A grande surpresa de 1918

A grande surpresa de 1918

Márcio Scalercio, historiador

 

Em primeiro de janeiro de 1918, a Grande Guerra já durara 1.245 dias. Os milhões de soldados amontoados em posições defensivas da Bélgica ao Cáucaso, incluindo partes do Oriente Médio, além de tentarem sobreviver ao tiroteio e às explosões das granadas da artilharia, suportavam as duras condições de um inverno terrivelmente rigoroso. Em Paris, o rio Sena congelara, algo que só acontecera 120 anos antes. O fato era que, enquanto a soldadesca tiritava de frio e tentava sobreviver mais um dia em suas trincheiras, quer na cúpula política, quer nos estados maiores das potências em guerra, quase ninguém imaginava que o conflito se resolveria em 1918.
O “quase ninguém” se justifica, pois havia um grupo importante de pessoas que desejava desesperadamente que a guerra terminasse de modo minimamente favorável em 1918: os líderes do Grande Estado Maior Geral Alemão. Desde agosto de 1916, a dupla de comandantes que conduziu vitoriosamente a campanha na Frente Oriental contra o Império Russo, o marechal de campo Paul von Hindenburg e o general de infantaria Erich Ludendorff, assumiu o comando geral da guerra. Assinalemos que o marechal von Hindenburg, ainda que superior hierárquico, responsabilizara-se unicamente por garantir legitimidade às táticas, estratégias e políticas do Grande Estado Maior. Hindenburg era um homem idoso, que passara para a reserva em 1911, mas retornara ao serviço ativo no momento em que a guerra estourou. Sua figura venerável encarnava para a opinião pública e para o Exército toda a carga de simbolismo da tradição militar prussiana. A mera presença do velho marechal suscitava a impressão de que o espírito da primazia militar prussiana, construído desde os tempos do Grande Frederico e continuado pelas vitórias espetaculares de Blücher e principalmente Helmuth von Moltke, permanecia vivo e que no final as armas germânicas prevaleceriam.
Isto posto, quer a concepção intelectual na conduta da guerra, quer o trabalho pesado de execução estavam a cargo de Ludendorff e de uma equipe de oficiais talentosos ligados diretamente à sua pessoa. A lista de dificuldades se agravava. Ia desde o aperto cada vez maior causado pelo bloqueio naval britânico contra a Alemanha, cujos efeitos impactavam principalmente na população civil, até o enfraquecimento da força militar de seus principais aliados, os austro-húngaros e os otomanos, que produzia uma natural diminuição em suas disposições em continuar lutando. A despeito de tudo isso, o general Ludendorff desejava a vitória – o que era um compreensível desejo da parte de um comandante – e, mais do que isso, achava que uma vitória ainda era possível.
Não uma vitória completa, claro. A Alemanha não era mais forte o suficiente para tanto, muito menos seus aliados principais. Mas a busca de uma derradeira campanha, um último esforço bem sucedido que obrigasse a aliança inimiga a aceitar uma paz favorável à Alemanha, tinha de ser tentado. Desde que assumira o comando geral da guerra, o general Ludendorff e seus auxiliares se dedicaram na preparação desta grande ofensiva. Sabiam que deviam desencadeá-la na primavera de 1918, pois, como veremos adiante, imaginavam que o tempo estava contra eles. Em sua avaliação para a ofensiva de 1918, procuraram tirar proveito de algumas importantes vantagens conseguidas no ano anterior. Contudo, embora tais vantagens fossem sem dúvida efetivas, houve duas situações negativas que colocavam o importantíssimo fator tempo contra os desígnios das Potências Centrais.

1917 – um ano positivo para as Potências Centrais

1) A Construção da Linha Siegfried – geralmente conhecida como “Linha Hindenburg”
Logo que assumiu o comando geral das forças germânicas, a diarquia Hindenburg-Ludendorff decidiu que na Frente Ocidental deveria ocorrer um “encurtamento das linhas”. A ideia central era a de que, se a extensão das linhas de defesa fosse diminuída e também melhor fortificada, seria possível destacar um número menor de unidades para mantê-la. Aplicava-se o princípio da economia de forças. Para tanto, as posições germânicas deveriam ser recuadas para uma área mais curta e mais defensável, o que representaria a cessão ao inimigo de alguns quilômetros de terreno nas frentes de Flandres e do norte da França. As forças restantes seriam retiradas das linhas de frente, reequipadas, as unidades teriam seu efetivo numérico reconstituído, receberiam treinamento e seriam mantidas na reserva. Decidiu-se assim pela construção da Linha Sigfried – homenagem a um herói da mitologia germânica – mas que se tornou mais conhecida como Linha Hindenburg. As obras se iniciaram no inverno de 1916.
A Alemanha mobilizou seu setor de construção civil, além de prisioneiros de guerra belgas e russos, não só para erguer fortificações – cavar novas trincheiras com sistemas de drenagem que diminuíssem o problema das frequentes inundações, colocação de “florestas” de arame farpado e campos minados, instalações protegidas para receber ninhos de metralhadora, bunkers de diferente tipos, bases para a instalação de artilharia e depósitos de munições fortemente protegidos – mas também com o propósito de aprimorar os sistemas logísticos de retaguarda.
Linhas férreas foram construídas para conferir suporte de todo o tipo às novas instalações. Os cabos telefônicos estendidos foram bem enterrados com o intuito de impedir que fossem rompidos pelos projéteis inimigos. Amplos alojamentos foram instalados para as reservas, posicionados de modo tal a proporcionar uma rápida mobilização e concentração de forças necessárias para um ataque ou mesmo um contra-ataque. Grandes depósitos de combustíveis, alimentos e munições, quartéis generais de unidades, refeitórios, instalações sanitárias e hospitais de campanha complementavam as posições.
Quando tudo ficou pronto, foi desencadeada a Operação Alberic, que consistiu num discreto deslocamento das unidades das linhas de frente para as novas posições. O recuo em média foi de 15 quilômetros e não houve qualquer interferência do inimigo. A Linha Hindenburg ao todo possuía 140 quilômetros de comprimento. Uma vez concluída a operação, 20 divisões foram mantidas no novo front e 13 foram transferidas para se juntar as reservas.
A lógica que governou a construção da Linha Hindenburg estava longe se ser puramente defensiva. O aprimoramento das instalações e o encurtamento da área de defesa coroava o princípio de economia de forças, condição absolutamente necessária para que o Grande Estado Maior Geral Alemão reassumir a iniciativa na Frente Ocidental e planejar seu esforço supremo para a vitória.

2) O desastre de Caporetto
Desde que italianos e austro-húngaros entraram em guerra, no ano de 1915, tiveram de enfrentar o pior tipo de cenário: um teatro de operações nas montanhas, fisicamente exaustivo em que praticamente qualquer atividade implicava em imensas dificuldades. A monarquia dual não tinha tropas disponíveis para tentar impor superioridade aos italianos. Assim, optaram por uma estratégia puramente defensiva, instalando posições nos cumes das montanhas de seu lado dos Alpes, contanto com contingentes principalmente de origem eslovena. Coube aos italianos a iniciativa ofensiva. E foi o que fizeram, ao longo de dois anos, montando nada menos de 11 ofensivas na zona do rio Isonzo.
Por nada menos do que 11 vezes, os soldados italianos investiram montanha acima com o propósito de conquistar os redutos da monarquia dual. Por 11 vezes, os defensores rechaçaram os ataques. Sabe-se que durante uma das tentativas de avanço, mesmo sendo dizimados por um fogo assassino vindo do alto da montanha, os italianos insistiam em continuar o ataque. Os soldados eslovenos, já fartos e penalizados com o massacre, começaram a gritar de suas posições, implorando para que os italianos cessassem o ataque, pois não queriam mais atirar neles e matá-los.
Aos italianos, o que não faltava em matéria de coragem, sobrava ainda mais em termos de criminosa incompetência do estado maior liderado pelo general Luigi Cadorna. Por 11 vezes suas ofensivas foram rechaçadas. Por 11 vezes seu planejamento resultou em desastre. Por 11 vezes arriscou inutilmente as vidas de seus homens sem obter resultado algum. Enquanto o sangue tingia as montanhas, observava tudo de seu quartel-general, instalado num luxuoso palácio situado a quilômetros de distância do front. Na verdade estava muito distante para observar alguma coisa. Sequer sentia os cheiros da morte e dos massacres. Apenas analisava os números e colocava a culpa na falta de combatividade de seus soldados, o que estava longe de ser verdade. Mas o general Cadorna podia dizer o que quisesse, já que jamais esteve próximo o suficiente da linha de frente para constatar o que de fato acontecia.
com a ascensão no novo alto comando alemão, este se manifestou disposto a contribuir com os austro-húngaros para que tomassem dos italianos a iniciativa na frente alpina. Seis divisões alemães foram deslocadas para a área para um ataque geral justamente com nove divisões austro-húngaras. Os alemães aproveitariam o ensejo para testar novas modalidades de ataque elaboradas pelo coronel Oskar von Hutier. Unidades de infantaria com soldados selecionados, treinados como “tropas de assalto”, deveriam se infiltrar nas linhas italianas, desmontando minas, abrindo clareiras entre as cercas de arame farpado e, por meio de ataques surpresa, desmantelando ninhos de metralhadora na linha de frente italiana. Só após isso era iniciada a barragem de artilharia, enquanto unidades das tropas de assalto guiavam o grosso da infantaria na passagem pelas clareiras abertas e pelas posições de metralhadora neutralizadas.
O ataque foi desencadeado no dia 24 de outubro de 1917, na frente do Isonzo na localidade de Caporetto. Diante da ofensiva, a linha italiana desabou. 40 mil soldados italianos foram mortos. Por volta de 265 mil se renderam. Mais de 400 mil deles debandaram. A linha de defesa italiana recurou por volta de 100 quilômetros. Só foi possível estabilizar o front às margens do rio Piave.
A batalha de Caporetto foi o maior desastre jamais vivido pelo Exército Italiano. O governo do país entrou em absoluta crise política. O general Cadorna foi substituído. Os italianos perderam a iniciativa, e sua manutenção na guerra só foi possível graças à transferência de seis divisões francesas e cinco divisões britânicas para o front italiano. Caporetto serviu ainda para aliviar a situação militar do naquela época muito vacilante aliado austro-húngaro. O Grande Estado Maior Geral Alemão recebeu dois prêmios extras. O emagrecimento das reservas de tropas inimigas em 11 divisões transferidas da Frente Ocidental para o front italiano e um novo elenco de táticas bem sucedidas para seu futuro ataque.

3) As Revoluções Russas de março e Novembro
Não cabe aqui tecer longas considerações sobre o processo revolucionário russo. No que dizia respeito aos desígnios do Grande Estado Maior Geral Alemão, o importante era que a queda do regime tzarista tiraria a Rússia da guerra. Mas quando os diferentes governos provisórios surgidos após a Revolução de Março insistiram na manutenção da Rússia no conflito, a inteligência alemã decidiu interferir e providenciar que o líder do Partido Bolchevique, Vladimir Ilich Ulianov, codinome Lênin, fosse transferido, com ajuda alemã, de seu exílio na Suíça para a Rússia. Lênin era sabidamente favorável a uma paz imediata como cenário adequado para radicalizar a revolução. No final das contas, após o episódio do trem blindado, fornecido pelos alemães para que Lênin chegasse a Petrogrado, a revolução sob sua liderança radicalizou e a Rússia saiu da guerra. Lênin usou os alemães, assim como os alemães usaram Lênin.
Após inúmeras dificuldades nas negociações, e com a ameaça alemã de retomar as operações militares no front russo, o que impediria o governo bolchevique de concretizar a sua mais importante promessa aos povos da Rússia, a paz imediata, Trotsky, comissário do povo para assuntos estrangeiros, com o apoio de Lênin, aceita um acordo de paz muito desfavorável aos russos, o Tratado de Brest-Litovsk, assinado em 3 de março de 1918. Pelos termos acordados, a Rússia desistia do controle de toda a Polônia russa, os Estados Bálticos, a Ucrânia e devia aceitar um governo independente integrado por contra revolucionários na Finlândia.
Com a paz no Leste, o Grande Estado Maior Alemão poderia transferir recursos consideráveis daquela área para a Frente Ocidental.

Os reveses e as preocupações que
faziam do fator tempo um adversário dos Impérios Centrais
O primeiro de todos era a ameaça da fome. O prolongamento da guerra fazia com que os recursos começassem a escassear. Na Alemanha, o Exército comprometia parcela considerável da mão de obra agrícola bem como as mulas e os cavalos. A falta desses recursos repercutia gravemente na produção de forma contínua e acumulativa. A cada ano de guerra a situação do abastecimento de alimentos piorava. O bloqueio naval imposto pelos britânicos contribuiu bastante para as agruras sentidas pelos alemães, isolando a Alemanha do resto do mundo. A Esquadra de Alto Mar germânica jazia inerte e inútil no porto de Kiel. Por uma única vez, no final de maio de 1916, fizera-se ao mar para tentar desafiar a hegemonia da Home Fleet – a esquadra encarregada de guarnecer as águas domésticas britânicas. Mas a Batalha de Jutlândia em nada mudou a situação. Após o combate a Esquadra de Alto Mar retornou ao seu cativeiro estratégico e a Marinha Real manteve a sua supremacia e o bloqueio.
Os alemães efetivamente tentaram desafiar a supremacia naval britânica com a guerra submarina. E, a partir de 1915, quando declararam que atacariam navios em alto mar sem restrições, causaram danos consideráveis à navegação no Atlântico. Porém, quando o governo britânico decidiu pela travessia do mar de seus mercantes por meio de comboios fortemente escoltados, a sorte no duelo começou a favorecer aos aliados. Quando a tonelagem de navios mercantes afundados começou a cair, enquanto que a tonelagem de submarinos destruídos cresceu sem parar, ficou definido que a ofensiva submarina alemã havia sido detida em fins de 1917.
Sintetizando a situação alemã em meados de 1918: os civis, no ano de 1913, tinham uma média de alimentação de 2.280 calorias por dia. Em 1918 a média por cidadão havia declinado para 1.000 calorias/dia. Não havia leite, chá, café, ovos, açúcar ou peixe. Carne de cavalo era considerada um luxo. Nas trincheiras os soldados estavam submetidos a uma dieta de batatas e pão preto. Ludendorff sabia que nem a população civil nem os soldados poderiam suportar tantas privações por muito mais tempo.
O outro grande problema consistiu na entrada dos Estados Unidos na guerra contra as Potências Centrais, declarada no dia 2 de abril de 1917. O pretexto apresentado pelo presidente Woodrow Wilson baseava-se no ataque indiscriminado dos submarinos alemães contra embarcações neutras e, claro, norte-americanas em particular. Há também quem diga que o mundo financeiro norte-americano – que naquela época já se concentrava em Wall Street – temia que, com a continuidade da guerra por tempo indefinido, seus principais devedores, por acaso Grã-Bretanha e França, não conseguissem pagar o que deviam. O alerta vermelho – literalmente – disparou com maior intensidade com a Revolução Russa de março.
finalmente, havia a tradição de política externa norte-americana, no meu modo de ver, herdada dos “pais britânicos”: que para os interesses políticos e de segurança nacional dos Estados Unidos, nenhuma potência europeia deveria conquistar a hegemonia no continente. Os Estados Unidos apoiavam a política de equilíbrio de poder. Só a Alemanha era capaz de conquistar a hegemonia e uma vitória na guerra garantiria esse efeito indesejável.
A entrada dos Estados Unidos na guerra era um fato momentoso. Não que o país fosse uma potência militar, mas desde 1890, tornara-se a potência industrial mais importante do mundo. Deste modo, tudo se resumia a uma questão de tempo e de capacidade gerencial – algo que os norte-americanos demonstraram ser seu maior talento – para que seu potencial econômico fosse convertido em capacidade de se mobilizar para uma guerra moderna.
Ludendorff sabia que esse relógio que ritmava a mobilização dos Estados Unidos corria contra a Alemanha. Assim, antes das privações de toda a ordem eliminassem completamente a combatividade do Exército e o moral do povo alemão, antes que todo o peso da presença norte-americana se fizesse sentir, especialmente em termos de tropas prontas para a luta na Europa, Ludendorff precisava fazer-se jogador e arriscar sua aposta final suprema.

A derradeira cartada da Alemanha –
o Kaiserschlacht – a Batalha do Kaiser
Em março de 1918, ao longo da Linha Hindenburg, os alemães reuniram uma força de 192 divisões, sendo que 40 delas haviam sido transferidas da Frente Russa, juntamente com por volta de mil peças de artilharia pesada. No total, o Exército alemão no mês de março usufruía de uma superioridade numérica de 30 divisões em relação aos contingentes franceses e britânicos. Em março, os norte-americanos somavam na Europa 400.00 soldados ainda não comprometidos em combate.
A ofensiva alemã de primavera começaria com a Operação Michael no dia 21 de março de 1918. O alvo escolhido foi o 5° Exército Britânico, liderado pelo general Hubert Gough. A inteligência britânica sabia que os alemães preparavam um ataque, por mais que estes tenham tentado dissimular seus movimentos. Mas não havia muito o que o general Gough pudesse fazer. O moral de suas tropas não estava lá essas coisas, especialmente após a Batalha de Passchendaele, em junho de 1917, quando os britânicos, mais uma vez, sofreram baixas pavorosas. Muitas das divisões britânicas estavam bem abaixo do efetivo regular. Os soldados mais bem dispostos eram os ANZACS (Australian and New Zeland Army Corps), recém-chegados à Frente Ocidental. Eram os únicos rapazes saudáveis e de boa estatura do Exército porque os deste tipo entre os britânicos já haviam morrido ou baixaram nos hospitais fazia algum tempo. O próprio governo do primeiro ministro Lloyd George, aterrorizado com os massacres assassinos das ofensivas e desejando “esperar pelos ianques”, fazia de tudo para atrasar o envio de substitutos para o front e assim manter sob controle os ímpetos ofensivos do comandante da British Expeditionary Force, o general Sir Douglas Haig. Assim, sabendo de todos esses detalhes, o Alto Comando Alemão escolheu o setor britânico para receber o ataque.
Ordem do dia do Alto Comando Alemão:

“Depois de anos na defensiva na Frente Ocidental, a Alemanha move-se para o ataque: a hora ansiosamente esperada por todos os soldados se aproxima. Eu estou certo de que seus regimentos, coerentes com suas histórias, aumentarão suas reputações ao longo dos dias que se seguirão. Em prol deste grande objetivo novos sacrifícios serão exigidos, e nós os suportaremos pela pátria e por aqueles que amamos em casa. Então, avante, para a ação! Com Deus, pelo kaiser e pela pátria!” (Ludendorff)

Juntamente com a divulgação da ordem do dia, foi anunciado que o marechal Hindenburg havia chegado ao front para acompanhar pessoalmente a batalha. Ao saber da notícia, o soldado Fritze teria dito: “Ja, ja, e ele o fará deitado numa confortável e quente cama dentro de um belo chateau”.
No dia 21 de março, na alta madrugada, as tropas de assalto iniciaram sua infiltração nas linhas britânicas, tal como haviam efetuado em Caporetto. Num segundo momento, por volta de seis mil peças de artilharia abriram fogo, tendo como alvos postos de comando e as posições de artilharia do inimigo. Enquanto isso, as unidades de assalto retornavam para guiar a infantaria pelas trilhas que haviam aberto. Nada menos do que 63 divisões germânicas galgaram suas trincheiras e partiram para o ataque numa frente de 75 quilômetros, avançando na área norte, na direção de Saint-Quentin. O objetivo final da grande operação era Paris e a débâcle total das forças inimigas.
O 5° Exército Britânico desabou. As unidades que não foram trituradas pelo fogo de barragem alemão correram, assim como haviam corrido os italianos em Caporetto. O general Haig declarou que aquele fora o dia mais negro de toda a história do Exército Britânico.
Os diferentes líderes começaram a pensar o impensável. Os britânicos cogitavam em se retirar na direção do canal da Mancha. O governo francês cogitava abandonar Paris retirando-se para Tours. O general Pershing, comandante do Exército Americano, cogitava se ainda haveria tempo para que os americanos fizessem alguma coisa naquela guerra. Enquanto isso, Ludendorff cogitava em ganhar a partida.
Mas no lado da Entente o sangue frio acabou prevalecendo e tropas francesas lideradas pelo general Ferdinand Foch foram mobilizadas para colmatar a enorme brecha deixada pela debandada britânica. Porém, Ludendorff lança sua segunda ofensiva, desta vez visando as linhas francesas. A pressão sobre os bravos poilus – como eram apelidados os soldados franceses – é esmagadora. A linha recua, mas não se quebra. Nada de debandada ao estilo ítalo-britânico desta vez. É famosa a lenda das sucessivas declarações combativas do general Foch ao telefone no calor da batalha: “Eu me bato em frente a Amiens; eu me bato dentro de Amiens; eu me bato atrás de Amiens. As tropas do general, logo depois promovido a marechal, podiam até ceder terreno, mas de modo algum cessavam de lutar. Enquanto isso, o general Pershing apressava o engajamento de tropas norte-americanas na batalha.
No dia 6 de abril, Ludendorff lança a segunda fase de sua ofensiva, tendo como objetivo a área do monte Kemell. Mais uma vez a linha francesa cede terreno, mas não se quebra. A defesa desesperada impõe um pesado tributo em termos de baixas nas fileiras atacantes. Em 27 de maio, os alemães tentam um impulso supremo, atacando na área de Chemin de Dames na Champagne. Franceses e americanos trincam os dentes e cobram caro por cada pedaço de terreno perdido. Ludendorff a essa altura, começa a perder as esperanças. O Exército Alemão havia ganho terreno, mas a ruptura total da capacidade de defesa do inimigo não acontecera. Um número cada vez maior de tropas e equipamentos, novinhos em folha dos Estados Unidos, não parava de chegar ao front, ao passo que Ludendorff não tinha como repor suas perdas. A reserva de soldados alemães estava próxima ao fundo do tacho. Paris, o objetivo final, mantinha-se inalcançável.
na verdade, a soldadesca germânica começava a dar sinais de que estava farta de tudo aquilo. Durante os ataques, quando depósitos de suprimentos inimigos eram capturados, os soldados simplesmente abandonavam o dever para saquear os depósitos. Nenhuma ameaça dos oficias os fazia desistir de sentarem-se calmamente com o fito de se deliciar com as iguarias capturadas: chá, café, leite, carnes em conserva, sardinhas enlatadas, peixe defumado, gin, rum, vinho, cerveja e muito, muito tabaco, vitualhas que não saboreavam fazia tempo. Tratava-se de um caso incontornável de “indisciplina pantagruélica”.
No dia 11 de julho, a ofensiva alemã perde o fôlego. O general Ludendorff ordena que os ataques parem. Ele reagrupa as tropas para uma derradeira tentativa de romper o front inimigo e chegar em Paris, a Friedensturm (Ofensiva da Paz), lançada em 15 de julho. Desta vez os atacantes não só esbarram numa defesa inconquistável, mas sofrem um poderoso contra-ataque e são derrotados. É a Segunda Batalha do Marne.
No dia 8 de agosto, finalmente, os exércitos aliados passam à ofensiva na área de Amiens. A linha alemã é rompida e, pela primeira vez em toda a guerra, dezenas de milhares de soldados alemães se entregam sem luta. É a vez de o Exército Germânico experimentar o seu próprio “dia de luto”. Ludendorff nessa altura avaliava que tudo estava acabado. Seu temor era que a guerra, com todos os seus horrores e depredações, passasse a ser travada em território alemão.
Ante que isso ocorresse, Ludendorff recomenda que o governo alemão solicite o armistício. Na noite entre os dias 3 e 4 de outubro, o pedido de armistício é enviado ao governo dos Estados Unidos através da representação diplomática suíça. Após algumas trocas de mensagens, o documento é assinado no dia 11 de novembro.
A grande surpresa de 1918 é que a guerra acabou naquele ano. E diferentemente da “lenda da punhalada pelas costas”, largamente difundida pelas direitas alemães e pelos nazistas, tentando culpar os movimentos de esquerda que teriam cometido traição ao promoverem levantes em novembro daquele ano, o verdadeiro responsável pelos acontecimentos que precipitaram a derrota alemã foi o próprio general Ludendorff. Além disso, o maior de todos os levantes foi a rebelião das tripulações da Frota de Alto Mar no porto de Kiel, que a exemplo dos revolucionários russos, decidiram organizar conselhos similares aos sovietes. Mas o levante ocorreu entre os dias 3 e 5 de novembro, enquanto que o pedido de armistício havia sido enviado ao governo dos Estados Unidos um mês antes.
O general, ao resolver apostar num jogo de tudo ou nada, comprometeu, por inteiro, todos os recursos que lhe restavam num esforço supremo. Desgastou suas tropas de tal modo, que sua disposição de luta minguou de forma alarmante. O enorme desgaste alemão, tornou possível que os aliados lançassem sua ofensiva e ameaçassem o próprio território germânico, e Ludendorff sabia que o Exército, aos frangalhos, não teria condições de impedir uma invasão. Em síntese, a Primeira Guerra Mundial terminou no ano de 1918 como o resultado de uma aposta arriscada do general Ludendorff.

O autor é professor do Instituto de Relações Internacionais da PUC-Rio
mascalercio@yahoo.com.br

BIBLIOGRAFIA

BECKER, Jean-Jacques. O Tratado de Versalhes. São Paulo, UNESP, 2010.

FERRO, Marc, A Grande Guerra: 1941-1918, Lisboa, Edições 70, 2002.

KEEGAN, John. The First World War. New York, Vintage Books, 2000.

STEVENSON, David, With our backs to the wall: victory and defeat in 1918. Cambridge, Massachusetts, Harvard University Press, 2011.

THOMPSON, Mark, The White war: life and death on the Italian Front 1915-1919. London, Faber & Faber, 2008.

 

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