A girafa e o erro do tipo 2

A girafa e o erro do tipo 2

 

Hermano Cherques, Administrador

 

O leão é o único animal que figura em todas as representações da Arca de Noé. Seguem-se, pela ordem, o urso, o javali e o cervo. Em seguida vêm os quadrupedes ferozes. Depois, os mansos. Os seres aquáticos são retratados fora da Arca, flutuando ou submersos. São raras as aves. O corvo e a pomba são símbolos solteiros do egoísmo e da fraternidade, mais do que tipos de animais. Os insetos não são jamais representados. Nem as girafas.

Entende-se o caso dos insetos, mas e a omissão da girafa? Não seria pelo tamanho do pescoço, que alta era a Arca. O motivo, sabemos hoje, é o mesmo que dá fundamento a uma série de desacertos pseudocientíficos: os erros de Tipo 2, a não rejeição de uma hipótese falsa. Esse deslize secundário foi que levou a presumir, como causas da exclusão da Arca, o tamanho, os chifres peludos, ou, no caso das girafas, sua homossexualidade natural, cujos machos copulam alegremente entre si.

Nas ciências, o erro T2 é imperdoável. Entende-se que o T1, ou Erro Alfa, o fato positivo falso, possa decorrer da incapacidade epistêmica, de ilusões ou de alucinações laboratoriais. É o caso do vinho tinto, considerado benéfico ao coração por um século; uma convicção cuja falsidade só foi demonstrada em 2019. Mas o erro T2, ou Erro Beta, que ocorre ao não se rejeitar a hipótese nula, que é, na verdade falsa, mas que o estudo não consegue descartar, só pode decorrer da ignorância, da dissimulação, do gracejo, ou, simplesmente, da incompetência do pesquisador.

Não faltam exemplos de T2. As conjecturas preconceituosas em relação à aparência, como dimensões do corpo, a cor, o gênero; as fantasias midiáticas; os enganos carismáticos; os desatinos ideológicos; a pura estupidez humana, como nos casos da campanha antivacina e da negação do aquecimento global.

Se nas ciências esses erros se multiplicam em um leque informe de ocorrências, nas práticas socio-humanas eles se concentram com maior frequência na aglutinação generalizante e transposição imprópria. Exemplos são as postulações sobre o continente, em detrimento do conteúdo, e a justaposição por similaridade. Cometer aglutinações e transposições como estas equivale a inscrever na mesma categoria os elefantes, as corças, os humanos fumados e cheirados e as nossas girafas, com base na evidência de que compartilham todos estes seres um olhar doce e perdido.

Imersos nos caldos mornos dos saberes e dos processos estabelecidos, sujeitados aos interesses e avanços dos centros dominantes do saber, não notamos a maioria desses equívocos. Mas a sua recorrência é difícil de aceitar, como é difícil de entender o banimento da gentil girafa, à qual, por exemplo, cabal do erro T2, retornamos.

Comecemos com o fato de que por 15 séculos o que conhecemos como a simpática girafa se chamou “camaleopardus”. Frequentadores assíduos dos enganos epistemológicos, os sábios romanos consideravam a girafa um híbrido, com cabeça e pescoço de camelo e pelagem manchada, como a do leopardo. Como supunham ser o leopardo, fruto dos amores ilícitos entre o leão e a pantera (pardus), a girafa era tida como uma abominação lúbrica, de coitos perpetrados não só entre o camelo e o leopardo, mas também com o cavalo, o que a dotara de uma crina.

Há mais. A bandalheira não parava aí, que a criatura ainda não se encaixava no modelo vivo. Diligentemente, os romanos, em suas cogitações, fizeram com que a protogirafa coabitasse com um touro, que distraído pastava, para, finalmente, dotar o pobre ruminante das patas que tem.

O foco, como ocorre com frequência nos erros de tipo 2, estava na justificação do meio, e não no efeito. Mas isso ainda não explica por que, afinal, a quimérica girafa – nome derivado do árabe, zarafa, que quer dizer amável – teria se visto condenada à exclusão da Arca. Pois de isto explicar se encarregaram os escolásticos. Argumentaram, teórica, teológica e logicamente, que dito mamífero não podia lá estar porque ainda não existia. Não teria sido possível a Noé acolher a girafa porque estaria ainda em curso o seu engendramento, na forma escandalosa relatada acima. Em um ato de contorcionismo T2, os sábios medievais arremataram brilhantemente a teoria. Atribuíram o cessar da intemperança reprodutiva e a completude do animal ao advento moralizador e finalizador do Cristo, Nosso Senhor, ficando tudo, portanto, esclarecido, justificado e estabelecido.

E ainda bem. Não fosse assim, considerando a possibilidade de as elevadas criaturas, objeto de nossas considerações, serem alcançadas unicamente pelos saltitantes cangurus, animais que têm o pênis bifurcado para dar conta das vaginas tríplices das fêmeas (que falta fazem os escolásticos para nos explicarem essa incongruência), imagine-se o que teríamos em lugar da graciosa criatura e do título científico que ainda hoje ostenta: Giraffa camelopardalis.

Os erros T2 são comuns porque nos recusamos a aceitar que o mundo e a vida são muito mais complexos do que querem fazer crer as tradições, as ideologias, as religiões e as pseudociências. Além de dogmáticos, esses equívocos são persistentes. O da girafa se manteve, mesmo quando, em 1486, mais de mil anos após a queda de Roma, a animália foi vista outra vez na Europa.
Pois ocorreu que, presenteada pelo sultão do Egito a Lourenço de Medicis, uma girafa provocou tal impacto que um bairro de Siena ostenta até hoje o nome de contrada della girafa, como em árabe, e não do camelopardis. Mas nem então mudaram-lhe o nome científico. A ciência era outra, mas os cientistas eram como os de sempre. Preferiram deixar para lá.

O erro sobre a libidinosa genealogia do ungulado ser subsistiu até que, em 1826, presenteadas desta vez pelo vice-rei do Egito, o cruel Mehemet Ali, pachá, aos reis da França, Charles X, e da Inglaterra, George IV, chegaram à Europa dois outros animais capturados nas margens do Nilo Azul, nos confins da Etiópia.

A girafa britânica, alquebrada pela turnê, subiu aos céus dos mamíferos artiodátilos, se os há – os céus, não os mamíferos. A de destinação francesa ficou retida em Marselha por um longo tempo. Foi estudada e levada a Paris pelo grande Étienne Geoffroy Saint-Hilaire (1772-1844), zoólogo de renome internacional, fundador do Jardin des Plantes, lamarckiano e pré-darwinista. Só então foi possível desmascarar a comédia romano-escolástica e estabelecer a girafa como ser unitário que efetivamente é. Na oportunidade, desmascarou-se e corrigiu-se também o criacionista Georges Cuvier (1769; 1832), rival de Saint-Hilaire, que errava não só T2, mas em quantos tipos se quisesse aventar.

Não terá sido fácil. A reparação do erro T2 é lenta e, muitas vezes, falha. Os criacionistas sobrevivem, ainda nos dias que correm, mesmo que seja no Kentucky, e pesquisadores e técnicos continuam a tratar os objetos que desconhecem da mesma forma como fizeram os Antigos ao se haverem com a misteriosa girafa, privando-a do seu lugar na Arca.

Os exemplos de erros T2 permanecem e se atualizam. O mais recente em escala global foi o da proibição da adição de flúor à água como preventivo contra cáries. O procedimento foi interdito por décadas, sob a alegação de que a hipótese nula falsa (isto é, que a adição de flúor não é realmente eficaz contra cavidades), era de tal ordem que não poderia ser rejeitada. A forte publicidade decorrente foi responsável por milhões de cáries, por desdentadas feiuras, e o que é pior, o que é irredimível, por dolorosos tratamentos de canal.

Dentre os raciocínios que passam despercebidos, a partir de aparências, os mais frequentes são os equívocos protocolares, como os da medicina, em que manifestações habituais são tomadas como sintomas de doenças; os de generalização, em cuja individualidade singular do ser humano é desconsiderada; e, principalmente, a naturalização de institutos artificiais – o casamento, o mercado, os três poderes, as mídias tradicionais. São equívocos persistentes, que equivalem ao de crer que as girafas são mudas. Outro engano T2. As girafas emitem sussurros. Mas só o fazem à noite. Por que razão, ainda não sabemos.

O autor é doutor em Ciências de Engenharia de Produção pela Universidade Federal do Rio de Janeiro

hermano.thiry@gmail.com

 

BIBLIOGRAFIA

Fennessy, Julian (2016). Giraffe conservation foundation – https://giraffeconservation.org/
Pastoreau, Michel (2001). Les animaux célèbres. Paris. Arléa.
Rosenhan, David L. (1988). Être sain dans un environnent malade; in Watzlawick, Paul; (org.); L’invention de la réalité; Paris; Éditions du Seuil.

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