O pente e o bacalhau

O pente e o bacalhau

 

Egydio Guerra, Filólogo

 

A morte de Gugu revelou toda a pujança da colonização brasileira dos Estados Unidos. Mas não aquela colonização à moda antiga, disposta a aniquilar apaches e impor identidades. Gugu era uma espécie de rebote da mais pura cafonice devolvida às suas origens. Corriam os anos 1980. E nos embalos do Viva a Noite, o Brasil se forjava uma nova alma sertaneja entre o kitsch e o tropical. Era o fim da ingenuidade do caipira, o lifting em Mazzaropi, a diversão sublimada em bizarrice, inclusive com direito a lampejos pós-modernos. Em milhões de lares de uma só televisão, uma betoneira do brega revirava por horas sem que crianças ou adolescentes esboçassem qualquer reação à hipnose de pais, tias e avós. Eram (ou seja: fomos) totalmente medusados.

Varrendo a poeira vermelha com as franjas do velho western, ou pondo-se sob as abas do chapéu de cowboy, rodeios de bugres e caboclos ficaram muito mais texanos com Gugu. No SBT, Jean-Claude Van Damme de pau duro diante do rebolado da Gretchen antecipava em décadas o sucesso do primarismo estético de Bacurau: emulações de um sub-Bruce Lee em pleno cabaré fingido. Gugu poderia ter feito concorrência ao apelo melodramático do barroco mexicano ou à colorida plebe rude dos grotões da Índia. E por mais que se o prateie, ninguém jamais tomou a iniciativa empreendedora de legendá-lo para os chineses ou para nossos irmãos latino-americanos. Talvez o seu sucesso impedisse a corrida amarela pelo 5G e até nossas tristes pulsões bolivarianas, pois quem subestima Gugu esquece da sua entrevista fake com os membros do PCC e apenas recorda sua mórbida expedição à pirâmide onde jaz a múmia de Dercy Gonçalves.

No fundo, a morte de Gugu confirma a eternidade de Sílvio Santos como única entidade à altura de Chacrinha nos terreiros concorrentes. Pouco importa se o loirinho trabalhava para Edir Macedo ou se fora sondado em priscas eras por Roberto Marinho. Gugu morto é o momento exato em que o pente intercepta o bacalhau. E a devoração do seu corpo midiático pelas feras da classe artística completou mais de uma semana. A única certeza que nos resta: continuamos em plena era do rádio. E apesar da Internet, o programa de Ary Barroso segue sendo um estrondoso sucesso.

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