As seis faces de Lily

As seis faces de Lily

Gustavo Maia Gomes, economista

Maria José Salgado Lages
(1907-2003) – a Lily Lages, como preferia ser chamada – foi médica, feminista, deputada, professora e escritora. Alagoana de nascimento, residiu, estudou ou fez carreira em Maceió, Olinda, Salvador e, sobretudo, no Rio de Janeiro. Além disso, conheceu o mundo, em muitas visitas ora curtas, ora longas. Não sei se ela aprovaria ser identificada também como viajante, mas eu quis começar e terminar o presente tributo pontuando exatamente esse aspecto de sua longa e produtiva vida.

Viajante 1

Aos 29 anos de idade, Lily Lages voltava de uma viagem à Europa, onde participara como a única representante do Brasil no Congresso Internacional de Otorrinolaringologia (Berlim, 1936), no mesmo mês e lugar em que aconteceram os icônicos Jogos Olímpicos, programados para propangandear mundo afora as teses da superioridade racial ariana. (O negro americano Jesse Owens estragou a festa de Hitler, como sabemos, mas essa é outra história.)
Lily não ficou apenas na Alemanha. Encerrado o encontro científico, visitou, em outros países, alguns dos centros médicos mais importantes em sua especialidade. E também fez turismo, pura e simplesmente. Foi a Praga, por exemplo, na então Tchecoslováquia, quando já eram evidentes as tensões políticas que precederam a anexação dos Sudetos pelos nazistas (1938).
De volta ao Rio de Janeiro, disse ao O Jornal: “Praga é uma cidade ruminante. Vive de seu grandioso passado. Contentam-se os guias com nos mostrar relíquias, castelos, igrejas seculares, tão pequeninas que nos induzem a pensar como abrigavam tão grande ambição”. Porém, nem todos os lugares lhe deram impressões assim tão pessimistas. De Paris, por exemplo, trouxe “a impressão de que aquele povo constitui exceção na terra, vive de felicidades perenes, integrais”.1

Médica

Tudo isso ela viu quando já era médica reconhecida. Antes, enquanto criança e menina, estudara em Maceió e em Olinda, na então recém-fundada Academia Santa Gertrudes, que ainda hoje está lá, no Alto da Sé. Quando chegou a hora, a jovem anunciou que queria ser médica. Nas Alagoas dos anos 1920, a pretensão assustou seus pais, José Gonçalves Lages (1879-1943), comerciante abastado, e Maria Salgado Lages (falecida em 1966). Um amigo da família foi incisivo:
– Compadre, não consinta. Seguir medicina materializa muito a mulher. Tive três colegas que até paletó usavam.
Maria José encontrou alguém para lhe defender, e o pai terminou por concordar. Antes de 1950, não havia ensino de medicina em Maceió, de modo que ela teve de mudar-se para a Bahia e matricular-se na faculdade que funcionava e ainda funciona no Terreiro de Jesus, em Salvador, sendo logo depois seguida por seu irmão José, também futuro médico. Ali, a alagoana, filha de um comerciante rico, porém, muito conservador, iria se formar em 1931, defendendo a tese “Infecção focal e surdez”, com a qual (e mais as notas altas obtidas ao longo de todo o curso) ganhou o prêmio Alfredo Britto.2
Não era pouca coisa: Alfredo Britto, além de médico e professor consagrado na Bahia, fora o responsável por reerguer a Faculdade de Medicina, após o devastador incêndio de 1905. Na década de 1930, havia na faculdade uma associação de alunos com seu nome; o anfiteatro no mesmo conjunto arquitetônico se chama Alfredo Britto. Recorda Ib Gatto Falcão, também alagoano e médico, igualmente formado (um pouco depois de Lily, embora) na Bahia: “Na via lateral da Escola, antigamente chamada Rua das Portas do Carmo, há uma lápide de mármore, para a qual o professor Prado Valadares redigiu os seguintes dizeres: ‘Viandante, a Sociedade Acadêmica Alfredo Britto torna público que esta rua tem o nome do seu ínclito patrono’. Acredito que esta inscrição ainda lá se encontre gravada na pedra”.3
De volta a Maceió, no mesmo ano da formatura, Lily instalou o consultório num prédio à Rua do Comércio, nº 231, a principal da cidade. Clinicava em caráter privado, mas, três vezes por semana, atendia gratuitamente aos necessitados.4
Em 1938, foi viver no Rio de Janeiro. Alugou as salas 206 e 207 do Edifício Assicurazioni Generali (hoje, Edifício Generali), na Avenida Rio Branco, 128. Ali, manteve seu consultório até, pelo menos, a segunda metade dos anos 80. Tudo azul para ela? Nem tanto. Mesmo na maior e mais cosmopolita cidade brasileira, não era fácil ser médica, ou exercer uma profissão liberal qualquer. Evidência disso – entre muitas outras – é a seguinte: numa página de jornal em que advogados, engenheiros, médicos e dentistas, sobretudo, ofereciam seus serviços à clientela, contei 93 nomes masculinos e somente um de mulher: Lily Lages, claro.5

Feminista

A alagoana foi, também, batalhadora das causas sociais e políticas ligadas às mulheres. Voltemos um pouco no tempo. Como em outras partes do mundo, a principal reivindicação do movimento feminista tinha a ver com o direito de as mulheres votarem e serem votadas. Isso foi alcançado, no Brasil, com o Código Eleitoral de 1932. Mas, dez anos antes, no Rio de Janeiro, Bertha Lutz (1894-1976) e companheiras já haviam fundado a Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, que, além de lutar pelo direito ao sufrágio, também cuidava da educação feminina, da regulação das leis do trabalho e da proteção das mães e filhos pequenos. A ideia frutificaria em Maceió onde, em 13 de maio de 1932, começou a funcionar a Federação Alagoana, presidida por Lily Lages.
Sobre isso, falando, em 1935, disse ela: “em Alagoas, o movimento feminista vem alcançando, nos últimos anos, um êxito surpreendente. A Federação Alagoana pelo Progresso Feminino já conta com inestimáveis empreendimentos. Cumprindo um de seus objetivos – elevar o nível cultural da mulher –, vem dedicando grande parte de suas atividades à causa da instrução. Mantém, diariamente, na sua sede, aulas de português, francês, inglês, alemão, russo, escrituração mercantil, teoria musical e puericultura”, além de conferências para promover o alistamento eleitoral feminino e iniciativas de conscientização quanto a doenças como a hanseníase.6
Esse feminismo é diferente do que parece predominar nos dias atuais. “A feminista não é, nem quer ser masculinizada”, disse Lili Tosta, da Bahia, como quem responde a suspeitas contemporâneas e futuras quanto ao movimento. Ao que Lily Lages completou: “É justamente o contrário; é aquilo que, elevando mentalmente a mulher, a torna colaboradora inestimável nas atividades que, até então, eram do outro sexo, a conserva delicada, sensível, doce, sem perder nenhum dos encantos que a enriquecem e a fazem nobre de alma”.7
Mas era, também, o movimento feminista a que Maria José aderiu e ajudou a propagar, embasado por um conjunto de ideias favoráveis ao progresso social: “Haja vista o analfabetismo, a zombar de todos os esforços, envenenando as nossas esperanças, ameaçando o futuro do país”. Ou sua defesa da “distribuição de merendas; inspeção de saúde, merecendo especial cuidado os exames do aparelho visual e auditivo, a remoção de todas as causas que venham atrasar o desenvolvimento físico-psíquico da criança”.8
Sem o saber, ela já estava fazendo política.

Deputada

Como parte da acomodação que se seguiu à revolta paulista de 1932, Getúlio Vargas permitiu, ou foi forçado a tanto, que se realizassem eleições no país e que o Congresso elaborasse uma nova Constituição. Isso aconteceu em 1934. Figura já então conhecida em Alagoas, Lily Lages candidatou-se a uma vaga na Assembleia Legislativa. Venceu com número expressivo de votos, tornando-se, assim, uma das três primeiras deputadas estaduais eleitas no Brasil. Mas a experiência parlamentar da jovem médica feminista haveria de ser curta. Em 10 de novembro de 1937, o mesmo Vargas implantou a ditadura do Estado Novo, outorgou uma nova Constituição e impôs mudanças nas leis eleitorais. A Câmara e o Senado federais foram fechados, assim como as Assembleias Legislativas.
Um ano antes, ainda como deputada, Lily havia feito o concurso para a livre-docência em otorrinolaringologia na Faculdade de Medicina da Bahia, tendo sido aprovada em primeiro lugar. Foi a primeira mulher a conquistar tal distinção. Noticiou, então, um jornal do Rio de Janeiro, com certa dose de humor ou mordacidade: “A dra. Lily demonstrou saber onde tem o ‘nariz’, e não conhecer a medicina só de ‘ouvido’. Além disso, provou que o progresso feminino no Brasil não é só ‘garganta’”.9

Professora

Entretanto, tampouco a Bahia conseguiu reter a ex-deputada por muito tempo. Em 1938, como já mencionei, ela estava no Rio de Janeiro, num meio profissional inteiramente dominado pelos homens. Disputando espaço não apenas na profissão médica, mas também como docente na Faculdade Nacional de Medicina, onde ingressou em 1942 e foi, primeiro, assistente e, depois, professora plena da cadeira de Anatomia dos órgãos dos sentidos. Na área acadêmica, em 3 de março de 1975, Lily Lages conseguiu o título de docente livre em Otorrinolaringologia na Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio de Janeiro, após ter prestado o concurso no ano anterior e conquistado a titulação de doutora em medicina com a aprovação da tese sobre a “Ozena”, nome de uma doença nasal crônica.10
Como funcionária pública, que também foi, passou 11 anos (1950-62) exercendo as funções de médica do então Distrito Federal, admitida por concurso público. Foi afastada, segundo o depoimento de sua sobrinha Solange Lages Chalita (e de Roberto Campos Meirelles) por razões políticas, mas recuperou o cargo, alguns anos depois.

Escritora

Lily Lages também foi escritora. De teses e livros médicos, por um lado, e de obras de pensamento social ou literário, de outro. Claro que, para os leigos em medicina, os livros do segundo grupo são os mais interessantes. Tenho em mãos apenas “Arthur Ramos e sua luta contra a discriminação racial” (1997). Outros se atrasaram no percurso, mas chegarão. Como eu gostaria de falar com conhecimento de causa sobre “A nova mulher e o problema da infância” (1933); ou sobre Beethoven no mundo do silêncio (escrito por uma especialista em surdez!). A respeito de “Olhos e olhares” (1992), tenho, pelo menos, a opinião de um crítico abalizado, Afrânio Coutinho: “A professora Lily Lages, ilustre otorrinolaringologista da Universidade Federal do Rio de Janeiro, acaba de publicar um livro precioso: ‘Olhos e olhares’. Trata-se de um estudo da obra de Machado de Assis, Guimarães Rosa, Afrânio Peixoto, Estácio de Lima”.11
Em seu livro de 1997, Lily Lages não apenas destaca a importância de Arthur Ramos (1903-1949), alagoano, médico e antropólogo, reconhecido como um dos maiores intelectuais brasileiros da primeira metade do século XX, como se vale do pensamento dele para reafirmar suas próprias e antigas convicções (dela, Maria José Salgado Lages), consolidadas desde o tempo da Federação Alagoana para o Progresso Feminino: “Era Arthur Ramos um espírito despido de anacrônicos e bolorentos conceitos. Defendia com ardor a inexistência de diferença social entre os sexos com a mesma veemência com que se rebelava contra as diferenças raciais”.12

Viajante 2
Em 1957, a Associação Médica Brasileira organizou uma excursão ao exterior. Quinze médicos, com pessoas de suas famílias, formaram o grupo. Lily Lages, inclusive. Na volta, deu entrevista: “O Japão com suas gueixas, seus templos e pagodes deixa-nos extasiados. Niko é um sonho, têm razão os japoneses ao afirmarem que quem não conhece Niko não conhece a beleza. É realmente notável como um povo repetidamente fustigado por guerras e catastróficos terremotos possa conservar tanta serenidade no ambiente e nos modos”. Ou, mais adiante: “Bangkok é um conto de fadas. Ali veem-se centenas de Budas, dando aos templos característicos ares de mistério”.
Achou Calcutá, à primeira vista, uma decepção. “Nômades pululam pelas ruas e parques, esquálidos e maltrapilhos. Não raro, banham-se em plena rua, dormem pelos cantos, ao relento, encolhidos, procurando abrigar-se das intempéries. Vacas, para eles animais sagrados, passeiam livremente pelas ruas, obstruindo o tráfego. (…) Quase não há mulheres nas ruas. Estão ainda sujeitas a primitivas leis: o casamento é contratado pelos pais e, às vezes, tornam-se viúvas aos dois ou três anos de idade”.
Por outro lado, “em verdadeiro paradoxo, Nova Delhi apresenta espetáculos completamente diferentes dos de Calcutá. É uma cidade modernamente construída, limpa, alegre, cheia de vida, [embora] ali se encontrem ainda fortes vestígios de primitivismo asiático. Os garçons dos hotéis de luxo, que usam uniforme branco com faixa de seda vermelha, ostentam comprida barba, andam descalços e sobre a cabeça trazem vistoso turbante”.13
Observadora arguta.

gustavomaiagomes@gmail.com
NOTAS DE RODAPÉ

1. O Jornal (RJ), 30/12/1936.

2. Solange Lages Chalita e Roberto Campos Meirelles, “Lily Lages”, em http://www.aborlccf.org.br/imageBank/Lily_Lages.pdf, acesso em 10/3/2019.

3. Ib Gatto Falcão “A Faculdade de Medicina da Bahia na Década de 1930”, Gazeta Médica da Bahia 2007;77: 1(Jan-Jul):37-49, disponível em http://www.gmbahia.ufba.br/index.php/gmbahia/article/viewFile/62/56, acesso em 10/3/2019.

4. Solange Lages Chalita e Roberto Campos Meirelles, citado.

5. Correio da Manhã (RJ), 30/4/1938.

6. Diario de Pernambuco, 28/6/1935.

7. Citado em Ana Alice Alcantara Costa e Rachel Soihet, “Transformando y conservando: El sufragismo de Bertha Lutz”. Revista Feminismos, 1ª Edição, jan-abr, 2013.

8. Jornal de Alagoas, 2/3/1933, apud Solange Lages Chalita e Roberto Campos Meirelles, citado.

9. Correio da Manhã (RJ), 5/6/1936.

10. Solange Lages Chalita e Roberto Campos Meirelles, citado.

11. Afrânio Coutinho, “Olhos e olhares”, Jornal do Commercio (RJ), 29/3/1993.

12. Lily Lages, “Arthur Ramos”, Jornal Pequeno (Recife), 8/11/1949.

13. “A dra. Lily Lages dá suas impressões de viagem. Os japoneses têm razão: quem não viu Niko não sabe o que é belo”. Correio da Manhã (RJ), 11/6/1957.

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