A inexorável dialética do petróleo

A inexorável dialética do petróleo

René Garcia, Economista

 

O velho sábio diria: meninos, olhem para o petróleo! Olhem para o petróleo.

Projeções que até bem pouco tempo pareceriam impensáveis começam a brotar da terra em um jorro que esguicha e mancha as planilhas dos mais argutos analistas de mercado. As apostas hoje levam o preço do barril de petróleo ao patamar de 200 dólares nos próximos meses, produzindo um impacto nuclear nas mais críveis elaborações sobre um tal de “desenvolvimento sustentável”. Esse valor deve ser alcançado a despeito da realidade aparente, esta sim uma página de livro, parte em branco, que até o momento vem sendo escrita pelo Dr. Pangloss, a encarnação do otimismo idealizada por Voltaire. O presente é muitas vezes um simulacro. Senão, vejamos. A oferta mundial de petróleo bruto permanece excepcionalmente forte. A Líbia já retomou parte expressiva da sua produção, abalada pelas perturbações políticas que praticamente a tiraram do mercado em 2011. A Arábia Saudita está gerando sua maior produção em três décadas. Um assombro para muitos que o ouro volte a ser negro.

As pesquisas sobre a evolução do preço do petróleo estão baseadas em alguns fatores relevantes. Os coeficientes de produção e a matriz energética de cada país, nas quais os componentes fósseis se mostram determinantes, são os principais fatores. As tecnologias nesse campo não devem sofrer grandes alterações de padrão no horizonte dos próximos 10 anos. Pelo menos é o que esperam os especialistas mais renomados. Em outras palavras, é exígua a possibilidade de reversão tecnológica para uso de outro combustível. O elevado crescimento do consumo de combustível pela Índia e China são fatores adicionais, principalmente quando consideramos a dependência externa a que estão submetidas essas nações Em contrapartida, enquanto a demanda tem sido até agora ascendente, a capacidade de produção tem sido reduzida e os custos de produção prosseguem subindo. O cenário revela-se improvável de ser aliviado no curto prazo. Improvável? Praticamente impossível.

Com tudo isso, a trajetória do preço do petróleo deve permanecer em elevação, em um ritmo inquietante. Mas esse pico dos 200 dólares não é pura e simplesmente hipotético. Diversos relatórios sobre perspectivas econômicas e tendências de flutuações nos preços do Oil Cru, patrocinados pelo FMI, têm alertado para uma forte contração na oferta da commodity – com uma trajetória ascendente dos preços e um possível aumento de até 30 %. Eles explicitam a provável borrasca de efeitos danosos sobre uma economia mundial que já se debate febril. Durante a crise do petróleo dos anos de 1970-1980, o preço subiu a 14 dólares. Se corrigíssemos esse valor a níveis de hoje, atingiríamos algo em torno de 140 ou 145 dólares. Ou seja, os preços atuais estão bastante próximos da mais grave crise ocorrida no passado. O fator adicional, porém, é que a produtividade do setor exportador de petróleo está declinando.

Ou seja: é preciso olhar muito além do jardim, onde tudo o mais são os cactos da escassez de petróleo associada ao aumento do custo de produção.

 

Multipolaridade global

Vivemos uma conjuntura de extremos múltiplos à imagem de um serpentário coalhado de ofídios. A multipolaridade é a patologia central do mundo econômico. A enfermidade se revela a olhos vistos: demanda por petróleo e seus derivados ainda ascendente, taxa de crescimento em elevação em países sem produção própria, distúrbios políticos, subsídios nos preços ao consumidor, custo de exploração em alta, redução do uso da energia nuclear em países como França, Alemanha e Japão. Ao mesmo tempo, temos um custo de produção demasiadamente elevado para o uso de energia eólica e ausência de mudança tecnológica substantiva, capaz de alterar a demanda sobre o petróleo. Essa combinação de sintomas inspira projeções fatalistas. Tempos difíceis.

 

Para além da dinâmica dos preços do barril, uma questão a discutir é se esse movimento conduzirá o mundo a uma nova correlação de forças, como ocorreu na crise dos petrodólares da década de 1980. Dificilmente alguém discordará de que a origem de todos os grandes conflitos do século XX foi marcada pelo petróleo. Da criação do Iraque à estratégia de Hitler rumo ao caminho dos bálticos e da Rússia. A geopolítica sempre foi determinante para o petróleo, e vice-versa. Mas também sabemos pela história que, se houve um forte impacto na distribuição financeira dos recursos, não ocorreu nenhuma alteração significativa em matéria de crescimento econômico. A enxurrada de petrodólares resultou, no fundo, no ingresso de uma dinheirama nas instituições financeiras norte-americanas e europeias, que ficou conhecida como a reciclagem dos petrodólares.

O mundo não tem especificamente problemas de liquidez, como bem sabe a tautologia contábil. Isso nos garante que o total de haveres financeiros é igual às obrigações e déficits orçamentários – o somatório das disponibilidades em ativos financeiros é proporcional ao estoque de endividamento dos países.

Em outras palavras, a economia global não exibe hoje problema de equação de crédito, e, sim, de balanceamento e fluidez de recursos. Se somarmos todo o caixa que está aplicado nas instituições financeiras, o valor é correspondente ao endividamento do setor público global. A dificuldade de acesso ao crédito é justamente porque o dinheiro está empoçado. Insistindo: não temos hoje um problema de liquidez, mas de definição do preço do crédito. As 100 maiores empresas dos Estados Unidos atualmente detêm o equivalente a 46% dos seus ativos sob a forma de liquidez imediata.

Trata-se da maior relação histórica desde a 2ª Guerra Mundial. E, como a trajetória dos países da Europa ainda é de forte crise, os prêmios pagos têm tendência a uma elevação ainda maior.

Evidentemente os países árabes são credores/aplicadores. Entretanto, recentemente, passaram a apresentar a necessidade de entrada de divisas e até déficits no balanço de pagamentos – se já foram fontes primarias na recepção desse fluxo financeiro, hoje o cenário mudou. É também importante ressaltar que os movimentos políticos do presente revelam-se extremamente delicados e relevantes para a definição dessa corrente de recursos. No modelo original de reciclagem de petróleo, havia um padrão de fluxo financeiro já determinado. As lideranças políticas desses países estavam claramente engajadas num movimento de acumulação financeira.

 

Hoje a realidade é distinta. O mundo árabe enfrenta dilemas econômicos. Há forte desemprego estrutural. Mais de 30% da população são formados por jovens, com pouca capacidade de colocação no mercado de trabalho. A economia demonstra baixo poder de absorção e os melhores empregos estão nas mãos de estrangeiros. Essa combinação significa pequena possibilidade de incremento do PIB local e um coeficiente de alteração na distribuição de renda. A empregabilidade e o futuro da juventude árabe esbarram na representação política e na capacidade desses países escolherem um formato de desenvolvimento próprio, ancorado em modelos de industrialização e valor agregado. A discussão democrática não faz parte do conteúdo político da região. A ausência de partidos políticos e a possibilidade de radicalização islâmica ampliam as incertezas. E aqui reside o ponto possível de ruptura: a ampliação e ressonância de demandas legítimas de parte expressiva das populações árabes. Ou seja: a incapacidade na oferta de projetos e alternativas econômicas compatíveis com as especificações de um mundo sôfrego por eficiência e produtividade, que, a curto prazo, são barreiras ao suprimento de empregos e geração de renda aos jovens trabalhadores árabes.

Em síntese, a geopolítica é um elemento extremamente determinante nos cenários em estudo, seja pelo lado dos países árabes, seja, notadamente, pela questão financeira envolvendo a Índia e sua equação de importações de petróleo. Por outro lado, a China está num movimento de forte inserção em territórios e regiões que potencialmente podem se transformar num novo reduto do combustível – caso da África, onde os chineses detêm hoje 40% da terra agriculturável e das prospecções de petróleo. O cenário geopolítico atual também leva a um arrefecimento da questão estratégica envolvendo as relações entre Estados Unidos e China, Estados Unidos e o mundo árabe, a Índia e sua inserção global. Os interesses são mais comuns entre China e Índia, e entre Estados Unidos e China. Não por coincidência, os chineses vêm se preocupando cada vez mais com seu aparelhamento militar para fazer frente às suas fragilidades de proteção e defesa de suas linhas de comércio internacional. Será esse cenário a realidade ou apenas um novo simulacro? Melhor seguir as pegadas do petróleo.

 

Mãos encardidas

Em 1921, Churchill chegou a dizer: “Não sei bem o que o povo afegão deseja, mas sei que eles precisam cumprir nossos interesses”. Se é verdade que o petróleo está nas mãos de países supostamente pouco confiáveis para o Ocidente, também é verdade que a confiabilidade do lado ocidental pode igualmente ser questionada. Mas é fato que as relações de parceria entre Estados Unidos e China, por exemplo, têm crescido violentamente. Aquele conflito bipolar, típico das tensões entre norte-americanos e soviéticos, não se repete no presente quando se trata da relação com chineses. São irmãos siameses, convenientemente unidos. Um carrega o outro, em um malabarismo contorcionista, pois a cada troca de passos aproximam-se dos cumes de um abismo. Nesse jogo de espelhos, o reflexo projetado pela exibição da imagem reversa alterna a visão dos atores, criando isoladamente a percepção de que o outro é que está mais próximo do despenhadeiro.

Nos anos 80, houve uma crise conduzida, ou controlada, por um cartel que comandava os preços. Os países árabes eram detentores das reservas, conversavam entre si e ditavam os preços. Eles se juntavam não em movimento de afronta aos interesses da Europa e dos Estados Unidos, e sim como um mecanismo de ganho de caixa de curto prazo. Naquele momento, as empresas do mundo árabe haviam sido nacionalizadas. Hoje isso não se repete. Todos os processos correntes no Iraque e na Líbia têm participação das empresas norte-americanas e europeias como parceiras na produção de petróleo. Na invasão da Líbia, o presidente Barack Obama sublinhou o quanto os interesses dos Estados Unidos seriam preservados. A nova Líbia seria construída e estimulada com a participação das empresas norte-americanas.

 

Em outras palavras, é bastante diferente termos ditadores sócios do modelo, como era alguns anos atrás, e controles fatiados por empresas que não seguem uma lógica patriótica. A decisão, no presente, se dá por instrumentos de alocação de resultados de curto prazo, e não por estratégias dominantes de países. A crise organizada do passado se transformou numa crise fracionada tanto em termos de formação de preços quanto em estratégia e decisão de blocos. Os países consumidores estão em situação de fragilidade, dependência e carência. O universo dos fornecedores é baseado em interesses extremamente fatiados, ancorados na maximização dos ganhos de curto prazo e sem perspectivas de investimentos. Eles sabem que os custos de produção serão elevados e, portanto, quanto mais resultados no curto prazo, maiores serão seus benefícios. A escassez, uma vez administrada, produz ganhos no horizonte mais breve superiores aos decorrentes da realização de investimentos de demorada maturação. A longo prazo, estaremos todos mortos, disse um certo inglês.

Não há espaço para teoria dos jogos nesse cenário. O modelo é não-cooperativo, com os Estados cada vez mais fortes e presentes, sobretudo na criação de mecanismos de proteção à sua produção doméstica.

 

Como era gostosa a nossa Opep

Com taxas de crescimento econômico medíocres, problemas na alocação da poupança financeira, desemprego, incapacidade das novas tecnologias para alterar essa realidade e ausência de “coordenação ideológica” que motive grandes mudanças, estamos prestes a chegar em um estágio impensável: poderemos sentir saudade da crise organizada e cartelizada da Opep. Faltam, por outro lado, os mecanismos clássicos do capitalismo de transformar uma realidade política extremamente adversa. A grande bravata do presidente Barack Obama não deu em nada. Não houve mudanças significativas na matriz dos produtos voltados para a produção energética. Nem os Estados Unidos nem o mundo em geral reduziram de forma consistente a dependência do petróleo. Até o espectro de Keynes, vulgarmente conclamado pelos norte-americanos, recuou, impotente, frente adversidade com tamanha dimensão e tantas variáveis.

Os atores políticos certamente estão de olho nos instrumentos econômicos da produção, que continuarão a ser determinantes nos próximos anos. Até porque o custo estimado para a mudança na matriz tecnológica que possa proporcionar inovações e equacionamento do uso de combustíveis fósseis em relação a energias alternativas é da ordem de cinco trilhões de dólares. Isso representa uma redução de 2% do PIB potencial dos Estados Unidos e Europa durante oito ou 10 anos. Essa é justamente a perda proporcionada pela crise financeira de 2008. Ou seja, aquela crise retardou muito a possibilidade de implementação de programas de governo capazes de alterar, de alguma forma, o conteúdo estrutural na matriz energética.

 

Convém, no entanto, separar o que é discurso do que é projeto de fato. Toda vez que o mundo fala em mudança na matriz energética – e já tratava disso em 1950 – parece ignorar o impacto sobre o complexo militar norte-americano. É impossível qualquer acordo que vise mudar a matriz energética e suas correlações com o uso de tecnologias alternativas concomitantemente a um Congresso norte-americano fortemente dominado pelo viés do curto prazo. Nesse século recente, o Congresso dos Estados Unidos não aprovou qualquer tratado nesse sentido. Nunca participou de acordos globais. Não é viável, tampouco está presente nos corações e mentes de norte-americanos e até mesmo de europeus a disposição política de pagar o custo da mudança da matriz energética. Sobretudo num momento em que se vive uma forte crise social na Europa e debilidades econômicas nos Estados Unidos.

O tema também não toca o coração do norte-americano médio. Mais de 60% da população dos Estados Unidos não acreditam no aquecimento global. Trata-se muito mais de uma discussão da elite do que de um projeto mais amplo. As grandes transformações econômicas e as chamadas revoluções políticas costumam ocorrer num cenário de intensa necessidade de mudar o presente para construir o futuro. Não há componente associado, seja político, seja ideológico, capaz de motivar as pessoas a sair pelas ruas em defesa de um menor uso de petróleo ou de menor poluição, a despeito das tentativas dos ambientalistas. O combate ao petróleo ainda não se espalhou pela democracia ou sequer dela tomou parte. A visão democrática do presente é maculada pela necessidade de respostas nos curto prazo devido à crise econômica vivida. Trocar um presente, ainda que custoso, por possibilidades de longo prazo parece ainda um sonho distante. Nada indica que a sociedade esteja disposta a modificar a atual taxa de desconto intergeracional.

 

Escolha de Sofia

O problema é complexo extremamente difícil, pois envolve uma escolha entre um tempo presente e um tempo que pode jamais ser realizado, baseada na troca de renda e bem-estar entre a atual geração (população) e as próximas. A mudança na geração de energia suja para fontes limpas demandará um enorme subsídio – significando perda de renda atual – em troca de futuras fontes sustentáveis, em longo prazo, que possam oferecer o mesmo padrão e qualidade de vida a pessoas que nem mesmo nasceram e a seus descendentes. Ou seja: teremos de abrir mão do presente em nome de um futuro que não nos pertence.

Haja desprendimento! Mas, mais uma vez, infelizmente, o ideal caminha paralelo ao real.

Alguns especialistas que se dedicam ao assunto, tal como Jeffrey Sachs, afirmam que existem algumas soluções possíveis – ainda que idealizadas – para esse tipo de problema. Primeiro, apostar no que seria a capacidade e a genialidade dos cientistas – a fonte salvadora de desenvolvimento de inovações tecnológicas a reboque da necessidade do setor privado, pois o setor público ainda é incapaz de gerar tais mecanismos. Por incapacidade de gestão ou por vontade política. Em outras palavras, imagina-se uma solução ancorada na criatividade do homem para promover mudanças no curto prazo. É uma visão um pouco ingênua, pois significa esperar por uma espécie de Messias, um salvador representado pelo avanço tecnológico, que, dada a situação de caos, demonstrará benevolência em relação à sabedoria humana e saberá operar mudanças necessárias.

 

Aalternativa é caminhar para acordos multilaterais, com o propósito de uma política voltada para efetivamente promover a mudança tecnológica capaz de tornar o mundo mais respirável, mais sustentável e sem a dependência do petróleo. Essa alternativa esbarra na resistência militar, afinal, todo o aparato militar ainda está dependente e focado no combustível. A governança global cooperativa seria o meio pelo qual o mundo conseguiria interagir com o aparato militar. Nos séculos XVIII e XIX se dizia que o comércio iria aonde o canhão pudesse ir. No século XXI pode-se dizer que o comércio vai aonde for possível ir um submarino nuclear.

Não à toa a China exibe fortes intenções de investimentos militares. O caminho geopolítico passa talvez por uma militarização mais forte dos países.

 

A lógica da possível crise

Ao leitor que percorrer o caminho da leitura deste ensaio, ele, a princípio, parecerá mais um dos famosos discursos inflamados e catastrofistas – um outro pregador do fim do mundo, uma nova reencarnação dos apóstolos do fim dos tempos. Contudo, eu, de antemão, vos aviso: não é esse o objetivo da presente analise. Ela tem a única e exclusiva intenção: alertar para a necessidade de uma reflexão mais profunda e menos emocional sobre as armadilhas e os desvios colocados por uma enorme crise na capacidade cognitiva dos agentes. Menos bravata e mais reflexão, seria a mensagem!

 

Acrise iniciada em 2008, partiu de um rastro de pólvora desencadeado pela situação de insolvência de algumas instituições bancarias norte- americanas, contaminando economias e o sistema de confiança dos investidores. O circulo concêntrico da proliferação do tsunami foi se ampliando e, como um vírus letal, contaminou o continente europeu, provocando mutações em parlamentos e na governança de 18 países. Por outras razoes ou derivações em torno de temas congêneres, o mundo árabe foi sacudidos por rebeliões e exumação de corpos há muito mumificados. A crise que começou com uma insolvência localizada, evoluiu para um modelo de destruição de nações. Depois de disparado o dispositivo, foi cravado um espinho no coração da Europa, destruindo a imunidade de vários países mais frágeis e vulneráveis do continente. No rastilho de pólvora, ocorreram quedas crescentes no volume de comércio internacional e na taxa de crescimento regiões de influência monetária.

O gigante chinês e a afluente Índia estão sendo atingidos com efeitos ainda incertos. A perda ou deterioração nos termos de troca envolvendo atores novos – como consequência das assimetrias do próprio fluxo de repartição de rendas global – estão colocando mais países, notadamente árabes, em profunda tensão social e politica. A ideia de que a turbulência é sinônimo de primavera aumenta a eloquência de setores alheios ao jogo politico fechado dos estados/fantoches. Querer não é poder. Antes fosse!

Assim, a incapacidade de resposta e mudanças para fontes alternativas de energia limpa aumenta a dependência dos ofertantes de estratégias defensivas. A reação provável dos dirigentes das nações petrolíferas reside na possibilidade de um ganho adicional de renda via contração na oferta de petróleo (Estados e agentes privados). Ou seja, menos investimentos, menos oferta e preços maiores, na tentativa de obtenção de benefícios transferíveis a sua nova e barulhenta base eleitoral. A princípio parece não racional e não cooperativo, e nada sustentável. E é isso mesmo. Ocorre que a natureza das ações econômicas de países e ideologias constitui-se em um verdadeiro breviário de inconsequências e desastres políticos – basta olharmos para o século XX e as praticas e posturas das ações implementadas pelos países hegemônicos no inicio do século XXI.

 

E il Brasil va

Em meio a esse imbróglio e à probabilidade do petróleo dar mais uma rasteira no mundo, a situação brasileira revela-se razoavelmente boa. O Brasil terá o petróleo de que precisa nos próximos 10 ou 12 anos? Em parte sim, e com certeza a dependência do combustível será extremamente amenizada. Para 2020 é esperado um crescimento de quase 50% na sua produção. Resta saber se estaremos preparados para esse tipo de realidade. Qual será o patamar de investimentos necessários? Disporá o país desses recursos? O atual fluxo de investimentos parece demonstrar que isso não chegará a ser um grande problema. Em contrapartida, o Brasil não tem uma inserção geopolítica privilegiada. No concerto das nações relevantes, ainda é um mero espectador. Tivemos frustações recentes em relação na relação com os Estados Unidos, com a Europa e com a China. E mexer com petróleo é cutucar um vespeiro diplomático inflamável.

 

OBrasil vai continuar sendo importador líquido de petróleo, mesmo com o pré-sal.

Mas, mesmo com um barril a 200 dólares, deverá sentir menos os impactos econômicos negativos. A inflação morreu como possibilidade econômica. Os livros textos insistem na sua ameaça. Mas a psique coletiva que domina o comportamento econômico empurrou os níveis de carestia elevados do século passado para o período paleolítico É mais fácil alterar os preços relativos de forma que haja perda de renda de determinadores setores e ganho de renda de outros setores do que usar a inflação como imposto adicional da economia. A sociedade brasileira, em particular, e a latino-americana em geral, tem hoje uma parcela bastante considerável de pessoas que não viveu a experiência da hiperinflação. É quase uma geração formada sem perceber e sem viver a inflação. Por essa razão, dificilmente o governo teria autonomia de reindexar a economia. A sociedade não está disposta a pagar por algum tipo de ilusão.

O custo de prospecção deve aumentar, e os investimentos sobre o pré-sal já preveem essa tendência. O potencial de reservas a ser explorado colocaria o Brasil num cenário muito positivo, mesmo com forte impacto sobre a formação da taxa de câmbio. A maldição do petróleo não se realizou, nem deve se realizar, porque há mecanismos possíveis para suavizar o impacto sobre o câmbio. Surge, porém, um problema estratégico-existencial para o país: não há produtor de petróleo com inserção econômica e política no mundo que não esteja alicerçado numa forte máquina de proteção militar, própria ou de terceiro. A Arábia Saudita é um exemplo disso. Compra segurança nas bases americanas. O crescimento da inserção da produção de petróleo no Brasil exigirá do país um investimento em tecnologia de defesa. Os gastos militares e o fortalecimento do aparato militar foram resultado direto do aumento da produção de petróleo na África e fora das fronteiras terrestres. Há uma forte relação entre avanço tecnológico e desenvolvimento militar. Essa poderá vir a ser uma variável importante, pois a pesquisa militar tem impacto fortemente positivo sobre os setores de comunicações e equipamentos.

Eis um dilema que o Brasil terá de enfrentar. Isso, se a realidade não for um simulacro.

rgarciajr@globo.com

 

 

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