A era das distopias

A era das distopias

Maria da Conceição Tavares, economista

 

MOVIMENTOS UTÓPICOS

 

Desde o século XVIII, os movimentos políticos, sociais e econômicos deixaram de se orientar pela ideia de tradição, substituindo-a pela de um futuro diferente e melhor. Eles acreditavam que a história tinha um sentido, um objetivo, uma utopia: criar uma sociedade mais livre e mais igualitária. A busca da liberdade pautou o século XIX: liberdade do indivíduo, política e econômica, representada pela Revolução Francesa. Depois, no século XX, veio o marxismo e a promessa do reino da igualdade, representada pela Revolução Russa. Foi também em nome da igualdade que se construiu o Estado do bem-estar, como uma alternativa ao socialismo. O planejamento era uma ideia inseparável dessa visão de mundo. Democratização, planificação, esse é o século XX. As pessoas acreditavam que o futuro estava destinado a isso. E orientavam-se politicamente em função da reconstrução do mundo. Mas essa orientação histórica rumo à liberdade e à igualdade, elaborada no Iluminismo, acabou no final do século XX.

 

A supremacia do indivíduo

 

O movimento neoliberal – na verdade, um individualismo escrachado – começa em 1980, com as gestões de Ronald Reagan, na presidência dos Estados Unidos, e da primeira ministra da Inglaterra, a Sra. Margareth Thatcher. É a tríade desregulação, privatização e globalização. Thatcher resumia este pensamento com mais brilho do que o caubói americano. Para ela, a sociedade não existia, só as pessoas, os indivíduos. O Estado intervém, mas não para regular o mercado, senão para favorecê-lo. Pode ser que a queda do muro de Berlim e o esfacelamento da União Soviética estejam por trás da falta de utopias igualitárias. A União Soviética esfacelou-se sem guerra, o que era inacreditável. Certo mesmo é que a história deixou de iluminar o futuro para os economistas, os políticos, os ativistas. As vanguardas desapareceram. Com o esboroamento das utopias, esvaíram-se também as ideias de socialismo, do Estado de bem-estar e o planejamento econômico. O mercado e o neoliberalismo são incompatíveis com a ideia de sociedade organizada e de Estado planejador. A palavra “plano” simplesmente entrou em desuso! No bolo da globalização, da desregulamentação do Estado, dos mercados, criou-se uma economia transnacional, sem fronteiras. Você opera com filiais em qualquer parte do mundo. Qualquer coisa que você compre hoje, as peças vêm não se sabe de onde. É difícil planejar assim. Parece que o modo de pensar a história como um movimento na direção da igualdade, teve seu período de esgotamento. É difícil hoje alguém acreditar na igualdade. Acredita-se, em países em desenvolvimento, na luta contra a desigualdade. Mas na construção de uma sociedade igualitária, não.

 

 

Futuro amorfo

 

Com a hegemonia neoliberal, os antigos receituários perderam seu sentido. Vemos a sociedade mexer-se, mas a forma superestrutural de fazer política parece não andar para lugar nenhum. Na Europa desenvolvida e nos Estados Unidos, o Estado de bem-estar foi para o diabo! A política econômica não vai a lugar nenhum. Acontecimentos que outrora teriam grandes implicações políticas deixaram de tê-lo. Pensem, por exemplo, na eleição de Barack Obama. Como se elege um negro nos Estados Unidos e não acontece nada? Era para ter acontecido, bem ou mal, uma mudança de paradigma, de comportamento social. A eleição de um negro na década de 1950 teria um impacto grande! Mas Obama não consegue vencer sequer a resistência do Congresso. Não consegue fazer reforma nenhuma, nada! Como sou economista, tenho sempre o viés economicista, de olhar e ver alguns nós. Fico emputecida com o fato de a política norte-americana não andar para lugar nenhum. É para emputecer, não? Não se criou um novo Breton Wood, nada! Eles no final elegeram aquele “afro-americano” simpático apenas para proteger os bancos, os banqueiros? A capacidade normativa nacional e internacional é pífia. Já era para se estar discutindo pelo menos uma reforma monetária. Com a fragilidade do dólar do jeito que está ninguém sabe o que fazer. Os únicos que não têm com que se chatear são os chineses. Eles estão engordando aquela reserva colossal que não serve para nada, só para acumular. Como eles colam no dólar, não têm problema. E quem diria que ser europeu se tornaria motivo de tristeza. Foram os mais avançados do século XX e, depois, caíram numa situação que combina pompa e malaise. Não vão a lugar algum. Isso tudo decorre de não existir ordem internacional nenhuma. Tem ordem imperial, mas internacional, não. Enfim, como a história não ilumina mais o futuro, na forma de uma ideologia, as pessoas estão perdidas, não sabem como se guiar do ponto de vista político, econômico. E com isso a história parece que não se move. O futuro fica ilegível, amorfo.

 

 

Tempos fraturados

 

O mundo reformista está mal, e o mundo revolucionário também. O que se vê, aí, são manifestações que misturam religião e guerra civil. Não é só no plano prático da política, é no plano ideológico mesmo. Nesse sentido, o pensamento social está muito atrasado, muito desmilinguido. O pensamento reformista sumiu. Agora, o que há é uma espécie de naturalismo. O mercado é o estado natural. As desigualdades são o estado natural da sociedade. Naturalizou-se uma concepção de vida social a respeito da qual se passou um século inteiro combatendo. Mais: ao contrário do século XX, que organizou as massas, os sindicatos poderosos, organizações internacionais festejando o progresso, agora todos os interesses se fracionaram, se fragmentaram. O marxismo deixou de organizá-los. Vejamos o último livro de Eric Hobsbawm, Tempos fraturados. Ele se dá conta de que fraturou mesmo. Neste sentido, o século XXI se parece com o século XIX. Este desarranjo da coisa mundial, global… No século XIX, a Inglaterra era o império. Agora, os Estados Unidos… Também há uma contradição muito grande: um bruto desenvolvimento tecnológico, uma globalização de mercado que supera o século XIX. Mas o individualismo burguês, bem ou mal, tinha uma face progressista. O individualismo pequeno-burguês não tem face nenhuma! É uma coisa chata! É uma crise que se manifesta pela ausência, pelo vácuo e não sai daí. É um nó só. Ninguém sabe como desata!

 

 

A ascensão da malta

 

O Brasil está conseguindo fazer  políticas sociais avançadas. Nosso andamento é diferente dos demais. Nós fizemos o nosso Estado de bem-estar, formalmente, na Constituição de 1988. Tratava-se de uma construção política bonita a ser realizada. E hoje, a gente consegue, no governo do PT, fazer políticas sociais avançadas. Está diminuindo o número de miseráveis, com o consequente aumento da base da sociedade organizada. Estava tudo tão atrasado que dava para fazer. O salário mínimo multiplicou algumas vezes. As taxas de emprego nunca foram tão altas. A massa dos pobres está sumindo devagarinho. A ideia de uma malta ascendente, de que a desigualdade está diminuindo, é fato, todo mundo sabe. Não há como esconder. Foi deliberado. Embora a crise esteja grassando lá fora, no nosso caso ainda dá para ir levando. Na verdade, se o PIB é “pibinho” ou não, qual o problema? Vai ser 2%, 3% ou 4%? O problema é ter emprego. Para mim, os critérios clássicos são emprego, salário mínimo e ascensão social das bases. E também é sempre importante olhar o investimento. Com isso, estou satisfeita. Poderíamos não ter nem isso. Coisa dramática é quando começa a aparecer desemprego, falências, quebradeiras. Aí, é crise. A redução da desigualdade é a única coisa que se pode dizer que o PT cumpriu. O resto…

 

 

Ausência de planejamento

 

Há muita dificuldade em tornar isso legível por meio, não digo de uma ideologia, mas de um plano, de um guia de ação. Parece que tudo se esvai no arroz com feijão. Dá para fazer política econômica duvidosa, mas não dá para fazer planejamento. A equipe de planejamento é muito fraca. E tem um problema que não sei como vai ser resolvido. Nas democracias emergentes, uma série de grupos de interesse se encastela dentro do Estado. Então, tem Ibama, Feema, Funai. Todos legitimamente constituídos e seguindo à risca as leis vigentes, mas querendo ser proativos ao extremo. Aí tudo deságua no Ministério Público, na Controladoria Geral da União, no Tribunal de Contas. Tudo vai parando! Não tem projeto que aguente. E tem agentes privados que também se encastelam no próprio Estado, como o caso do BNDES. Se tiver uma centena de empresários que esteja promovendo é muito! De novo, fragmentação de interesses. Todos legítimos, mas fragmentados. Enfim, o social avançou, mas os nós da economia parecem que aumentaram. Por outro lado, a organização social de massas, os grandes sindicatos, também não vai bem. O que se vê das massas hoje é tudo no sentido inorgânico, é multidão. E os sindicatos estão meio aparvalhados. Quando não estão, fazem beicinho. Parece que é moda agora ter greve nas universidades todos os anos. Faz-se greve quando dá na telha! Greve no serviço público virou piada: não há mais greves do setor privado, só do público! Além disso, faz-se uma greve que mistura um monte de demandas que não têm nada a ver alhos com bugalhos. Aparece no meio da greve um movimento pelos botos, outro pelos índios, outro pelos gays. Não há mais uma paralisação voltada para uma única e objetiva demanda trabalhista. Não! Quando tinha e era por salários, você acabava negociando. Agora, não. Isso é uma deformação.

 

 

Manifestações de araque

 

Haja vista os nefastos episódios desses máscaras negras – os black blocs, esses garotos de merda –, a energia que fica é a da violência. Não sei até que ponto o povo propriamente dito precisa de utopia. Mas a classe média precisa. Não tendo, ela transforma sua mágoa em ódio. De fato, quem promove a violência não são os deserdados da terra, para quem as coisas melhoraram; são da classe média baixa. A energia só está se manifestando através da violência. Não tem energia utópica, só através da violência. Não tem utopia, só distopias. É só o aqui, agora; quero derrubar isto, derrubar aquilo. Não tem objetivo programático! É uma coisa esquisitíssima, enlouquecida: é fascistoide e anarquista ao mesmo tempo. Essa coisa da fragmentação ou fratura, por um lado, e de violência nas manifestações, de outro, são muito desagradáveis. Aí, afeta tudo. Afeta os partidos políticos, afeta os sindicatos, afeta todas as organizações da sociedade que levaram tanto tempo para serem criadas. A violência é uma manifestação que me incomoda muito. Eu estou aqui no Brasil há muitos anos e não me lembro de nada disso. Não tem ideologia e não tem pleito definido. Esses garotos de merda vão para o pau pedir o quê? Não somam nada: vai-se para o pau gratuitamente. Esta coisa de torcida de futebol está uma coisa infecta. Estes garotos das máscaras são repugnantes. Só têm irritação. A imprensa não diz nada, faz uma confusão. Está torcendo para que haja a morte de um menino desses; que um policial incauto dê uma porretada num garoto. Essas manifestações, que eram espasmódicas, agora acontecem toda hora. O ano vai ser difícil. O advento da Copa vai ser uma oportunidade enorme de ocupação das ruas. Vai ser filmado, vai aparecer no mundo. Não gosto nada disso. Está com cheiro ruim!

A orfandade da classe média

 

Há hoje um desconforto grande da classe média tradicional, deserdada pelo discurso do PT, que só trata de salário mínimo, desemprego, incorporação de pobre, aumento da renda do pobre… Há avanço social, mas ele não conta para essa classe média. É verdade que ela não tem sofrido de desemprego. Mas, vendo os pobres se aproximarem da sua condição, ela tem a impressão de que está estagnada, decadente, perdendo posição relativa. No fundo, estava acostumada a ser elite, e, quando vê os pobres subindo e sendo valorizados com exclusividade pelo discurso do governo, ao mesmo tempo em que ela perde o peso decisório, começa a se achar enxovalhada. E, aí, a imprensa conservadora surfa. Ela não dá destaque a essas melhorias sociais. Publica quando não pode deixar de publicar, mas não dá destaque! Então, essa classe média, que o PT chama de udenista, se junta com essa grande imprensa. Só que eles perdem a eleição de novo, o que só aumenta a sua irritação. É uma retórica que mistura preconceito, reacionarismo, incômodo com a manutenção de não ter alternância na marra, de postergação de seus interesses e de sua visão de mundo. Aí aparecem esses fascistinhas em manifestações. É um ambiente horrível para essa classe média, porque a sua impotência não encontra canais adequados para desaguar. Só se percebe o clima piorando, sufocante, fomentando a violência pipocante, combinada com a sensação de abulia, de que tudo que se fizer será inútil. Trata-se de um ambiente que nada produz de energizante. É verdade que nossa classe média está sempre reclamando. Não consegue ver nem as partes grandes, quanto dirá o todo. Mas também é verdade que está mesmo cada vez mais difícil de viver, e nisso ela tem razão.

 

 

Transição para o quê?

 

Acho difícil saber para onde vamos. Não dá para dizer se o resultado do que está ocorrendo será positivo ou negativo, à luz do que se conheceu até aqui. O que ocorre hoje pode ser uma transição ou um apodrecimento. Transição não sei para quê, porque não há uma utopia prévia. Você podia falar em transição para o socialismo no século XVIII ou XIX porque estavam lá as manifestações e as utopias prévias. Mas, agora, a transição para o socialismo quer dizer o quê? Tudo bem, pode ser que seja um viés reformista da minha geração… Eu sou uma adolescente do século XX e me identifico muito com ele, a favor do que era bom, e contra o que era ruim. Por outro lado, não vejo causas que sirvam para agregar de forma propositiva tantos interesses fracionados. Ninguém sabe como reagir se não há conceito e pensamento, organizados a partir de uma utopia. Acho que esta sensação de impotência, de não se ver ninguém pensando diferente, deriva daí. Diga-me um autor relevante que não esteja pensando dessa maneira, prostrado pela falta de alternativas? Não há ousadia em nada, pelo menos do ponto de vista do pensar. Ninguém na academia está falando nada muito diferente. Por isso, não gosto de dar entrevista, não quero engrossar o coro de lamentação dos intelectuais. Pode ser que eu já esteja ultrapassada, que esteja velha. Mas é como eu estou vendo. De qualquer forma, esse ciclo vai passar. Torcemos para que ele não seja longo.

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *