Bestial: Poemas de Alex Polari

Bestial: Poemas de Alex Polari

 

Não era mole aqueles dias

de percorrer de capuz

a distância da cela

à câmara de tortura

e nela ser capaz de dar urros

tão feios como nunca ouvi.

 

Havia dias que as piruetas no pau-de-arara

pareciam ridículas e humilhantes

e nus, ainda éramos capazes de corar

ante as piadas sádicas dos carrascos.

 

Havia dias em que todas as perspectivas

eram prá lá de negras

e todas as expectativas

se resumiam à esperança algo cética

de não tomar porradas nem choques elétricos.

 

Eu me lembro

usava calças curtas e ia ver as paradas

radiante de alegria.

Depois o tempo passou

eu caí em maio

mas em setembro tava pelaí

por esses quartéis

onde sempre havia solenidades cívicas

e o cara que me tinha torturado

horas antes,

o cara que me tinha dependurado

no pau-de-arara

injetado éter no meu saco

me enchido de porrada

e rodado prazeirosamente

a manivela do choque

tava lá – o filho da puta

segurando uma bandeira

e um monte de crianças,

emocionado feito o diabo

com o hino nacional.

 

Nos instrumentos da tortura ainda subsistem, é verdade,

alguns resquícios medievais

como cavaletes, palmatórias, chicotes

que o moderno design

não conseguiu ainda amenizar

assim como a prepotência, chacotas

cacoetes e sorrisos

que também não mudaram muito.

 

Portanto,

para o pesar dos velhos carrascos nostálgicos,

não é necessário mais rodas, trações,

fogo lento, azeite fervendo

e outras coisas

mais nojentas e chocantes.

 

Eles costuraram tua boca

com o silêncio

e trespassaram teu corpo

com uma corrente.

Eles te arrastaram em um carro

e te encheram de gases,

eles cobriram teus gritos

com chacotas.

 

Eles queimaram nossa carne com os fios

e ligaram nosso destino à mesma eletricidade.

Igualmente vimos nossos rostos invertidos

e eu testemunhei quando levaram teu corpo

envolto em um tapete.

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