As mulheres de atenas ao contrário

As mulheres de atenas ao contrário

Marcio Scalércio, Historiador

 

Aspásia era a mulher/esposa/amante/companheira de Péricles (495/492 – 429 a.C.). O estadista era um bem-nascido, um Eupátrida, integrante da fina flor da aristocracia de Atenas, o clã dos Alcmeônidas.  Péricles patrocinou Fídias, que projetou e construiu a Acrópole, esculpiu por toda a parte e pintou paredes sem parar. Por mais aristocrata que fosse, Péricles preferia arengar na ágora, diante dos moleiros, campônios pés-rapados, tecelões, marujos, desocupados e que tais. Para os ouvidos dos cidadãos comuns, a voz de Péricles soava tal qual o canto das sereias. Nas suas hábeis perorações políticas, a tramoia se convertia em poesia, as rasteiras aplicadas contra os adversários pareciam ser virtuosas e a temeridade soava como o melhor caminho para os destinos do Estado.

As preferências do Péricles da vida pública manifestavam-se num feitio similar na vida privada. Não nos enganemos. Aspásia sequer era uma ateniense. Nascera em Mileto, polis situada na Ásia Menor, onde fez carreira como a cortesã mais afamada, refinada e concorrida da cidade. Jamais envergou trajes escuros, que simbolizavam o recato, o retiro e o cativeiro do mundo privado, modos de exílio nos quais as integrantes do gênero feminino viam-se condenadas nas sociedades mediterrâneas. Para a mulher, o Mediterrâneo se convertia numa “grande Sicília hollywoodiana” cuja durabilidade remonta aos tempos de antanho.

É provável que Aspásia governasse a casa de Péricles assim como seu companheiro manipulava os destinos da polis. E para ela não havia “conversa exclusiva dos homens” que não pudesse participar enumerando observações perspicazes. Boas cortesãs deleitam seus convivas de muitas maneiras. Aspásia devia ser uma estratega nesse tipo de mister.

Não se sabe até que ponto Aspásia contribuiu para a política de Péricles quanto ao império marítimo ateniense. A suspeita é que dificilmente permitiria que fosse alienada de tais assuntos. Aspásia não era uma das “Mulheres de Atenas” do poeta. Não era uma “pequena helena”, pois tinha gosto e vontade, múltiplos defeitos e qualidades, muito embora temesse os mares e naufrágios que podiam vitimar os bravos guerreiros e os intrépidos marinheiros de Atenas.

Aspásia deve ter se mantido firme, sustentando a política de Péricles, quando as sombras da Guerra do Peloponeso se precipitaram, tornando o horizonte sinistro. Os lacedemônios de Esparta, conservadores empedernidos, desconfiavam da ousadia e da inquietação atenienses. Consideravam as políticas pouco ortodoxas de Péricles temerárias. Imaginavam que a ambição ateniense era desmedida e, assim, os lacedemônios se arvoraram à condição de defensores da liberdade de todos os helenos, ameaçados pelos apetites dos atenienses. Talvez os lacedemônios, cuja austeridade quanto ao comportamento das mulheres contrastava com sua liberalidade ao lidar com meninos, fizessem algumas piadas relativas à situação conjugal de Péricles e à origem, para muitos, inadequada de Aspásia. Ao invadirem a Ática para devastá-la, podem ter até bradado alguns pesados gracejos sobre o tema, audíveis por aqueles que guarneciam o complexo de muralhas Atenas-Pireu que protegia a cidade e o porto.

Péricles, Atenas, Esparta e toda a Hélade foram tragados pela escalada da Guerra do Peloponeso. O estadista ateniense pereceu vitimado por uma peste que grassou em Atenas logo no início do conflito. A luz de Aspásia feneceu junto com a de seu companheiro.

Mas, quem somos nós para tecer conjecturas, ou mesmo proferir gracejos quanto à conduta das mulheres? Cristo, durante a sua curta pregação sobre a Terra, apontou-nos o caminho. Naquela oportunidade, séculos depois dos tempos de Péricles, Aspásia se converteu em Madalena. Apanharam-na em adultério, e, segundo o Evangelho de João, as autoridades reuniram o povo para o apedrejamento. Cristo interferiu desafiadoramente: “Aquele que dentre vós está sem pecado seja o primeiro que atire a pedra contra ela.”

Esse é o grande momento de Cristo. Todos os portentos por ele praticados não se comparam ao episódio de Madalena, quer em alcance, quer em importância. Lázaro, nada mais significou do que um “café pequeno”. Exorcizar demônios, uma trivialidade. O ensinamento de Cristo naquele momento ganhou contornos duradouros, uma validade eterna. Cristo nada tinha nas mangas. Sequer precisou abrir sua caixa de milagres. Apenas falou. Não converteu água em vinho, não multiplicou peixe ou pão. O menos importante de tudo foi o conselho que deu a Madalena: “Vá e não peques mais”. O melhor mesmo foi a sua diatribe contra os hipócritas, pois os mesmos, que se deitam com as mulheres como Madalena, uma vez em público, para manter as aparências, são os primeiros a atirar-lhes pedras. Deixem a mulher em paz, uma santa recomendação, uma inestimável revelação.

Uma pena que os cristãos, ao longo do tempo, com frequência se esqueceram disso. Até mesmo os santificados. Em meados do século XV, no Norte da França, a jovem camponesa Joana d’Arc ouviu alguma coisa. Interpretou as vozes como instruções divinas.  As mesmas diziam que devia envolver-se na guerra que atormentava o solo francês, libertar a cidade de Orleans do cerco sustentado pelos inimigos ingleses, conduzir o delfim  Armagnac à coroação, chutar o Inglês para fora da França, etc., etc., etc. Conta-se que Joana impressionou os camponeses, gente simples como ela, e foi percebida como um instrumento útil para a política da matreira facção Armagnac.

Deram-lhe um cavalo, uma espada e um pavilhão branco. Joana cavalgou para se encontrar com o exército que acossava as obras de sítio inglesas em torno de Orleans. Quatro mil rudes soldados liderados pela fina flor da nobreza franca. Chagando lá, viu que os soldados portavam-se como… soldados. Praguejavam, bebiam, jogavam a dinheiro e pilheriavam. Os acampamentos eram verdadeiras quermesses, um ambiente de feira. Vendia-se comida, toda a sorte de vitualhas. Era fácil e barato de se obter odres de vinho e cidra. Aspásias e Madalenas integravam o ambiente. Algumas trocavam favores por moedas. Outras estabeleciam elos duradouros com os soldados. Seguiam seus homens para onde quer que fossem. Acompanhavam-nos na guerra e de modo algum se comportavam como peso morto. Faziam-se  úteis de várias maneiras. Tratavam dos rapazes caso caíssem doentes – o que era regular – ou fossem feridos pelo inimigo. Esquentavam a sopa e mantinham as mantas de dormir aquecidas. Não raramente ofereciam sua companhia às sentinelas. A conversa vivaz assegurava uma vigilância distante do sono e com isso, o inimigo se quedava ao largo.  Caso seu  homem perecesse, pois morre-se muito nas guerras, haveria uma mortalha costurada com carinho, úmida de lágrimas verdadeiras para abrigar o corpo do valente. A moça podia então retornar à vida de antes e às moedas ou mesmo encontrar uma nova manta carente de calor. Benditas Aspásias, nobres Madalenas.

Joana, contudo, impôs a moral religiosa mais estrita no acampamento. Os soldados foram proibidos de praguejar ou blasfemar. O vinho e congêneres deviam desaparecer. Toda a jogatina foi banida.  As rudes canções de guerra foram substituídas por cânticos de devoção ao Senhor, à Igreja e aos seus santos. Quanto às mulheres, ou assumiam um comportamento discreto e recatado ou sumiam. A limpeza moral imposta por Joana era apoiada pela anuência dos chefes do exército e conquistou os soldados pela fé. O exército, uma vez apartado das distrações e amenidades, pôde despender um esforço concentrado e cumprir depressa o seu dever: suspender o sítio inimigo contra  Orleans e liquidar o Inglês insuportável. Decerto, nada de milagres. Um exército de franceses, motivado pela fé instilada por Joana, brandiu suas armas e afugentou o pérfido Inglês. Ao inferno com ele ou que voltasse para sua ilha nebulosa, pouco importava.  Ou então, numa perspectiva menos pia mas muito humana, os soldados decidiram resolver logo a parada e assim, uma vez vitoriosos, e com Joana satisfeita cavalgando para outras plagas, retornar ao vinho, ao jogo, às blasfêmias e às meninas.

Mas nem o martírio final de Joana,  devorada pelas chamas inquisitoriais, serviu de exemplo e bandeira para que os soldados do futuro, de França ou alhures, abandonassem seus velhos hábitos. As mulheres continuaram na esteira dos exércitos e na rotina dos acampamentos. E não estamos em face de um fenômeno que se resumia a uma questão de moedas e de venda do corpo. Havia tal comércio, claro, mas as moças não raramente tornavam-se parte integrante das unidades que seguiam. Muitas alcançavam a categoria de veteranas, tão astutas no ambiente da guerra quanto o mais calejado sargento. Em França, após a grande Revolução provavelmente, foram apelidadas de Marienne – que veio a se transformar num dos símbolos nacionais, envergando um generoso decote no busto e com a cabeça coberta com o barrete frígio encarnado – a Madame la République. No Brasil, as mulheres seguiram as colunas dos soldados que travaram a Guerra do Paraguai. Esposas dos soldados ou mesmo simplesmente, as “vivandeiras”. Na hora do barulho, além de pensar os feridos, ajudavam levando água e farinha para os soldados na frente ou transportavam cartuchos adicionais enrolados em seus aventais. Na Revolução Mexicana, a partir de 1910, as mulheres revolucionárias, num arranjo que compreendia esposas, namoradas, amantes e vivandeiras, foram imortalizadas pela canção “La Adelita”:

 

En lo alto de la abrupta serranía

acampado se encontraba un regimiento

y una novia que valiente los seguia

locamente enamorada del sargento.

 

Popular entre la tropa era Adelita

la mujer que el sargento idolatraba

y además de ser valiente era bonita

y hasta el mismo coronel la respetaba.

 

Y se oía

que decía

aquel que tanto la quería

 

Que si Adelita se fuera con otro

la seguiría por tierra y por mar

si por mar en un buque de guerra

si por tierra en un tren militar

 

E que nenhum leitor, munido de hipocrisia desavisada, atire a primeira pedra contra o autor destas linhas. Na Revolução Mexicana, como em todas as revoluções, muitas das mulheres que se incorporavam às fileiras eram putas mesmo, sem tirar nem pôr. Se levadas pela amarga necessidade, se fugindo da devastação causada pelo ferro e o fogo da guerra, pouco importa. Até porque a condição de puta produz arranhaduras na reputação, notadas exclusivamente pelos eternos “fariseus”. Muitas, ao vender o corpo e buscar proteção, convertiam-se em firmes companheiras, tenazes combatentes e, expondo o corpo e a alma, de protegidas faziam-se intrépidas defensoras.

Nos folhetins de Alexandre Dumas (pai), há um conto sobre uma companhia de soldados franceses que, em patrulha, perseguia uma quadrilha de bandidos por entre os morros meridionais italianos. Na sombra da noite, a unidade localizou o bruxulear de fogueiras no fundo de um vale. Cabia proceder a um reconhecimento com o fito de certificar se eram mesmo os bandidos, e não meros pastores pacatos que se aqueciam naquele fogo. O oficial solicitou um voluntário. De imediato, um guapo rapagão manifestou sua intenção de descer ao vale e espreitar. No momento da partida para a arriscada aventura, o rapaz, a sós com o oficial, passou-lhe uma bolsa com moedas. Comandante – disse ele – essas são todas as economias que possuo. Caso eu não retorne da patrulha, faça-me o obséquio de dividir as moedas em três partes iguais. A primeira, envie para a minha mãe. A segunda parte distribua entre meus camaradas. Quanto à terceira, entregue à vivandeira da companhia, uma mulher notável, pois toda a noite deita-se na ala esquerda do acampamento e, com o nascer do sol, levanta-se invariavelmente na ala direita.

 

scalercio@link.com.br

O articulista é professor da PUC-Rio

 

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