A Estética do Zoom

A Estética do Zoom

José Vicente Santos de Mendonça, Advogado

 

Na coletânea “Mitologias”, publicada em 1957, o francês Roland Barthes se dedica, dentro da disciplina fetiche da época – a semiótica –, à análise dos sentidos ocultos em imagens cotidianas: o wrestling, a propaganda de detergente, o striptease. Um dos textos, inspirado nas viagens de André Gide ao Congo, analisa a imagem do escritor em férias. O que ela revela? Que escrever também é trabalhar? Que o escritor é humano? Que, mesmo durante suas férias, não deixa de produzir? Que, sendo falso trabalhador, é também falso veranista?1

O que revelam as imagens do autor entrevistado na live no Instagram? O que permitem intuir nossas janelas nas reuniões via Zoom? Creio que certa estética, emergente em nossa pandemia, possa desvelar algo sobre nós.

Em primeiro lugar, e aproveitando Barthes, há proximidade entre a imagem do escritor de férias e o vislumbre da biblioteca do entrevistador ao fundo. É o retorno à intimidade. O jornalista é gente. Ela não habita cenário translúcido (com plantas hipsters ao fundo), ou tela que vira a previsão do tempo, ou palquinho em que bambas dão canjas. Moram em casas – quase – como as nossas. Jovens repórteres moram em pequenos apartamentos com salas acompridadas; medalhões dã-se ao luxo de cumprir quarentena no campo. Alguns improvisam microfones; outros, institucionais, exibem o logotipo do patrão. Mas o mais íntimo não é a sala. É a biblioteca.

Anunciou-se a morte do livro físico (sobre o que há dúvidas), mas certo mesmo é que ele tem futuro como cenário. Ele provê ambiência para o café (livrarias contemporâneas) e para a sinalização de cultura (entrevistadores contemporâneos). Em outra obra, quase tão batida quanto as “Mitologias” de Barthes, embora menos lida, Bourdieu identifica a necessidade de distinção da sociedade francesa com o uso de elementos como a culinária, a decoração, a vestimenta. Num país como o Brasil, em que, segundo o IBGE, quase sete por cento da população é analfabeta, biblioteca vísivel é sinal de classe, marcador de habitus. Não apenas se possui dinheiro para o supérfluo – um livro não é mais necessário do que uma privada –, mas a superfluidade é investida na instrução, o que pressupõe a posse de algo – o tempo introspectivo – abundantemente alheio aos pobres.

Tão importante quanto o que mostrar da biblioteca é o que não mostrar. Em tweet do dia 22 de abril, o professor Adrian Vermeule, da Faculdade de Direito de Harvard, fazia piada: “Movendo cuidadosamente os livros cheios de Ideias Perigosas para longe da visão dos meus estudantes para me preparar para a aula via Zoom”. Talvez a visão das estantes, para além de sinalizar tempo, permita entrever algo próximo a um Eu individual sobrante à curadoria de imagem a que nos inflingimos em nossas redes. Melhor mudá-los de lugar.

O retorno à intimidade vislubrada na decoração de salas e de bibliotecas fez surgir, quase que de imediato, memes com bibliotecas de cartolina sendo vendidas como fundo. A estética do Zoom é, aspiracionalmente, a estética do fake: antes limitadas a categorias cuja prática profisional exigia a celebração da erudição – advogados que compram livros a metro para decorar escritórios –, na era da visualização pelo celular tudo é tela; então tudo é cena. Na disputa dos anos 90 entre franceses, Pierre Lévy e suas manifestações algo otimistas sobre a cibercultura (como o termo envelheceu rápido); e Jean Baudrillard, pessimista, prolixo e poético, o presente é mais Baudrillard do que Lévy. Vivemos entre microssimulacros e microssimulações.

E, por falar em fake, a pandemia acelerou o declínio da estética do Instagram-perfeição de dois anos atrás. Todos conhecemos o cenário: millenial pink, muros de tijolinhos, unicórnios, asas de anjo pintadas para a selfie, hashtags gigantescas adoecendo o turismo, entardeceres com filtro, cafés da manhã alvinitentes, gotas d´água resvalam na quase-modelo de biquíni enquanto ela sorri e, olhando para trás, segura o pau de selfie como um bate-folha do candomblé. Caiu o millenial pink, entra a bagunça da sala desorganizada. É claro que, na desorganização, há intencionalidade. Temos, aqui, outro sentido para a pós-verdade: uma verdade tão menos infiel aos fatos quanto montada aos festejos da autenticidade.

A estética do Zoom desvela também, uma ética do Zoom, manifestada sacramentalmente no cancelamento das lives de celebridades que exibem luxo. Madonna publica foto na banheira: “o vírus”, diz a legenda, em contradição performativa, “iguala a todos”. Gal Gadot, Mulher Maravilha, dentro de seu closet do tamanho de microapartamento: “meu superpoder é ficar em casa”. Maitê Proença fornece dicas de como usar o aspirador: “troque apoio da perna, troque de braço, alongue a lombar”. Ela não parece feliz ao fazer isso. Se, em meados nos anos 70, Schott-Heron cantava que a revolução não será televisionada; em 2020, a revolução será transmitida em vídeos do IGTV com dez minutos, numa filmagem tremida, acompanhada de mil likes. Acontece que não será uma revolução, mas microrrevoluções virais: esgares de ódio social, de bajulação doentia, de elogios e de críticas dobradas ad infinitum numa logorreia insana, mas com potencial de construção/destruição de marcas. Numa escala menor, a estética do Zoom tornada ética permite microrrevoluções pessoais: o ministro Marco Aurélio não usa terno nas sessões do STF transmitidas por videoconferência. É, a seu modo, guerrilheiro digital, forjado pela tosquice das chamadas virtuais.

A ética do Zoom e das lives, com sua intencionalidade vagamente redistributiva, é, também, celebração comunitária da destruição. Daí que se vê surtos de originalidade: “Viva a morte!”, grita a instagrammer. Exemplo de hubris e de tragédia no sentido técnico (verdade de elevação que se completa na verdade da destruição). De veículo de publicações patrocinadas, ela se tornou alguém no mundo graças a opinião idiota – mas, finalmente, dela. Todas as blogueirinhas felizes se parecem, mas cada blogueirinha infeliz é profundamente infeliz à sua maneira. E é graças a ela que podemos proclamar o enunciado completo da ética do Zoom: “o vírus iguala a todos: viva a morte!”.

Mas voltemos à estética. Ela é fragmentada; sua forma típica são as janelas simultâneas. Ela espelha e constitui nossa sociedade cacofônica; mas há um paradoxo. Falar ao mesmo tempo interrompe a conversa: a confusão das redes sociais encontra antagonista na roteirização pausada. Uma atmosfera de sala de aula americana: há que se levantar a mão para falar (claro que homens atropelam as mulheres2). A descontinuidade das ligações mostra, por outro lado, que nosso perfectivismo tecnológico encontra limite físico: o interrompido, o estalado. Num ambiente em que se usava a palavar “disrupção” como marketing, eis-nos que o Disruptor das Gentes – o acaso – ressurge. Cachorros invadem entrevistas; roupas inapropriadas, um ministro do STJ com um tubarão ao fundo. Há certa ambiguidade: com bibliotecas fakes, mas cachorros reais, o vírus zoomificado tenta nos redimir de nossa performance-para-o-Outro.

Enfim: a estética do Zoom é íntima, organizada para a desorganização, fragmentada, estalada. Por um lado há nela – como em tudo da primeira vez – certo respiro aleluiático de improviso. Por outro, o risco do abismo: de tanto olhar para a tela, a tela passou a olhar para nós. Precisamos saber o que estamos deixando vazar.

 

O autor é procurador do Estado do Rio de Janeiro e professor universitário

jose.vicente@terra.com.br

 

NOTAS DE RODAPÉ

  1. Mitologias, p. 33.
  2. https://www.nytimes.com/2020/04/14/us/zoom-meetings-gender.html

 

 

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *