A nova direita brasileira: ideias, retórica e prática política

A nova direita brasileira: ideias, retórica e prática política

Jorge Chaloub, Cientista político

Fernando Perlatto, Historiador

 

 

A cena cultural e política brasileira tem testemunhado, nos últimos anos, um fenômeno sociológico com características muito peculiares, vinculado ao destaque cada vez mais significativo na esfera pública do país de uma nova fração de intelectuais, portadores de certo tipo de ideário claramente de direita, cujo protagonismo e atuação merecem um esforço de compreensão mais sistemático.1 Intelectuais como Olavo de Carvalho, Reinaldo Azevedo, Luiz Felipe Pondé, Rodrigo Constantino, Guilherme Fiuza, Marco Antonio Villa, Denis Lerrer Rosenfield, Diogo Mainardi, entre outros, vêm ganhando um espaço cada vez mais significativo no debate público do país, e o destaque assumido por eles é indicativo da forte presença de um determinado tipo de reflexão abertamente de direita, que tem assumido protagonismo não apenas na imprensa, mas também do mercado editorial do país.2

Ainda que muitos desses intelectuais já tivessem presença destacada nas páginas dos jornais e nas redes sociais pelo menos desde os anos 1990, a projeção deles na esfera pública nos últimos anos ganhou um novo impulso, adquirindo características muito particulares, que merecem maior atenção por parte dos pesquisadores.

À guisa de refletir com maior amplitude sobre esses intelectuais da “nova direita” brasileira, dividiremos o texto em duas partes. Em um primeiro momento, realizaremos um panorama mais amplo em torno de algumas grandes hipóteses que, embora não esgotem, ajudam a compreender o destaque que esses intelectuais têm ganhado na esfera pública brasileira. Posteriormente, em um segundo momento, abordaremos, de maneira mais geral, alguns dos argumentos defendidos por esses intelectuais, não no sentido de esmiuçá-los, mas com uma pretensão mais modesta de buscar pontos de aproximação e distanciamento, bem como destacar as particularidades que permitem classificar estes autores como pertencentes ao campo político da “direita”.

De forma sucinta, é possível formular seis grandes hipóteses que contribuem para a compreensão do destaque que os intelectuais da “nova direita” vêm adquirindo na cena cultural e política do país. Em primeiro lugar, é importante destacar que o fortalecimento de um novo discurso de direita não é um fenômeno restrito às fronteiras brasileiras. As últimas décadas registraram em diversas partes do mundo o surgimento de distintas vertentes de pensamento direitista, que se nutriram da crise, no campo político, do Estado de Bem-estar social e no plano teórico do marxismo, e que ganharam força ainda maior com a queda do Muro de Berlim. Essas novas torrentes ideológicas têm assumido, entretanto, tanto do ponto de vista intelectual quanto político, feições e características diversas da tradicionalmente esposadas pelo campo conservador e reacionário.

Em artigos de conjuntura redigidos nos anos 1980, Jürgen Habermas identificava o surgimento de um “neoconservadorismo” nos contextos alemão e norte-americano, o qual se distinguiria de correntes semelhantes anteriormente desenvolvidas por uma relação mais tranquila com a modernidade capitalista. A desconfiança de um conservadorismo de corte mais tradicional em relação ao mercado e a hegemonia de uma lógica do interesse daria lugar a um elogio da modernização econômica, de modo que as resistências ao moderno ficariam restritas ao mundo da cultura, este o grande responsável por destruir antigos valores e instituições.

O capitalismo seria desejável e perfeitamente compatível com a visão de mundo advogada por esse conjunto de pensadores, que conseguiriam, assim, dar nova vida a uma tradição que parecia incompatível com a lógica progressista que marcava os dois lados da Guerra Fria.3 Habermas identifica como características desse conjunto de pensadores algumas teses e atitudes intelectuais comuns, como a moralização dos debates e problemas públicos, que seriam adequadamente resolvidos por meio do recurso à religião ou a um senso comum esquecido, o ataque aos conteúdos da modernidade no campo da cultura e a responsabilização dos “intelectuais de esquerda” por grande parte das mazelas contemporâneas.4

Uma segunda hipótese que contribui para compreender o destaque assumido pelos intelectuais da “nova direita” na esfera pública do país se refere ao próprio distanciamento temporal da ditadura militar, identificada no imaginário social como sendo de “direita”, o que contribui para que aqueles setores identificados com essa perspectiva se sintam mais à vontade para esposar suas opiniões publicamente, sem maiores constrangimentos. Passadas mais de duas décadas da consolidação do processo de redemocratização do país com a Constituição de 1988, torna-se mais confortável para muitos desses autores se intitularem abertamente como de direita, defendendo publicamente as ideias e as agendas políticas associada a esse campo do espectro político. Soma-se a isso o fato de que, a despeito da permanência de enormes mazelas sociais, o país passou, ao longo dos últimos anos, por um processo de redistribuição de renda, marcado por uma atuação direta do Estado, o que incentiva, como estratégia política de diferenciação e movimento de resistência a esse tipo de mudança, a defesa mais radical de agendas liberais, ancoradas na ideia de Estado mínimo.

Em terceiro lugar, o protagonismo desses intelectuais da “nova direita” está vinculado a transformações que tiveram curso, ao longo das últimas décadas, na própria indústria cultural do país, destacando-se, nesse sentido, mudanças no mercado editorial, no perfil dos jornais de maior circulação – que passaram a dedicar mais espaço a colunistas “ideológicos” – e, sobretudo, à expansão e a popularização da internet, que permitiu a esses intelectuais adquirir uma capilaridade social não imaginada em outros tempos. Muitos desses intelectuais têm colunas nos jornais de grande circulação do país – a exemplo de Rodrigo Constantino e Marco Antonio Villa, n’O Globo, Reinaldo Azevedo e Luiz Felipe Pondé, na Folha de S. Paulo, e Denis Rosenfield, n’O Estado de S. Paulo, embora seu texto também seja publicado em O Globo. A maior parte deles mobiliza principalmente as redes sociais – como Twitter e Facebook – para a difusão de suas ideias. Além disso, alguns desses intelectuais se valem de instrumentos como a rádio para se projetarem publicamente, a exemplo de Rodrigo Constantino, que possui um programa na Rádio Jovem Pan, a qual se transformou – como bem demonstrado em reportagem recente na revista Piauí – em um dos principais veículos de defesa de agendas de “direita”, abrigando jornalistas como Rachel Sheherazade, que, por sua vez, divide parte do programa principal da emissora paulista com Marco Antonio Villa.

Para além da forte presença no debate público, outro aspecto a ser ressaltado no que concerne aos intelectuais da “nova direita” diz respeito à sua presença cada vez mais significativa no mercado editorial brasileiro. Essa presença se insere em um movimento mais amplo, marcado pelo crescimento significativo, ao longo dos últimos anos, de publicações direcionadas para um público, cada vez maior, interessado por uma literatura de obras políticas com perfil de “direita” ou conservador. Esse movimento, inclusive, foi destacado pelo editor da Editora Record, Carlos Andreazza, em entrevista recente para o jornal O Globo, no qual reconhece o crescimento deste “nicho” no mercado editorial brasileiro, destacando o interesse de sua editora em explorá-lo.

Entre os títulos publicados recentemente, que evidenciam este aspecto, podemos destacar, entre outros, Guia do Politicamente Incorreto da História do Brasil (Leandro Narloch), Guia do Politicamente Incorreto da História da América Latina (Leandro Narloch e Duda Teixeira) e Guia do Politicamente Incorreto da História do Mundo (Leandro Narloch), além de obras como Pare de Acreditar no Governo. Por que os Brasileiros não Confiam nos Políticos e Amam o Estado (Bruno Garschagen), O Mito do Governo Grátis (Paulo Rabello de Castro) e As Ideias Conservadoras Explicadas a Revolucionários e a Reacionários (João Pereira Coutinho). Mais recentemente, algumas editoras vêm apostando na tradução de obras com esse perfil, a exemplo do livro Como ser um Conservador, do filósofo político inglês Roger Scruton, lançado recentemente no Brasil.

 

Os intelectuais da “nova direita” analisados neste artigo vêm sendo bem-sucedidos ao se aproveitarem dessa “onda”, conquistando espaços cada vez mais significativos no mercado editorial brasileiro. O livro de Olavo de Carvalho, O Mínimo que você Precisa para não ser um Idiota atingiu número alto de vendagens, assim como a obra Esquerda Caviar. A Hipocrisia dos Artistas e Intelectuais no Brasil e no Mundo, de Rodrigo Constantino. Esse autor também publicou outros trabalhos com perspectivas semelhantes, como Privatize Já! Pare de Acreditar em Intrigas Eleitorais e Entenda como a Privatização Fará do Brasil um País Melhor e, mais recentemente, Contra a Maré Vermelha. Um Intelectual sem Medo de Patrulhas, que reúne oitenta crônicas publicadas no jornal O Globo entre 2009 e 2014. A prática de reunir em livros artigos originalmente publicados em jornais e revistas é comum entre esses intelectuais, do que são provas as obras Não é a Mamãe: Para Entender a Era Dilma, de Guilherme Fiuza, com artigos publicados no jornal O Globo e na revista Época; A Tapas e Pontapés e Lula é Minha Anta, de Diogo Mainardi, que reúnem crônicas originalmente escritas para a revista Veja; O País dos Petralhas e Objeções de um Rottweiler Amoroso, de Reinaldo Azevedo, que congregam colunas do autor publicadas em seu blog na Veja e na Folha de S. Paulo; assim como o já mencionado O Mínimo que você Precisa para não ser um Idiota, de Olavo de Carvalho, compilação organizada por Felipe Moura Brasil, colunista da Veja, que reuniu artigos publicados na imprensa ao longo de mais de uma década. Essas publicações procuram analisar a conjuntura política do país, seja a partir de uma perspectiva de maior duração – a exemplo do livro Década Perdida: Dez Anos de PT no Poder, de Marco Antonio Villa –, seja a partir da investigação de fenômenos recentes – como Mensalão. O Julgamento do Maior Caso de Corrupção da História Política Brasileira e Um País Partido: 2014. As Eleições mais Sujas da História, ambos também de Villa. Outras publicações desses autores já possuem mais um tom de manifesto político, com destaque para a obra Por que Virei à Direita?, de Luiz Felipe Pondé, Denis Rosenfield e João Pereira Coutinho. De maneira geral, todos os trabalhos mencionados apresentam bons índices de vendagem e estão expostos com destaque em várias livrarias do país, evidenciando a capilaridade de seus argumentos entre amplos segmentos da opinião pública.

A isso se soma – e essa é a quarta hipótese que contribui para explicar o protagonismo desses intelectuais – a vinculação e a articulação de muitos desses personagens com institutos como o Instituto Liberal, o Instituto Millenium, o Instituto Ludwig Von Misses, o Instituto Liberdade, o Instituto de Estudos Empresariais, o Estudantes pela Liberdade e o Instituto Ordem Livre. Essas instituições têm ou origem recente – como, por exemplo, o caso do Instituto Millenium, criado em 2005 – ou passaram por grande reformulação recente – como o Instituto Liberal, que, embora fundado em 1983, vem testemunhando mudanças significativas desde a ascensão de Rodrigo Constantino à presidência do Conselho Deliberativo, que substituiu a tradicional ênfase na divulgação de clássicos liberais por uma militância social e virtual mais agressiva.

De maneira geral, esses institutos reúnem empresários, economistas, juristas, jornalistas e outros intelectuais, e se comportam como think tanks5 orientados para a defesa dos valores e das políticas liberais. Além disso, alguns desses institutos se engajam de forma mais direta em movimentos como o chamado “Escola sem Partido”, que procura aprovar um Projeto de Lei contra a “doutrinação” e “contaminação político-ideológica” da esquerda nos espaços escolares. Os fortes vínculos dessas instituições com relevantes grupos empresariais e da mídia são claramente expostos por uma breve análise dos parceiros do Instituto Millenium, que incluem a Editora Abril, a Gerdau, o Bank of America Merry Lynch, o Grupo Suzano, o Grupo Estadão, entre outros.6 Seus documentos tecem fortes críticas à política brasileira atual, que padeceria da ausência de verdadeiras forças de direita e da escassa presença do liberalismo no país. Esses institutos se vinculam a outras associações e grupos sociais, sendo muito bem- sucedidos no sentido de projetar com mais força as ideias liberais no debate público brasileiro.

A quinta hipótese que contribui para explicar o protagonismo que esses intelectuais vêm adquirindo na cena pública se relaciona com os sucessos e fracassos da esquerda hegemônica no Brasil, representada pelo Partido dos Trabalhadores (PT). No que concerne aos sucessos, procuramos sustentar o argumento de que mesmo o “reformismo fraco” dos governos petistas, nos termos do André Singer, mexeu em pontos sensíveis da estrutura social brasileira, acabando por despertar fortes reações de alguns segmentos, reações essas que têm sido muito exploradas por esses intelectuais em suas intervenções públicas. A polarização da sociedade, à esquerda e à direita, contribui decisivamente para que ideias mais radicalizadas, como aquelas defendidas por esses intelectuais, possam encontrar escoadouro e aceitação. De outra parte, os fracassos dos governos do PT em promoverem alterações mais estruturais da sociedade brasileira e o fato de o partido ter segmentos de seu quadro envolvidos em casos de corrupção contribuíram para o enfraquecimento da agenda da esquerda, que, na atual conjuntura, vê o discurso da direita crescer de forma cada vez mais significativa. No vácuo político deixado pela oposição partidária, que não conseguiu emplacar uma agenda alternativa, alguns desses intelectuais, em articulação direta com movimentos “Brasil Livre”, “Vem pra Rua” e “Revoltados ON LINE”, vêm buscando se constituir como as legítimas vozes da oposição.

Por fim, uma última hipótese que contribui para explicar o fortalecimento desses intelectuais no debate público diz respeito à própria crise que o sistema partidário atravessa hoje no Brasil, exposta, de uma forma ou de outra, nas manifestações que tomaram as ruas do país em junho de 2013. Nesse cenário de forte crítica e de elevado ceticismo em relação à política, o discurso de “terra arrasada” contra os políticos e as instituições tradicionais ganha repercussão, reproduzindo pressupostos explorados por muitos desses intelectuais no debate público, inclusive, se valendo dele para a criação de novos partidos, a exemplo do Partido Novo, criado em 2011 com o apoio de Rodrigo Constantino, que teve seu registro aprovado recentemente no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), com o declarado objetivo de defender um liberalismo de fato, que nunca teria sido experimentado no país.

Os intelectuais da nova direita não compõe um todo monolítico, mesmo que, por vezes, pareçam agir como tal, sobretudo em relação a determinadas agendas da conjuntura política brasileira contemporânea. Uma breve análise do seu conjunto revela uma manifesta diversidade de trajetórias, crenças e estilos retóricos, por vezes ofuscados pela coincidência em relação a adversários preferenciais e pautas concretas. A atenção às diferenças em meio às concordâncias, que também serão devidamente destacadas, é fundamental para que se possa compreender com mais clareza as ideias e os movimentos desses atores no cenário político atual. Ainda que reconhecendo as estreitezas e os riscos de simplificações e limitações de quaisquer tipos de classificação, procuraremos, com o intuito analítico, dividir os intelectuais investigados em dois grandes grupos, a saber: direita teórica e direita militante.

A direita teórica reclamaria seu lugar à direita no debate público a partir de argumentos de ampla duração histórica, de modo que as razões para a recusa à esquerda mobilizariam ideias e noções que ultrapassam em muito o contexto imediato, destacando os equívocos dos setores de esquerda em relação à modernidade e à natureza humana. As questões de política contemporânea ocupam a maior parte dos seus textos atuais, mas são sempre enquadradas em uma narrativa de mais longa amplitude, mesmo que muitas vezes distante do tema em questão. O estilo de argumentação não exclui amplas mudanças ao longo dos anos, muitas delas impulsionadas pelas transformações na conjuntura, mas leva ao esforço de sempre vincular as opiniões políticas a bases mais amplas e longevas. Os autores buscam se distinguir pela mobilização de amplo material bibliográfico, que inclui desde clássicos de vertente liberal e conservadora, amplamente presentes na bibliografia mais corrente das humanidades, até teóricos menos citados, muitas vezes brandidos de modo a demonstrar a precariedade do ambiente intelectual brasileiro. Há em alguns autores do grupo, como Olavo de Carvalho, assumida presença do pensamento católico como uma das suas principais influências. O grupo é majoritariamente composto pelos que argumentam a partir do campo filosófico, como Olavo de Carvalho e Luiz Felipe Pondé.

A direita militante, por sua vez, é composta, sobretudo, por polemistas públicos, com seus intelectuais circunscritos às questões da conjuntura mais imediata e sua argumentação raramente ultrapassando os marcos mais evidentes do debate contemporâneo. As eventuais menções a questões mais amplas ou o retorno a outras quadras históricas, no mais das vezes influenciadas pelos autores do primeiro grupo, desempenham papel de ornamento, são ou laterais para a estrutura de suas ideias centrais ou motivadas por disputas colocadas na ordem do dia. É possível, por exemplo, que eles se ponham a alardear os bons feitos da ditadura militar, mas esse exercício se faz com o olhar voltado para embates contemporâneos, como a identidade da atual esquerda e as mobilizações em torno da Comissão da Verdade. Essa conduta faz com que tais personagens se concentrem, sobretudo, no ataque a seus inimigos mais próximos e evidentes, sem grandes mediações em sua argumentação.

Em que pese esse afã pelo imediato, os intelectuais dessa vertente também buscam se vincular, até como forma de legitimação, a linhagens mais longevas da história do pensamento, esforço no qual eles acabam por reivindicar mais explicitamente uma tradição liberal que os citados anteriormente, mais afeitos à linha conservadora. Há nesses intelectuais um constante esforço em demonstrar erudição, o que por vezes os leva a mencionar um grande número de autores, mas suas elaborações estão usualmente amparadas em princípios basilares de um extremado liberalismo econômico, onde são frequentes as menções a Mises e Hayek, e nas formulações de alguns atores do primeiro grupo. A heterogeneidade, todavia, é a marca desse conjunto, que tem no polemismo antiesquerdista o cimento que consolida suas teses e percepções centrais. Nesse campo, se situam, com suas diferenças, Reinaldo Azevedo, Rodrigo Constantino, Guilherme Fiuza, Marco Antonio Villa, Diogo Mainardi, Denis Lerrer Rosenfield, entre outros. Deve-se ressaltar que alguns desses personagens, como é o caso de Rosenfield e Villa, possuem reflexões de maior fôlego em seus trabalhos acadêmicos, mas usualmente não transportam esse modelo de expressão para sua atuação enquanto intelectuais públicos. Um ótimo exemplo é o capítulo escrito por Rosenfield no livro Por que virei à Direita?, que se destaca pela quase ausência de recursos a argumentos de vertente mais geral, distintamente de Pondé e Coutinho, os outros dois autores da coletânea-manifesto. Desse modo, como estamos tratando da persona pública desses intelectuais, faz mais sentido enquadrá-los na categoria da direita militante.

As variações retóricas, assim como as distinções de crença e ênfase, acabam, todavia, nubladas em um cenário no qual o adversário ideológico e político ganha feição muito clara, como na atual conjuntura política. Em que pese a permanência de algumas disputas internas a esse campo mais amplo, a atenção se volta, sobretudo, para a derrota dos inimigos esquerdistas, que justificam o esquecimento de discordâncias e a moderação de ânimos. Mesmo que eventuais esforços em compor uma “frente direitista” convivam com uma rotina de brigas e reconciliações, pode-se afirmar que, para além dos movimentos políticos conscientes, as representações do cenário contemporâneo desses dois grupos já oferecem uma ampla plataforma para a composição de uma ação conjunta, ao ressaltar aspectos coincidentes do discurso dos dois grupos. Apontaremos, em seguida, seis pontos de convergência entre essas duas direitas.

Uma primeira aproximação decorre do que se pode chamar de retórica da “terra arrasada”. Nessa perspectiva, tanto o momento atual quanto a história brasileira, são marcados por uma radical ausência de virtudes e conquistas. O argumento é mais forte na pena do primeiro grupo, a direita teórica, cujo discurso se ampara na completa aversão a qualquer tipo de contextualismo, o qual é sempre criticado7 por seu viés relativista.8 A recusa às ideias de pontos de vista ou lugares de fala leva a uma naturalização da cultura vinda dos países “centrais” como única digna de ser chamada por esse nome e nega a validade a qualquer produção que fuja de um cânone tomado como evidente por si mesmo. Por esse olhar, a cultura e a história brasileira são retratadas como uma sequência de equívocos. Em texto redigido ainda antes do adensamento da influência desses intelectuais da nova direita, em 1999, Olavo de Carvalho explicita os radicais fundamentos desse tipo de argumentação: “Em quinhentos anos de existência, a cultura deste país não deu ao mundo um único registro de experiência cognitiva originária. Nossa contribuição ao conhecimento do sentido espiritual é, rigorosamente, nula” (CARVALHO, 2013, p. 59).

O argumento não é inédito na tradição da direita nacional, que muitas vezes se defendeu a ideia de ruptura com o passado como movimento necessário para o acesso à modernidade. Personagens como Francisco Campos, Carlos Lacerda e Roberto Campos, por exemplo, antes viam na tradição um obstáculo do que uma base para a construção do futuro. O que surpreende no trecho, contudo, é sua radicalidade, que abdica de qualquer mediação na construção do argumento e recorre a claros exageros, sem qualquer sentido irônico, em todos os momentos do raciocínio.

O tema também se faz, de certo modo, presente na “direita militante”, constantemente retomado por Rodrigo Constantino, Diogo Mainardi e Reinaldo Azevedo. Constantino, por exemplo, estabelece um vínculo direto entre esse cenário e a ausência de um verdadeiro liberalismo em terras brasileiras. Em artigo sintomaticamente intitulado “Liberalismo no Brasil Colônia: o que poderíamos ter sido” (CONSTANTINO, 2015), ele retoma um pensador lusitano da Colônia com forte inspiração do iluminismo escocês, José Antônio Gonçalves, para apontar como a história nacional poderia ter sido outra caso os pressupostos liberais tivessem sido plenamente aplicados em terras brasileiras. O raciocínio expõe sua aversão a eventuais relativismos, que ofuscariam a evidência de que apenas o liberalismo propõe fundamentos adequados para a organização social.9

Ambas as correntes também se aproximam – sendo esse o segundo ponto de convergência – na direta responsabilização da esquerda10 pelas mazelas, recentes e pregressas, que assolam o Brasil. O panorama extremamente negativo sobre o país muitas vezes é relacionado ao predomínio da esquerda no cenário político e intelectual nacional. Há, por vezes, um esforço de localização dessa hegemonia da esquerda, que, em diversos momentos, é remetida aos anos que se sucederam à ditadura militar, como muitas vezes afirma Luiz Felipe Pondé.11 No mais das vezes, entretanto, a esquerda passa a ser diretamente identificada com o mal, sintetizando os mais diversos aspectos negativos aparentemente dispersos na sociedade e na história.

O argumento decorre da visão extremamente moralizada desses autores acerca da política e da sociedade. A moral, em seu procedimento mais corriqueiro, remete às divergências a valores transcendentes e absolutos, impassíveis de qualquer contestação (DELEUZE, 2002, p. 29), o que a torna extremamente útil para representações binárias, que tomam o opositor ideológico como inimigo. Em face ao inimigo não cabe o diálogo, mas a guerra. A reivindicação da superioridade da moral ante a política é não apenas evidente na ampla maioria dos autores, como aparece como um dos critérios para distinguir a direita da esquerda. Como destacado por Luiz Felipe Pondé: “uma das posições do pensamento conservador que mais me encantam é que, para ele, o problema do homem é, sobretudo, moral, e só secundariamente, político.

A negação disso, porém, sempre serviu à esquerda e aos ‘sociólogos’ para se liberarem da responsabilidade moral. Esse é também um traço ‘mau-caráter’ da esquerda.” (PONDÉ, 2002, p. 35). A centralidade do argumento moral surge como olhar “correto” para o mundo e elemento que distingue o joio do trigo. A esquerda seria não apenas equivocada, mas moralmente vil, como bem comprova a história pessoal dos seus mais destacados intelectuais.12

As ideias seriam, nesse sentido, índices de moralidade e exporiam o lado superior ou rebaixado dos indivíduos. O argumento não se reduz à “direita teórica”, mas também se faz presente na “direita militante”, como bem demonstra o conceito de “esquerdopata”, cunhado por Reinaldo Azevedo e largamente utilizado por outros desses intelectuais. Segundo tal discurso, a afinidade com ideais de esquerda não seria simples crença ou afinidade política, mas patologia psíquica: “Existe na política o correlato da psicopatia, manifestado, no caso, não como uma doença mental, do indivíduo, mas como uma moléstia coletiva, ideológica. Há tempos emprego a palavra ‘esquerdopata’ para definir certo tipo de comportamento.” (AZEVEDO, 2011). Algumas das possíveis consequências de semelhante imaginário no campo da ação política não são difíceis de imaginar. É difícil o diálogo democrático com indivíduos portadores de uma doença. Patologias, ademais, requerem um tratamento que não as conserva, mas busca sua exclusão do espaço social.

O caráter autocentrado do discurso moral também leva a uma representação do cenário político que destoa bastante da percepção da ampla maioria dos protagonistas desse campo. Para essa nova direita, a esquerda ocupa a quase totalidade dos postos de poder não apenas no Brasil, onde o cenário é especialmente crítico, mas no mundo, onde é evidente, segundo Olavo de Carvalho, a hegemonia esquerdista.13 Nessa perspectiva, o PSDB, responsável por uma reforma neoliberal do Estado brasileiro, é, para muitos deles, franco representante da esquerda,14 assim como o restante do quadro partidário brasileiro; Obama é comunista e Luciano Huck pertence ao campo da “esquerda caviar” (CONSTANTINO, 2013, p. 219).

Os intelectuais da nova direita usualmente recorrem, e esse é o terceiro ponto de aproximação, a um clássico topos conservador, que pretende conferir ao próprio discurso uma maior capacidade de representação do mundo. Nesse discurso, as teses da direita teriam uma maior proximidade com o real, colocando-se mais próximas da “vida como ela é”, ao passo que a esquerda se caracterizaria por seus devaneios e abstrações completamente alheios, por inépcia ou má-fé, ao funcionamento do mundo. Os argumentos da direita seriam, nesse sentido, não apenas superiores moralmente como também sobranceiros em sua capacidade de compreender o que os cerca. Mais uma vez estamos diante de um corriqueiro argumento do pensamento conservador, fortemente reproduzido pelo pensamento autoritário brasileiro. Analisando a obra de Azevedo Amaral e Francisco Campos, Marcelo Jasmin (2007) identifica em suas obras modelos retóricos que reivindicavam às ideias expostas especial verossimilhança antes o tempo do mundo e a fisionomia do país, por ele definidos como “mímesis do tempo” e “mímesis da nação”. Há, nesse sentido, a pretensão de construir um pensamento que expresse fielmente o mundo.

A nova direita retoma esse tema e, como já exposto, em outros casos, o abraça com grande radicalidade. É comum a quase todos os intelectuais do campo a ideia de que apenas um olhar distante dos esquerdismos pode perceber os reais traços do mundo. Pondé, por exemplo, afirma sem maiores mediações que a “esquerda é abstrata e mau-caráter porque nega a realidade histórica humana a fim de construir seu domínio no mundo” (PONDÉ, 2012, p. 81), enquanto Reinaldo Azevedo, em artigo sintomaticamente intitulado “Ainda esquerda e direita” afirma: “Esquerdismo é ideologia sim. No mais das vezes, aquilo a que se chama ‘direita’ é só bom senso aplicado” (AZEVEDO, 2013). A retórica do realismo leva os intelectuais da nova direita ao trabalho de desconstrução de supostos cânones da esquerda. Há redobrado esforço em demonstrar como supostas verdades não passariam de invenções esquerdistas, amparadas na hegemonia na mídia e na academia para enganar a maior parte da população, que se mostrariam sem qualquer fundamento teórico e histórico. A academia, aliás, é fruto de pesadas críticas e retratada como antro de doutrinação esquerdista e devassidão moral, onde o que sobra são títulos, cursos e escritos tão inúteis quanto viciados.15

Em meio a essa perspectiva mais ampla, destacam-se alguns campos nos quais a “nova direita” aborda reiteradamente temas que ela reputa como particularmente dominados pelas falsificações esquerdistas. Dois deles, que merecem insistentes comentários de diversos personagens do grupo, são a ditadura militar brasileira e o Golpe de 1964. Mesmo que vários autores, como Olavo de Carvalho, Constantino e Reinaldo Azevedo, dediquem várias manifestações ao tema – sempre empenhados em demonstrar a justeza e necessidade do golpe, fundamental para evitar a dominação esquerdista então em curso, e expor a injustiça com a qual é tratado o regime autoritário – não resta dúvida de que o mais empenhado na tarefa é o historiador Marco Antonio Villa. Professor universitário, como Rosenfield e Pondé, em um grupo que despreza o meio acadêmico, Villa dedicou boa parte da sua trajetória intelectual para contestar supostos consensos sobre a Ditadura e o Golpe.16 Atualmente, porém, ele destina a maior parte do seu tempo ao papel de comentarista político, que, como já dito, exercita regularmente na Rádio Jovem Pan e em seu blog. O adversário a ser combatido por Villa é a memória e a historiografia construída pelas esquerdas, que idealizariam o passado e a própria trajetória; perspectiva, que na visão do autor, é amplamente hegemônica na opinião pública.17

A obstinada crença no acesso privilegiado ao real é uma das mais diretas causas da tendência à construção de teorias da conspiração que marcam esses intelectuais. O discurso começa por reclamar uma superior capacidade de compreender o mundo e logo passa a enxergar traços ocultos da realidade, sem os quais ela não pode ser adequadamente interpretada. As dinâmicas políticas e sociais são, assim, muitas vezes explicadas por meio de desconhecidos acordos internacionais e grandes conjurações desapercebidas pela multidão. As conjecturas de Olavo de Carvalho acerca do Foro de São Paulo e das articulações comunistas internacionais – amplamente replicadas por outros intelectuais – são um ótimo exemplo dessa tendência.18

Uma vez confrontado com a ausência de evidências em sua argumentação, o autor sempre pode recorrer às limitações de quem o inquire, que não seria capaz de ver o óbvio e provavelmente estaria enfeitiçado ou pela mídia conivente ou pela doutrinação esquerdista que toma a educação e silencia as vozes da direita. O discurso repagina argumentação anticomunista comum nos anos 1960,19 que justificava as incompreensões do seu raciocínio pela ação da ideologia adversária, a qual impedia a visão da verdade. Se o esquerdismo é uma doença – como aponta o termo “esquerdopata” – um dos seus sintomas é a perda da capacidade de ver o óbvio. A própria acusação de cultor de teorias da conspiração é uma prova da situação de descalabro na qual se encontraria o país: “‘teoria da conspiração’ é uma entre mil muletas léxicas a serviço dos deficientes mentais loquazes que orientam e dirigem o país” (CARVALHO, 2013, p. 322).

Como consequência do discurso que atribui aos opositores à incapacidade de perceber a verdade, está presente na pena desses intelectuais da nova direita outro mote retórico, o quarto ponto de convergência entre as direitas militante e teórica: o esforço em aproximar a direita dos interesses e opiniões da população. A identificação entre formulações da direita e crenças do senso comum é retomada por outros autores, que contrastam uma esquerda hegemônica, isolada do povo e preocupada em realizar apenas os próprios interesses – o que afastaria as massas do poder –, com uma direita que representaria fielmente a população. Até mesmo personagens da “direita teórica”, como Olavo de Carvalho, que costumavam direcionar sua veia crítica também contra o povo brasileiro, sempre retratado a partir de termos majoritariamente pejorativos, passaram a adotar, mais recentemente, esse mote retórico.20

As evidências levantadas por esses autores para comprovar as dissonâncias entre a maioria da população e a minoria esquerdista quase sempre se amparam em temas relacionados a direitos de minorias, como mulheres, negros e homossexuais. Em termos semelhantes aos identificados por Habermas (2015) no neoconservadorismo alemão, esses novos intelectuais conjugam um forte elogio à modernidade econômica com uma profunda ojeriza ante a suas construções no campo da cultura e dos valores, ridicularizando a agenda do reconhecimento.

O entusiasmo ante a modernidade econômica aparece de modo mais evidente na “direita militante”, que toma o liberalismo econômico como único evangelho para a construção de uma boa ordem. A valorização da noção de “meritocracia” aparece em praticamente todos os autores desse campo, que criticam a esquerda por sempre buscar sobrepor o social ao individual. Não é diferente o cenário, todavia, nos textos da “direita teórica”, que argumenta a plena conformidade entre um forte conservadorismo moral e a adesão ao mundo do capitalismo liberal. Aspecto que constitui o quinto ponto de aproximação. Está ausente do pensamento desses autores o velho temor conservador, que receava que ampla expansão da lógica da mercadoria, inerente ao capitalismo, acabasse por solapar os valores sobre os quais se fundavam as sociedades tradicionais. Olavo de Carvalho é exemplar nesse sentido: “a consciência de que o capitalismo, com todos os seus inconvenientes e fora de toda intervenção estatal pretensamente corretiva, é em si e por essência mais cristão que o mais lindinho dos socialismos, eis o dever número um dos intelectuais liberais” (CARVALHO, 2013, p. 199-200).

A clara afirmação dessa compatibilidade é central para a construção e manutenção do campo da nova direita, permitindo a formulação de uma agenda comum a atores que, em outros momentos, não necessariamente estariam nas mesmas hostes. Para além dos fundamentos teóricos, a coesão nasce do inimigo comum, detestado por suas ressalvas ante a visão capitalista do mundo, mas também, como já dito, por seu discurso de defesa das minorias, retratadas por neologismos como ‘feminazis’, ‘gayzistas’, abortistas.21 Se o campo comum nasce do elogio dos conservadores ao liberalismo econômico, ele também decorre da adesão dos liberais econômicos ao conservadorismo moral, fortemente presente, por exemplo, nos diversos ataques do colunista Rodrigo Constantino, presidente do Instituto Liberal, a grupos minoritários.22

A atenção às minorias decorre também das ações do mais evidente inimigo dessa nova direita: PT. A opção do PT por um “reformismo fraco”, nas palavras de André Singer, sempre cioso em destacar sua plena adesão ao capitalismo, dificulta os ataques ao partido com o argumento da “comunização”, que se ampara em teorias conspiratórias do corte do Foro de São Paulo e em ataques contra os excessos da intervenção estatal, ambos argumentos que não encontram evidente apoio popular, nem mesmo na classe média.23 O partido, entretanto, fez avanços, ainda que tímidos, na área dos direitos de minorias, sobretudo através do fortalecimento de secretarias temáticas e da ampliação das cotas, e em certa valorização do Estado, abrindo campo para a exploração do desconforto e dos preconceitos de certa parcela da população em relação a esses movimentos. Na falta de movimentos de afronta ao capital que fornecessem combustível ao discurso do terror comunista, – os governos petistas não fizeram, por exemplo, movimentos semelhantes ao de Jango no Comício da Central – a nova direita foi em busca de pautas morais e de combate às agendas de reconhecimento das minorias como agendas para justificar os ataques ao campo da esquerda.

A conduta muitas vezes moderada não impediu que o PT surgisse como alvo preferencial. Aspecto que constitui o sexto, e último, elemento de aproximação entre as direitas. São inúmeros os textos e alguns livros destinados a atacar não somente a experiência petista à frente do governo – associada sempre à ideia de corrupção –, mas a própria constituição do partido. A retórica inflamada, comum aos atores que integram o grupo, alcança tons especialmente altos quando trata da instituição e dos seus principais líderes, que figuram como constante alvo de qualificações pejorativas e, por vezes, de diretas ofensas. O PT, nesse discurso, não apenas retoma velhos vícios do passado, representante maior do comunismo em terras nacionais, como produz graves problemas para o futuro, já que não vige no Brasil uma democracia, mas uma ditadura que silencia as vozes da direita e ilegitimamente lega o poder à esquerda.24 A plena deslegitimação do sistema democrático, presente no discurso de Olavo de Carvalho, encontra versões mais amenas em outros intelectuais. Permanece, entretanto, a chave que pinta o predomínio da esquerda, escancarada pelos governos petistas, como incompatível com a democracia representativa. Não basta derrotar essa esquerda nas urnas, mas é necessário apagar seus vestígios do cenário político brasileiro, já que não há eleições democráticas com a atual situação, que artificialmente transforma minorias ineptas em maiorias.

Ao longo deste texto, procuramos analisar sociologicamente o destaque na cena pública brasileira de uma fração de intelectuais que chamamos de “nova direita”. O que buscamos sustentar é que, não obstante a presença de intelectuais de direita não seja um fenômeno novo na história do Brasil, o protagonismo no debate público dos autores aqui analisados é uma novidade, quer seja quando se investiga a forma de inscrição deles na imprensa, na internet, nas rádios, no mercado editorial e nos diferentes institutos de perfil liberal que se fortaleceram ao longo dos últimos anos, quer seja quando se considera a retórica e os argumentos por eles mobilizados no debate público que, se por um lado, se ancoram em agendas clássicas da direita, por outro, passam por um processo de aggiornamento para se vincular às disputas políticas colocadas na conjuntura.

Nesse sentido, apontamos seis grandes hipóteses que contribuem para a compreensão do destaque que os intelectuais da “nova direita” vêm adquirindo na cena cultural e política do país: as mudanças no contexto internacional, a crescente distância da memória da ditadura militar, as transformações que tiveram curso na própria indústria cultural do país, sua capacidade aderir e construir uma forte rede institucional, a habilidade de se valer dos sucessos e fracassos da esquerda no Brasil e, por fim, a própria crise que o sistema partidário atravessa hoje no país.

Buscamos também chamar a atenção para a dificuldade de representar esses intelectuais como pertencentes a um todo homogêneo e monolítico, devendo-se, pelo contrário, ser ressaltadas as diferenças, particularidades e heterogeneidades em suas formas de inscrição na cena pública e nos argumentos por eles esposados nos debates travados com os diferentes setores da esquerda brasileira. Nesse sentido, ainda que seja possível identificar pontos de aproximação em suas agendas – crítica ao papel do Estado na regulação do livre mercado, na promoção da redistribuição de renda e na execução de políticas afirmativas orientadas para a inclusão de “minorias” e forte objeção à esquerda, de maneira geral, e ao PT, em particular –, eles possuem pontos de divergências que não podem ser negligenciados. Procuramos explorar essas divergências a partir das categorias “direita teórica” e “direita militante”, reconhecendo, por um lado, os pontos de contato entre os intelectuais agrupados nessas duas categorias e valorizando, por outro, aspectos divergentes dos intelectuais associados a cada um desses grupos específicos.

O texto parte do pressuposto de que a análise da retórica e das clivagens que organizam esses autores é fundamental para um mais refinado panorama do debate brasileiro contemporâneo, seja pela ampla influência que eles desempenham ou pelo que sua atuação expressa em relação às feições do atual estado da nossa ordem político-social. Para além de eventuais simpatias ideológicas ou apreciações intelectuais, não se pode ignorar os meandros de perspectivas que atravessam tão grande parte do espectro social, sob pena de perder elementos fundamentais para a compreensão do país que hoje desponta no horizonte.

 

Jorge Chaloub é professor do IBMEC-RIO.

jchaloub84@gmail.com

 

Fernando Perlatto é Professor do Departamento de História e do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF).

fperlatto@yahoo.com.br

 

 

NOTAS DE RODAPÉ

  1. Assumimos neste texto uma concepção de “intelectual” abrangente, privilegiando uma dimensão mais analítica do que normativa, encarando-o como uma “categoria social definida por seu papel ideológico”, ou seja, como “produtores diretos da esfera ideológica, os criadores de produtos ideológico-culturais”, o que engloba “escritores, artistas, poetas, filósofos, sábios, pesquisadores, publicistas, teólogos, certos tipos de jornalistas, certos tipos de professores e estudantes etc.” (LÖWY, 1976, p.1-2).
  2. O termo “direita” é aqui utilizado, de maneira mais ampla, a designar uma perspectiva crítica em relação a determinados valores e orientações políticas comumente associadas ao chamado campo progressista e à “esquerda”, a exemplo da defesa do papel do Estado (1) na regulação do livre mercado, (2) na promoção da redistribuição de renda, (3) na execução de políticas afirmativas orientadas para a inclusão de “minorias”. Ainda que com perspectivas diversas, todos os intelectuais analisados neste artigo se identificam na crítica a um ou a todas estas três perspectivas políticas identificadas com o campo progressista. É especialmente relevante destacar o fato de que esses intelectuais não renegam, sob a pecha de um arcaísmo retórico, como o faziam outrora, por exemplo, Carlos Lacerda e José Guilherme Merquior, a divisão da sociedade entre direita e esquerda, este, por sua vez, um usual mote de intelectuais vinculados a tal campo ideológico. A maior parte dos intelectuais aqui analisados reforça, em seus discursos, a divisão entre esquerda e direita, assim como requer e mobiliza orgulhosamente o título de direitistas, colocando sobre a esquerda o peso dos problemas enfrentados pelo país.
  3. “A doutrina neoconservadora, que ao longo dos anos 1970 se infiltrou no nosso cotidiano político por meio da imprensa, segue um esquema simples. De acordo com ela, o mundo moderno se restringe ao progresso técnico e ao crescimento capitalista; moderna e desejável é toda dinâmica social que remonta, em última instância, aos investimentos privados; carecem de proteção também as reservas motivacionais das quais se nutre essa dinâmica. E, contrapartida, são iminentes os perigos provocados pelas mudanças culturais, pelas mudanças de motivação e nas atitudes, dos deslocamentos nos padrões valorativos e identitário, atribuídas a uma irrupção de inovações culturais no mundo da vida, criando assim curtos-circuitos. Por isso, as reservas da tradição deveriam ser congeladas na medida do possível.” (HABERMAS, 2015, p. 83-84)
  4. Em obra mais recente, Jacques Rancière (2014) analisa intelectuais de perfil semelhante aos abordados por Habermas, preocupados, sobretudo, com a conjunção, em certos autores, do elogio à expansão global autocrática de governos ditos democráticos e com a recusa a qualquer expansão mais significativa da democracia social.
  5. O modelo seguido parece ser o dos think tanks conservadores americanos e canadenses, que viram seu número e influência crescer exponencialmente na década de 2000. Sobre o tema ver: THUNERT, 2003; MORAES, 2015, ROCHA, 2015.
  6. Disponível em http://www.institutomillenium.org.br/institucional/parceiros/
  7. A crítica ao relativismo é um argumento reiterado de certo conservadorismo. Um bom exemplo é a longa argumentação de Leo Strauss (2008) contra os pressupostos historicistas e relativistas abraçados por Max Weber.
  8. O relativismo não passa, segundo Olavo de Carvalho de recente moda: “Educado nos princípios do relativismo, (…) tive enorme dificuldade de admitir que no mundo há pessoas muito boas e pessoas muito más, separadas por um abismo irredutível. Hoje em dia, quem quer que proclame em voz alta a existência dessa diferença, que salta aos olhos na vida diária, é imediatamente acusado de ‘maniqueísmo’.” (CARVALHO, 2013, p. 59)
  9. O diagnóstico acerca da ausência do liberalismo no Brasil é, aliás, tema comum no discurso dos principais think tanks da nova direita, como o Instituto Millenium e o Instituto Liberal, e justificativa para a fundação do Partido Novo. Não à toa Constantino está vinculado a essas instituições. Em outro texto, o autor identifica as supostas razões do nosso atraso: “Esse preconceito ideológico anticapitalista tem sido o grande responsável por nossa incapacidade de migrar para o time dos países desenvolvidos (…). O Brasil testou vários “ismos” (…) O que realmente ainda não experimentamos foi mesmo o capitalismo liberal.” (CONSTANTINO, 2015b)
  10. Cabe lembrar que a ampla responsabilização das forças de esquerda pelas mais diversas mazelas é uma das características dos neoconservadores alemães segundo a obra acima citada de Jürgen Habermas.
  11. “após a ditadura, a esquerda tinha nas mãos as universidades, as escolas, as redações de jornal, grande parte dos tribunais e os principais partidos políticos (PT e PSDB são filhotes da esquerda).” (PONDÉ, 2012, p. 81)
  12. “Quem quer que estude as vidas de cada um deles descobrirá que Voltaire, Diderot, Jean-Jacques Rousseau, (…) Noam Chomsky e tutti quanti foram indivíduos sádicos, obsessivamente mentirosos, aproveitadores cínicos, vaidosos até a demência, desprovidos de qualquer sentimento moral superior e de qualquer boa intenção por mais mínima que fosse, exceto, talvez, no sentido de usar as palavras mais nobres para nomear os atos mais torpes. Muitos cometeram assassinatos pessoalmente, sem jamais demonstrar remorso. Outros foram estupradores ou exploradores de mulheres, opressores vis de seus empregados, agressores de suas esposas e filhos. Outros, orgulhosamente pedófilos. Em suma, o panteão dos ídolos do esquerdismo universal era uma galeria de deformidades morais de fazer inveja à lista de vilões da literatura universal. (…) Em contrapartida, os representantes das correntes opostas, conservadoras ou reacionárias, conforme fui descobrindo com ainda maior surpresa, eram quase invariavelmente seres humanos de alta qualidade moral, atestada não só na idoneidade do seu trabalho intelectual, (…) mas também nas circunstâncias do cotidiano e nos testes mais rigorosos da existência (…)” (CARVALHO, 2013, p. 137-138).
  13. “O projeto do governo mundial é originariamente comunista, e os grupos econômicos ocidentais que se deixaram seduzir pela ideia, esperando tirar proveito dela, sempre acabaram financiando movimentos comunistas ao mesmo tempo que expandiam globalmente seus próprios negócios. As fundações Ford e Rockefeller são os exemplos mais notórios. (…) Uma coisa é certa: nos anos setenta e oitenta, a globalização parecia favorecer os EUA, mas, na década seguinte, ela tomou o rumo bem claro de uma articulação mundial antiamericana e, por tabela, anti-israelense.” (CARVALHO, 2013, p. 154)
  14. “Não resta dúvida de que os tucanos são melhores do que os petistas, de que o PSDB é uma esquerda mais civilizada e que respeita em parte o mercado. Mas, ainda assim, a agenda do PSDB está muito distante do liberalismo que funcionou como alavanca para o progresso ocidental.” (CONSTANTINO, Rodrigo, Quem teme o novo?”. O Globo, 29/09/2015) “Nas próximas eleições, por exemplo, o país terá de optar novamente entre PT e PSDB, isto é, os dois filhotes monstruosos gerados no ventre da USP, a mãe da esterilidade nacional, ou como bem a sintetizou o poeta Bruno Tolentino, a “p… que não pariu”…” (CARVALHO, 2013, p. 576).
  15. O tema é recorrente nos textos do acadêmico Pondé: “As ciências humanas se tornaram incapazes de dialogar com a realidade. Criaram um ‘mundinho bobo de teses emancipatórias’ a serviço da masturbação intelectual. Afirmam que tudo é ‘construção social’, mesmo que uma pedra lhes caia sobre a cabeça todo dia. O nome disso é surto psicótico” (PONDÉ, 2015).
  16. Foram dois livros sobre o tema: VILLA, 2003, 2014.
  17. Deve-se ressaltar que Villa constrói visão bem mais amena do que outros intelectuais da nova direita, já que ele reconhece a dificuldade da direita em lidar com a democracia de então e destaca o papel relevante das forças sociais envolvidas no processo de redemocratização. Não é simples, entretanto, coordenar a produção do autor sobre o período com as ilações que ele constrói sobre o período atual, que também chama de ditadura, já que Villa muitas vezes parece sugerir, com total desprezo ante a experiência democrática recente, que o cenário contemporâneo é tão ou mais nefasto às liberdades individuais quanto o período autoritário.
  18. “Tudo na vida de uma democracia depende do seguinte: os cidadãos deixam-se mais facilmente persuadir por provas e documentos ou por um sorriso sarcástico de superioridade vagamente atemorizante? O sucesso de Barack Hussein Obama nos EUA, bem como o do Foro de São Paulo na América Latina, deveu-se inteiramente ao predomínio da segunda hipótese. Lá como cá, a grande mídia, em massa, esquivou-se à obrigação elementar de investigar e informar, preferindo um jogo de cena destinado a inibir, mediante a ameaça velada da humilhação e do ridículo, todas as perguntas politicamente indesejadas. (…). Leiam as atas do Foro de São Paulo. Cuba governa o continente.” (CARVALHO, 2013, p. 253-254).
  19. Um bom exemplo é BILAC PINTO, 1964.
  20. Como neste texto de 2009: “a maioria absoluta dos brasileiros, especialmente jovens, é um eleitorado maciçamente conservador desprovido de representação política, de ingresso nos debates intelectuais e de espaço na ‘grande mídia’. É um povo marginalizado, escorraçado da cena pública por aqueles que prometeram abrir-lhe as portas da democracia e da participação” (CARVALHO, 2013, p. 244).
  21. “O que separa da humanidade normal os abortistas, gayzistas, globalistas, marxistas, liberais materialistas e outras criaturas afetadas de “mentalidade revolucionária” não é uma questão de opinião ou crença: é uma diferença mais profunda, de ordem imaginativa e afetiva.” (CARVALHO, 2013, p. 181)
  22. “As feministas, por meio do politicamente correto, tentam nos convencer de que gênero é somente uma “construção social”, que segue uma criação arbitrária machista para o domínio patriarcal. Besteira! Meninos, desde muito cedo, mostram certas tendências diferentes das meninas no que diz respeito às brincadeiras. Até com outros animais isso acontece. Hormônios talvez expliquem a diferença.” (CONSTANTINO, 2013 p. 206)
  23. A demanda das classes mais pobres por um Estado fortemente interventor é um dos argumentos esposados por SINGER, 2012. Em recente pesquisa sobre as manifestações que ocorreram no dia 16 de agosto, Pablo Ortellado e Esther Solano também identificaram no público, majoritariamente pertencente às faixas mais altas de renda, uma forte simpatia à forte presença do Estado nas áreas da saúde e da educação. (ORTELLADO, SOLANO, 2015)
  24. “…a democracia brasileira é um doente em estado quase terminal. O jogo normal de esquerda e direita, que permite a continuidade do processo democrático e mantém os extremismos sob rédea curta, foi substituído por um sistema de controle monopolístico não só do poder estatal como da cultura e da mentalidade pública; controle tão eficiente que já não é percebido como tal” (CARVALHO, 2013, p. 99-100).

 

 

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