A Juventude Comunista de Antônio Paim

A Juventude Comunista de Antônio Paim

Se o Brasil tem uma história das ideias filosóficas, políticas e sociais, que explica a forma como o país se pensou ao longo do tempo, ainda não possui, todavia, uma história dessa história, ou seja, que conte quem foram aqueles que se dispuseram a destrinchá-la e difundi-la. Foi com o intuito de trazer à tona guardados do pensamento brasileiro que Insight-Inteligência resolveu procurar o decano entre os estudiosos da filosofia brasileira, Antônio Paim, conhecido defensor do liberalismo e autor de dezenas de livros, entre os quais o clássico “História das Ideias Filosóficas no Brasil” e o recentemente republicado “História do Liberalismo no Brasil”. Paim vive hoje em um retiro tão isolado quanto tranquilo, morando em um lar para idosos no bairro do Butantã, em São Paulo. Insight-Inteligência foi ao seu encontro em uma casa de repouso, espalhada como uma vila de três ruas e uma pracinha com repuxo ao centro, cercada de verde. Em seu discreto retiro, aos 91 anos, o professor permanece com o espírito irônico e arguto intacto. Imaginávamos que a entrevista escorreria pelo caminho natural da história das ideias, pautado pelo ontológico viés conservador que caracteriza Antônio Paim. E eis que o mestre nos surpreende, conduzindo a conversa para uma inusitada e saborosa revisita às suas memórias de membro do Partido Comunista. Quem diria, Paim foi um marxista roxo, trocava tiros com a polícia política, foi estudar na União Soviética stalinista e fez de Moscou o palco de ardentes aventuras amorosas. Para não nos deixar esquecer sua marca de pensador liberal, o professor deixou a descoberta da filosofia para o final. Um cálice de bom digestivo para ser degustado ao término do relato sobre sua trajetória engagé. Após os relatos, uma única certeza: de um lado ou de outro das visões ideológicas de mundo, Antônio Paim não verga.
Christian Lynch

Infância na Bahia
Nasci em 1927. Fomos criados por minha avó judia no interior da Bahia, na cidade de Jacobina. Mas dela me lembro pouco. Meu pai era seu único filho, comerciante. Depois ele mudou de atividade e veio para a zona do cacau, Itabuna, onde fiz o ginásio. Ele era promotor artístico, organizava uma filarmônica, e todos na minha casa foram obrigados a aprender música. Eu aprendi a tocar pistão. Meu irmão Gilberto Paim tocava saxofone muito bem. Naquele tempo você fazia o ginásio e, ao mesmo tempo, o tiro de guerra, que era obrigatório. Por incrível que pareça eu estava vocacionado para a área de ciências exatas e assim fui para o Rio, onde já estava o Gilberto, fazer o curso da escola politécnica. Meu irmão mais velho, Isaias Paim, fazia a escola de medicina e se tornou um psiquiatra muito conhecido. Ele também editou uma porrada de coisas, organizou o pensamento psiquiátrico. Talvez isso seja uma doença familiar, já que passei a vida fazendo a mesma coisa com a filosofia e o pensamento social brasileiro.
Quando eu cheguei ao Rio de Janeiro em 1943, para me inscrever no curso anexo da escola politécnica, o Brasil entrou na guerra e o tiro de guerra foi incorporado ao Exército. Eu passei os primeiros seis meses do Rio de Janeiro batendo continência! Meu padrinho era telegrafista e eu aprendi o código Morse; até hoje eu sei! Como eu tinha essa habilidade, eles me puseram para fazer um concurso na Aeronáutica; então eu fui aprovado e passei três anos como sargento. Fiquei seis meses na base aérea na Bahia, de onde passei a Fortaleza e por fim no Quartel General do Recife. Naquele tempo, o Eduardo Gomes era o comandante da segunda zona aérea e todos nós, aquela juventude fogosa, queríamos ir para a guerra; nosso sonho era entrar no tal curso expedicionário que, na nossa cabeça, seria organizado pelo Eduardo Gomes. O Getúlio, que não era bobo e via que ele era um opositor potencial, botou o outro sujeito para dirigir a Aeronáutica, e nós não entramos.

A descoberta do “Partidão”
O jornalista Osvaldo Peralva, que foi diretor do Correio da Manhã e correspondente da Folha de S. Paulo em Pequim, era um sujeito muito próximo da minha família. Seu pai era espanhol, voltou para a Espanha durante a guerra para o serviço militar e deixou os filhos num município próximo de Jacobina. O Osvaldo foi educado como um irmão mais velho. No serviço militar ele tinha entrado para o Partido Comunista, então lá fui eu a reboque. Na época havia no PCB o chamado “Grupo Baiano”; quando o Diogenes Arruda Câmara, um dos fundadores e dirigente do Partido Comunista Brasileiro, saiu do PC, o Giocondo, militar e político brasileiro, ex-secretário geral e presidente de honra do PCB, ficou de chefe e virou uma espécie de secretário do Luiz Carlos Prestes. Eu era muito garoto, todo entusiasmo; eu gostava mesmo de dançar e das meninas, era um garoto como qualquer outro. Mesmo depois que estava no Partido Comunista (PCB) eu frequentava a Estudantina. O certo é que eu entrei para o Partido Comunista formalmente, mas, na minha cabeça, no tempo da Aeronáutica, eu não era comuna. Eu tinha interesse, tinha lido as coisas, mas não estava programado. Mas, como eu não tive uma carreira militar, quando acabou o serviço na Força Aérea, fui trabalhar na Tribuna Popular. Era o diário do partido comunista, cujo chefe da redação era de uma família ilustre da Bahia, os Couto Ferraz.
O comunismo saiu muito fortalecido da guerra; a gente torcia por Stalingrado. Todo mundo entrou no PCB: Jorge Amado, Portinari… O Carlos Drummond de Andrade era um dos diretores da Tribuna Popular no meu tempo. Eu não sabia disso na época, mas fui sendo preparado para ser secretário do jornal, que era o sujeito que editava o jornal de madrugada. Era uma responsabilidade filha da mãe, você faz a manchete e no dia seguinte está todo mundo criticando, comparando as opiniões dos jornais. Eu trabalhei na sessão sindical com a Maria da Graça Dutra, que era parente do Dutra e do PCB, uma confusão danada! Trabalhei com João Saldanha na edição de jornal. Eu era jornalista, virei jornalista, tirei carteiro de jornalista e aprendi aquele negócio. Só que o demônio do bolchevismo acabou se entranhando em mim.

A “civilizada” convivência com o DOPS
A Tribuna Popular funcionava na Rua da Relação, em frente ao Departamento de Ordem Política e Social (DOPS). O Cecil de Macedo Borer era o chefe da polícia. Só ficava um botequim aberto na esquina e, então, a gente tomava café junto. Ele dizia: “Eu te pego… Eu vou te pegar…”. Mas era uma convivência civilizada, porque naquela época não reagíamos à polícia. Só que então nós ganhamos a eleição municipal e a diretoria da Câmara virou toda comuna, com o Amarildo de Vasconcelos como primeiro secretário. Naquela época o Rio era a Capital Federal, então o secretário foi apresentado ao Dutra e ele disse ao Amarildo: “Eu vou destruir vocês, não tenham ilusão nenhuma não. O lugar de comunista é na Rússia, aqui não cabe, aqui não tem lugar para vocês”. E eu fui mais ou menos pego para bode expiatório desse negócio. O jornal vivia sob sucessivas intervenções; o delegado chegava e mostrava ordem judicial para fechar o jornal. Nós nos preparamos ali na oficina; tinha um grupo do PC que foi posto lá para resistir. Não era meu caso, eu era o secretário do jornal e exercia minhas funções. Mas naquele dia o delegado não levou ordem judicial nenhuma. Eu dizia para ele: “Não vou deixar você entrar”. Ele disse: “Abre a porta” e eu respondia: “Não vou abrir porra nenhuma”. Aí nós começamos a atirar e eles tomaram um susto. O PC não reagia; os comunas estavam acostumados a levar porrada e ficarem quietos, né? Então nós resistimos, demos tiro para burro na polícia. Lá pelas tantas eles conseguiram abrir a porta e botaram bomba de gás lá dentro. Tivemos que sair. Tem fotografia da época, eu todo ensanguentado. Não me lembro se levei tiro, mas fiquei com um buraco na cabeça. Eu era muito garoto, tinha 20 anos por aí. A polícia não parava de dar porrada, cacetada!

A experiência da prisão
Fui imediatamente em cana. É a pior coisa do mundo! Fiquei primeiro na Casa de Detenção da Rua Frei Caneca. Havia um coronel aposentado do Exército cujo propósito era me matar. Eu era maluco, quero dizer, eu era um menino, não levava desaforo para casa. Uma vez ele tentou me pegar e eu quase quebrei o braço dele. Por causa disso fiquei seis meses num cubículo com três caras, colegas de crime. Eu fui preso como gráfico, e havia uns vinte e tantos gráficos presos lá por conta do incidente na Tribuna Popular. Só eu era o comuna. Tinham uns dois ou três que serviam de segurança, colocados pelo PCB para dar tiro, para resistir. O que fizeram conosco na cadeia foi uma barbaridade, troço primário. Um garoto como eu, de vinte anos de idade, tratado daquela maneira… Não tinha conversa, era uma violência danada! Ou você resistia pela dignidade pessoal ou passava para o outro lado.
Naquela época houve um comitê da Câmara dos Deputados para averiguar aquelas prisões. Era o José Bonifácio de Andrada o presidente e eu estava cumprindo pena na solitária. Eu dormia no chão com aquela calça de prisioneiro e nu da cintura para cima, dormindo no cimento, no azulejo. Era uma solitária, era para liquidar o cara. Eu ainda não tinha nem sequer a condenação. Eu menino, garoto, com a barba para fazer, pé descalço, sem camisa… O Bonifácio ficou horrorizado. A Câmara não avisou, não preparou nem nada, chegou lá para pegar mesmo a coisa como era. Então eles me tiraram da solitária. Fizeram um projeto de anistia e o advogado da Tribuna Popular fez aquilo virar um caso rumoroso, “um grupo de jornalistas presos” – era o que dizia. O único sujeito que era realmente jornalista era eu, o resto tudo era operário e fora dois ou três infiltrados. Quando saímos da solitária, eu, afinal, fui julgado e condenado a sete anos de prisão.

O coletivo e a manicure
Quando chegamos à penitenciária, o PC mantinha uma coisa chamada “coletivo”, que organizava os presos e tinha um como porta voz. Eu fui eleito presidente do coletivo e fui me entender com o Costa Pinto, o diretor, que era um sujeito muito civilizado. Fizemos logo um acordo. Ele disse: “Olha, vocês são comunistas, ainda não foram reconhecidos como presos políticos, mas vão acabar sendo. Mas veja: prisão é prisão. Aconselho você a botar esse seu pessoal para trabalhar. Todo mundo trabalha aqui. Eu procuro criar um certo ambiente para recuperar o preso, porque esse troço aqui é para reintegrar o sujeito na sociedade, não é para acabar com o cara nem nada”. Era um homem muito civilizado o Costa Pinto… Tinha uma visita íntima semanal. Eu disse para ele “não sou casado, então não vou ficar aqui tocando punheta”. Vê que coisa engraçada: eu era um sujeito absolutamente normal, quer dizer, não sei por que virei um comuna. Eu tinha arranjado uma manicure, a Jane, num baile semanal que frequentava na época da Politécnica. Ela era uma trepadeira furibunda! Eu me lembro que saía do jornal duas horas da madrugada e andei morando um tempo com ela. Eu chegava cansadíssimo, não queria saber de coisa nenhuma; mas, quando eu chegava, ela acendia a luz e aí… Então o Costa Pinto me disse: “Bom eu não vou pedir carteira de identidade nenhuma”. Então ela ia uma vez por semana lá.
Havia uns alemães e o Costa Pinto dizia: “Esse pessoal não é civilizado não, mas é preciso dar um pouco de civilidade para eles. Vamos botar todo mundo junto”. Ele reconheceu éramos presos políticos e então passamos a vestir roupa normal, mas a condição era conviver com os alemães. Era depois da guerra, eram nazistas presos de navio e de submarino alemães, havia engenheiros e eles trabalhavam. Tinha uns comunas que não queriam, mas eu impus aquilo e tinha que vigiar para que os meus comunas não os hostilizassem. Era uma convivência complicada. O Costa Pinto dizia: “Bota esse cara para trabalhar, bota um para ser encadernador, outro para fazer roupa, outro para não sei o que, que os seus comunas não vai te aporrinhar. E você tem que arranjar um emprego também! Vou arranjar um bom emprego para você: vai ser diretor da biblioteca, desde que assumir o compromisso de que não vai fazer nenhuma sacanagem comigo”. Aí eu pus ordem nos meus estudos: li todo Silvio Romero, descobri o Tobias Barreto… Que diferença entre eles e essa bobagem do PCB, de marxismo!

De volta às ruas
A privação de liberdade é a pior coisa que pode acontecer para um sujeito. No início da década de 50 eu saí da cadeia e fiz a seguinte provocação: fui no mesmo dia direto para o café onde encontrava o Borer, o chefe da polícia. Ele disse: “Mas vocês são uns irresponsáveis, vocês não veem que não cabe isso, vão provocar a mãe!” Eu já estava sendo preparado para ser um bolchevique e um bolchevique não tem alma, não tem parente, não tem filho, não tem mulher, não tem nada… E eu estava nessa. Saí da prisão e o PC me treinou para viver na ilegalidade. Fui ser secretário do Partido Comunista no Recife. Aquilo me serviu muito para conhecer essa elite brasileira! Eu era dirigente do Partido Comunista, havia uma greve atrás da outra e eu fui um dia assistir a saída dos operários de uma fábrica de tecido. O operário veio me pedir esmola! Saiu com pé descalço, um operário! Quer dizer: uma elite de merda! Aquilo só serviu para me fortalecer, e eu estava sendo preparado para fazer o curso na Rússia.

Estação Moscou
Eu fui para Rússia em 1953. O curso era em uma escola agregada à famosa Universidade Lomonosov. Era um curso de Marxismo, um ano e meio. Eu tinha decidido então virar um bolchevique, ser dirigente comunista para valer! A família que vá para a merda e tudo! Eu estava sendo preparado para virar uma besta e aconteceu o seguinte: tinha uma moça que era tradutora para auxiliar o professor nas aulas de russo. Eu aprendi russo com uma facilidade imensa, então toda vez que essa tradutora encrencava numa palavra, ela olhava para mim e eu dizia o significado; então ficou uma espécie de um namoro público, uma paixão descabelada… E o tal bolchevismo foi para o beleléu! Foi um processo de humanização.
Aí eu empombei e resolvi casar com ela. Então quando terminou o curso de um ano e meio eu vim para o Brasil disposto a casar com ela, que ficou grávida na Rússia e teve que fazer um aborto. Bom naturalmente os comunas resistiram. Então, eu dei uma banana para esses caras e voltei por minha conta para a Rússia. Pedi uma grana para o meu pai, a quem eu havia hostilizado todo esse tempo. Ele me dizia na época da prisão: “Você não tem nada a ver com essa gente”. Ele era um comerciante, diretor de associação comercial de Itabuna e era da UDN; ele era admirador de rui Barbosa. Aí eu consegui, casei com a russa. Ela se chamava Margarita Anatolia Vinachi. Mas cadê que a deixavam sair? Não deixavam. A mãe, Palina Gregória, era uma alta funcionária do Comitê Central do PC e eu não sabia de nada disso quando eu comecei a namorar. Na Rússia, Antônio Paim não existe, eu era Antonio filho do José, Antonio Josefovitch. Na intimidade não existe esse negócio de você chamar o cara pelo nome, é uma maneira civilizada de se tratar do ponto de vista do russo.

Debruçado sobre Marx
Na volta à Rússia eu passei a ser uma espécie de secretário do Silva Lobo, que era o diretor do PC para o Brasil. O Arruda, quando ia em Moscou, falava com ele. Era o homem que mandava na história. Ele era muito amigo da Palina, minha sogra. Morávamos no mesmo prédio, mas a polícia política não admitiu, porque eu era um estrangeiro. Passei um tempo morando mal para burro. As condições de moradia na Rússia era um troço horroroso. Depois arranjaram para mim um local muito bom, anexo de um hotel, um quarto e sala, mas muito cômodo. A primeira coisa que o Silva Lobo fazia de manhã cedo era ler os jornais brasileiros e me perguntava uma lista de coisas. “BNDE, o que é BNDE?”; “O Prestes era positivista?” Para mim estava tudo muito cômodo, eu voltei a estudar na Lomonosov, onde reuni o material para o meu livro que viria a escrever décadas depois, “Marxismo e Descendência”. O Lenin disse que o Marxismo tem três fontes e três partes integrantes: o Socialismo Francês, a Economia Inglesa e o Idealismo Alemão. Eu fiz essa porra, quer dizer, eu li esses caras todos.
A Universidade era um troço organizado: você tinha uma exposição sobre o primeiro capítulo do Capital, de Marx, então se fazia um seminário; você precisava responder umas perguntas e eu sempre levava minhas dúvidas para o chefe do departamento de filosofia. Ele sempre muito interessado, simpático comigo e com meu namoro com a moça, que havia assistente sua. Durante o curso inicial, nós ficávamos numa espécie de internato, uma casa com comunas brasileiros, comíamos e dormíamos ali. Aqueles prédios exuberantes da prosperidade soviética, aqueles troços monumentais da Lomonosov, pertenciam à parte das ciências exatas. O curso de filosofia e de direito era no centro velho de Moscou, funcionando nos prédios velhos do tempo anterior à Revolução.

Palina, uma mulher de colhões!
O negócio na Rússia estava muito cômodo para a família de Margarita. A velha tinha ficado incumbida pelo Stálin de levar um trem cheio de dinheiro para fora de Moscou, quando os alemães estavam chegando. A mulher tinha colhões! Palina Gregória era uma heroína de guerra, tinha confiança do partido. Ela deve ter manobrado para que nós conseguíssemos voltar para o Brasil. A Margarita era uma mulher culta, era professora de espanhol na Universidade, então ela aproveitou o tempo que ficou aqui e fez o curso de literatura brasileira com o Alceu Amoroso Lima. Uma russa culta e inteligente aprendendo Mário de Andrade, Machado de Assis… Todo mundo aqui ficava encantado, mesmo o Alceu, o suprassumo da direita. A Margarita aproveitou bem essa estada no Brasil, fez um dicionário Russo/Português e traduziu o Machado de Assis. Mas o período aqui foi uma maluquice, impossível! Eu não sabia que na Rússia as netas eram criadas pela vovó, então a Palina Gregória ficava aporrinhando, que a neta que estava no Brasil. Eu estava em negociação com a embaixadora russa no Uruguai para ela ir uma vez por ano à Rússia, mas não dava.

Regresso ao Brasil
Ao voltar para o Brasil, arranjei um bom emprego quando voltei. Meu irmão Gilberto era um sujeito de prestígio, professor da Fundação Getúlio Vargas. Então, ele me arranjou um emprego na Santa Matilde, fabricante da indústria ferroviária. Era um troço enorme! Eu era assessor do presidente. Eu não aguentaria voltar para Rússia. Eu tinha ficado na Rússia quatro anos e pouco; tinha passado cinco invernos lá e não ia passar o sexto de jeito nenhum! 27 graus abaixo de zero. Você não tem mais o que vestir. Eu fiquei anos a fio com aquela porra daquela cueca comprida e tinha um sapato de lã… não dava. Nós tivemos uma criança, que foi um processo de humanização muito bom para mim. Aquela coisinha pequena que manda para burro, parece que nada, mas manda.
Você vê como é o acerto das coisas. Eu fui para o ramo da fabricação de vagões, estudei aquela porra, as máquinas, as opções, o que podia ser feito. Fiquei um mês em Conselheiro Lafaiete estudando os custos de produção, conforme ensinou o Adam Smith. Então, eu descobri a estrutura metálica para fabricação de vagões. Eu dei essa opção a eles, mas o Sardinha, o presidente da empresa, não gostou. Então eu me mancomunei com o diretor técnico e entramos numa concorrência para fazer estrutura metálica de uma usina independente. Anos de produção e ganhando um preço fora do cartel. Logo depois o pessoal do cartel esteve lá para chegar a um acordo. Eu não tinha o que fazer mais lá.

Adeus Stalin
Margarita acabou voltando para Rússia com a criança. Eu retornei em 58 para tirar a menina de lá. Elas regressaram e ainda ficaram mais três anos comigo. Na época havia saído o Relatório Kruschev. Era impossível aceitar aquilo. O Stalin era um bandido, matou todo mundo, e eu havia sido criado para ser a imagem e semelhança do Partido Comunista bolchevique. Era uma idolatria! Só o Arruda podia usar o bigode como o do Stalin. Não dava para continuar, então eu sai do Partidão. Todo mundo saiu! No livro do Peralva, O Retrato, ele conta a história direito.
E o marxismo? O que vou fazer com o marxismo? Na universidade eu havia aprendido na ponta da língua toda a crítica marxista a Aristóteles, a crítica marxista a Platão, a crítica marxista a Kant. Eu li e traduzi O Capital de cabo a rabo. Eu me lembro que, quando morava lá, levei uma queda andando de esqui e fui para um hospital junto com um professor de economia política. Um dia entrou uma mulher e disse algo que não entendi. Eu perguntei o que significava, e ele respondeu que era “Tire a calça”! Ele ficou espantado, porque eu não sabia! Eu sabia o Capital de cór, mas não sabia dizer as coisas banais.
Depois de voltar da Rússia, em 1958, eu me matriculei na Faculdade Nacional de Filosofia. Eu conhecia o Wanderley Guilherme dos Santos e fiquei muito amigo dele. O Wanderley é o sujeito mais inteligente da minha geração. Eu me matriculei na cadeira de Kant, lecionada por Álvaro Vieira Pinto. Mas era um troço estranho: um sujeito que estudou em Lomonosov e acaba assistindo um curso de Kant na Faculdade Nacional de Filosofia. Então o Vieira Pinto veio me perguntar o que eu estava fazendo ali, e eu contei a história: “Eu tenho que sair do marxismo e para sair do marxismo eu tenho que primeiro ler o que nunca li”. O Álvaro Vieira Pinto sabia russo, e eu dei para ele uma porra da de livros que trouxe. Eu estava saindo do marxismo quando todo mundo na academia estava entrando.

A descoberta da filosofia
O pessoal da faculdade de filosofia me recomendou estudar com um engenheiro da Politécnica que era um alemão que sabia tudo de Kant e poderia me ensinar melhor que o curso da Faculdade. Ele se chamava Leandro Ratisbona. Eu me aproximei dele e lemos as Críticas da Razão Pura e da Razão Prática, página por página. Foi um aprendizado. Eu o chamava de “terapeuta kantiano”! Todo sábado eu ia na casa dele, era quase no fim da rua Barata Ribeiro, uma rua transversal… Eu ficava em pé na porta esperando a hora, porque o Ratisbona era um cara pontual. Como Kant.
Naquela época eu estava entrando na filosofia brasileira. Quando fui diretor da biblioteca da Penitenciária, eu li Tobias Barreto. Quando sai de lá, comprei os dez volumes da edição de suas obras, publicada no Sergipe. Rasguei aquilo tudo e fiz um volume só. Em 1875 o Silvio Romero tinha feito o concurso para catedrático na Universidade do Recife e não passou, por ter defendido que a metafísica estava morta. Aí o Tobias Barreto resolveu se dedicar à questão: será que morreu mesmo? Só que ele era muito desleixado, publicava desorganizadamente; mandava para o que escrevia para o Silvio Romero, que editava. Eu consegui reconstruir esse processo que é considerado um marco inicial da Escola do Recife, e eu dei o nome de Humanismo. Meu livro sobre a Escola do Recife eu fiz quando já tinha 30 anos, em 1957.
Naquela época em matéria de filosofia brasileira, tinha o Padre Leonel, teólogo e filósofo, fundador da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, que fez o estudo dos católicos, e o João Cruz Costa, professor da faculdade de filosofia da Universidade de São Paulo, que afirmou que tudo é importação. Mas há um que cala no meu espírito: Leônidas de Resende. Eu consegui reeditar sua obra “A Formação do Capital e seu Desenvolvimento”. É importantíssimo para entender o marxismo brasileiro, porque é uma versão positivista da doutrina de Marx. Foi o jeito que ele encontrou de vender o marxismo no Brasil. Em “Marxismo e Descendência” eu explorei um pouco a ideia de que o marxismo só prosperou em alguns lugares onde eles conseguiram se relacionar com um problema local. Na Rússia, por exemplo, foi o patrimonialismo.
Comecei a participar do Instituto Brasileiro de Filosofia (IBF). O cabeça era o Miguel Reale, jurista e filósofo brasileiro. Um dos fundadores do Movimento Integralista, Reali era um sujeito extremamente inteligente. Na época que eu o conheci ele era muito hostilizado. Se você vinha do comunismo era perdoado, mas se você vinha do integralismo, não. Um israelense dizia: “É como um cachorro com uma lata amarrada no rabo”. Fizeram um esforço danado para tirar a marca do San Tiago Dantas, professor e político brasileiro, que participou do integralismo na juventude, mas nos anos 50 e 60 foi um dos principais líderes da “esquerda moderada” do PTB, defendendo as reformas de base. Por que o cara não pode ter sido integralista? Era um pecado capital! O Guerreiro Ramos, que foi um dos fundadores do Instituto Superior de Estudos Brasileiros, só se livrou do estigma, porque era um menino sem importância no movimento.
Na época se discutia muito se existia uma filosofia brasileira. O Reale quebrou a ideia de que a filosofia era toda cosmopolita e lidava com os mesmos problemas universais, ao dizer que o que faz a filosofia andar são as questões e que elas variavam conforme o país. Ele. O Reale foi para o México e ficou muito próximo dos discípulos de Ortega y Gasset. Depois ele passou dois anos integrando o Conselho Federal de Cultura; vinha para o Rio de Janeiro e jantava na minha casa. Eu convidava o jurista Evaristo de Moraes e o Ubiratan Borges de Macedo (1937/2007), professor de filosofia e pensamento político-social brasileiro, que era muito ligado ao Reale por ter sido aluno dele em São Paulo. Também havia em torno do estudo da filosofia brasileira criado pelo Reale os filósofos Washington Vita, que foi diretor-executivo do Instituto Brasileiro de Filosofia, Roque Spencer, também historiador, educador e jornalista, e o Nelson Saldanha, autor de diversas obras, entre as quais ‘Formação da Teoria Constitucional’. O Vita era o grande articulador! O Reale tinha conseguido que a filosofia brasileira figurasse como disciplina obrigatória no último ano do curso de filosofia. Por isso ele fez um acordo com a PUC para formar professores. Mas o Reale fazia milhares de outras coisas e o lugar tenente dele ficou sendo o Luiz Washington Vita. A Revista Brasileira de Filosofia foi invenção dele. Outra grande sorte da minha vida foi conhecê-lo. O Vita era um trabalhador. Logo depois dessa época, a russa foi embora. Então comecei a ter uma vida de esbórnia, em uma irresponsabilidade total. Casei novamente com uma colega da faculdade de filosofia, era muito bonita: Maria Inês. Tive um filho com ela e logo saí de casa. Mas isso já é outra história…

 

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