A falta que a esquerda faz ao centro

A falta que a esquerda faz ao centro

Sergio Abranches, cientista social

 

Depoimento a Luiz Cesar Faro e Claudio Fernandez

O crepúsculo da pós-modernidade
O que muitos chamaram de pós-modernidade, na verdade uma espécie de apogeu do Iluminismo, está chegando ao final por conta de transformações tão radicais quanto aquelas que deram origem a ela. E essas transformações estão produzindo vários problemas, que todos nós temos de enfrentar, sejamos liberais ou socialistas. São desafios associados a mudanças na própria estratificação social, na estrutura de classe, no modo de produção, na maneira pela qual as pessoas convivem e na formação de categorias sociais novas que nascem de um processo de mutação muito rápido e muito intenso do capitalismo, sobretudo a partir do final do século passado. Essas mudanças tiveram várias consequências, e uma delas é que a velocidade de resposta que a esquerda foi capaz de dar em relação aos liberais tornou-se muito diferente. A esquerda ficou enrolada nas suas próprias convicções e nas contradições que ela vinha alimentando desde a época do stalinismo e da divisão dos social-democratas e comunistas. Os liberais encontraram caminhos que foram levando ao que hoje se chama neoliberalismo, uma resposta eficaz para o tipo de conjuntura que a gente vive atualmente, muito fluida, de crise sobre crise, marcada pela limitação social do aparelho do Estado, pela globalização extremamente acentuada e violenta e pela radicalização do capital financeiro. Essa combinação vai colocando uma série de questões na lógica do movimento do capitalismo, que a teoria marxista chegou a vislumbrar, mas nunca conseguiu enfrentar adequadamente e com a profundidade necessária. O próprio Marx tinha começado a intuir questões relativas ao trabalho improdutivo de um lado e às sociedades anônimas por outro que produziam uma diferença no sistema e, do ponto de vista dele, levariam à dissolução do capitalismo. Pois ele não se dissolveu e ainda demonstrou uma capacidade enorme de metamorfose, uma resiliência brutal às suas próprias contradições e gerou para a esquerda não apenas um problema político, mas também uma questão crucial no campo teórico. Isso porque ela não consegue dar conta teoricamente dos novos desafios que estão sendo postos por essa transformação estrutural, científica e tecnológica. Eu tenho lido muitas referências sistemáticas aos “Fragmentos sobre as Máquinas”, do Marx. Um texto muito pequeno, muito criativo, mas que levado às últimas consequências significava o seguinte: o trabalho vai ser substituído pela máquina; a robotização resolve o problema. Era um pouco o problema dessa exploração do trabalho físico do trabalhador. Agora temos algumas discussões novas, que estão tateando a fronteira do capitalismo cognitivo. A tentativa é analisar o fato de o sujeito não ter mais vínculos empregatícios ao mesmo tempo em que existe um capital que o explora, mas esse capital também não pertence a ninguém. Eu me dei conta disso pela primeira vez no dia em que minha mulher (a jornalista Miriam Leitão) foi entrevistar o então presidente do Citibank, John Reed, presidente do clube dos bancos que conduzia a renegociação da dívida brasileira. Ela perguntou qual era a relação do Citibank com os fundos, e ele disse assim: “Eles são os nossos donos”. Significa que a professorinha lá da Califórnia é uma das donas do Citibank. Como é que fica a ideia do capitalismo? Tornou-se um negócio bem mais complicado.

A sociedade dos “por conta própria”
Essa transformação da sociedade pós-moderna encurtou os mecanismos de representação e de participação política. Tanto as categorias que a esquerda organizou para apoiá-la quanto para ela representar e defender diminuíram dramaticamente no contexto da economia geral. Por outro lado, no seu período de sucesso, a esquerda levou boa parte da sua base proletária aos portais da classe média, com todas as garantias que a classe média tem – de Previdência, seguro saúde etc. Ocorre que se passou a ter uma enorme quantidade de gente fora das categorias, pessoas que não eram nem sindicalizadas, nem empregadas, nem de classe média, nem de classe operária. Elas se transformam em uma categoria que o sociólogo Ulrich Beck chama de “por conta própria”, em um sentido bem mais amplo do que a ideia que temos no Brasil de informal. Esse grupo é o produto dessa ideia, primeiro do enfraquecimento do Estado e, segundo, de que o mercado resolve. A sua vida é por sua conta e risco. Essa sociedade aumenta dramaticamente as desigualdades, ao mesmo tempo em que essa parcela não tem qualquer mecanismo de interação com o sistema político convencional, que em algum momento já defendeu e constituiu direitos para as pessoas parecidas com eles no passado. No começo do capitalismo o próprio trabalhador fabril não tinha contrato. Isso tudo é uma evolução que vem da esquerda em todos os sentidos. A Revolução Russa produziu, na verdade, a reação dos social-democratas da Europa, com medo de que o sistema soviético chegasse até eles. Essa interação das forças políticas que a democracia promove é outra questão que a esquerda tem de entender. Ao estabelecer um parâmetro de competição entre projetos de sociedade distintos, a democracia responde a essas demandas, mas, ao mesmo tempo, permite que cada um desses grupos consiga acertar o seu caminho sem produzir uma tragédia monumental.

Corrosão da competitividade política
A esquerda perdeu a capacidade teórica e a virtude de tirar dessa capacidade teórica soluções práticas estruturais, na linha do que Gramsci dizia: “Ou dá soluções estruturais para as necessidades do povo ou não ganha”. Ela perdeu também as condições de competição política por conta dessa incapacidade de dar soluções práticas, ao mesmo tempo em que os liberais conseguiam oferecer essas soluções práticas, muito dolorosas, mas que funcionavam. O que se convencionou chamar de consenso de Washington produziu a estabilização das economias. Depois, o que se nominou como neoliberalismo produziu estabilidade e progresso econômico – cíclico, é verdade, mas produziu –, ganhando um grande apoio político. A esquerda oferece os mesmos remédios, as mesmas práticas que ela sempre teve. Não consegue se adaptar a essa conjuntura de hegemonia do capital financeiro que exige uma austeridade fiscal, sem a qual o país não tem condições de governabilidade. Ela acaba produzindo uma crise para as quais os neoliberais têm a solução. Isso aconteceu no mundo inteiro, em menor ou maior proporção.

A perda da narrativa
A esquerda perdeu a capacidade de produzir conhecimento. Perdeu também a narrativa. Nos lugares em que conseguiu sobreviver, isso se deu porque a esquerda capturou uma parte da narrativa do centro liberal. Do ponto de vista da análise crítica, estrutural, isso significa conceder a hegemonia. Hoje, a fração hegemônica do capital é financeira, o que constitui outro problema da esquerda. Ela não consegue entender que hoje o capital financeiro não domina apenas a sociedade, mas também o capital fabril. O capital financeiro encurtou horizontes de planejamento das empresas, obrigando-as a ficar muito mais voltadas para o lucro financeiro do que para pesquisa de desenvolvimento etc. No campo do capitalismo, vive-se uma situação por conta própria: o sujeito vai para sua garagem tentar fazer uma inovação porque ele não consegue abertura no mercado convencional. Então, quando a inovação dá certo, o mercado financeiro vem e oferece bilhões de dólares para incorporá-la ao seu acervo de maquininhas que geram dinheiro. Há outra questão que os economistas de esquerda vão ter de enfrentar que é o fato de esse sistema se manter com base em um aumento vertiginoso e constantemente exponencial da velocidade de circulação da moeda por causa da globalização digitalizada do capital financeiro. O sistema gira hoje em um ritmo que lhe dá uma capacidade de reprodução absurda. Por essa mesma razão, quando há um tropeço por algum motivo, o resultado é uma crise global generalizada. Quem perde? Aqueles que não têm a proteção assegurada institucionalmente. Ou seja: fica aquela coisa do elevador. O sujeito chega lá na porta da classe média, vem a crise e ele desce de novo para pobreza. Com isso, aumenta a desigualdade global, tanto entre países quanto internamente nos países. Essa é uma das consequências de não se ter uma narrativa forte de esquerda. Sem uma esquerda vigorosa, nós vamos mergulhar em um universo de desigualdade sangrenta. A esquerda precisa ter uma proposta que seja viável. Tem de saber definir quem é o seu inimigo principal. O desafio é construir uma nova sociedade, mas que ninguém sabe exatamente qual será, porque estamos no meio de uma transição brutal. Gosto muito de uma coisa que o Zygmunt Bauman disse. Quando o Bauman fez sua tese do doutorado, sobre movimento operário inglês, ele analisou todos os documentos dos sindicatos do movimento operário, os jornais de luta operária etc., e não encontrou uma referência sequer à Revolução Industrial. E eles estavam em plena Revolução Industrial, estavam sendo constituídos como classe naquele momento e não tinham ciência de que havia uma Revolução Industrial. Claudio Napoleoni escreveu que Adam Smith não tinha a menor noção de que estava falando da Revolução Industrial, porque todos os exemplos dele eram pré-Revolução Industrial. É muito difícil ver o caminho e para onde as coisas estão seguindo quando se está no bojo dessa fluidez toda. É muito difícil narrar ao vivo, até porque faltam as categorias para interpretar essa mixagem muito complicada entre o muito novo que está se instalando e o velho que está acabando.
O colapso das velhas estruturas
Estamos vendo as estruturas pararem de funcionar. A ciência política não consegue resolver vários problemas. A economia já não é capaz de fazer boas previsões. Quando eu era professor no Departamento de Economia Política da UFRJ, um dos livros que a gente discutia era “Modern Capitalism”, do Schofield. Ele falava longamente sobre o fato de que se você quiser saber o que está acontecendo com a economia americana basta olhar a indústria da construção civil e, sobretudo, a condição de moradias, porque todo aquele movimento dava uma boa indicação se a economia estava progredindo, a renda estava crescendo, as pessoas estavam melhorando de vida etc. Esses modelos não têm mais eficácia. Não funcionam as previsões; não funciona a representação; não funciona a economia, obviamente; ou, neste caso, só funciona na base da austeridade permanente e de movimentos cíclicos que não interessam a nenhuma das composições socioeconômicas que temos hoje. Os Estados Unidos vivem um conflito permanente entre os democratas e os republicanos devido ao que fazer com uma economia que patina, anda rápido, patina de novo etc. A China resolveu fazer uma coisa meio Cepalina, um “desarrollo hacia dentro”, porque ser o motor do mundo não deu certo. O novo normal dos chineses é crescer menos, mas para dentro.
um inimigo em pele de aliado
A sociedade em rede vai ser um mecanismo pelo qual conseguiremos organizar uma sociedade de iguais, mais solidária? É bem provável. Mas, para chegarmos lá, precisaremos construir um modelo teórico e uma utopia para isso. Necessitamos de um modelo de boa sociedade, da própria esquerda, como já tivemos no passado. Algo que permita às pessoas sonharem, ainda que tenham de fazer sacrifícios no meio do caminho. O ciclo de declínio da esquerda é potencialmente reversível. Tem muita gente começando a perceber que os problemas novos requerem uma esquerda nova. Não creio que haja a possiblidade de uma esquerda não cosmopolita, que não pensa internacionalmente. Esse ponto terá de ser repensado, o que implica a redefinição dos aliados. Quando a esquerda se alia com a chamada burguesia nacional, que é predatória e está pouco se lixando para qualquer outra coisa senão ter os seus próprios benefícios e muito concentrados em indivíduos, historicamente isso leva a uma economia de baixa competitividade, reduzida produtividade e limitada capacidade de emprego. Na Europa em geral, por exemplo, disputar o nacionalismo pela esquerda significa entregar o poder para o nacionalismo de direita, porque eles são muito melhores nisso. O nacionalismo de esquerda ainda é um nacionalismo, digamos, benevolente, porque aceita imigrantes e tal. O outro não, aliás, todos os outros… Não se trata apenas de um nacionalismo econômico, mas também social, étnico etc. Esse é outro ponto relevante. Não é possível pensar mundialmente a esquerda sem pensar a questão da miscigenação global.
A experiência norte-americana
Nesse quebra cabeças, uma peça inusitada são os Estados Unidos. Eles nunca foram exatamente nacionalistas. Donald Trump, curiosamente, é nacionalista. Eles têm surtos dessa natureza, mas, na sua essência, sempre foram uma economia muito aberta, o que produziu um fenômeno interessante. Depois de uma primeira repressão à esquerda, os Estados Unidos nunca mais tiveram “problema” com a esquerda, porque eles já importavam as práticas social-democratas da Europa embutidas na transação econômica. Eles, por exemplo, nunca tiveram um sistema de saúde pública adequado em comparação à Europa. Barack Obama tentou fazer um modelo hipermoderado e todo mundo achou que ele era um socialista. Lembro que uma vez, há muito tempo, eu e o Albert Fishlow fomos a um seminário, em Berkeley, para falarmos sobre repressão na América Latina. Depois do evento, a líder do Partido Comunista de São Francisco me procurou e disse assim: “Você é brasileiro, certo? Você tem relações com o Partido Comunista?”. “Tenho, claro.” E ela disse: “Como é que vocês fazem para ir em uma fábrica falar com os operários? Porque aqui, quando a gente entra na fábrica e diz que é comunista, eles batem e expulsam a gente.” Ou seja: os Estados Unidos conseguiram um grau de imunização da esquerda que os tornou, como consequência, uma sociedade claramente mais desigual do que a europeia. Eles não têm mecanismos políticos de enfrentamento da desigualdade como aqueles que foram construídos na Europa. Mas, na hora em que se tem uma União Soviética poderosa e a Guerra Fria, os norte-americanos aprofundam as políticas sociais com medo de alguma ameaça.
Uma travessia a fórceps
Nós vamos passar por uma transição muito dolorosa, que destruirá emprego, detonará sistemas de produção inteiros. Até que se reconstitua uma malha de produção, seja ela qual for, haverá muita dor e muito incentivo à “direitização”, ao autoritarismo, à desrepresentação. Se nós não tivermos uma centro-direita liberal forte, capaz de garantir as liberdades públicas básicas, e uma esquerda renovada, com voz para pleitear que as forças políticas em geral busquem soluções, ainda que transitórias, para essa tragédia social embutida na inexorável transição, nós estamos ameaçados de ver o mundo todo sofrer uma agudização da miséria e da desigualdade, por um lado, e do autoritarismo por outro. A esquerda é má defensora da democracia, exceto quando ela está sob o pau da tirania. Ela tem a obsessão de criminalizar o neoliberal. E erra de inimigo. Na verdade, o adversário hoje não é o neoliberal. O neoliberal é o vencedor, o que é diferente de ser o inimigo. Nós vamos experimentar um impulso para uma “extrema direitização” e há vários ingredientes que estão engrossando esse caldo de cultura autoritário, intolerante, racista, como a questão das migrações. Nós teremos muitos problemas relacionados à migração nas próximas décadas, o que estimulará o impulso da rejeição, da expulsão do outro, da negação, uma parte do que a direta liberal chama de “direita iliberal”, na seguinte linha: “Vamos garantir regra de competição de mercado, instituições que assegurem o funcionamento da economia e as liberdades básicas necessárias a isso, e o resto, esquece! Não tem esse negócio de democracia. Vamos esquecer essa coisa de botar o povo na jogada. Vamos tirar o povo disso.” Na hora em que se tira o povo da equação, evidentemente o sistema vai ficando cada vez mais autoritário sem que se perceba. Eu não acredito em má índole, mas na direção que a dinâmica nos leva. Portanto, acredito que teremos crescimento das extremas, do extremismo hipernacionalista, da extrema direita etc. Mas elas não são a principal ameaça. A maior ameaça, em meio ao aumento da conturbação social, é esse impulso do centro de eliminar a representação e estabelecer um processo cada vez mais de exclusão politica e de exclusão social por causa da necessidade de manter o Estado enxuto. A responsabilidade fiscal é um imperativo do qual nenhum governo vai poder escapar, porque a base de produção de recursos para financiar o Estado está em crise, gerando cada vez menos recursos tributáveis. Mesmo porque toda vez que se aperta a tributação na parte principal do capital, que hoje é financeira, ele vai embora; automaticamente impede a sua tributação. O capital aceita até a cobrança de um pedagiozinho, pequeno, de acordo com a qualidade da economia. Agora, se a tarifa aumentar demais, ele decide passar por outra estrada.
Em busca da identidade perdida
A esquerda está no meio de uma crise de identidade, que dificulta até mesmo uma produção teórica. E essa crise da esquerda se dá menos pela força da direita e do centro liberal e mais pela sua própria fragilidade e incompetência em disputar essa luta política com eficácia. Ela está empacada em algumas situações que não vão levá-la a lugar algum e não consegue renovar suas alianças e mudar a narrativa. A consequência é a radicalização de posições que não são viáveis. Há dois exemplos hoje na esquerda mundial que apontam nesta direção, nos Estados Unidos e no Reino Unido. Tanto a esquerda do Partido Democrata, de um lado, quanto os trabalhistas liderados por Jeremy Corbyn, do outro, estão se afastando do centro dos seus partidos e, portanto, perdendo evidentemente suas bases tradicionais, encantados com as bases novas que eles encontram, mas que são completamente líquidas, como diz o Bauman. O apoio do jovem encantado com o velhinho que fala umas coisas interessantes que mais ou menos combinam com o que ele indignadamente pensa é ótimo, mas é fluido. Esse apoio não resistirá à próxima vibe desse jovem. Volto ao Corbyn: o que ele faria se assumisse agora o Gabinete? Que diabos ele faria em uma Europa toda limitada, em que cada um está procurando individualmente uma saída, porque ninguém sabe exatamente pra onde vai? Ele vai radicalizar? Vai ficar isolado e será derrubado em pouco tempo. Não tem condição de sustentação. Se a esquerda extremar as ideias, cometerá um erro fatal. Na verdade, ela precisa abandonar as ideias que tem, mas não abandonar o seu espírito, o sentimento de que ela se construiu historicamente como movimento solidário para formar uma sociedade de iguais.
A teoria que não consegue explicar a prática
Em um primeiro momento, a esquerda precisa mudar suas categorias e se adaptar a esse mundo transitório. Aliás, um contrassenso curioso: onde é que podemos encontrar uma boa base teórica para explicar um processo de transição estrutural tão brutal quanto esse? Só na esquerda! A direita não tem uma explicação, uma teoria pra isso. Nós conseguimos encontrar em Marx ou em Gramsci uma explicação para uma sociedade que está morrendo e outra que está nascendo das contradições dela, mas ainda não se aprumou, ainda não é visível. Essa lógica de movimento por contradições é uma categoria que só existe na esquerda. Ou seja: ela deveria estar entendendo melhor o que tem se passado. A esquerda estudou esse movimento a vida toda. Como se insere nele? Como reage a ele? Como monta uma estratégia para ele? São perguntas que ela teria de responder, mas não consegue. Ela não é capaz de aplicar a própria lógica do pensamento que formou. Obviamente, essa mudança estrutural, inexorável, pode ser feita sem a esquerda. Mas a presença de uma esquerda renovada e fortalecida garante uma expectativa de um futuro muito menos doloroso.
Entre cegos e visionários
Há pedaços da esquerda que conseguem perceber trechos e nuances dessa transição. Eu me lembro que em uma de minhas encarnações acadêmicas estudava muito o Estado e havia o pessoal mais afeito à teoria Marxista do Estado, da teoria crítica do Estado, da crise fiscal do Estado etc. Uma boa parte deles hoje se dedica a questões ambientais, a mudanças climáticas, colocando a culpa no capitalismo sem entender o resto. Ou seja: fizeram uma migração parcial. Temos também o pessoal do capitalismo cognitivo que está entendendo essa questão do trabalho, pelo menos que está acontecendo algo muito estranho com o trabalho. Provavelmente a esquerda terá de abandonar, por exemplo, uma parte da teoria do valor, uma vez que ela é visceralmente ligada a um trabalho físico. Marx escreveu centenas de páginas enfatizando a transferência de força humana para a mercadoria. Então, nós vamos ter de lidar com essas transformações que atingem as próprias categorias. A lógica do movimento, pelo menos enquanto a sociedade tiver essas contradições que ela tem, não vai mudar. Marx escreveu um artigo sobre colonialismo na Índia muito engraçado. Engels foi para a Índia analisar o que estava acontecendo, todas aquelas rebeliões, e enviava relatórios para o Marx. A partir desses relatos, Marx produziu um artigo, dizendo mais ou menos: “Olha, entendi tudo”. Aquilo dali era uma sociedade de castas, conformista, cada um na sua posição, ninguém lutando pela posição do outro. Ou seja: ela ficaria ali secular, sem uma dialética, sem uma contradição interna que fizesse mover as máquinas. Chegam os ingleses, introduzem a contradição e, então, a sociedade desmorona. A contradição provoca um enfrentamento entre partes da sociedade, enfrentamento que é o próprio dínamo do movimento da sociedade. Agora como é que a gente opera essa lógica nesse momento e opera pra nos dar uma melhor compreensão do que fazer diante das circunstâncias? A fração da esquerda que pensa percebe e se envolve com esse problema. Tem muita produção, discussão, procura. Há uma juventude recém-entrada na academia bastante empenhada em entender e se posicionar diante das inevitáveis mudanças do mundo, que não está acomodada e busca novas categorias para não bater com a cabeça no muro. A questão toda é por onde virá o fiat, por onde se encontrará a saída.
sergioabranches@sergioabranches.com.br

 

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