A Ordem Natural das Coisas: 360 graus de Roubo

A Ordem Natural das Coisas: 360 graus de Roubo

A. C. Porto Goncalves, Engenheiro e economista

 

Maria Odette embrulhou o bule com papel celofane, carinhosamente. Era de porcelana francesa, lindo, coisa fina, valiosa. Colocou-o na bolsa e pensou que precisava ter cuidado, era uma peça delicada, qualquer pancada poderia quebrá-la. Depois tirou as flores de um jarro, de cor parecida com a do bule, e jogou-o com força no chão da cozinha. Deu um grito. “Ai meu Deus, desculpe, desculpe Dona Thereza! Como sou estabanada, esbarrei no bule, caiu no chão! Estilhaçou!”

Dona Thereza, deitada no quarto, abriu seu único olho bom e sussurrou o mais alto que pôde: “Odette, o que houve? Quebrou o bule de café, herança da minha avó?! Ai, ai, ai!” E começou a chorar.

Odette, a cuidadora de Thereza, desculpou-se mil vezes, abraçou e chorou com a velha muito idosa, presa na cama havia dois anos. Mas pensava o tempo todo em como era esperta. Logo, logo sairia de casa com o bule e ninguém daria pelo sumiço; afinal quebrou, e cacos devem ser jogados fora. Odette poderia então curtir sua nova propriedade, servir café para as amigas naquela peça fina, linda.

Dona Thereza nem tinha mais amigas, morreram todas; e raros parentes iam visitá-la. Por que queria o bule? Só podia ser cobiça. Ela, Odette, cuidava pacientemente da velha, recebendo pagamento ínfimo, e sempre admirou e desejou o bule. Nada mais justo que ficasse com ele. É a ordem natural das coisas.

Duas horas se passaram e Odette saiu da casa agarrada à bolsa valiosa, andando rapidamente. Pouco depois, na rua, levou um encontrão violento, caiu no chão.

Trivela corria pelas ruas da Tijuca, olhando para trás e afastando-se rapidamente do local do crime. O pé aleijado, torto, lhe rendera o apelido de Trivela e prejudicava sua velocidade. Seu nome verdadeiro era Joniuoquer, escolhido pela mãe para homenagear o sonho de consumo do pai, alcoólatra, e fazê-lo aceitar o filho. Não adiantou nada, fora surrado regularmente pelo pai que, antes de abandonar a casa – e isto foi um grande alívio! –, quebrou e entortou-lhe o pé com um pisão.

Após algum tempo achou que não estava mais sendo seguido. Entrou num beco, tirou a camisa e vestiu-a pelo avesso; outra cor, bom para despistar perseguidores. Olhou a bolsa escondida sob a camisa, era de qualidade. Arrancara de uma velhota gorda, derrubando a mulher e a bolsa no chão. Ela começou a gritar e ele teve que correr. Se tivesse uma faca ia cortá-la. “Cachorra! Tem que saber perder! Velhota gorda, agarrada à bolsa, andando na rua sozinha, é para ser assaltada.” É a ordem natural das coisas.

Espumou de raiva, a bolsa continha apenas cinco retratos, dois reais, uma passagem de integração, uma chave e um bule quebrado. Nem identidade que pudesse vender. “Deus do céu, porque aquela mulher se agarrava à bolsa?! Devia ser proibido enganar os outros assim. O perigo, aquela correria toda, para nada, nada!”

Não teve mais tempo de se lamentar. A freada brusca do carro de polícia fez com que pulasse o muro do fundo do beco. Gostava do local porque havia essa rota de fuga, mas Hiena, o policial que saltou do carro, sabia disso e sempre o procurava naquele beco.

Hiena puxou a arma, mas não era para atirar, só intimidar. Ninguém atira no seu próprio ganha-pão. Depois de assumir o cargo na delegacia, Hiena escolhera um grupo de assaltantes e os soltara da cadeia, com a condição de que lhe pagassem um dinheiro semanal, uma participação nas suas atividades. Trivela entre eles, por ser esperto e ousado. Mas não era um ladrão honesto. Havia três semanas que nada pagava. Como dizia Hiena, “um absurdo, completamente surdo!” (às vezes ele se confundia com a estrutura das palavras). Soubera do assalto, parecia coisa do Trivela, e foi procurá-lo no beco. Não, não ia deixá-lo fugir, quando o pegasse iria moê-lo de pancada, que ódio!

Trivela corria muito, sabia que Hiena estava atrás. De repente, viu uma multidão chegando ao Maracanã, muita gente, muita gente, jogo do Flamengo. E sorriu ao perceber como escapar. Iria ao jogo na geral, e Hiena não poderia encontrá-lo. Agulha no palheiro. Além do mais era flamenguista, bom ver esse jogo. Só de pensar na cara do polícia riu alegremente.

Hiena também viu a multidão e adivinhou que Trivela entraria no estádio. Difícil achá-lo, mas seu ódio se multiplicara. O desgraçado pensa que escapou. Não! Ia usar o binóculo e esquadrinhar cada canto. “Vou encontrá-lo, ele vai ver só, comigo não se brinca!”

O Fla-Flu já estava no final, 40 minutos do segundo tempo, empatado. Trivela assistia quieto num canto, atrás de umas pessoas. Achou que deveria sair do estádio antes do fim do jogo, por prudência, mas aquele empate indeciso o mantinha preso ao local, torcendo. Subitamente o mundo desabou. Nos descontos o Fluminense desempatou e Trivela enlouqueceu. “Não vale! O Fred estava impedido, o gol foi de mão e a bola não entrou. Deus do céu, você não viu juiz, você não viu, anula, anula! Não vai anular não? Como não?! Cego! Ladrão! Como pode um juiz ser ladrão! Deve ser coisa da CBF!” Sim, é a ordem natural das coisas.

Trivela correu para a beira do campo, pulando e gritando palavrões, histérico. Só parou quando levou a primeira cacetada, na cabeça. Saiu do estádio algemado, ainda vociferando, arrastado pelo Hiena, que sorria como um predador do topo da cadeia alimentar. É a ordem natural das coisas no Brasil, roubo de todos os lados, 360 graus.

 

O autor é professor da Fundação Getulio Vargas e da Universidade Federal Fluminense (UFF).

antonio.porto@fgv.br

 

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