80 anos de Wanderley Guilherme dos Santos

80 anos de Wanderley Guilherme dos Santos

Wanderley e a consciência crítica

Candido Mendes, Cientista político

 

A presença de Wanderley Guilherme dos Santos em nossa vida de espírito tem uma dupla dimensão. Vamos lhe dever o avanço do nosso pensamento crítico da modernidade, de par com o implante das ciências sociais na inserção do desenvolvimento brasileiro. É a dimensão da relevância que o leva à busca do sentido, na melhor dramática prospectiva e na visão de todo o universo do poder. Não é outro o modo inquisitivo do texto Quem dará o golpe no Brasil?

Wanderley participou desse desdobramento dos cânones didáticos do nosso compreender em meados do século passado e no que foi, então, o laboratório do Iseb, o Instituto Superior de Estudos Brasileiros. Somou-se, nessa docência, a Álvaro Vieira Pinto, como seu assistente, na cadeira de História da Filosofia, na recém-criada faculdade (da mesma capacitação) na Universidade do Brasil. Ao lado do titular, participou do pioneirismo da nossa reflexão epistemológica, pelo que Vieira Pinto nos deu o estudo do contraponto entre a consciência crítica e a consciência ingênua, em nossa saída da dependência colonial.

No desdobrar, a largo prazo, desse empenho saído do marco isebiano, perseguido pela ditadura militar, Wanderley passou à Universidade Candido Mendes, quando se fundou o Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj), que o teve como seu primeiro diretor. Tentamos manter o que o Iseb propusera, como a dimensão realmente prospectiva do nosso “quefazer”, na exigência do projeto de um Brasil “para si”, de onde arrancou, em termos indiscutivelmente fundadores, o nacionalismo dos anos 1950. O que marca, sempre, o pensamento de Wanderley é o largo reclamo de Erasmo de Roterdã, ao encontrar, sempre, no nó das tensões sociais, o clamor pelo universal e, na acepção que lhe presta Baudrillard, a efetiva fenomenologia do evento. Demonstram-no os pontos cardeais das suas pesquisas ao longo dessas décadas: competição eleitoral e renovação parlamentar comparada; crise e sequências da organização política; globalização, definições, medidas e evidências; custos do status quo e custos do fracasso de ações coletivas; democracia natural e governabilidade. Não é outra a escala do discurso de textos como Décadas de espanto e uma apologia democrática ou O ex-leviatã brasileiro. Wanderley assegurou-se, sempre, da absoluta contemporaneidade de sua meditação, nos Estados Unidos, no doutoramento em Stanford e, depois, como professor visitante em Madison e como titular da cadeira Edward Tinker em Stanford.

O impacto permanente da sua mensagem nasce de uma heurística, quase na tentação da parábola, somada ao explicar. Nem por outra razão, pode debruçar-se em conceitos como “inércia social”, “fracasso coletivo” ou o “cálculo do conflito”. E, nesse à vontade com a lógica de situações limite, vai aos paradoxos na leitura da organização sistêmica, dentro do nosso processo histórico, e no enfoque de fenômenos sociais totais, como o do liberalismo e o marco, sempre não redutor, do debate das ideologias, assentadas na plenitude de sua práxis.

Garantindo-se a sabedoria do paradoxo, o pensamento de Wanderley é, mais do que nunca, cobrado pela aceleração dos novos contrapontos contemporâneos trazidos pelo Isis, pela secularização, pelo cansaço institucional ou pelas novas configurações internacionais, medidas pela quebra das globalizações da modernidade em emergência e o reclamo pelas diferenças na identidade coletiva da pós-modernidade.

 

O articulista é reitor da Universidade Candido Mendes e membro da Academia Brasileira de Letras.

cmendes@candidomendes.edu.br

 

 

O intérprete do pensamento nacional

Christian Edward Cyril Lynch, Jurista e cientista político

 

O primeiro interesse de Wanderley Guilherme no campo da ciência política decorreu de sua pesquisa sobre o pensamento político brasileiro. Ela teve início em 1963, quando era chefe do Departamento de Filosofia do Instituto Superior de Estudos Brasileiros, o ISEB. Ela surgiu de uma solicitação de Álvaro Viera Pinto, seu antigo professor da Faculdade Nacional de Filosofia e na época diretor do instituto, interessado em alargar o cânone reconhecido de obras representativas da filosofia brasileira. Na companhia de Carlos Estevão Martins, Wanderley Guilherme dedicou suas leituras de obras do séc. XVIII e XIX na seção de livros raros na Biblioteca Nacional e na biblioteca do Serviço Social do Comércio (SESC). À medida que progressivamente se desinteressava pela temática mais metafísica dessa literatura, Wanderley descobria como que causalmente obras de vários autores listados como filósofos e outros não incluídos nessa categoria, que versavam sobre a sociedade e a política do Brasil no século XIX. Wanderley então começou seu processo de “conversão” às ciências sociais, em detrimento da produção filosófica. Provavelmente vem também desse momento seu desconforto com os modos então prevalecentes de tratamento do pensamento brasileiro, que, por diversos motivos, o consideravam nas ciências sociais como imprestável para produzir reflexão válida sobre a realidade nacional. Desde então, a afirmação de existência de uma elite intelectual brasileira cujo pensamento deveria ser estudado pelos que buscavam compreender os dilemas contemporâneos do Brasil constituiu-se uma tese e um horizonte da pesquisa de Wanderley Guilherme sobre o pensamento político brasileiro.

A nova pesquisa deveria durar dois anos. Com o golpe militar e o fechamento do ISEB pelo novo regime, a pesquisa regular foi retomada no contexto da criação do antigo Instituto Universitário de Pesquisa do Rio de Janeiro, Iuperj. Assistido por um grupo de bolsistas, Wanderley buscou definir dentro do universo de obras de autores brasileiros aqueles que podiam ser arrolados como constitutivos do pensamento político-social brasileiro. A partir de pesquisa e livros periódicos, boletins bibliográficos e arquivos de editoras, ele e sua equipe elaboraram uma ampla listagem de obras aparecidas entre 1870 e 1965, o “Roteiro bibliográfico do Pensamento Político Social Brasileiro”. Foram excluídos do arrolamento os textos dedicados a metodologia, aqueles considerados estritamente historiográficos, antropológicos, econômicos e de psicologia social além de trabalhos dedicados a exposição ou crítica de pensamentos de determinados autores. Selecionados a partir de 45 volumes bibliográficos e 23 coleções de periódicos e boletins, a impressionante listagem de 3.000 textos está organizada em duas seções. Na primeira são arrolados os artigos publicados em periódicos; na segunda, os livros. As duas listas são igualmente periodizadas a partir de 3 momentos da cronologia política da história brasileira (1870-1930; 1931-1945; 1945-1965).

A pesquisa de Wanderley Guilherme dos Santos se encontra em artigos como: A imaginação político-social brasileira (1967), Raízes da imaginação política brasileira (1970), Paradigma e História: a ordem burguesa na imaginação social brasileira (1978) e A Práxis Liberal no Brasil: propostas para reflexão e pesquisa (1978). Partindo dos trabalhos pioneiros desenvolvidos por Guerreiro Ramos no ISEB, Wanderley afirmava que a necessidade de reformar uma realidade percebida como atrasada, a fim de elevá-la ao patamar de democracia moderna e capitalista, constituiria o eixo temático principal do pensamento político brasileiro. Seu autor mais importante teria sido Oliveira Viana, que pusera em evidência o drama dos liberais que, interessados na ereção de uma sociedade moderna no Brasil, num contexto sociopolítico adverso, se viam obrigados a lançar mão da autoridade do Estado de modo instrumental para alcançar aquele objetivo. Seguindo um critério nacionalista, Wanderley afirmava haver duas principais linhagens intelectuais no PPB, que divergiriam acerca dos meios conducentes à assunção da modernidade liberal democrática: os autoritários instrumentais e os liberais doutrinários. Os primeiros entenderiam que, no contexto de uma sociedade fragmentada e autoritária, o Estado era uma agência privilegiada para a mudança social em sentido liberal, devendo-se, pois, fortalecê-lo a fim de dotá-lo de meios para executar aquela tarefa. Já os liberais doutrinários seguiriam de modo mais fiel a cartilha liberal democrática europeia, acreditando que “a rotina institucional criaria os automatismos políticos e sociais ajustados ao funcionamento normal da ordem liberal”.

Essa pesquisa foi o grande marco dos estudos do pensamento político brasileiro nas ciências sociais. Em primeiro lugar, ela produziu um enquadramento disciplinar do objeto. Sua perspectiva epistemológica pragmático-moderada permitiu superar os dilemas até então impostos pelas oposições resultantes, seja do hegelianismo filosófico predominante no ISEB, seja do positivismo científico esposado pela sociologia da USP em meados dos anos 1950, e que redundavam no desprezo do pensamento brasileiro como periférico ou inferior. Havia uma cultura política nacional; o pensamento político brasileiro era por excelência o seu produto intelectual e não era possível compreender o acidentado processo político brasileiro sem estudá-lo. Em segundo lugar, com a pesquisa surgiu uma definição clara do seu estatuto e o seu competente nome de batismo: trata-se de estudar o “pensamento político-social brasileiro” e, em particular, a “imaginação política” nele presente. Em terceiro lugar, a pesquisa delimitou o perímetro do pensamento político brasileiro no âmbito das ciências sociais. Ao excluir deliberadamente da pesquisa “as obras estritamente históricas, antropológicas, psicológicas, econômicas, metodológicas e escolásticas”, Wanderley organizou o campo de estudos do pensamento político-social brasileiro no âmbito das ciências sociais. Em quarto lugar, da pesquisa resultava a caracterização do pensamento político brasileiro como indissoluvelmente vinculado à prática. Ao contrário da teoria sociológica ou da filosofia, a teoria política está sempre vinculada à prática e, por esse motivo, seu estudo não pode ser eliminado a priori a pretexto de sua dimensão não-científica ou ideológica.

Paradigma e História e A Práxis Liberal no Brasil nasceram clássicos e foram usados nas décadas seguintes para os estudos sobre o pensamento político brasileiro no âmbito de seus programas de mestrado e doutorado do antigo Iuperj (hoje Iesp-Uerj). As atividades deste instituto ganharam em 1978 o reforço de José Murilo de Carvalho, que encarregou-se de ministrar cursos e orientar dissertações e teses sobre o pensamento brasileiro, preservando a orientação e a interpretação de Wanderley Guilherme. No Rio de Janeiro, a pesquisa também serviu de referências naquelas instituições onde se instalaram alguns mestres e doutores formados no antigo Iuperj, como a Pontifícia Universidade Católica (PUC-RJ), a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a Universidade Federal Fluminense (UFF) e a Fundação Casa de Rui Barbosa (FCRB). A instituição que, sem dúvida, mais se destacou no estudo do pensamento político brasileiro naquele período foi o Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil da Fundação Getúlio Vargas (CPDOC/FGV), cujas figuras de proa – Ângela de Castro Gomes, Helena Bomeny e Lúcia Lippi Oliveira – eram egressas do antigo Iuperj.

Wanderley Guilherme sempre se recusou em sua obra a aplicar acriticamente teorias europeias ou norte-americanas, ciente de que são produtos de circunstâncias particulares às sociedades onde forma produzidas. Ao buscar generalizar e abstrair, com um olho naquelas teorias, mas com o outro no lugar concreto de onde falava – o Brasil –, Wanderley Guilherme procedeu como os grandes mestres dos países cêntricos. Agindo desta forma, sua obra pôde alcançar a verdadeira universalidade, ainda tão rara nesta terra, na qual o consumo de teorias compradas prontas na alfândega ainda é símbolo de prestígio intelectual.

 

O autor é professor do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Iesp-Uerj).

clynch@iesp.uerj.br

 

 

Um fundador (bem sucedido) de instituições

Adalberto Cardoso, Sociólogo

 

A celebração dos 80 anos de Wanderley Guilherme dos Santos, completados no dia 13 de outubro de 2015, e de sua trajetória nas ciências sociais brasileiras é também a celebração do Iesp-Uerj. Ao celebrar a trajetória desse extraordinário intelectual, nós celebramos também nossa herança. O legado de Wanderley Guilherme dos Santos é o presente do Iesp-Uerj.

Essa verdade incontestável exige, obviamente, adendos. Wanderley é evidentemente ele mesmo, indivíduo e autor de algumas das mais brilhantes interpretações sobre o Brasil moderno, inspirador de gerações de cientistas sociais país afora. Mas é também a figuração, ou melhor, a encarnação de um projeto que embalou muitos dos intelectuais de sua geração, vários deles presentes na fundação e consolidação do antigo Iuperj. Um projeto ousado, sem dúvida, de produzir uma ciência social e uma teoria social e política genuinamente nacionais. Em diálogo, por inescapável, com a teoria social e política produzida alhures, mas um diálogo crítico, insubmisso.

Florestan Fernandes dizia, de forma nada weberiana, que, na América Latina, só vê algo sociologicamente quem quer algo socialmente. É o desejo de intervir na realidade e influenciar na definição dos horizontes culturais mais gerais da sociedade que orienta a formulação de problemas relevantes de pesquisa. Wanderley, com sua verve engajada e insubmissa, fez isso. Formulou e continua formulando problemas relevantes, produziu e continua produzindo uma obra ímpar, que inquiriu e continua inquirindo as entranhas da vida social e política nacional ao mesmo tempo em que buscou e continua buscando, nos silêncios da teoria política mundial, nossa particularidade. Não como esquisitice ou exótica manifestação de atavismos tropicais, mas como manifestação, no particular, do universal implícito nas teorias da democracia, da desigualdade, do comportamento político, do racionalismo ocidental, dos sistemas políticos democráticos, da participação, da deliberação, da ordem social, da inércia social… A lista dos temas, teorias e conceitos que ele revisitou e continua revisitando, para mudá-los, é vasta.

Com mais de 30 livros publicados, Wanderley investiga a fundo os dilemas da construção social e política do Brasil. Faz isso de maneira engajada e apaixonada, mas ao mesmo tempo rigorosa no método, na lapidação conceitual, na tessitura da escrita e, sobretudo, na coerência do edifício teórico resultante, sempre devotado ao projeto de construir uma teoria política geral, que dê conta não apenas do Brasil e seu lugar no mundo, mas do próprio mundo visto, a partir do Brasil, como dotado de regularidades de caráter geral. Ambição hercúlea. O resultado, todos sabemos, está à altura da ambição.

Transcrevo um trecho longo, mas seminal, de obra igualmente crucial para a compreensão do pensamento de Wanderley.

“O brasilianismo convencional praticado por norte-americanos, europeus e brasileiros padece de idiofrenia terminal. Contrariando boa e atiquíssima norma de investigação científica, esses brasilianistas supõem que existam teorias válidas para os países ricos, e outras que se aplicariam aos países em desenvolvimento e às nações pobres, atrasadas, estagnadas. Assim, busca-se uma teoria que explique o fenômeno da corrupção entre wasps (anglo-saxões, brancos e protestantes), obviamente distinta daquela que serve para reiterar a suposta tendência de pobres e mestiços à imoralidade pública. Já se a matéria é corporativismo, o susto causado pela descoberta de sua incidência nos dolicocéfalos países nórdicos foi rapidamente debelado pela prestidigitação intelectual que distingue conceitualmente um certo ‘corporativismo societal’, próprio da Escandinávia e Europa ocidental, de um certo ‘corporativismo de Estado’, característico da Europa ibérica e meridional e, é claro, da América Latina (…)

“Uma boa teoria, se é uma teoria do desenvolvimento, por exemplo, deve ser compreensiva o suficiente para esclarecer o desenvolvimento tanto quanto o não desenvolvimento. E isto pela mesma razão por que não existe uma lei da gravidade para corpos redondos e outra para corpos retangulares. Esta obviedade, entretanto, é ignorada pelas teorias etnocentricamente idiofrênicas.”1

Wanderley leu a fundo os intérpretes do Brasil, desencavou autores esquecidos e também escritos esquecidos de autores improváveis (caso de José de Alencar). Colocou-se desde sempre como herdeiro dos pensadores que, como dizia Oliveira Vianna, tinham o Brasil à vista. Wanderley sempre teve o Brasil à vista, mesmo em seus trabalhos mais teóricos (como o seminal “Democracia 3D”), ou filosóficos (como o extraordinário “Discurso sobre o objeto”). O Brasil à vista. Wanderley é um apaixonado pelo Brasil, e um de seus grandes intérpretes.

É preciso lembrar, ainda, que Wanderley é um construtor de instituições. O Iesp-Uerj é seu legado mais saliente, mas talvez nem todos saibam que a Associação Nacional dos Programas de Pós-graduação em Ciências Sociais (ANPOCS) foi fundada na casa da Rua da Matriz, número 82, sob o patrocínio de Wanderley e colegas. Algumas reuniões anuais da ANPOCS foram realizadas na mesma sala onde celebramos a vida e a obra de Wanderley, no dia 19 de outubro de 2015, com mesas se sucedendo em debates acalorados. Não por acaso, a sala de aula do Iesp-Uerj se chama Olavo Brasil de Lima Júnior. Olavo foi o primeiro secretário executivo da ANPOCS, cargo que exerceu por duas gestões consecutivas (entre 1977 e 1980), sempre com apoio e engajamento de Wanderley. E mais. Wanderley presidiu a ANPOCS no biênio 1983-84, na mesma casa que foi a sede do Iuperj, instituição de que Wanderley foi um dos fundadores e na qual formou gerações de intelectuais e escreveu parte substancial de sua obra.

Reivindicamos a herança do antigo Iuperj, por várias razões. Por termos entre nós Cesar Guimarães, Maria Regina Soares de Lima, Renato Boschi, Nelson do Valle Silva, Luiz Antônio Machado da Silva, Glaucio Soares, Argelina Figueiredo e o saudoso Marcus Figueiredo. Por continuarmos editando a revista Dados, legado de Wanderley e sua geração, que teve em Charles Pessanha o veículo primordial e que está hoje sob a batuta segura de Breno Bringel, quarta geração do mesmo legado. E reivindicamos essa herança, sobretudo, porque Wanderley a reconhece, isto é, porque ele se reconhece nas gerações que o sucederam e que mantêm vivo seu legado. Obra que está imaterializada no mundo das ideias e materializada na biblioteca do Iesp-Uerj, que é, oficialmente e para as futuras gerações, Biblioteca Wanderley Guilherme dos Santos, ato devidamente formalizado pelo Reitor da Uerj, Ricardo Vieiralves de Castro em 2013.

Gostaria de encerrar transcrevendo trecho de uma pequena e magistral obra de Wanderley.

“Conhecer Platão não significa conhecer nada a respeito do mundo humano, além daquilo que constitui o pensamento de Platão. Substitua-se Platão por Santo Agostinho, Maine de Biran, Marx ou Wittgenstein, e nenhuma alteração se verifica na valência da proposição: conhecer a doutrina de x não significa saber alguma coisa do mundo além da doutrina de x, que está neste mundo. Tenho compromisso existencial com o mundo e interesse estético em ideias.

“Penso haver descoberto algo: simples e, ao mesmo tempo, devastador. Descobri, ou assim acredito, a razão da ignorância, sua natureza e sua função epistemológica em assuntos humanos. É a partir dele que discurso, e discurso sobre tudo que me pareça relevante na elucidação do processo material e simbólico pelo qual os seres humanos fabricam o mundo e o conhecem.

“É claro, também tenho um objetivo malévolo: o de destruir toda e qualquer pretensão de que seja possível conhecer o mundo social assim como se decora que dois e dois, ceteris paribus, são quatro. Contra a arrogância dogmática, oponho a simpatia cética; contra o saber enclausurante, a subversão libertária da ignorância.”2

Vindo da pena de um erudito como Wanderley, uma afirmação como essa é um convite à parcimônia, mas não à humildade acadêmica. A ignorância só liberta os que têm ambições intelectuais à altura dela, como é o caso de Wanderley Guilherme dos Santos.

 

* Este texto foi adaptado do discurso de abertura do seminário em homenagem aos 80 anos de Wanderley Guilherme dos Santos, ocorrido no dia 19 de outubro de 2015, no Iesp-Uerj.

 

O autor é professor do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do estado do Rio de Janeiro (Iesp-Uerj).

acardoso@iesp.uerj.br

 

NOTAS DE RODAPÉ

  1. Wanderley Guilherme dos Santos, Razões da desordem. Rio de Janeiro, Rocco (3ª edição), p. 9.
  2. Wanderley Guilherme dos Santos, Discurso sobre o objeto. Uma poética do social. São Paulo, Companhia das Letras, 1990.

 

 

Um realista idealista

Mario Brockmann Machado, Advogado

 

Mais do que um colega de profissão, sempre considerei Wanderley um mestre. Tanto em seus trabalhos teóricos, quanto em suas análises de conjuntura, Wanderley oferece ideias originais e instigantes, tudo revestido de argumentação e evidências consistentes. Seus textos não são para serem apenas lidos, mas estudados. No meu Panteon intelectual, ele ocupa posição de destaque, juntamente com Bolivar Lamounier e Fábio Wanderley Reis.

Wanderley trouxe, para o seu trabalho científico, uma bagagem filosófica adquirida na graduação da antiga Universidade do Brasil. A isso, acrescentou as luzes acesas pela “virada linguística”, ocorrida na filosofia ocidental no início de século XX. Aliás, a curiosidade intelectual dele é ilimitada, abrangendo diversas áreas de conhecimento, além de ser um criterioso leitor da boa ficção e ouvinte da boa música.

Mesmo antes de dedicar-se sistematicamente ao estudo da ciência política, quando, ainda jovem, frequentava o ISEB, Wanderley deu provas de sua argúcia política inata, ao prever quem, afinal, daria o golpe no Brasil. Esse é um dom, que poucos cientistas políticos têm. De fato, há um grande número de profissionais que ou repetem as teorias que aprenderam nos livros, ou falam sobre a conjuntura como se jornalistas fossem, sempre dispostos a dar entrevistas. Mas jornalistas sem fontes originais de informação, apenas sintetizando o que leram nos jornais do dia. Se Nelson Rodrigues fosse vivo, talvez ele adicionasse um novo tipo ao seu divertido elenco: o “cientista de televisão”. Wanderley, assim como os dois outros colegas citados, são exceções admiráveis.

Wanderley participou, direta e ativamente, da construção de duas importantes instituições acadêmicas: o antigo Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro, o Iuperj – hoje agregado à Uerj sob o título de Instituto de Estudos Políticos e Sociais –, e a Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais, a ANPOCS.

O Iuperj, no início da década de 70, congregou um grupo inovador de cientistas políticos, todos com doutorado nas melhores universidades norte-americanas. Lembro-me de memória, entre outros, de Bolivar Lamounier e Simon Schwartzman, formados na Universidade da Califórnia; de Amaury de Souza, no M.I.T.; de Sérgio Abranches, em Cornell; do próprio Wanderley, em Stamford; e deste escriba, em Chicago. Em Minas Gerais, no Departamento de Ciência Política da UFMG, Fábio Wanderley Reis, com doutorado em Harvard, e Antônio Octávio Cintra, no M.I.T., trilhavam, desde antes, o mesmo caminho. Todos dedicados a uma nova ciência política, teoricamente aberta e empiricamente rigorosa, livre do ranço tradicionalista da praticada na USP, onde continuava sendo de rigueur participar de seminários sobre O Capital… A revista Dados, do Iuperj, tão bem dirigida por Charles Pessanha, era o meio principal de divulgação dessas ideias, além, evidentemente, dos cursos de mestrado e doutorado em Sociologia e Política do Instituto. Ideias que se distanciavam da interminável discussão hermenêutica dos grandes pensadores e buscavam construir teorias empiricamente consistentes, sem cair na armadilha do puro quantitativismo.

De Wanderley, pode-se dizer que tem uma obra publicada, elegante na escrita e sofisticada no pensamento. Eu não sei, com exatidão, quantos livros (talvez cerca de trinta) e artigos (incontáveis) a compõem, tantos são. Mas sei que são fruto de muito ler, muito pensar, muito trabalhar, que isso não se faz improvisadamente, nem sem enfrentar as limitações que os problemas de saúde impõem. Tamanho esforço há de ser estimulado, também, por uma esperançosa crença na influência que as ideias possam ter (até onde?) sobre a ação humana. Wanderley poderia ter feito carreira acadêmica de sucesso em qualquer das universidades de grande prestígio internacional, mas seu compromisso com “o país a que pertenço, por acaso de nascimento e convicta adesão”, o fez aqui permanecer. Felizmente.

Na juventude, Wanderley teve participação partidária intensa, mas logo tornou-se um pensador independente, cioso de sua liberdade. Seu compromisso com o Povo continua firme, mas não é dado a aventuras. Acredita nas regras do jogo democrático, e não poupa críticas aos que querem atribuir-lhes todos os males da política nacional. Consegue ser, a um só tempo, radical e cauteloso. Defende, com convicção, o debate aberto de valores e interesses, ressaltando, assim, o trabalho indispensável dos parlamentos. Talvez seu ideal seja o de um socialismo democrático.

Com o rigor de sempre, estudou as origens e a natureza do governo autoritário inaugurado em 1964, buscando saídas políticas estáveis, o que o fez refletir sobre uma teoria positiva do Estado democrático, capaz de ir além do liberalismo (ou de algum liberalismo, pois os há tantos) e juntar a defesa de liberdades individuais com a promoção de justiça social

Vez por outra, divergimos quanto a algumas avaliações da política brasileira, especialmente a partir de 2005. Mas Wanderley afirma, para não deixar dúvida, que a esquerda não pode ser solidária nem hesitante “em relação a bandidos”. Acredito que a amplitude e a profundidade da corrupção estão a exigir tratamento drástico, caso ainda haja tempo.

Wanderley orientou dezenas de alunos e colegas, formal e informalmente. Embora de trato às vezes um tanto difícil, sabe ser generoso, sabe compartilhar sua bagagem cultural. De início trepidante, nosso relacionamento pessoal gerou grande e duradoura amizade, consolidada, que me dá imensa alegria.

Seu prestígio há muito ultrapassou os limites da vida acadêmica, tendo conquistado, exclusivamente por seus méritos, o status de um dos grandes intelectuais brasileiros da atualidade, capaz de alertar, em seu papel de “fiel observador participante da vida pública”, a elite política e econômica pensante nacional. Mesmo quando é polêmico, mesmo quando provoca mais do que convence, é lido, ouvido e respeitado. Entre outras razões, porque age de boa-fé, é honesto, e isso é raro em nosso lamacento país.

Não sou um admirador do chamado Homo sapiens, menos ainda da desastrosa dominação que ele estabeleceu sobre o nosso planeta. Nunca conversei sobre isso com Wanderley, mas quero crer que ele compartilhe esse pessimismo. Com sua inteligência e seu realismo, dificilmente poderá ser um otimista. Para os que assim pensam, a ciência social não oferece muitas alegrias. Mas, navegar é preciso. De alguma maneira, aqui e agora, cabe-nos fazer o que de melhor soubermos, ou movidos pelo convencimento racional, ou por ordem de um imperativo ético ou religioso ou ideológico, pelo que este possa valer. Quanto a isso, Wanderley nunca se omitiu. Continua batalhando aos 80 anos, mas já deixou sua marca registrada na nossa sociedade. Valeu, Santos!

 

*NR: Por motivos alheios à vontade do autor, os mesmo teve um tempo exíguo para escrever o texto, o que foi compensado brilhantemente pelo seu talento.

 

O autor é professor da FGV Direito Rio.

mario.machado@fgv.br

 

 

WGS entre a academia e a política

Charles Pessanha, cientista político

 

O regime autoritário brasileiro não contou com um movimento de oposição significativo de exilados ou instituições sediadas no exterior. Ao longo de seus 21 anos, entretanto, instituições e indivíduos no Brasil contestaram a ditadura. A estes denomino exilados internos e nomeio Wanderley Guilherme dos Santos um de seus principais representantes no campo acadêmico.

Há 50 anos o Golpe de 1964 operava sua segunda guinada institucional na direção do aprofundamento do autoritarismo. O primeiro Ato Institucional, emitido em abril de 1964, prometera um prazo de seis meses para a promoção das cassações e a suspensão de direitos políticos, e limitava sua vigência a 31 de janeiro de 1966. Mantinha o calendário eleitoral, que incluía a eleição presidencial e as eleições de governadores. A prorrogação do mandato do marechal Castelo Branco, em julho de 1964, foi o primeiro ato de inflexão na direção do endurecimento e praticamente liquidou as eleições presidenciais de 1965. As eleições para os governos estaduais foram mantidas, embora vários candidatos considerados suspeitos pelo regime tenham sido afastados da disputa. Mesmo assim, a vitória dos oposicionistas Israel Pinheiro, em Minas Gerais, e Negrão de Lima, no Rio de Janeiro, ensejou a emissão de um segundo Ato Institucional (AI-2).

O AI-2 promoveu o aprofundamento do arbítrio. Entre outras medidas, cancelou as eleições diretas para presidente, extinguiu os partidos políticos, operou modificações drásticas no processo legislativo; subverteu o calendário eleitoral; introduziu a figura do decreto-lei, sem anuência do Legislativo, aumentou o número de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), de 11 para 16, a fim de garantir maioria favorável ao governo; renovou a suspensão das garantias constitucionais; reabriu as cassações e as perdas de direitos políticos; e excluiu as medidas oriundas dos atos institucionais da apreciação judicial. O alcance dessas medidas projeta-se para o futuro com a criação do recurso de “atos complementares” ao AI-2. O que se viu depois foi a sequência de atos institucionais (18 no total) e incontáveis atos complementares.

Importantes instituições de pesquisa sediadas no Rio de Janeiro, como o Instituto Superior de Estudos Brasileiros (Iseb) – do qual Wanderley Guilherme fazia parte –, Centro Latino-Americano de Pesquisas em Ciências Sociais (CLAPCS) e Instituto de Ciências Sociais (ICS), da então Universidade do Brasil, foram fechadas. Com elas desapareciam também vigorosas publicações acadêmicas, como Cadernos do Nosso Tempo, do Iseb; América Latina, do CLAPCS; e Revista de Ciências Sociais, do ICS, da Universidade do Brasil, estreitando drasticamente o espaço de debate acadêmico. O panorama das ciências sociais no país e, particularmente, no Rio de Janeiro era desolador.

A prudência não aconselhava, em hipótese alguma, a criação de um instituto de pesquisa meio século atrás, sobretudo na área das ciências sociais. No entanto, ainda em outubro de 1965, Candido Mendes convida Wanderley Guilherme dos Santos e outros pesquisadores para a criação do Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj). Tratava-se de uma ação temerária, mas a alternativa seria o apagão quase completo da reflexão sobre o social no Rio de Janeiro. Essa realidade não era ignorada pelos fundadores do Iuperj, conforme atesta o editorial do primeiro número da revista Dados: “Tem-se revelado como historicamente inevitável a correlação entre o enrijecimento das estruturas de poder e a paralisia ou torpor das ciências sociais”. Eis o tamanho do desafio a ser enfrentado pelos pais fundadores do Iuperj há meio século. A melhor forma de resistência ao regime autoritário era: estudá-lo! A originalidade do programa do Iuperj foi a constituição de uma agenda intelectual centrada basicamente no tema institucional, valorizando, em plena vigência do regime militar, a questão da democracia política, suas instituições e procedimentos. Essa tarefa, proposta por esses “exilados internos” liderados por Wanderley Guilherme, desenvolveu-se em várias frentes.

Originariamente um pequeno centro de pesquisas, o Iuperj cresceu e diversificou-se. A revista Dados tornou-se referência entre os periódicos científicos latino-americanos; foram criados os cursos de mestrado em ciência política, em sociologia, doutorado em ciência política e em sociologia. Todos – revista e cursos – contaram com avaliação máxima dos órgãos de fomento em pesquisa dos Ministérios da Educação e da Ciência e Tecnologia.

As dificuldades apresentadas às universidades públicas – por proibições diretas ou respeito obsequioso às autoridades – trouxe para os institutos de pesquisa isolados a responsabilidade pela condução da política acadêmico-científica. Por iniciativa de Wanderley Guilherme, o Iuperj sediou, em 1977, o primeiro encontro dos cursos de pós-graduação em antropologia, ciência política e sociologia, que teve como resultado a fundação da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (Anpocs). Suas duas primeiras secretarias executivas foram sediadas no Iuperj e, posteriormente, no Centro de Estudos de Cultura Contemporânea (Cedec) e no Instituto de Estudos Econômicos, Sociais e Políticos de São Paulo (Idesp). Somente depois da queda do regime autoritário, uma universidade pública, a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), hospedou a secretaria executiva da Anpocs, em 1989. Registro ainda o primeiro debate acadêmico sobre conjuntura política, o famoso Seis e Meia – em alusão a um programa de música popular brasileira apresentado “às 18h30”, no Rio de Janeiro, no final dos anos 1970 –, de iniciativa dos alunos do Iuperj, apoiados por Wanderley Guilherme, e que contou com a participação de expoentes da luta contra o regime autoritário, como o próprio Wanderley Guilherme na abertura, Alberto Passos Guimarães (pai), Maria da Conceição Tavares, Fernando Henrique Cardoso, Délio Maranhão, Francisco Weffort, Bresser Pereira, Bolívar Lamounier, Luiz Alberto Bahia, entre outros. Por iniciativa ainda de Wanderley Guilherme, o Iuperj ofereceu suas dependências para reuniões da regional Rio da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), que se tornara instituição visada pelas autoridades do regime, e de outros movimentos do Rio de Janeiro.

A luta pela salvação do Iuperj e, posteriormente, a criação do Instituto de Estudos Sociais e Políticos (Iesp) tiveram, mais uma vez, a contribuição de Wanderley Guilherme. Após mais de uma década de crise e incertezas, salvou-se o capital humano, com a criação do Iesp, mas perdeu-se praticamente todo acervo da biblioteca. Em um gesto de generosidade Wanderley Guilherme doou sua biblioteca particular à nova instituição.

Debatendo, pesquisando, escrevendo, ensinando, militando, Wanderley Guilherme dos Santos tornou-se um dos intelectuais mais importantes do Brasil contemporâneo. Em 1962, publicou Quem dará o golpe no Brasil? – da famosa coleção Cadernos do Povo Brasileiro, da editora Civilização Brasileira. Desde então escreveu numerosos artigos em periódicos acadêmicos e livros. Destaco Cidadania e justiça, Razões da desordem, Paradoxos do liberalismo, Sessenta e quatro: anatomia da crise e O paradoxo de Rousseau: uma interpretação democrática da vontade geral. Contribuindo de forma decisiva para a renovação do ensino da ciência política no Brasil, orientou diversas teses (doutorado) e dissertações (mestrado). Foi autor ainda de muitos artigos jornalísticos, especialmente na coluna Brigada Ligeira, mantida por mais de cinco anos no jornal Valor Econômico.

A defesa do rigor acadêmico, da democracia e da participação irrestrita na pólis pode ser considerada um dos motivos condutores de sua obra e de sua intervenção no debate público.

 

*Este texto é baseado na minha participação na mesa-redonda “Wanderley Guilherme dos Santos e a construção do Iuperj/Iesp-Uerj”, no Seminário Comemorativo dos 80 Anos do Professor Wanderley Guilherme dos Santos, realizado no Iesp, 19 de outubro de 2015.

 

O autor é professor de Ciência Política da UFRJ.

pessanhacf@terra.com.br

 

 

Duas ou três coisas que eu sei sobre Wanderley

José Murilo de Carvalho, Cientista político e Historiador

 

uas ou três coisas sobre Wanderley. Nós nos conhecemos em 1967, em Stanford, onde fazíamos doutorado com bolsas da Fundação Ford – ele pelo Iuperj, eu pelo Departamento de Ciência Política da UFMG. Em Minas, na Faculdade de Ciências Econômicas, eu fora aluno de Júlio Barbosa, então chefe do Departamento de Sociologia do Instituto Superior de Estudos Brasileiros (ISEB). Graças a sua intermediação, tivera contato com membros desse Instituto, sobretudo com alguns dos fundadores, Hélio Jaguaribe, Guerreiro Ramos, Álvaro Vieira Pinto. De Wanderley, pesquisador do ISEB e ex-aluno de Álvaro Vieira Pinto, conhecia o Quem dará o golpe no Brasil? (1961) e Reforma contra reforma (1963).

Só nos conhecemos pessoalmente no curso de doutorado de Stanford, onde ele chegou depois de mim, acompanhado de Sueli, Juliano, Fabiano e Bernardo. Jogávamos muito futebol. Para a eventualidade de ter que jogar contra ele, tive que comprar um bom par de caneleiras. Mas, sobretudo, falávamos sobre o Brasil, sua história e seus pensadores, conversas que me traziam à memória leituras que fizera de Guerreiro Ramos. As conversas recuaram ao século XIX, a seus políticos e pensadores. Eu chegara a Stanford pensando em fazer uma tese sobre o poder local (local power struture, como se dizia por lá), tema sobre o qual já publicara artigos na Revista Brasileira de Estudos Políticos, dirigida por Orlando Carvalho. As conversas com Wanderley levaram-me a alterar tema e período histórico: em vez de poder local, a elite política; em vez da atualidade, o século XIX. Daí saíram A Construção da Ordem e Teatro de Sombras.

Paguei caro por isso. Naquela época, falar sobre elite política era muito incorreto. O incauto era xingado, com direito a vários epítetos: weberiano, reacionário, direitista, filho da puta etc. Quando não era xingado, era desprezado. Ainda ouvi, anos mais tarde, em reunião no CNPq, Ruth Cardoso dizer na minha frente: Imagina! quem lê José Murilo Carvalho? O simples fato, aliás, de ter estudado nos Estados Unidos já dava margem a xingamentos. Ao voltar, encontrei um antigo professor que me saudou com a pergunta: “Aí, voltou americanhalhado?” O preço pago nem de longe me fez lamentar a mudança do tema. Graças ao contato com Wanderley, nacionalizei o escopo de meu trabalho e enveredei por uma temática mais relevante, o papel de grupos de elite na formação de estados nacionais. Minhas leituras abriram-se em várias direções intelectuais e ideológicas, de Mosca a Lênin, e nacionalizei, ou mesmo internacionalizei, meu campo de visão.

No que se refere ao impacto do doutorado sobre Wanderley, arrisco-me a dizer que talvez tenha consistido em mudança de enfoque, ou de ênfase, da filosofia, absorvida nas aulas de Álvaro Vieira Pinto, para a teoria política, esta graças ao contato com autores norte-americanos como Gabriel Almond, Heinz Eulau, Charles Drekmeyer, em Stanford, além de Robert Dahl, Hayward Walker, Douglas Rae e outros. É prova disso sua tese de doutoramento, uma sofisticada análise teórica do golpe de 1964. Uma prova de que era um filósofo, e dos clássicos, quando chegou a Stanford, é o fato de ter comprado um carro que no dia seguinte ajudei a rebocar para o ferro velho…

De volta, ambos dos Estados Unidos, e passados alguns anos, Wanderley convidou-me para vir trabalhar aqui no que para mim será sempre o Iuperj. Quando cheguei, em 1978, o Instituto já estava consolidado. Faltava apenas implantar o curso de doutorado, tarefa em que pude contribuir como seu primeiro coordenador. Aqui mantive a perspectiva nacional, com ênfase agora na história do pensamento político brasileiro, sempre lembrado nas conversas e artigos de Wanderley.

Outro ponto importante a destacar da atuação de Wanderley diz respeito ao tipo de instituição que ele criou, eminentemente cosmopolita. Já disse uma vez que o Iuperj era uma encruzilhada, um ponto de encontro de vários caminhos. Para cá vieram pesquisadores de várias procedências. Para citar apenas alguns, de Minas vieram Edmundo Campos, Simon Schwartzman, Amaury de Sousa, Elisa Reis, Renato Boschi, Olavo Brasil, eu mesmo e outros. Eli Diniz e Luís Werneck Vianna formaram-se na USP. Da Argentina, veio Carlos Hasenbalg; da Colômbia, Fernando Uricoechea. Tal amálgama só poderia ser operado no Rio de Janeiro, cidade ainda marcada pela longa história de capital do país. E não se tratava apenas de preocupação com a diversidade. Uma vez ouvi Wanderley dizer, inspirado por algumas doses de whisky: aqui no Rio, se a pessoa é boa, tem que estar no Iuperj. O objetivo era atrair o que houvesse de melhor. Esta política era facilitada pelo fato de ser o Iuperj uma instituição particular. Era possível procurar as pessoas onde estivessem e convidá-las. Este foi um dos segredos do êxito do Iuperj, ao que se ajuntou um ambiente de plena liberdade de discussão e de intensa dedicação ao trabalho. Por trás de tudo isso sempre estiveram a visão e a iniciativa de Wanderley. Além de pensador do Brasil, ele sempre foi um exitoso construtor de instituições. Bem haja em seus 80 anos.

 

O autor é professor emérito da Universidade Federal do Rio de Janeiro e membro da Academia Brasileira de Letras.

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