Betume da Judeia

Betume da Judeia

Nathalia Cordeiro, Escritora

 

A palavra é ruim de se dizer, mas fácil de entender: toxicidade. Consiste na dose proporcional de veneno suficiente para se aniquilar um organismo. Esse organismo pode ser um inseto, uma alga, uma pessoa. No limite, até o planeta todo pode ser encarado como um sistema vivo. Hoje se sabe que o Green Peace e outras maravilhas do onguismo foram perfeitamente laranjados pela CIA para massacrarem na mídia mundial os soviéticos. Afinal, ninguém pode ser a favor da morte das baleias, exceto os japoneses, que comem atum cru. Por outro lado, não deixa de ser uma ironia que a noção “globalista” da Terra como Gaia só tenha se aperfeiçoado com o Gagarin dos russos. Podem se esgoelar chamando por Copérnico, Galileu e Vasco da Gama. Podem aplaudir a circum-navegação de Bartolomeu de Gusmão ou o grande passo para humanidade de Armstrong. Apenas em 1961, quando Yuri Gagarin disse “a Terra é azul”, a coisa de fato pegou.

Bola de bilhar correndo no pano do cosmos, ninguém jamais havia visto o planeta de fora. O mundo dá essas voltas. Ainda nem se falava na caçapa dos buracos negros e os terraplanistas eram uma notinha curiosa do expansionismo marítimo. Mas retornemos ao tóxico. A frescuragem contemporânea plagiou mais essa do repertório americano: pessoa tóxica. O sujeito rebelou-se contra algo, mordeu a soga, afastou-se do rebanho, ficou meio pessimista, desenvolveu inclinações céticas ou arroubos irônicos? Pronto: fulano é toxico, um prato cheio para o bundão e fofoqueiro conspirando no cafezinho. A dita pessoa tóxica é negativa e necessita de um exorcismo new age: aprender a respirar, fazer yoga, melhorar a cor da aura, deixar de ser crítica. Vejam bem: não é fazer análise, confessar-se para o oniromanta que decifra sonhos vigiando o taxímetro. É muito pior que isso. O sujeito tóxico está afligido por uma desordem energética claramente quântica. Contudo, para nosso alívio, há inúmeros massagistas especializados nesse diagnóstico, capazes de oferecer inclusive planos multividas de compensação cármica distribuída em dez existências de purgação até a mais completa filtragem da matéria imunda em energia vibracional elevada. Há pouco tomei conhecimento da Monja Coen. É um Leandro Karnal de quimono. Sua doutrina é uma espécie de kardecismo motivacional orientalizado. E ela também é completamente careca, como o Yuval Harari, sucesso entre as tias de palestra que não conseguem pronunciar o termo “algoritmo”.

Ontem teve uma entrevista com Marcos Pontes, o astronauta brasileiro. Gosto dele. É a cara do Brasil: treinou com a NASA e partiu para o cosmos em uma sucata da Rússia, onde realizou investigações decisivas para nosso futuro científico. Em pleno espaço sideral, plantou o feijãozinho no chumaço de algodão para depois vender travesseiros em plena atmosfera. Idealizado na era Lula, virou ministro de Bolsonaro. E enquanto o pragmatismo de Putin cobrava adiantado o preço da passagem, os americanos colhiam dados para uma soja antigravitacional que em apenas seis meses poderá tornar a lua toda verdinha se a coisa apertar por aqui. Sabe como é: o efeito estufa, a gripe suína, o homem, esse fungo que se alastra até no vácuo. Novas toxicidades.

Até bem pouco, quase ninguém tinha visto petróleo ao vivo. Nem mesmo no vidrinho. Alguns dizem que aquela foto do Getúlio com a mão preta do “petróleo é nosso” foi feita no Photoshop. Outros, os conspiracionistas, insistem que Vargas morreu logo depois e foi substituído por um clone marciano que tentava trocar energia limpa por rebanhos bovinos. Ninguém sabe ao certo. Parece que os extraterrestres já estavam de olho no pré-sal.

O óleo que se espalha desde o Nordeste do Brasil é tóxico. Felizmente, ainda não matou ninguém, embora já tenha vitimado animais, plantas, corais e rochedos de diversas praias. Os alarmistas profetizam que o mundo vai acabar: nascerão crianças de oito braços e medonhos gêmeos unidos por uma só cabeça, como na Índia. E, claro, a culpa é do governo, que não construiu um sistema de câmeras para observar nossas águas territoriais a partir de balões atmosféricos, vez que em matéria de satélites somos muito azarados (ou sabotados).

O mundo lida com gosmas pretas e pegajosas desde antes do betume da Judeia. Era a substância incendiária do fogo grego na Antiguidade. Tucídides já relatava seu emprego em lança-chamas na Guerra do Peloponeso, no ano 424 a.C. Foi também corante de madeiras e o piche precursor do asfalto. Era a glória da impermeabilização dos aquedutos e dos calafetadores de frestas nas embarcações, além do adesivo mágico dos sapateiros antes da cola tóxica. Como se sabe, pedra não dá leite. Mas dá um bom azeite: o óleo de pedra. Ou petroleum. Qual é mesmo a toxicidade do nosso petróleo moderno?

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