES liberal” convidamos o presidente do banco, Dyogo de Oliveira. Faltam muitos outros BNDES nessa contenda. Mas os principais estão representados. Vamos a eles.

nteligência: Quando Roberto Campos cria o então BNDE, no início da década de 50, o banco conta com Ignácio Rangel, Rômulo de Almeida, Maria da Conceição Tavares, Juvenal Osório Gomes, entre outros. Era um time de pesos-pesados que idealizou e conduziu a instituição de uma maneira muito clara. A função do banco, segundo o próprio Campos dizia, era permitir ao país ter em mãos um instrumento capaz de alavancar seu desenvolvimento em circunstâncias adversas. Celso Furtado, antípoda de Campos, defendia o mesmo. O consenso é que o banco era um agente do fomento da indústria, do financiamento da infraestrutura e do desenvolvimento do capital humano na esfera do Estado. Esse BNDES que foi criado para ser um agente de soberania, inclusive para que se pudesse fazer políticas de desenvolvimento, planejadas, setoriais, buscando a expansão do emprego, a inserção competitiva no mercado internacional, o avanço tecnológico, hoje é vitima da maior campanha de desconstrução da sua história. Tomou-se a parte pelo todo. Alguns erros de condução de policy – “os cavalos campeões” – e conduta controversa dos dirigentes serviram para que uma condenação de caráter ideológico desconsiderasse uma trajetória de acertos. A nova “tese campeã” é a de que a indústria não tem relevância a ponto de que haja um projeto de incentivo voltado somente para ela. A indústria boa é aquela que sobrevive à competição cheia de assimetrias – tributárias, de custo de mão de obra, de custo de capital etc… Por essa ótica, a substituição de importações é algo do passado. O futuro do banco ficaria restrito à função de agente da privatização e financiador da infraestrutura, ainda que de forma subsidiária, como coinvestidor através do mercado de capitais. Essas missões indicariam para uma crescente redução de importância. O BNDES do porvir seria passageiro, efêmero, em um rito de passagem para o desaparecimento. Alguma coisa não se perdeu nesse cenário?
Dyogo de Oliveira: Não é que se perdeu. Isso se transformou. Qual era o papel do BNDES? Qual era o produto que o BNDES vendia desde sua criação? Tínhamos uma economia sem acesso a recurso externo, sem estrutura financeira interna, com taxas de juros historicamente altíssimas. Esse é o cenário do Brasil dos últimos 60 anos. O que nós temos hoje? Acesso a mercados externos plenos, além do que os mercados externos mudaram muito. Praticamente todos os grandes gestores internacionais têm carteiras dedicadas a países emergentes. Os fundos de pensão, os grandes, todos têm carteiras dedicadas a países emergentes. Qual é o melhor país emergente? Argentina? México? Chile? África do Sul? É o Brasil. Não tem outro país emergente para competir com o Brasil em tamanho e oportunidades. O Brasil vai ter acesso irrestrito a crédito internacional. O BNDES capta recursos externos e recursos internos. Sabe o que nós fizemos este ano? Nós pré-pagamos os nossos empréstimos externos. Porque captar aqui é mais barato, mesmo com os spreads. As pessoas continuam raciocinando como se nós tivéssemos que ter dinheiro externo para poder financiar o Brasil. Nós temos R$ 6 trilhões em ativos financeiros girando na economia brasileira, e isso é amplamente suficiente para financiar o investimento do Brasil. São aproximadamente R$ 3 trilhões em fundos de renda fixa, basicamente aplicados em título da dívida pública federal, de curto prazo com liquidez diária. Há quase R$ 1 trilhão em family offices ou em administradoras de fortunas. Tudo isso hoje é dinheiro que está, vamos chamar assim, parado. Mantida uma taxa de juros baixa por mais dois, três, quatro anos, esse dinheiro vai se movimentar na economia brasileira, buscando rentabilidade. Nosso investimento é em torno de R$ 1 trilhão de reais, mais ou menos agora 15% ou 16% do PIB. Cerca de 50% desse valor se referem a recursos próprios. Nós precisamos financiar, portanto, R$ 500 bilhões por ano. Aí temos BNDES, Banco do Brasil, Caixa e os privados. Todos esses têm carteira de US$ 1 trilhão para cima. Tem de ter algum capital externo? Tem. Mas com o objetivo de compor o painel de risco do que propriamente para fundear o investimento. Então, aquele BNDES que foi criado naquela época não é necessário hoje.

Há quem enxergue uma intenção declarada de implodir o legado da era Vargas nessa afirmação de desnecessidade do BNDES. Por essa ótica, a Petrobras e o BNDES seriam partes defasadas, que hoje mais atrapalham do que ajudam. Mais uma vez, estaríamos frente a uma visão ideológica dos fatos. A onda liberal que está varrendo o nacional desenvolvimentismo não vê lugar para as empresas estatais no seu desenho da economia. O seu projeto é de demolição da participação direta do Estado. Alguns dos principais artífices do neoliberalismo defendem, inclusive, que o banco seja extinto. Na concepção dos neoliberais, o papel do BNDES se apequenou em relação ao passado. Você está dando, então, um atestado de desimportância do BNDES. O banco se tornou prescindível? Você acha que o BNDES está fadado a se autoimplodir, a se desmontar por dentro?
De modo algum! Isso é uma visão equivocada. O BNDES não vai se autoimplodir. Vai, sim, como já está ocorrendo, adquirir uma nova configuração e atuar em cima de prioridades e dos pilares a que me referi. Para financiar os grandes projetos de infraestrutura do Brasil, ainda não temos profundidade no mercado. Espero que tenhamos, e, algum momento, teremos. Mas o BNDES tem de fazer o mínimo necessário para financiar e viabilizar os projetos do Brasil. Quanto mais mercado puder financiar tanto melhor, mas hoje ainda não é possível. Grandes hidrelétricas, ferrovias, saneamento, tem uma série de coisas que o mercado não tem segurança, e não é recurso que falta. Isso tem que ficar claro. Não é que falte recurso no sistema financeiro brasileiro e nem acesso a mercado externo. Faltam estruturação de projeto e segurança jurídica para investir. Como será o Brasil do futuro que se anuncia? Um país com grandes investimentos, prazos longos, com gestão de riscos complexa, necessidade de desenvolvimento de mercados de longo prazo, uma premência quanto ao crescimento de indústrias e empresas de vários setores, serviços, inovação com alta complexidade tecnológica etc. O BNDES terá de saber caminhar ao lado desse novo Brasil. O banco continuará financiando investimento das empresas? Sim, o BNDES continuará durante muito tempo sendo um financiador importante do investimento. O mercado de capitais cresceu, continuará crescendo, mas ainda é pequeno vis-à-vis à demanda por capital do setor produtivo. O que o BNDES está fazendo? Nós vamos até onde o mercado for. Já tivemos neste ano cerca de R$ 14 bilhões em emissões de debêntures de infraestrutura. É muito, perante o que era…

Mas é pouco, perante a necessidade…
…Sim! É pouco perante a necessidade de investimento de infraestrutura do país. Mas caminhamos para um ponto de equilíbrio, com um processo de fade out do suporte financeiro do BNDES. E o banco poderá continuar atuando do ponto de vista de desenvolvimento do mercado.

Esse é o ponto: o BNDES é um banco de complemento do mercado. Não tem mais a atividade-fim, mas a atividade-meio. O que vai ser feito do capital humano do banco, talvez o mais qualificado do país, que foi preparado para missões de maior envergadura. A impressão que se tem é que o banco mingua como agente do Estado e se desidrata por todos os poros. Desde 2016, o BNDES já devolveu ao Tesouro cerca de R$ 280 bilhões. O total de desembolsos programados para este ano gira em torno dos R$ 70 bilhões. Integrantes do futuro governo já sinalizaram a ampliação desses repasses a partir de 2019. Há quem diga que a principal função da instituição é devolver dinheiro ao Tesouro. O BNDES virou o banco do ajuste fiscal?
No momento está sobrando dinheiro no BNDES e faltando no Tesouro. Em um determinado momento faltava dinheiro no BNDES e sobrava no Tesouro. Então, o Tesouro emprestou para o BNDES e hoje o BNDES está devolvendo…

…Você acabou de concordar que os recursos do BNDES são poucos frente às necessidades de financiamento do desenvolvimento. E o Tesouro está sempre precisando de recursos. Essa devolução não é uma pedalada ao contrário? A forma como os recursos foram repassados do Tesouro ao banco gerou um impeachment…
Vamos separar as coisas. Os empréstimos para o BNDES foram feitos totalmente de maneira transparente, clara, autorizados por lei etc. A questão que foi chamada de pedalada era o pagamento da equalização do Programa de Sustentação do Investimento (PSI). São dois pontos diferentes. O Tesouro emprestou dinheiro ao BNDES com contrato, tudo preto no branco. O TCU acabou de concluir as auditorias. Isso não teve problema algum. Além do empréstimo, criou-se o PSI. O BNDES tomava dinheiro a 7% e, em determinado momento, passou a emprestar a 2,5% ao ano. O Tesouro, então, assumiu a diferença, até que começou a atrasar os pagamentos, gerando o que foi chamado de pedalada.

O BNDES passou a ser tratado como um agente perverso, seja pelo envolvimento, ainda que indireto com a questão das pedaladas, seja, sobretudo, pela percepção que se difundiu do uso do banco para o suposto favorecimento a determinados grupos empresariais, a chamada política dos cavalos vencedores, com recursos do Tesouro Nacional. Ou seja: o BNDES hoje é um banco estigmatizado pelo passado recente? Por que não se chama a atenção dos projetos bem-sucedidos do banco? Por mais que isso possa parecer ingênuo, pois a exposição de atitudes supostamente condenáveis sempre tem maior sabor midiático, não lhe parece que os dirigentes do banco tiveram insucesso na divulgação dos bons frutos do BNDES? Você tem alguma dúvida de que os liberais não têm qualquer simpatia pelo banco?
Há uma certa consciência na instituição de que essa relação com Tesouro foi ruim para a imagem do banco, porque ficou parecendo que o BNDES era dependente do Tesouro, quando na verdade era uma política de governo, uma decisão de política econômica cíclica, de emprestar dinheiro para retomar o investimento na economia e sair da crise. Hoje, a principal diretriz do BNDES é independência e autonomia em relação ao Tesouro. O BNDES não depende em nada do Tesouro. Se precisar de recursos adicionais, o banco vai captá-los no mercado, e a custos baixos.

Insistimos que um dos papéis fundamentais do BNDES sempre foi o fomento da indústria. A indústria brasileira passa por um processo de africanização. A participação do setor no PIB, abaixo dos 12%, é a menor desde os anos 50. Enquanto a indústria desaba, o banco não tem projeto para o setor. Entende-se o pensamento de que o BNDES deve investir em tecnologia, em inovação, em negócios com maior grau de complexidade. Mas como se chega lá, na última ponta, se aqui atrás a indústria está em uma situação de lumpesinato? No passado, o BNDES tinha uma política para o setor. Isso era pensado em razão de diversas variáveis: desenvolvimento tecnológico, substituição de importações, potencial de competição no mercado externo, qualificação de mão de obra técnica, geração de emprego, capacidade de contribuição ao fisco etc. etc. Hoje o banco fica sentado à espera de que alguma indústria passe na sua porta com um projeto que caiba na sua visão de mercado. A equação é essa mesmo?
Um dos setores em que mais tem caído o desembolso do BNDES é exatamente a indústria. Então, não é papel do BNDES salvar a indústria. O papel vital do BNDES é financiar o investimento, não só da indústria. O desempenho do setor industrial não tem a ver com o banco. Está vinculado a fatores macro e microeconômicos, por sua vez relacionados à competitividade da indústria no Brasil. Tivemos um longo período de câmbio muito valorizado. Então, não existe como se recuperar produtividade de um dia para o outro. Esta questão está na raiz do processo de deterioração da indústria brasileira. Há ainda fatores estruturais importantes que prejudicam a competitividade da indústria brasileira. Aqui, sim, está um ponto em que o BNDES tem um papel importante: a infraestrutura. Uma infraestrutura deficiente é crucial para o mau desempenho da indústria. Outro ponto que deve ser contemplado nessa análise: o nosso modelo de desenvolvimento econômico é voltado para dentro. Então, a escala de produção da indústria brasileira é baixa em relação aos competidores globais. Por fim, temos a questão do próprio desenvolvimento tecnológico da inovação, que acaba sendo quase que relegado a segundo plano dentro desse processo de desenvolvimento que o Brasil teve. Esse processo não propiciou espaço para o desenvolvimento de tecnologia. No início, apostamos na substituição de importação. O governo aumentava uma tarifa, criava uma lei e o industrial tinha que ocupar esse mercado rapidamente. O que ele fazia? Comprava uma tecnologia pronta e colocava para produzir. Depois, tivemos as idas e vindas da economia brasileira. De novo, ocorre um fenômeno similar. Nos momentos de vale, o empresário não investe; quando a economia volta, ele tem de ocupar rapidamente o espaço no mercado, e sua prioridade é produzir. Como eu dizia, não é atribuição do BNDES cuidar da conjuntura de curto prazo da indústria. Mas temos, e isto é muito importante, vários programas de financiamento da tecnologia. Agora mesmo, estamos tocando um programa voltado à internet das coisas, à indústria 4.0.

A indústria 4.0 ainda é uma parcela pequena na carteira do banco. Ela não é excludente de um apoio mais amplo à indústria. A área de bens de capital, da qual o governo pretende retirar as barreiras tarifárias, é um dos setores que mais sofrem. Há uma divergência de pensamento no tocante à indústria e ao seu valor na orquestração do desenvolvimento. Concordamos que o investimento em inovação é fundamental. Mas é difícil que ele frutifique em um contexto no qual a atividade industrial desce a ladeira. Ainda mais que a participação na indústria 4.0 é residual.
É residual, mas o BNDES está sempre na vanguarda. Isso é residual hoje, assim como alguns programas robustos que mantemos hoje o eram há dez anos. Em uma década, a indústria 4.0 será a indústria core. Todo mundo terá de se adaptar para produzir nesse formato mais dinâmico. A indústria passará por uma grande transformação. A produção provavelmente se descentralizará. Hoje, temos a concentração da produção e uma logística muito pesada para transportar no mundo inteiro toda essa produção. Essas marcas modernas permitem produzir em escala pequena com grande competitividade.

Ainda em relação à indústria, vamos voltar no tempo. O banco escolhia setores que considerava importantes, mas eram deficientes. Vou dar um exemplo. O Brasil não produz tomógrafos; importa tomógrafos, um equipamento de ponta, importante na indústria da saúde, que, aliás, nunca foi contemplada da forma necessária. Por que não uma linha voltada para estimular o investimento da produção de tomógrafos ou algo que o valha? Talvez a indústria não esteja sendo estimulada e apoiada a atender o novo ciclo da economia, que pressupõe produtos mais avançados, ainda que não sejam inovações.
Vamos ter de voltar naquela história do diferencial de juros. Quando tínhamos uma economia que os juros eram 15% ao ano, a empresa pagaria 40% ao ano em um empréstimo e o BNDES estava aqui oferecendo 7% ao ano, o banco tinha de racionar o crédito. O banco tinha um volume de recursos insuficiente, o que o obrigava a ser mais restrito em relação a setores e a empresas selecionadas. Hoje, esse diferencial no custo do crédito é pequeno. Então, mesmo que o BNDES diga que vai dar dinheiro para tomógrafo, as indústrias podem tomar crédito em outros bancos. O BNDES tem que focar na competitividade sistêmica da economia brasileira. Nós temos de dar condições de financiamento para todos os setores que possam se desenvolver no país. São os empresários, os industriais que vão montar suas empresas e escolher se vão produzir tomógrafos ou equipamentos para energia solar. O BNDES tem de estar pronto não para escolher os empresários ou os setores, e sim para permitir que as empresas sejam competitivas, tenham boa gestão, capacidade de inovar. Para fazer esse papel de que estou falando, o BNDES tem de ser muito ativo. Temos de estar quase que diariamente identificando quais são essas necessidades e lançando novos produtos financeiros mais adaptados. Nesses últimos seis meses, criamos uma enormidade de novos produtos, para empresas pequenas, médias, grandes, com taxa fixa, com prazo mais curto, mais longo. Isso nos exige uma proatividade muito grande. Criamos, por exemplo, uma área de fomento, que vai conversar com as empresas para ver o que é, como é que tem que fazer, o que precisa adaptar, mostrar os produtos que tem. O BNDES não tinha ação proativa. Esse BNDES antigo, sim, era reativo. Hoje, o trabalho do banco é muito forte de proatividade. Digitalizamos todas as nossas linhas de forma tão rápida que os bancos estão correndo atrás, para se adaptar às novas linhas automatizadas que o BNDES lançou. O BNDES tem se empenhado para estimular a competitividade sistêmica das empresas brasileiras e não de determinadas empresas ou setores.

O ex-presidente do banco Marcos Viana dizia que o BNDES não podia ter lucro nem sobra de caixa. Se sobrou dinheiro, o banco não estava sendo eficiente e muito menos cumpridor da sua missão, ele ressaltava. Com o perdão da redundância, cabe a uma agência de fomento fomentar. O dinheiro não deve empoçar no seu caixa, assim como o seu foco não pode ser o de devolver recursos ao Tesouro. Banco privado é uma coisa, agência de fomento é outra. O primeiro tem de dar resultado financeiro para o acionista. O segundo somente pode ter os resultados aferidos em função do binômio investimentos e acerto dos projetos. Se o BNDES tem que se financiar no mercado e precisa ter lucros crescentes, qual a razão dele estar na esfera do Estado?
Com todo respeito, eu discordo bastante. Acho que o banco tem que ter lucro, tem de ter rentabilidade, tem de ter uma carteira saudável, tem de financiar bons projetos, e isso, sim, é que vai resultar no desenvolvimento. Um banco que não tem lucro significa o quê? Que as operações que ele fez estão dando prejuízo, ou que ele está cobrando uma taxa que não remunera os seus custos de funcionamento, portanto ele não vai se capitalizar e não vai poder acompanhar o desenvolvimento do país. Nós consideramos que o banco tem três pilares que pautarão sua atuação nos próximos anos: O primeiro é infraestrutura. Estamos fazendo neste ano 40% do desembolso do banco para infraestrutura. Dentro de infraestrutura tem uma função fundamental que é estruturar e financiar os projetos. O segundo pilar é o desenvolvimento do mercado de capitais de longo prazo. O terceiro é estimular empresas inovadoras, startups, desenvolvedores de tecnologia etc. É um papel fundamental do banco. Esse tipo de empresa precisa de recursos para desenvolver a primeira ideia. Então, a missão do BNDES é acompanhar o ciclo de vida desses negócios nascentes. O banco deve apoiar essas empresas que têm boa estrutura, um negócio promissor, mas não estão prontas do ponto de vista de governança nem têm acesso a volumes de recursos mais elevados. Esses serão os novos campeões nacionais.

Ainda em relação ao papel do BNDES e a discussão sobre dar lucro ou não. Um bom projeto às vezes não é rentável na partida. A agência de fomento não deve necessariamente se limitar a projetos que se mostrem prontamente lucrativos. Saneamento, por exemplo, é um rolo danado. Há um atraso brutal no setor: metade da população brasileira não tem acesso à rede de esgoto. Existe um consenso de que a participação do BNDES é vital para reduzir esse gap no saneamento, assim como há um consenso de que esses projetos não são obrigatoriamente lucrativos, têm um tempo de maturação longo e muitas vezes precisarão ser subsidiados. Estamos falando de projetos com um impacto social tão ou mais importante do que o econômico. Este não é mais um critério que sensibiliza o BNDES?
É evidente que o BNDES se concentra nos projetos que têm maior impacto econômico e social. A Vale não precisa do BNDES. A Petrobras também não. Assim como elas, há outras empresas que não necessitam do BNDES para se financiar. O BNDES faz saneamento, rodovia, ferrovia, porto, aeroporto, linha de transmissão, geração. Isso está no DNA do banco. São projetos com impacto econômico, mas também social. Agora, o banco não pode apoiar empreendimentos que não têm viabilidade. Os projetos precisam ser economicamente viáveis. A viabilidade é o critério básico do BNDES. Financiar projetos com impacto social, mas sem viabilidade econômica, é função de outras agências do Estado. O BNDES não pode se envolver com o que não tem retorno. E dá para fazer tanta coisa. Saneamento, por exemplo. Se o país melhorar um pouquinho a regulação do setor, vai dar para financiar tudo. Dá para universalizar o saneamento no Brasil dentro de 10 a 15 anos. A maior amarra para este setor hoje é o fato de que as competências são distribuídas de maneira equivocada. A competência é municipal, as empresas são estaduais e o recurso é federal. Não se consegue ter rentabilidade numa estrutura que não conta com a mínima segurança jurídica. Um dia o prefeito acorda com mal humor e baixa uma lei reduzindo 50% da tarifa de tais e tais bairros… A concessionária fica perdida.

Você mencionou que um dos graves problemas da indústria é a falta de produtividade e de eficiência. Agora estamos discutindo medidas na linha da redução de barreiras tarifárias, extinção de proteções alfandegárias, coisas do gênero. Não caberia ao BNDES, já que é um banco também da indústria, financiar ou apoiar essa transição? Por que há uma assimetria competitiva infernal entre as empresas daqui e suas congêneres internacionais? Uma forma alternativa de enxergar as circunstâncias é dizer algo como “Olha, deixa rolar, deixa quebrar, deixa desaparecer”… Antonio Barros de Castro dizia: “Se você deixar como está, acaba indústria têxtil, brinquedo, moveleira… Um monte de setores vai embora”. Como o senhor avalia esse ponto de vista?
O que eu tenho lido é uma visão de uma abertura gradual e negociável, que eu compartilho desde sempre. O mercado internacional é disputado milimetricamente, então não existe nenhuma facilidade em lugar nenhum do mundo. Ninguém facilita a vida de ninguém em lugar algum. Então, eu acho que o Brasil tem de fazer uma grande abertura comercial. Nossas tarifas, em geral, são muito altas. Mas não podemos fazer isso gratuitamente aos outros países. Temos de obter algo nesse caminho. Além disso, ao longo desse processo, temos de criar condições de competitividade para as empresas brasileiras. Evidentemente ao longo dessa estrada teremos perdas. Algumas empresas não terão capacidade econômica, financeira, gerencial, tecnológica etc. Mas o correto realmente é ir negociando e melhorando as condições. O BNDES pode ajudar principalmente no investimento, no desenvolvimento de tecnologia e no financiamento para exportação. Nós temos produtos hoje já disponíveis para os três elementos. Mas, de novo, a prioridade do banco é a competitividade sistêmica da economia brasileira. Não é o diferencial de taxa de juros do investimento do BNDES que vai tornar uma empresa competitiva internacionalmente.

Um dos motivos pelos quais o banco foi renegado passa pela questão da exportação de serviço, tratada como algo criminoso. O corpo técnico já se manifestou, mas seu posicionamento não teve a devida ressonância. A exportação de serviço sempre foi considerada importante para a geração de divisas e ocupação de espaço geopolítico. Mas passou-se a se dizer que o BNDES começou a gerar emprego lá fora e não aqui. Aí veio a Lava Jato, que transferiu crimes individuais para as suas corporações, como se instituições cometessem atos criminais. Como você vê esses maus-tratos à ideia da exportação de serviços?
A exportação de serviço representa hoje algo como R$ 35 bilhões em uma carteira total de R$ 550 bilhões. Ou seja: equivale a aproximadamente 6% das operações do BNDES. O BNDES só financia o que é produzido no Brasil. Isso vale, aliás, para toda a nossa carteira de financiamento a exportações, tanto de serviços quanto de produtos. O que não quer dizer que esses recursos não possam ter sido utilizados indevidamente em algum lugar. Também não há inadimplência excessiva, como alguns apregoam. A inadimplência da carteira de exportações representa 1% da carteira total do banco. Então, é muito barulho por pouca coisa. Um país que quer ter presença internacional, quer ser desenvolvido, quer ser grande, tem de ter exportação de bens e de serviços. Não há como não ter isso sendo um país com as pretensões do Brasil

Uma das críticas ao BNDES é que ele não acompanha os projetos que financia. Portanto, esses projetos acabam se transformando em obras com atraso, ou mesmo empreendimentos sem o devido compliance. A informação colhida no banco é o inverso: existem estudos técnicos e preciosismo no tratamento das questões, assim como auditoria e transparência amplas. Na sua visão, o BNDES não tem um sistema de acompanhamento adequado? Não seria possível monitorar o andamento dos projetos pari passu, para evitar, por exemplo, que os recursos emprestados fossem utilizados para arbitragem financeira ou que o cronograma dos empreendimentos atrasasse de forma absurda?
Não é verdade. O acompanhamento do BNDES é extremamente duro, inclusive é motivo de queixa dos clientes. E mais: não temos obra atrasada. Isso não existe. Às vezes, temos projetos financiados com várias fontes. Há casos em que a obra atrasa por falta de recurso do Tesouro. Um exemplo: o metrô de Fortaleza tem uma parte que é recurso do Ministério das Cidades e outra que é financiamento do BNDES.

Nos últimos anos, o banco foi criminalizado, sem direito, digamos assim, a um acordo de “leniência reputacional”. A imagem de uma instituição pública de histórica credibilidade foi contaminada, e esse processo se alastrou até o próprio corpo técnico, que, de alguma maneira, também acabou sendo “criminalizado” a reboque. Pelo menos simbolicamente. Você acha que o BNDES foi apunhalado, uma vez que ninguém defendeu o banco conforme ele merecia, até pela sua tradição, história, desenvolvimento?
O banco tem sido injustamente denegrido. Não existe, até o momento, qualquer evidência de corrupção dentro do BNDES. Isso é impar no Brasil. Eu não conheço nenhuma instituição que possa dizer isso. Nos últimos 10 anos, não há um caso de corrupção dentro do BNDES. Ressalte-se ainda que a transparência do banco evoluiu nos últimos dois anos de maneira exponencial. O BNDES é o banco mais transparente do mundo. Nenhuma instituição financeira publica em seu site todas as suas operações como o BNDES faz. Todas as operações – externas, internas, participação societária – estão disponíveis para quem quiser buscar.

 

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