A crise econômica chega ao Oriente Médio

A crise econômica chega ao Oriente Médio

Julia Erthal Cardoso dos Santos, Analista de relações internacionais

Paulo Cesar Ferreira da Silva Júnior, Analista de relações internacionais

 

A região do Oriente Médio presenciou e ainda presencia um ciclo de revoltas que se estendeu desde o Marrocos, até o Golfo Pérsico, com o Bahrein, passando também pela Argélia, Tunísia, Egito, Líbia, Jordânia, Irã e Síria. Alguns fatores exógenos à região podem explicar como a instabilidade se instaurou, entre os quais podemos citar a invasão dos EUA ao Afeganistão em 2001, o fracasso das negociações Israel-Palestina, a desastrosa intervenção norte-americana no Iraque em 2003, e mais recentemente a crise na Europa em seu âmbito econômico, político e de instituições europeias (TEIXEIRA, 2012). Este artigo analisa a crise econômica europeia e suas implicações sociais e políticas em estados rentistas, como a Arábia Saudita.

As economias rentistas são definidas como aqueles territórios nos quais a gestão do setor de hidrocarbonetos se leva a cabo, com o objetivo – político – de lograr o máximo possível de renda do subsolo para os cidadãos nacionais. O controle exercido pelo governo se dá pelo controle do recurso do petróleo, e esse governo se legitima gastando tais recursos com a população (BRICHS, 2009). A consequência é a dependência direta da economia e do regime de preços do petróleo. O Estado rentista tornou-se um recurso de poder e uma característica essencial da estrutura dos regimes árabes contemporâneos.

A eclosão de conflitos relacionada à existência de recursos naturais em um país é muitas vezes feita em termos de competição ou ganância por recursos por parte de um grupo rebelde originando um conflito. A grande questão é que existem outros mecanismos que podem explicar a relação entre conflitos e recursos (HUMPHREYS, 2005). Na região específica do Golfo Pérsico, que compreende o Omã, Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita, Quatar, Bahrein, Kwait, Iraque e Irã, as revoltas chegaram ao Bahrein, mas foram reprimidas pela polícia local e por uma invasão saudita. O Estado Saudita parece ser a “última fortaleza a ser preservada da contaminação de revoluções” (NASSER, 2011). Para a Arábia Saudita, estado rentista por excelência, essa explicação relacionando recurso-conflito não é eficiente, uma vez que o recurso é controlado pela elite dominante, mas não se identifica uma revolta por parte da população.

Contudo, mesmo para estados rentistas, em um contexto de crise econômica o conflito por recursos pode ser intensificado, na medida em que a dependência torna o país mais sensível aos choques do comércio internacional, e assim afeta o provimento de bem-estar à população. A Arábia Saudita começou a sentir os efeitos da crise com a redução da demanda por petróleo, mas, ainda assim, o país parece estar imune em termos de revoltas sociais. O questionamento central é a respeito de quais são as medidas tomadas pelo país que o permitem se manter estável socialmente em um momento de crise econômica e revoltas árabes.

Um fator preponderante na Arábia Saudita e que em alguma medida pode facilitar o controle da população, além do domínio do petróleo pela elite local, é o islamismo. As reivindicações dos movimentos que eclodiram na região não apresentavam rejeição a este; na verdade, a luta era muito mais focada em reivindicar melhorias econômicas. Nesse sentido, a Arábia Saudita tem um “escudo protetor”, uma vez que com os recursos provenientes tanto do petróleo, quanto da peregrinação aos lugares santos, o país consegue investir em programas de desenvolvimento social para a população. Mas essa situação sofreu alguma modificação com a intensificação da crise na Europa.

 

O contexto do Estado Saudita

Nos países árabes, após o fim da Guerra Fria e da Guerra do Golfo, começaram a surgir dinâmicas que pareciam indicar tímidos movimentos de democratização. Contudo, foram apenas tímidas reformas, e hoje as bases das estruturas de poder se mantêm inalteradas (BRICHS, 2009).

A partir da década de 1990, o petróleo começou a se colocar como um importante recurso, e sua produção saltou de 670 bilhões de barris em 1984 para 1 trilhão nessa década, bem como as reservas no Golfo Pérsico aumentaram demasiadamente, o que fazia com que o mundo se tornasse altamente dependente de tal região (YERGIN, 2008).

Com o peso central do petróleo e as tentativas do Iraque em se estabelecer como hegemonia na região do Golfo Pérsico, a Arábia Saudita via a necessidade de aumentar seus gastos militares (YERGIN, 2008). Desde essa época até a atualidade, os gastos militares da Arábia Saudita são os maiores da região (BRICHS, 2009). Junto aos gastos militares, há nesses países da região do Oriente Médio um controle dos recursos de poder pelas elites primárias. Esses recursos compreendem o próprio Estado, a renda, a coação, o capital privado e a ideologia. Na Arábia Saudita, a elite central, e que detém o controle dos recursos, é a família Saud, atualmente sob a figura do rei Abdullah ibn Abdul Aziz (SOLER; ZACCARA, 2009).

A economia do país é fortemente baseada na extração de petróleo – o Estado Saudita é um Estado rentista por excelência. Importante ressaltar que o rentismo já existia no país mesmo antes da economia petrolífera, em função da renda produzida pela peregrinação a Meca e a Medina, as áreas religiosas que fazem parte do território do país (SOLER; ZACCARA, 2009). A religião é um fator importante e um meio que as elites também possuem para controlar sua população.

As primeiras jazidas de petróleo foram descobertas em 1938 por prospectores norte-americanos. No contexto da Segunda Guerra Mundial, a Arábia Saudita acaba fazendo uma aliança estratégica com os norte-americanos, concedendo parte da exploração a uma empresa desse país, formando a ARAMCO. Essa aliança foi essencial naquele contexto para a política externa dos sauditas, os americanos investiam em outras áreas que não as do petróleo. Aos poucos o país começa a se afastar da dependência com os americanos e, em 1980, consegue o controle de 95% da empresa petrolífera (SOLER; ZACCARA, 2009).

Ainda hoje, a riqueza do petróleo continua muito presente no país, sendo este o maior produtor de petróleo da OPEP. O Estado utiliza esse recurso para se manter no poder, ou seja, como ferramenta política. E, além disso, parte do rendimento do petróleo do país é aplicado atualmente em um fundo soberano, com objetivo de investir no exterior para alcançar lucro e influência política (SOLER; ZACCARA, 2009).

Dessa maneira, a partir da lógica rentista do Estado, a família Saud consegue se sustentar no poder, e também conter clamores da população por melhorias econômicas, já que essas já são providas pelo governo a partir principalmente da receita do petróleo, diferentemente do que vem acontecendo com a maioria dos países da região.

 

A religião e o controle social

A religião, assim como o petróleo, também funciona como uma ferramenta política. O Estado Saudita, desde sua fundação em 1932, com os guerreiros Ikwan, está ligado ao jihadismo, assumindo uma interpretação rigorosa do islã. Jihadi significa esforço; existe o grande jihad, que é o esforço travado pelo sujeito com ele mesmo, e o pequeno jihad, para converter incrédulos e oposicionistas.

Grande parte da legitimidade do governo provém da religião – mulçumana wahabita. A ligação religião-Estado precede a própria unificação, contribuindo inclusive para a expansão militar. A partir da unificação, a religião passa a um papel de subordinação ao Estado, com o Conselho dos Ulemás e a Liga Mulçumana Mundial (SOLER; ZACCARA, 2009).

Os ulemás, autoridades religiosas, são responsáveis pelo controle da educação, da justiça e da Fatwa (decretos religiosos) por meio da ideologia wahabita, e, dessa forma, promovem repressões e censura. A Liga Muçulmana Mundial, por sua vez, é uma organização do governo para promover o wahabismo entre os países mulçumanos. Outras formas de controle da população ligadas à religião são: a Mutuawiya – guarda que fiscaliza o comportamento das mulheres nas ruas – e o ministério para a peregrinação a Meca (SOLER; ZACCARA, 2009).

Assim, a receita da Arábia Saudita é formada pela renda proveniente tanto do petróleo quanto das peregrinações para as cidades santas. E por meio desses mesmos recursos, rigidamente controlados pelo Estado, é que o país consegue manter o controle social. Contudo, é importante enfatizar que é também a partir desses recursos que o Estado investe nos setores sociais, o que pode de alguma maneira contribuir para que a população não empreenda movimentos como os que configuram a primavera árabe.

 

A crise começa a chegar à Arábia Saudita

Apesar de o controle da população por meio da religião e de investimentos sociais realizados com base na renda do petróleo ajudarem a Arábia Saudita a se proteger das revoltas árabes, a crise econômica começou a apresentar efeitos no país.

Nos últimos anos a Arábia Saudita experimentou uma significativa redução das demandas por petróleo combinado com uma elevada taxa de crescimento populacional. Segundo o FMI, o país previa arrecadar até fins de 2011 cerca de 140 mil dólares, porém essa meta está ameaçada pela oscilação de preço. A crise econômica internacional começou a afetar o país, no sentido de reduzir a procura do petróleo da Arábia Saudita, o que aumenta o preço do barril.

A estabilidade do regime, até o momento, se deve em grande medida ao controle da população por parte das elites dominantes, atrelado aos constantes investimentos do governo no setor social, com planos de desenvolvimento (SOLER; ZACCARA, 2009). No início deste ano, o rei Abdallah anunciou que iria disponibilizar recursos para financiar projetos sociais. Porém, a crise econômica e o aumento populacional deixam o país em uma situação delicada, uma vez que dependem dos rendimentos do petróleo para realizar investimentos nos planos de desenvolvimento social.

O ponto mais crítico é que conjuntamente com a crise internacional, os movimentos da primavera árabe se alastram na região, e este não é o momento mais oportuno para que as elites sauditas reduzam os investimentos para a população. Uma redução implicaria revoltas no país, que é um dos poucos que ainda consegue se manter em uma posição estável (NASSER, 2011).

Junto à questão da redução da receita do petróleo, a Arábia Saudita está confrontada com o desafio da inflação, oriunda do aumento do preço dos alimentos e da desvalorização da moeda nacional com relação ao dólar. A fim de compreender melhor as influências mais recentes na Arábia Saudita, bem como suas possíveis consequências, é útil retornar brevemente ao desenrolar da crise nos Estados Unidos.

Iniciada nos EUA, a crise foi ocasionada pela eclosão da bolha econômica, formada pelo alto índice de especulação sobre o setor imobiliário americano. A abundância de crédito no mercado americano foi direcionada para o público por meio de empréstimos. Esse crédito conferido de maneira indiscriminada levou a uma alta dos preços dos imóveis, principal bem buscado pelos potenciais compradores, o que gerou um aumento, absurdo, nos preços do imóvel americano. Não tardou, em 2008, a bolha eclodir. A crise americana ocasionou o fechamento e endividamento de muitos bancos nos EUA. Sem condições de arcar com as dívidas, pacotes e empréstimos foram concedidos para amenizar a problemática financeira (PETRO; KOVRINGA, 2011).

O cenário mundial rapidamente foi afetado, pois a economia americana é ramificada. O bloco europeu não tardou a ser afetado, assim como todos os países do globo, que tiveram retrações nas taxas de crescimento, ou afundaram-se em dívidas e sofreram com quedas bruscas no PIB. Ao mesmo tempo em que a economia sofria, os preços das commodities e dos volumes transacionados caíram de forma rápida e preocupante (PETRO; KOVRINGA, 2011). Muitos países, dependentes do comércio e da venda de commodities, tiveram fortes baques em suas economias, e é nesse momento que a Arábia Saudita se insere.

Assim como a maioria dos países do Oriente Médio, a Arábia Saudita é vendedora de commodities; em outras palavras, o petróleo. A maior produtora, e exportadora, do mundo tem como base da sua economia a venda do recurso e a peregrinação religiosa. Sua estabilidade econômica é profundamente ligada ao cenário internacional. Os preços do petróleo determinam a renda do estado, e é nessa base que a política saudita se sustenta.

A crise impactou muitos países exportadores de petróleo, pois mesmo o recurso sendo essencial para a matriz produtiva internacional, seus preços variaram de maneira preocupante, caindo de 141,00$/barril para 91,00$ (WHITE, 2011). Ainda no primeiro momento, a crise interna dos principais consumidores ocasionou uma queda na demanda pelos hidrocarbonetos, e ocasionalmente no comércio destes. As reservas sauditas foram prejudicadas; seus investidores, americanos, retiraram seu capital, tentando estabilizar a crise interna (CAUSE, 2011), o que foi remediado pelas próprias reservas abundantes de capital, que compensaram essa fuga de capitais.

Contudo, a análise sistêmica não aprofunda a verdadeira situação dentro do Estado Saudita. O país é marcado por sensibilidades, tanto na questão de venda como na questão de compra. O fluxo de commodities é a base da economia; a venda de hidrocarbonetos e a compra de commodities agrícolas sustentam a dinâmica comercial saudita. As terras férteis sauditas não são muito extensas. A população é grande, e a produção interna não é capaz de suprir a demanda por alimento. Assim, o comércio internacional tem um papel fundamental em prover o complemento para a subsistência da população saudita (SOLER; ZACCARA, 2009).

A situação se agravava nos EUA, e por correspondência nos países auxiliados por este. As ajudas econômicas, providas, são marcantes no cenário do Oriente Médio, pois são valores que sustentam os regimes rentistas (BRICHS, 2009). Essas ajudas são providas com o intuito de manter a situação e conferir uma influência financeira ao país doador. Mesmo sendo o cenário saudita muito distinto da dependência americana, a crise causou mal-estar na economia.

 

A crise chega ao Oriente

Os levantes árabes tomaram lugar em várias sociedades do Oriente Médio. Países como Líbia, Egito, Iêmen, Bahrein, Tunísia e Marrocos foram cenários de revoltas populares (CAUSE, 2011). Essas revoltas almejavam a mudança dos regimes, que já se consolidavam no poder por longos períodos. O foco das demandas era a transição democrática, ou meramente a concessão de maiores liberdades para a sociedade civil. Alguns desses levantes incitaram mudanças drásticas nos arranjos regionais. Regimes rentistas caíram, tanto pela via armada como pelas manifestações populares, mas a Arábia saudita resiste como “fortaleza” em meio a essas crises. O regime detém muita força militar e econômica, assim como não há uma oposição unificada para questionar (CAUSE, 2011).

O forte contato com o mundo, derivado do processo de globalização, criou um contato com os ideais ocidentais, que motivaram as mudanças em vários países da região. A situação de desigualdade e fome servia como base para as revoltas populares. A educação é precária e desigual entre homens e mulheres. A renda é mal distribuída e a comida é escassa, pois é um bem importado, e o país depende do mercado internacional para suprir a sua demanda. Assim, desejamos entender o efeito das crises sobre o ambiente saudita, e como o governo atuou para reprimir os protestos e atender às reivindicações.

A estrutura saudita é marcada pela característica rentista do Estado. Os empregos são, quase sempre, relacionados ao aparato estatal. A burocracia saudita é associada à família saudita; os cargos são ocupados por membros da família real. Esse nepotismo confere uma unidade maior para a monarquia saudita, pois mantém a estrutura política centrada na família real, ou seja, a elite primária local. Esse fato é reforçado pelo uso abusivo da violência, como forma de reprimir os movimentos de oposição (SOLER; ZACCARA, 2009).

Como visualizado no relatório “Arab Knowledge Report” de 2009, a situação do Oriente Médio é vislumbrada como um cenário de problemáticas educacionais e econômicas. Principalmente pelo fato de a região ser escassa de recursos agrícolas e ser mantida pela estrutura rentista, o povo acaba se tornando uma massa volátil nas mãos dos líderes de Estado. A partir do aprofundamento das mazelas sociais, oriundo da crescente influência da crise no cenário mundial, a renda distribuída já não era mais suficiente para manter as necessidades básicas atendidas. Assim, nesse contexto de indignação e anseio por mudança, as massas se revoltaram em diversos países árabes.

O desejo da população era estabelecer uma monarquia constitucional. Além disso, desejavam também estabelecer uma separação dos poderes, retirar o poder demasiado das mãos da figura do monarca. Outras revindicações populares seriam a reestruturação dos setores econômicos e a distribuição de renda, que estaria muito concentrada nas mãos de algumas elites (CASE, 2011).

A mobilização foi feita pelas redes sociais, o que conferiu certa maleabilidade para a organização do movimento. Contudo, o “Dia de Fúria”, o protesto simbólico, no qual haveria uma mobilização geral da população, foi rapidamente desmobilizado pelo governo. Além da resistência do regime, houve uma inundação em Jeddah, o segundo maior centro urbano saudita. Essa catástrofe enfraqueceu o movimento (CASE, 2011).

Diferentemente dos outros países, onde as revoltas se iniciaram principalmente pela problemática social, a Arábia Saudita possui muita força econômica e capacidade de oprimir e reprimir movimentos de contestação. Houve um “efeito espelho” nessa região, pois a população se identificava de forma empática com os vizinhos. Os indivíduos enxergavam o outro na mesma situação, e a iniciativa alheia servia de motivação para esses movimentos.

A população saudita estava em condições muito similares às dos outros povos árabes. Os índices, calculados pela ONU, apontam situações muito parecidas, o que prepararia o cenário para possíveis manifestações sociais. A situação regional é contrastada com a riqueza desses estados, que possuem grandes reservas de hidrocarbonetos. Não errando nas previsões, as revoltas não tardaram a acontecer e foram rapidamente se espalhando, como consequência de um “efeito espelho”. Contudo, o governo teve tempo de se preparar para a possível tempestade. Diante da situação no Egito e na Tunísia, o estado saudita se organizou para suprimir os protestos (CASE, 2011).

O regime concentra todos os recursos do Estado, o que lhe confere a função de distribuidor dessa renda. A renda do petróleo é altíssima e as reservas de capital (principalmente dólares) são tão abundantes quanto os campos de petróleo. Como forma de calar os clamores sociais, foi estruturado um programa de repasse de capital para a população. Em outras palavras: dar dinheiro, subornar a população, para manter o governo (CASE, 2011).

A estabilidade desse regime é essencial para o cenário internacional. É uma das características dos regimes rentistas prover estabilidade, mesmo que à custa da força e da captação dos recursos para a esfera do estado (BRICHS, 2009). A estabilidade do maior exportador, e produtor, de petróleo do mundo não é só interessante para o regime, mas para o mundo.

Esse recurso tão precioso para a economia mundial não pode ter seu fluxo cortado de forma tão brusca. As exportações têm como destino as maiores potências do mundo. Então seria lógico pensar que o encarecimento do petróleo poderia levar a uma intervenção mundial, caso houvesse um conflito duradouro, como na Síria. Apesar das ligações com os EUA, muitos outros seriam afetados, tanto de forma direta como indireta. A oscilação do preço do petróleo no mercado internacional não seria interessante, pois configuraria um aprofundamento da crise.

 

E se o cenário saudita tivesse se tornado

palco de uma revolta?

Provavelmente o contexto seria semelhante ao ocorrido na Líbia e na Síria. Apesar de os fins serem distintos, a situação encaminharia para um conflito, no qual a democracia não seria o resultado. Mesmo com diferenças de regime, os sauditas são aliados convenientes para os americanos (SOLER; ZACCARA, 2009). Estes garantem a segurança da monarquia, e como resposta têm um “aliado” econômico forte. Boa parte das importações sauditas alimenta o mercado americano.

Mas o que se deu de fato foi o pagamento das insatisfações. O regime colocou um preço nas demandas do povo. As reservas e riquezas sauditas serviram como forma de apaziguar o conflito (CASE, 2011). As dívidas foram perdoadas e grandes somas de capital (35 bilhões) foram concedidas diretamente ao povo. O perdão financeiro era tão grande quanto o dinheiro saudita permitia. O Estado rentista fez seu nome valer; o dinheiro foi, verdadeiramente, distribuído. Mas nenhuma melhoria política significativa foi concedida.

Os movimentos de oposição não são coesos e não possuem uma base sólida. Esse fator é decisivo no quesito continuidade do regime. As problemáticas religiosas e étnicas dificultam a fusão desses grupos e, por consequência, a fusão de seus interesses e de suas demandas, além do próprio regime, que utiliza da força para coagir essas manifestações. O regime saudita é conhecido pela sua agressividade no tratamento da sociedade civil.

Logicamente as próprias diferenças religiosas dificultam a unificação dos interessados, pois o futuro é incerto. Percebe-se nos países em transição uma nebulosidade que permeia a política e o social. Como questionar uma estrutura tão enraizada como a estrutura saudita? Afinal, todo o aparato estatal é composto pelas elites sauditas. A própria vulnerabilidade econômica da região e a dependência dos hidrocarbonetos tornam esse “ouro negro” a base do Estado rentista.

 

Conclusão

A estrutura rentista possui um forte enraizamento nos países árabes. Seu funcionamento é um aprofundador de mazelas sociais, e condensa os recursos no aparato estatal, o que lhe confere o papel de distribuidor de recursos. O Estado rentista é útil no cenário internacional, pois garante a estabilidade interna desses países, vistos como “riscos” para o mundo Ocidental (SOLER; ZACCARA, 2009).

Estados rentistas só se sustentam quando possuem uma fonte de renda que consiga suprir as demandas internas e que consiga ser centralizada na figura do estado. A venda de hidrocarbonetos, a peregrinação religiosa ou a ajuda externa são fontes capazes de atender, ainda que superficialmente, as necessidades internas (BRICHS, 2009). A problemática social é clara no quesito desenvolvimento; são países atrasados educacional e socialmente. Os índices são alarmantes, mas a inexistência de um processo democrático torna a resolução da situação um problema persistente.

As elites que controlam a esfera política participam de um jogo de poder com as elites secundárias para se manterem no poder. A população é colocada em segundo plano, e sua falta de articulação é interessante para as elites, pois auxilia a manutenção dos status quo. Mesmo no cenário de subdesenvolvimento, poucas medidas são tomadas para se alterar a situação. A situação é interessante não somente para as elites locais mas também para os mercados internacionais, que se utilizam desse contexto estável para investir e manter os fluxos de petróleo estáveis (AKR, 2009).

O petróleo é sim uma barreira para a reforma dentro dessas sociedades árabes (ROSS, 2001). A própria estrutura da Arábia Saudita é um facilitador do modelo rentista. Historicamente, na época da unificação e expansão, as tribos já possuíam uma elite consolidada e uma estrutura religiosa e econômica que facilitava a dominação. A mudança se torna mais difícil caso a população não se mobilize de forma uniforme (SOLER; ZACCARA, 2009). O povo só se tornaria um ator em potencial caso obtivesse um apelo geral pela mudança.

A possibilidade de mudança dentro do cenário saudita é dependente de uma série de fatores que tornariam esse processo violento demais ou incapaz de atingir resultados desejáveis. O ambiente internacional, o contexto local, a estrutura estatal e o apoio americano são variáveis para a população saudita, que tem o receio do rumo dessa situação. As revindicações internas, mesmo focadas no social e no econômico, são reprimidas ou compradas.

A hipótese do petróleo como um obstáculo para a democracia é clara nesse cenário. A problemática da crise pode colocar em xeque a estabilidade do regime, porém, como forma de ganhar voz, a população deve se constituir como ator político (ROSS, 2001). Para tal, deve haver uma união e um interesse em comum, a partir do qual demandas isoladas se tornariam uma voz presente. A mudança pode não ser tão abrupta como no Egito, mas uma monarquia parlamentar talvez possa reduzir o poder da esfera política do regime atual, para assim promover mudanças reais no Estado saudita.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRAFICAS

 

BRICHS, Ferran Izquierdo (org). Poder y regímenes em El mundo árabe contemporáneo. Barcelona, Fundación CIDBO, 2009.

HUMPHREYS, Macartan. Natural Resources, Conflict, and Conflict Resolution: Uncovering the Mechanisms. Journal of Conflict Resolution. Vol. 49, no. 4 (2005); pp. 508-537.

NASSER, Reginaldo. “As elites e os Estados árabes, um modelo em crise”. Disponível em: http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=17496. Acesso em 19 set. 2012.

SOLER, Eduard; ZACCARA, Luciano. Arabia Saudí: familia, religión, ejército y petróleo. In: BRICHS, Ferran Izquierdo (org). Poder y regímenes em El mundo árabe contemporáneo. Barcelona, Fundación CIDBO, 2009, pp .221-264.

TEIXEIRA, Francisco. “As novas condições estratégicas no Oriente Médio”. Disponível em: http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=19645. Acesso em 19 set. 2012.

VÁRIOS. The New Arab Revolt. What happened, what it means, and what comes next. Washington DC, Foreign Affairs, Council on ForeignRelations, 2011, pp. 205-209.

YERGIN, Daniel. Crisis in the Gulf. In:___. The Prize – the epic quest for oil, money & power. New York: free press 2008, pp. 329-334.

WHITE, Stephen. Understanding Russian Politics. Cambridge: Cambridge University, 2012, vol. 1, pp. 157-161.

 

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