Um parafuso a menos no capital & trabalho

Um parafuso a menos no capital & trabalho

Anna Cecilia Faro Bonan, Advogada

 

O problema da depressão é compreendido atualmente como uma espécie de epidemia silenciosa, e a sua incidência expansiva é tão preocupante que a doença é considerada, por estudiosos de diferentes áreas, o mal do século XXI, atingindo toda a coletividade devido o seu impacto sobre a economia.

São múltiplas as teorias que tentaram propor a verdadeira causa do acometimento da “epidemia depressiva”, propondo explicações variadas pautadas: I) na sociedade de consumo; II) no supereu do imperativo do gozo; III) na vivência da temporalidade acelerada; IV) na medicalização da sociedade; V) na hegemonia da psiquiatria diagnóstica; VI) nas mudanças dos padrões normativos1, entre outros fatores. De fato, compreender a causa de um mal-estar decorrente da composição da subjetividade do ser não é tarefa fácil ou que proponha resultados precisos. Os seres humanos são multifacetários e suas estruturas psíquicas recebem influência de todas as faces da vida social.

No entanto, algo preocupante é perceptível em uma breve análise dos dados e de uma historiografia das doenças: se de um lado a depressão acarreta ausências (ausentismo ou absenteísmo) e baixo rendimento (presentismo) no trabalho, o que claramente afeta a produtividade e o capital, em contrapartida aumentam as depressões decorrentes da atividade laboral. A relação é complexa, não se sabe bem ao certo se é o capital que adoece o trabalhador ou se é o trabalhador depressivo que adoece o capital. A resposta mais provável é de que haja certa mutualidade na relação, ainda que seja evidente a vulnerabilidade do trabalhador ao capital.

Algumas “fotografias” que nos dão indícios do quadro problemático: De modo geral, a categoria de doenças mentais (constantes no capítulo V do CID-102) ocupa um papel expressivo nas causas de afastamento do trabalho. Dados da Previdência Social demonstram que os transtornos mentais e comportamentais correspondem a 9% das causas que ensejam afastamento e concessão de auxílios-doença previdenciários e acidentários, somando 221.721 benefícios dessa natureza, e ficando somente atrás da categoria “Lesões, envenenamentos e algumas outras consequências de causas externas” (capítulo XIX do CID-10) e da categoria “Doenças no sistema Osteomuscular e Tecido Conjuntivo” (capítulo VIII do CID-10). Quando analisamos somente a concessão de benefícios auxílios-doença acidentários, isto é, aqueles em que há reconhecida relação com o trabalho, a psicopatologia segue em terceiro lugar nas causas verificadas, porém decai para 4% das concessões. No entanto, os episódios depressivos (F32 do CID-10) correspondem a 28% e o transtorno depressivo recorrente (F33 do CID-10) a 7% do total de benefícios concedidos em razão de transtornos mentais e comportamentais decorrentes do trabalho. Ademais, segundo dados disponibilizados pelo Ministério da Previdência Social, no ano de 2014 ocorreu a primeira aparição dos episódios depressivos no ranking dos CIDs mais incidentes relativos à Espécie Auxílio-Doença Acidentários, o único problema de saúde mental constante no mesmo.

É bem verdade que os dados da Previdência não nos permitem ter uma visão da totalidade de trabalhadores acometidos pelo mal da depressão, isso porque nem toda depressão leva o indivíduo ao afastamento da atividade laboral, e nem todo afastamento enseja benefício. Porém, na escassez de dados precisos no país, as tabelas de concessão de benefícios auxílio-doença abrem uma nesga de luz para compreender o impacto da depressão no universo do trabalho. Estaríamos diante de um quebra-cabeça com peças faltantes, mas que nos permite vislumbrar sua imagem.

Alegar que a depressão causa custos socioeconômicos é uma platitude. Obviamente indivíduos em estado depressivo possuem maior dificuldade de interação social e menor participação nos atos de cidadania. Pesquisadores de saúde mental, médicos e juristas que participaram dos Grandes Desafios em Saúde Mental Global reconheceram a grande complexidade da frequente cronicidade de transtornos mentais e sua interação com outras doenças, ressaltando a urgente necessidade de redesenhar os sistemas de saúde para integrar os cuidados dos transtornos mentais e comportamentais com outros cuidados de doenças crônicas, de criar paridade entre doença mental e física quanto ao investimento em investigação, formação, tratamento, prevenção e inserção social3, de identificar os custos de cuidados integrados nos sistemas de saúde de alto e baixo rendimentos e de buscar a expansão de um conjunto de “best buys” para a saúde mental.

Se, por um lado, o problema é gritante, por outro chama a atenção a escassez de estudos quanto aos custos econômicos e previdenciários gerados pela expansiva depressão no trabalho no Brasil. Isto porque a depressão onera o Estado, reduz a produtividade das empresas, amplia os custos da produção – causando arrefecimento da rentabilidade e competitividade das empresas –, produz diminuição em rendas familiares – impactando as relações de consumo4 – e pode gerar ainda danos indenizatórios para o empregador se demonstrada alguma culpa na gestão do trabalho provocador/agravador da doença.

Ainda em 1951, Winslow publicou uma pesquisa, realizada com apoio da Organização Mundial da Saúde, demonstrando as implicações econômicas do binômio saúde-doença e impulsionando um movimento internacional de maior atenção ao problema5. Em 1959 o trabalho de Fein6, referente às repercussões econômicas das enfermidades mentais, instituiu metodologias para avaliar os custos diretos e indiretos das doenças que serviram de parâmetro para os trabalhos ulteriores. Teóricos como Weisbrod7, Rice8, Klarman9, e Kuhner10 também trouxeram importantes contribuições a essa área de estudo. A mensagem dos estudos que dissecam a relação entre a economia e a saúde mental desde então demonstram que a “saúde” da primeira depende da segunda.

A European Association for National Productivity Centres emitiu um memorando em 2005, The High Road of Wealth, olhando para a produtividade a partir da perspectiva da criação de valor, e constatou que entre os fatores de maior impacto nessa criação estava presente a saúde do trabalhador11. O relatório The Global Economic Burden of Non-communicable Diseases, do Fórum Econômico Mundial, conclui que é ilógico e irresponsável se preocupar com o crescimento econômico e simultaneamente ignorar as doenças não transmissíveis que produzem incapacidade laboral, e avisa que intervenções nesta área serão inegavelmente caras, mas é provável que a inação seja muito mais dispendiosa12. A mesma organização constatou que a saúde mental I) corresponde ao maior condutor individual de carga econômica entre as doenças não transmissíveis; II) representam mais de metade da carga econômica total entre as doenças não transmissíveis projetada para as próximas duas décadas, III) equivale a 35% da produção perdida global. Logo, torna-se essencial criar uma agenda de pesquisa em saúde mental e economia, com o foco de realizar diagnósticos precisos dos impactos das doenças mentais no capital e no trabalho de acordo com regiões e outras especificidades, como categorias mais afetadas, causas mais prováveis e recomendações para os setores do trabalho.

Em 2001, a Organização Mundial da Saúde estimou que a prevalência de episódios depressivos ao longo da vida, na população em geral, situa-se em torno de 15%, e que, sem um tratamento adequado, a depressão incide em um curso crônico e recorrente. Afirmou também que a depressão ocupa a quarta posição entre todas as causas que contribuem para a carga global de doenças, de acordo com o “Global Burden of Diseases Project” da mesma organização, correspondendo a 4,4% dos anos de vida vividos com incapacitação para a população geral e 8,6% para os indivíduos que estão na faixa etária entre 15 e 44 anos13. A Organização Mundial da Saúde estimou também que em 2030 a taxa populacional afetada pela depressão chegaria a 9,8%, no entanto alcançamos essa taxa duas décadas antes do previsto. Levando em consideração esse crescimento não previsto, que as doenças psicóticas mantiveram um número de incidência estável, que em 2011 os transtornos mentais e comportamentais já eram responsáveis por 37% dos anos de vida debilitados a nível mundial14, a taxa de incapacitação decorrente da depressão hoje é certamente mais elevada.

A OMS estimou o custo global da doença mental em quase US$ 2,5 trilhões (dois terços dos custos indiretos) em 2010, com um aumento projetado de mais de US$ 6 trilhões até 2030. Thomas Insel adverte a grandeza desse valor: “Toda a despesa com a saúde global em 2009 foi de US$ 5,1 trilhões. O PIB anual para os países de baixa renda é inferior a US$ 1 trilhão. Toda a ajuda ao desenvolvimento ao longo dos últimos 20 anos é de menos de US$ 2 trilhões.”15 Segundo Kofi Annan, ex-secretário da Organização das Nações Unidas, a depressão atinge hoje quase 7% da população mundial, cerca de 400 milhões de pessoas, e em 2010 os custos diretos e indiretos com a depressão estavam estimados em US$ 800 bilhões16.

Os transtornos depressivos, por exemplo, representam um dos mais comuns problemas de saúde de adultos no mercado de trabalho dos Estados Unidos e contabilizam um gasto nacional de US$ 30 bilhões a US$ 40 bilhões de dólares17. Em um exercício hipotético, multiplicando-se o número de trabalhadores afastados pelo total de faltas, teríamos um total de 200 milhões de dias de trabalho perdidos anualmente. Já no Reino Unido, este número seria de aproximadamente 80 milhões de dias perdidos todos os anos devido à depressão, gerando um custo aos empregadores de um a dois bilhões de libras anuais18.

Alerta-se a necessidade de buscar as cifras no Brasil, já que em 2011 a revista BMC medicine publicou uma pesquisa acerca da depressão em 18 países e o Brasil representou a maior taxa populacional portadora de depressão, sendo esta de 10,4% da população19. Corroborando com a urgência de análise dos custos indiretos, pesquisa divulgada pela Folha de S. Paulo apontou que em média pessoas com depressão perdem cerca de oito dias de trabalho por mês contra dois dias de pessoas consideradas “saudáveis”, além de destacar que 37% dos indivíduos que sofrem com a depressão estão/são economicamente inativos.

Por outro lado a depressão vem onerando ainda mais o orçamento da Previdência Social, que, já sabemos, corresponde a um dos maiores fatores de desequilíbrio fiscal. Há mais de 10 anos que os gastos da Previdência crescem acima da média do orçamento da União, somando atualmente o valor de R$ 402,1 bilhões e representando 22,7% de tudo que o governo gasta. Juntas, as verbas de Saúde, Educação, Defesa e Relações Exteriores somam 70% do que gasta a Previdência sozinha. Despido por uma bruta queda de receitas, analistas preveem que o déficit da Previdência deve subir 70% neste ano e mais 40% em 2016, alcançando o valor de R$ 120 bilhões, ou 2,7% do PIB, o que representa o triplo do déficit de 2013. Como se não bastasse lidar com o envelhecimento populacional e o consequente aumento com o número e a duração das aposentadorias, a pasta da previdência precisa gerenciar essa “epidemia depressiva”.

A categoria benefício auxílio-doença acidentário exige um laudo técnico comprovando o nexo causal entre o trabalho e a psicopatologia, porém tal diagnóstico nem sempre é preciso. O reconhecimento deste vínculo exige uma compreensão do ser humano nas suas múltiplas dimensões, vez que o trabalho se constitui como parte da identidade do ser e mediador de integração social, tanto pela subsistência, como pelo seu caráter simbólico-cultural. Os transtornos mentais e comportamentais relacionados ao trabalho resultam de contextos de trabalho em interação com o corpo e aparato psíquico dos trabalhadores, incluindo fatores específicos das atividades e fatores complexos relativos à organização do trabalho.

O decreto presidencial 3.048/99 ampliou o rol de doenças ocupacionais, isto é, aquelas em que há um nexo técnico profissional ou do trabalho, abalizado nas associações entre as enfermidades e as exposições ocupacionais segundo a atividade laboral, incorporando doenças que tradicionalmente eram relegadas pelos médicos do trabalho. O mesmo decreto também reconheceu a hipótese de doença acidentária quando o trabalho se apresenta como fator contributivo, desencadeador ou agravante de problemas com a saúde mental, regulamentando um nexo técnico por doença equiparada a acidente de trabalho ou nexo técnico individual. Ademais, o advento da Lei 11.430/2006 introduziu na ordem legislativa pátria o nexo técnico epidemiológico previdenciário, reconhecendo a causalidade de certas categorias econômicas, considerando que a própria peculiaridade de certas atividades e seus fatores específicos, como contatos com agentes químicos, físicos ou biológicos nocivos, implicam em uma presunção relativa de causalidade. Em termos processuais, a norma tem um impacto relevante, vez que inverte o ônus da prova ao empregador, que deverá demonstrar a inexistência do nexo causal. O resultado imediato da lei foi um aumento de 970% na concessão de benefícios auxílios-doença acidentários do ano de 2006 para o ano de 2007, e de 95% do ano de 2007 para o ano de 2008, quando esta variação se estabilizou. No entanto, a depressão fruto do trabalho por si seguiu o seu crescimento20.

As doenças relacionadas ao trabalho se distribuem em três grupos, de acordo com a classificação de Schilling, adotada no Brasil. No grupo I, estariam aquelas doenças classificadas normativamente como decorrentes do trabalho. No grupo II, o trabalho representa um fator contributivo, mas não a causa necessária e, no grupo III, o trabalho é encarado como um fator desencadeador de um distúrbio oculto ou agravador de doença já estabelecida21. Os episódios depressivos podem se enquadrar em qualquer um desses grupos.

A depressão possui uma etiologia multicausal em que conjuntos de diversos fatores interagem de modo complexo, o que dificulta muitas vezes a análise do nexo causal técnico nas hipóteses de doenças mentais dos grupos II e III. No entanto, a jurisprudência do Tribunal Superior do Trabalho é farta no sentido de aceitar o princípio da concausalidade para determinar a relação entre problemas de saúde mental e o trabalho.

Se as taxas de incidência de depressão associadas ao trabalho possuem um crescimento considerável, é preciso compreender a sua relação com o trabalho a fim de não só diagnosticar uma situação problema, mas também incentivar estudos que permitam estabelecer programas de prevenção a partir do conhecimento de suas possíveis causas. Nessa tarefa o registro do passado é o maior alicerce.

Ao longo da história a segurança do trabalho recebeu maior atenção que a Saúde do Trabalho, por uma motivação óbvia: os meios de produção da indústria a partir da Primeira e Segunda Revolução Industrial se consolidaram através das máquinas, o que, apesar de dirimir o trabalho “manual”, ainda repercutia em uma larga escala de acidentes de trabalho na integração homem (operador) e máquina, mais especificamente corpo e máquina.

No que tange à saúde do trabalho, a preocupação geral voltou-se às doenças físicas, podendo ser estas ocupacionais ou não. Problemas de saúde mental eram considerados decorrentes de fatores biológicos, como a herança genética, aspectos orgânicos e história familiar e afetiva do paciente. O trabalho foi desconsiderado por muito tempo como fator influente na constituição da subjetividade e do sofrimento psíquico dos indivíduos, de modo que a ignorância quanto ao nexo causal trabalho x saúde/doença mental excluiu, ou ao menos minimizou, os esforços da Saúde do Trabalho neste campo.

Os séculos XVII, XVIII e XIX são cenários da supremacia da racionalidade cartesiana, e neles as ciências médicas condenam a loucura à segregação e ao confinamento em espaços cada vez mais exclusivos quanto aos outros “associais”. Época de ampla internação em hospícios, grandes alienistas22, patologização, descrição e classificação das doenças mentais. Os transtornos mentais e comportamentais são então considerados um mal a ser expurgado e compreendidos de forma dissociada as relações entre os indivíduos. No fim do século XIX e início do século XX o surgimento e a consolidação da psicanálise introduzem as relações objetais na etiologia das doenças mentais, porém a visão psicanalítica pouco contribui para o estudo do desenvolvimento da psicopatologia do trabalho23.

O século XX foi marcado por um intenso processo de industrialização, um acelerado boom tecnológico e o surgimento de novos modelos de gestão dos processos produtivos. O modelo taylorista-fordista e seu enfoque na produção começam a visibilizar o impacto do trabalho na saúde mental do trabalhador, em especial de problemas ligados a fadiga mental. A expansão do capitalismo cria marcas profundas no trabalho: a laborização está vinculada diretamente à sobrevivência imediata do trabalhador, que, portanto, se submete a uma atividade na qual não domina o processo e nem detém o produto24.

A partir do fim da Segunda Guerra Mundial inicia-se um processo reconhecido como a Terceira Revolução Industrial, com notáveis incrementos da informática e da robótica, ocasionando a automação das indústrias. O resultado é uma integração distinta entre o homem e a máquina. Esta última cada vez torna-se mais independente e a força de trabalho é liberada para os outros setores, interferindo diretamente na organização, gestão e controle do trabalho, criando um novo cenário produtivo e dando força ao chamado trabalho “intelectual”. Por outro lado o avanço da tecnologia implica também em uma reconstrução da temporalidade e consagra uma velocidade constantemente crescente.

Por volta da década de 70, surge o modelo toyotista, porém esse não exerce uma superação ou substituição completa do modelo de gestão anterior. Como consequência há uma fusão entre tais modelos, os trabalhadores continuam inseridos na lógica de cisão entre planejamento e execução, entre o saber e o fazer, típicos do modelo taylorista-fordista de produção, enquanto que, teoricamente, lidam com a recomposição das tarefas do modelo do toyotismo25. Essa mudança provoca também transformações quanto às exigências, às pressões, ao ambiente de trabalho, à rotina, à rotatividade, às relações sociais e outros fatores importantes na formação subjetiva do trabalhador.

Ademais, observa-se que neste mesmo período institui-se a ideia central de que o homem é proprietário de si mesmo, e sua meta, a autogestão, a escolha do seu próprio destino. Essa nova visão do homem modifica também as normas de conduta, que deixam de serem pautadas pela disciplina e pela culpa, e passam a ser abalizadas pelas noções de responsabilidade e iniciativa. Associada às metas de “busca pelo sucesso”, “gozo permanente” e “liquidez moderna”26 o homem sofre uma drástica transformação na concepção de seu valor próprio, pois depende dele construir o ser, gerando uma “insegurança identitária crônica” ou mesmo uma “personalidade depressiva”27.

Diante desse quadro a psicologia e a psiquiatria intensificam seus estudos no campo da saúde mental no trabalho, com contribuições de Fromm28, Le Guillant29, Sivadon30, entre outros. No Brasil trabalhos como os de Codo31, Jacques32 e Spink33 também demonstram uma preocupação crítica com as psicopatologias do trabalho.

Para Robert Castel, por exemplo, “o trabalho permanece como referência dominante não apenas economicamente como também psicologicamente, culturalmente e simbolicamente, fato que se comprova pelas reações daqueles que não o têm”34.

Já o sofrimento advindo da atividade laboral se apresenta como uma reação à alienação no trabalho, tecla já batida muitas vezes por Marx. O sofrimento, que excede uma mera melancolia, surge na medida em que o sujeito é privado de condições mínimas para a sua autonomia, e só se instala por completo quando não encontra espaço para ser elaborado e ressignificado. Paradoxalmente, o sofrimento depressivo é uma forma de resistência do sujeito diante das características alienantes e, por vezes, violentas da organização do trabalho, ou seja, uma estratégia de defesa do ser que já não suporta as cargas de ameaças do trabalho35.

João Silvério da Silva Júnior elenca os seguintes fatores como passíveis de serem associados ao afastamento do trabalho por transtornos mentais e comportamentais, entre eles a depressão36:

  • Aspectos sociodemográficos: sexo feminino, idade avançada, ser solteiro, baixo nível de educação e baixo padrão socieconômico.
  • Hábitos e estilos de vida: consumo de álcool, tabagismo e índice de massa corporal acima do padrão eutrófico.
  • Fatores adversos externos ao trabalho: dificuldades financeiras e pouco apoio social doméstico.
  • Condições de trabalho: trabalho em turnos vespertino-noturno e noturno, pouca flexibilidade nos horários, longa jornada, horários imprevisíveis, má distribuição de turnos, tipo de emprego e tempo na função, mais de um vínculo de trabalho, ter vínculo de trabalho como servidor público, trabalho com carga física extenuante, ritmo acelerado de trabalho, condições ambientais desfavoráveis, e fatores psicossociais como baixo controle sobre o ritmo, variabilidade e uso de habilidades no trabalho, monotonia, tarefas sem sentido, tarefas desagradáveis e repugnantes, insegurança no trabalho, baixas perspectivas ou pouca possibilidade de promoção, trabalho de baixo valor social, pagamento por produtividade, sistemas de avaliação de desempenho pouco claros ou injustos, qualificação incompatível com o trabalho, ambiguidade de papéis e papéis conflitantes, responsabilidade por terceiros, baixo apoio social nas relações interpessoais, má comunicação, falta de liderança e dificuldades na interface trabalho-casa.
  • Condições de saúde: autopercepção de saúde ruim.

O levantamento demonstra que são muitas as condições do trabalho que podem acarretar um adoecimento do paciente, sendo essencial a introdução de procedimentos de vigilância a partir dos conhecimentos médico-clínicos, epidemiológicos, de higiene ocupacional, toxicologia, ergonomia, psicologia, entre outras disciplinas, como o reconhecimento prévio das atividades e locais de trabalho onde existam substâncias químicas, agentes físicos e/ou biológicos e os fatores de risco decorrentes da organização do trabalho potencialmente causadores de doença, a identificação dos problemas ou danos potenciais para a saúde, decorrentes da exposição aos fatores de risco identificados, a identificação e proposição de medidas que devem ser adotadas para a eliminação ou controle da exposição aos fatores de risco e para proteção dos trabalhadores e a educação e informação aos trabalhadores e empregadores.

Com todas as ressalvas políticas, mas fazendo jus à sua impressionante expressão literária, emprestemo-nos da metáfora de Winston Churchill para descrever suas infernais noites de depressão. O trabalho nos tempos modernos vem acompanhado de uma enorme matilha de “Black Dogs”, que abocanham os trabalhadores, o Capital e o Estado. Tratar as feridas abertas e domesticar a fera é o único caminho prudente.

 

A autora é mestranda em Direito Constitucional na Universidade Federal Fluminense, integrante do Laboratório de Estudos Interdisciplinares em Direito Constitucional Latino-Americano e avaliadora da Revista de Direito dos Monitores da Universidade Federal Fluminense.

acbonan@gmail.com

 

NOTAS DE RODAPÉ

  1. PEREIRA, L. O trabalho em causa na “epidemia depressiva”. Tempo Social, São Paulo, v. 23, n. 1, p. 67- 95, jun. 2011.
  2. O CID-10 é um documento que compõe a Classificação Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde, publicado pela Organização Mundial de Saúde (OMS), a fim de padronizar a codificação de doenças e outros problemas relacionados à saúde.
  3. COLLINS, P. Y., PATEL, V., JOESTL, S. S., MARCH, D., INSEL, T. R., DAAR, A., On behalf of the Grand Challenges in Global Mental Health Scientific Advisory Board and Executive Committee. Grand Challenges in Global Mental Health. Nature. 2011 July 7.
  4. Por exemplo, O Department for International Development do Reino Unido, analisando dados de pesquisa da Tanzânia demonstrou que os núcleos familiares que possuem membros com alguma incapacidade têm um consumo médio inferior a 60% do que aqueles grupos em que todos os membros são ativos, o que levou os autores da pesquisa concluírem que a incapacidade é um fator oculto da pobreza. As doenças mentais se impõem, então, como um fator de exclusão social e estigmatização não só do trabalhador, mas também da família, afetando diretamente seus recursos econômicos.
  5. WINSLOW, C.E. A. – The cost of sickness and the price of health. Geneva, World Health Organization, 1951.
  6. FEIN, R. – Economics of mental illness. New York. Basic Books Inc., 1958.
  7. WEISBROD, B. A. –Economics or public health.Philadelphia, University of Pennsylvania Press, 1961.
  8. RICE, D.P. – Letter to the editor.Amer. J. publ. Hlth.,56:564-5, 1966.
  9. KLARMAN, H.E. – Letter to the editor.Amer. J. pitbl. Hlth.,56:565-6, 1966.
  10. KUHNER, A. – The impact of publichealth programs on economic development. Report of a study of malaria in Thailand.Int. J. Hlth. Serv. 1:285-92, 1971.
  11. European Association for National Productivity Centres, The Finnish Work Environment Fud, 2005. Disponível em www.eanpc.org
  12. BLOOM, D. E., CAFIERO, E. T., JANÉ-LLOPIS, E., ABRAHAMS-GESSEL, S., BLOOM, L. R., FATHIMA, S., FEIGL, A. B., GAZIANO, T., MOWAFI, M., PANDYA, A., PRETTNER, K., ROSENBERG, L., SELIGMAN, B., STEIN, A., WEINSTEIN, C. (2011). The Global Economic Burden of Non-communicable Diseases. Geneva: World Economic Forum
  13. World Health Organization, Global Burden of Diseases Project, 2001, http://www.who.int/topics/global_burden_of_disease/en/
  14. World Health Organization. (WHO 2011a). Global status report on non-communicable diseases 2010. Geneva: WHO
  15. INSEL, T. Director’s Blog: The Global Cost of Mental Illness. National Institute os Mental Health. September 28, 2011. Disponível em http://www.nimh.nih.gov/about/director/2011/the-global-cost-of-mental-illness.shtml
  16. LUCENA, Rodolfo, VERSOLATO, Mariana. Depressão já é a doença mais incapacitante, afirma a OMS. [17/12/2014] Folha de São Paulo, 2014.
  17. CONTI, D. J., BURTON, W. H. The economic impact of depression in a workplace. Journal of Occupational Medicine, 1994, 36:983-988.
  18. UK Department of Health. Mental illness: key area handbook. The health of the nation. London, 1993:11-24.
  19. 1 Department of Psychiatry, State University of New York at Stony Brook, Cross-national epidemiology of DSM-IV major depressive episode, 2011. Disponível em http://www.biomedcentral.com/content/pdf/1741-7015-9-90.pdf
  20. Fonte: Ministério da Previdência Social, Dados Abertos.
  21. Ministério da Saúde. Doenças relacionadas ao trabalho: Manual de procedimentos para os serviços de saúde. Brasília, DF: MS,
    2001.
  22. Esquirol, Pinel, entre outros.
  23. DEJOURS, C. A loucura do trabalho: Estudo de psicopatologia do trabalho (3. ed.). São Paulo, SP: Cortez-Oboré, 1998.
  24. ARENDT, H. A condição humana. Rio de Janeiro, RJ: Forense Universitária, 2001.
  25. ANTUNES, R. Adeus ao trabalho? – Ensaio sobre as metamorfoses e a centralidade do mundo do trabalho. São Paulo, SP: Cortez, 1995.
  26. BAUMAN, Z. O mal-estar da pós-modernidade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998.
  27. EHRENBERG, A. La fatigue d’être soi. Dépression et Societé. Paris: Òdile Jacob, 1998.
  28. FROMM, E. Psicoanálisis de la sociedad contemporánea. México: Fondo de Cultura Economica, 1956.
  29. LIMA, M. E. Escritos de Louis Le Guillant: Da ergoterapia à psicopatologia do trabalho. Petrópolis, RJ: Vozes, 2006.
  30. LIMA, M. E. Esboço de uma crítica à especulação no campo da saúde mental e trabalho. In M. G. Jacques & W. Codo (Eds.), Saúde mental & trabalho: Leituras (pp. 50-81). Petrópolis, RJ: Vozes, 2002.
  31. CODO, W. Por uma psicologia do trabalho: Ensaios recolhidos. São Paulo, SP: Casa do Psicólogo, 2006.
  32. JACQUES, M. G. O contexto histórico como produtor e produto do conhecimento: A trajetória da psicologia do trabalho. Psicologia: Reflexão e Crítica, 4(1/2), 1998:64-70.
  33. SPINK, P. Organização como fenômeno psicossocial: Notas para uma redefinição da psicologia do trabalho.Psicologia & Sociedade, 8(1), 1999:174-192.
  34. CASTEL, Robert, A metamorfose da questão social. Petrópolis, Vozes, 1998.
  35. PEREIRA, Luciano. O trabalho em causa na “epidemia depressiva”. Tempo Social, revista de sociologia da USP, v. 23, n. 1, 2011.
  36. SILVA JÚNIOR, J. S. Afastamento do trabalho por transtornos mentais e fatores associados: um estudo caso-controle entre trabalhadores segurados da Previdência Social. 2012. 127 f. Dissertação (Mestrado em Saúde Pública). Faculdade de Saúde Pública. Universidade de São Paulo. 2012.

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