Entre poucas linhas – Desabafo de um editor em jejum

Entre poucas linhas – Desabafo de um editor em jejum

Pedro Paulo de Sena Madureira

 

Hoje, se Sartre fosse escrever “O Ser e o Nada”, seria “O Nada, o Nada e Coisa Nenhuma”. Qual filósofo de importância mundial surgiu depois de Sartre? Nenhum. Os tempos de hoje são da imagem. E a imagem é impositiva, repressora. A pessoa vai a um cinema e vê uma atriz. Ela é como é.

Se uma pessoa lê o “D. Casmurro”, de Machado de Assis, ela imagina cada detalhe da Capitu, como é o Bentinho, o jeito do Escobar, o puxa-saquismo do José Dias, que é um personagem extraordinário. A imagem que eu tenho deles não é a mesma que os demais têm. É a manifestação plena da individualidade, que é a capacidade de derivar dentro da ficção. Cada um tem a sua imagem, enquanto no cinema a imagem está lá, dominadora, onipotente.

Nós estamos num mundo neoplatônico. Porque a noção de realidade aristotélica esvaiu-se. O que vale é a imagem. Predomina sobre a realidade. Isso contamina toda a vida humana. Por exemplo, o mercado financeiro é o dinheiro, com o dinheiro, para o dinheiro, pelo dinheiro. A consistência do mercado financeiro não é a realidade imediata de uma empresa. É o quanto o mercado define que aquele bem vale em termos financeiros. O dinheiro é simbólico. Ele se tornou uma abstração da troca. Hoje temos mercados de valores intangíveis. E o que é real? É o que você quer que seja – o que não quer dizer que seja real.

Veja a internet. As pessoas imaginam para si vidas que jamais terão. Biografias que jamais tiveram. E aquilo passa a ser a realidade. Estamos vivendo o mundo das aparências, que Platão denunciou e Aristóteles pisou em cima. A materialidade das coisas perdeu-se. Quando falo de materialidade, quero dizer a corporeidade das coisas. Um mundo de entrelinhas vazias.

 

Quando a porca torce o rabo

Sou rigoroso no métier, mas não sou intransigente. Eu publicaria diversos dos escritores que estão à venda nas livrarias, caso estivesse no exercício da profissão. Gosto de alguns poucos novos escritores, como o Bernardo Carvalho. No outro extremo, me agrada bastante uma freira que tem três livros, Maria Valéria Rezende. Ela publica pela Editora Alfaguara. Dessa autora, eu li tudo. Não tem nada a ver com o Bernardo. A questão da produção literária no Brasil atual é a difícil comparação com os anos 80 e 90, um período insipiente em matéria de novidades, com o panorama dominado por grandes nomes, como Nélida Piñon, Zé Rubens Fonseca, Roberto Drummond. Raquel de Queiroz publica o último romance em 92. Até os 80 e 90 não havia a profusão de nomes novos que hoje nós vemos. Milton Hatoum também surge naquela época, mas num patamar bastante elevado. Essa exuberância de autores é recente. Ela começa a partir do fim dos 90, vindos do Sudeste, Sul e Nordeste.

O que colaborou para isso foi o aumento das premiações e concursos. O Camões, que premia autores portugueses e brasileiros, e a valorização do Prêmio Jabuti – que antes não pagava nada, mas agora agracia os escritores – devem ter tido influência. Tenho medo de teorizar sobre essas coisas, mas são fatos notórios. A internet também facilitou a comunicação entre editores e os escritores. Essa combinação de fatores indica um conjunto muito positivo, que deve estar estimulando a produção editorial. Mas do ponto de vista da qualidade, aí é que a porca torce o rabo. Ainda estamos distantes do que já fomos. Contudo, não sou contra a publicação desses “livros B”, digamos assim. Porque da quantidade pode nascer a qualidade, já dizia o velho barbudo alemão.

Se, de cada 10 livros publicados, aparecer um de boa cepa, a escala está bem justificada. Essa relação quantitativa favorável às obras de menor qualidade é algo que ocorre na literatura mundial. O que se escreveu no século XIX e hoje está esquecido é uma barbaridade. Até meados do século XX, o fenômeno é o mesmo. O que seria da indústria editorial americana sem o best seller? Ela não sobreviveria. As editoras fazem o sanduíche misto. Eu também fazia essa mistura. Tem que ter uma parte para o leitor menos informado e de vez em quando algumas obras mais sofisticadas. Às vezes acontece de um livro de extrema qualidade atingir ótimas vendas, como aconteceu com a Marguerite Yourcenar e o Milan Kundera. São exceções. Para cada 10 romances do Sydney Sheldon um do Faulkner já justificaria.

No Brasil temos não só a profusão de autores, mas o surgimento de uma grande quantidade de mulheres autoras. Antes não havia. Há também uma grande quantidade de pequenos editores. O fato de não serem tão bons quanto gostaríamos não tem nada a ver com o mercado. Hoje há uma grande intercomunicação entre os escritores, o que também é positivo. Temos uma quantidade de festivais literários, tais como a Flip de Paraty, o encontro promovido pela Livraria da Vila com autores e leitores num barco no Amazonas, enfim, eles existem pelo Brasil inteiro. A questão da qualidade se coloca para o leitor refinado. Mas esse não é um fato novo. O que se publicou de folhetim do século XIX era uma enormidade. As novelas saiam nos jornais. Na França, novela de TV ainda é chamada de feuilleton (que se refere às folhas de jornal). Tudo isso alimentava o imaginário das pessoas; grandes escritores como Balzac passaram a vida publicando em jornal.

Quando fui editor na Nova Fronteira, começando com Dr. Carlos (Lacerda) e depois com Sérgio e Sebastião Lacerda, colocamos Marguerite Yourcenar no primeiro lugar na lista de mais vendidos da Veja. A Antologia Poética de TS Elliot, traduzida por Ivan Junqueira, ganhou uma fantástica 81ª posição no ranking. Traduzimos tudo de Virgínia Woolf. Aliás, nós somos provavelmente o único país de língua não saxônica que fez isso. Todos os cantos de Ezra Pound, mais de mil páginas, traduzidos por José Lino Grünewald, grande intelectual, bom poeta e jornalista. Todos os romances e contos de Thomas Mann. Fizemos muita coisa na Editora Nova Fronteira, e o que ficou faltando, nós fizemos na Siciliano. Em todas as editoras por onde passei, os donos ficaram muito bem, digo com orgulho. Ou elas valem uma fortuna ou foram vendidas com grandes lucros para os proprietários.

 

A internet não tem alma

Saímos das páginas dos livros para as telas do computador. As pessoas transam pela internet. As pessoas não suportam mais os cheiros umas das outras. Nem o toque. Nós esquecemos que a carne é fundamental. Ela é tão fundamental que o texto do Concílio de Niceia, quatro séculos depois do cristianismo vigente, reza: creio na ressurreição da carne. Não é o espírito que ressuscita, não é a alma que ressuscita, é a carne. Não é a cultura ou a inteligência, é a carne que ressuscita. Desculpem os neologismos ou, melhor dito, me perdoem os palavrões, mas a vida “internáutica é ectoplasmática”.

Não tenho e-mail, Facebook, blog, e meu celular só chama e recebe. É um telefone fixo de bolso. Outro dia me vieram com uma coisa horrorosa: WhatsApp. Como assim? Não tem nada acontecendo? Nessa cultura de internet sou analfabeto. Estou na carreira de editor desde os 18 anos e nunca aprendi a bater à máquina. Sempre escrevi à mão ou ditei, em português, inglês e francês. Tive secretárias ótimas que ficaram cultíssimas depois que trabalharam comigo.

Não vejo com tristeza a derrocada dos jornais e do papel. Não sou nostálgico nem melancólico. Não fico fazendo comparações. Mas vejo, naturalmente, com preocupação, apesar de que muita coisa acaba por um processo natural de depuração. A quantidade de livros em uma biblioteca não define a sabedoria de uma pessoa. Na biblioteca de Shakespeare só tinha 40 livros. Quem Sócrates leu? Muito poucos, certamente.

No Brasil temos uma tradição de ótimos editores, com faro e instinto apurados. Mas poucos, muito poucos, são cultos no sentido europeu da palavra. Um bom exemplo foi a gloriosa José Olympio, comprada do poeta modernista Augusto Frederico Schmidt. Da literatura de hoje, ninguém me interessa. Raramente passo da décima página. Eu sou um editor na acepção mais afinada da palavra. Porém, não quero parecer um desqualificador da produção literária. É preciso sempre dizer que a literatura brasileira não morreu.

 

Entre a metáfora e a metonímia

O que vemos hoje é a multiplicação da imagem e do virtual, o que nos torna metonímicos, ou seja, meras partes do todo. O mundo está entre a metáfora e a metonímia. O paulista é metonímico, o carioca é metafórico. Por maiores que sejam as barbaridades que aconteçam no Rio, a cidade tem a beleza natural. O carioca tem individualidade. São Paulo não tem natureza nem tem beleza. Não tem nem rio. O Tietê não merece ser chamado de rio. Não tem passado, nem paisagem.

Se houver uma catástrofe no Rio e todos forem mortos, ainda assim sobraria a natureza. Se o mesmo acontecer em São Paulo, vai aparecer um paulista catando os caquinhos. Todo o paulista é metonímico, do milionário ao zelador de prédio.

Vim pra cá em 1989, para assessorar o Fernando de Morais, que era secretário de Cultura do governo Quércia. E aqui fiquei. Sou um ser artificial, a natureza para mim é boring. Uma chatice! É como disse Oscar Wilde: “A natureza é sempre igual”. Mas alguém respondeu: “Tem inverno, primavera, verão, outono”. Ele contra-atacou: “Pois é, o inverno é sempre igual ao inverno, a primavera igual à primavera, o outono igual ao outono”, uma chatice.

De São Paulo saem os políticos, FHC, Lula, Maluf, Quércia, Ulisses, uma elite política metonímica. No Rio, o absenteísmo do atual prefeito Marcelo Crivella é típico. Aqui tem o excesso texano do João Doria, que impõe a regra: o gestor não discute, afinal é gestor e ponto final. O Rio aceita gente de fora, como o Brizola, que teve no Rio a maior votação para deputado federal e foi o único político brasileiro a governar dois estados, o Rio Grande do Sul e o Rio de Janeiro. O Rio não tem agenda. São Paulo tem agenda, as pessoas marcam compromissos para daqui a um mês.

 

Navalha em linhas exangues

Desde 2005, ninguém me convida para nada. O primeiro editor que me convidar para trabalhar com ele, eu vou. O ano de 2005 foi uma catástrofe para mim, uma hecatombe, um tsunami. Eu entrei nos processos do Edemar Cid Ferreira, presidente do Banco de Santos, não pela atividade cultural, mas pela atividade que eu exercia na Bienal, na qual continuo como conselheiro vitalício. Também foi um assunto completamente dissociado da Brazil Connects, empresa de promoção cultural, cuja origem é a exposição Brasil 500 anos. São projetos que nunca foram contestados. Essa coisa de patrocinador, de captador em arte, foi o Edemar que botou pra frente na Bienal de 94. Não existia nada disso. Todo problema do Edemar foi o Banco Santos e o seu rolo financeiro.

Num determinado momento eu passei a assinar papéis do Banco Santos, a pedido do Edemar. Eram debêntures, e eu sequer sabia para que serviam. A primeira vez que um delegado me perguntou sobre os títulos, eu respondi que não tinha a ideia do que se tratava, não podia dar nem a definição lexicológica.

Eu trabalhei 12 anos com o Edemar Cid Ferreira, na parte cultural. Ele nunca deixou de cumprir uma só vírgula do combinado, pelo contrário, ele ia além. Não havia razão nenhuma para eu desconfiar dele. Além do que a nota do banco era muito bem classificada pelas agências de rating Fitch e Standard & Poor’s.

A tragédia começou em novembro de 2004, mais precisamente no dia 12, quando o Banco Central decreta intervenção no Banco Santos. A instituição estava sem caixa para cobrir o depósito compulsório. Edemar foi a Brasília conversar como o presidente do Banco Central e pedir um prazo. O presidente do BC teria concordado. Edemar então voltou para São Paulo, numa sexta-feira; quando chegou à noite em casa e ligou a TV, viu que a intervenção tinha sido decretada. Mesmo com recebíveis de excepcional qualidade. Alguns dias depois o BC diminuiu a exigência do compulsório, mas aí já era tarde.

Não estou absolvendo o Edemar de jeito nenhum, até porque esse papel não me cabe. Mas o que houve ali foi um complô de dois grandes bancos, cujo nome não vou dizer porque tenho que me poupar.

Sabe Napoleão Bonaparte? Quando Napoleão botou a coroa na cabeça, disseram para ele: “O senhor começou a cair”. Enquanto ele foi Napoleão Bonaparte, até 1804, era herói dos franceses. Depois que virou Napoleão I, para se vingar da elite francesa que sempre o desprezou, virou bonapartais, pejorativo, por causa de seu sotaque corso.

Edemar foi do Partido Comunista, Tesoureiro da Juventude Comunista. Foi amigo íntimo do Plínio Marcos, a quem sustentava. Ele dava uma mesada ao Plínio. Foi também produtor e ator de uma das peças do Plínio, “Barrela”, censurada no dia da estreia em Santos. Edemar esteve na vida do Mário Covas desde que ele foi eleito vereador. Era um estranho no ninho dos banqueiros.

Só o Bradesco sempre apoiou as iniciativas culturais do Edemar. Por que o dono do Bradesco, Amador Aguiar, nunca foi um aristocrata, era uma pessoa de origem simples, como o Edemar. Talvez por isso os dois tenham se entendido bem. O Bradesco apoiou a reforma da Oca do Ibirapuera e a Exposição dos 500 anos, na Bienal. O Bradesco patrocinou a vinda da Carta de Pero Vaz de Caminha, que nunca tinha retornado ao Brasil. A Carta chegou ao Aeroporto de Cumbica e seguiu pela cidade no carro de bombeiros em um cortejo. Um cartaz enorme estampava os seguintes dizeres: Bradesco traz de volta a carta de Pero Vaz de Caminha, que fundou o Brasil. Depois o Bradesco patrocinou a mostra do Picasso, ocupando a Oca inteira no Ibirapuera.

Fui trabalhar com Edemar em 1993 de uma maneira muito bonita. A Bienal passava por uma crise muito grave, financeira e administrativa, e era preciso eleger um novo presidente da Bienal. Um belo dia me liga o amigo Pedro Corrêa do Lago. Já temos um novo presidente, Edemar Cid Ferreira. Você vai ser o vice dele porque ele precisa de uma pessoa como você. Você é conhecidíssimo, tem uma carreira formidável. Dois dias depois aparece na minha casa o Edemar, com uma caixinha de charutos cubanos Cohiba. E assim começou a amizade.

 

Recortes da intimidade

Hoje sobrevivo da ajuda de amigos e do meu patrimônio. Este apartamento está hipotecado três vezes, por causa das dívidas trabalhistas da Brazil Connects. Vou vendendo as minhas coisas. Minha residência era igual à casa de Miss Marple (personagem de Agatha Christie). As pessoas se movimentavam em labirintos entre os objetos. Hoje tenho um terço dos objetos e obras de arte que tinha naquela época. Vendi minha coleção de candelabros da família. E ainda tenho muita coisa para vender. Minha família nunca soube transformar dinheiro em dinheiro. Eram riquíssimos e foram queimando tudo na vida intelectual e política.

Minha rotina é ver todos os seriados e as tevês de outros países, porque falo várias línguas. Vejo até a TV japonesa, que não entendo, mas que tem imagens muito boas. Vejo a TV portuguesa. Sabe como chamam lá coalizão? Geringonça. É bem o que estamos vendo aqui no Brasil: uma geringonça, uma patacoada.

Outro dia vi na TV francesa um estudo sobre o muriqui (macaco da Mata Atlântica). Os pesquisadores franceses garantem que eles são mais pacíficos que os bonobos africanos, têm hábitos solidários e quem manda são as fêmeas. Elas só transam para procriar. Depois, o relacionamento se dá entre fêmeas e fêmeas e machos e machos. Interessante, não?

Pra mim a questão do homossexualismo nunca foi um problema. Fui criado pela minha vó Alice, por quem tenho verdadeira adoração, que era uma mulher muito avançada para seu tempo. Ela recebia muita gente em casa, mas duas coisas não eram assunto: dinheiro e sexo. Dinheiro, ou se tem ou não se tem. E sexo, façam como mais apreciarem. Meu primeiro namorado foi aos 17 anos. Quando o apresentei à minha vó ela perguntou: seu amigo? Eu disse, não, meu namorado. Ela só respondeu: vai ficar para o jantar? Estou casado há 40 anos com o Carlos Henrique (Lamothe Cotta).

 

Mea culpa, mea máxima culpa

Nunca fiz psicanálise, nunca farei. Admiro a originalidade e profundidade do pensamento de Sigmund Freud. Mas não faço análise, porque a culpa é toda minha. Tudo é sempre culpa minha, desde a Guerra da Síria às bombas no Iraque. E isso é puramente cristão. É o Mea Culpa, Mea Maxima Culpa, da missa. É libertador. A culpa não é do meu pai, da minha mãe, do cachorro da vizinha, a culpa é minha. Fui reprimido por meu pai, pela minha mãe, aquela lengalenga da psicanálise. Sua psique está em forma quando para de falar essas coisas. Quando assume sua culpa, você protagoniza todos os detalhes que barraram seu desenvolvimento psíquico. Tenho a imagem de São João Batista ao lado da minha porta. Ele está ali porque pregou no deserto. Para mim isso diz tudo.

Qual é a grande descoberta do Freud? É o inconsciente, que é revolucionário, anárquico. É a culpa. A pessoa tem alta de uma psicanálise quando considera que a guerra da Síria é sua culpa. Uma vez perguntaram a Murilo Mendes, grande poeta, se ele era marxista. Ele disse que não, “admiro muito, mas sou católico, apostólico, romano”. Digo isso porque Cristo dividiu o pão e o vinho, seu próprio corpo foi dado para todos. É a mais valia mais deslumbrante da história. É o próprio corpo. Não é o lucro, não é o capital, é o corpo como mais valia. Os cristãos não se dão conta.

 

O nome da injustiça é Philip Roth

Sou uma pessoa póstuma, uma nota de rodapé. Um dia uma mendiga aqui da esquina, com quem sempre conversava me disse: “O senhor é um barão”. Respondi que não era, mas ela insistiu: “O senhor

pode não saber, mas é um barão.” Outra senhora cruzou comigo e disse: “O senhor

é um monumento”. Eu repliquei, sem querer ser grosseiro: “Desculpe-me, minha senhora, mas não diga isso para o seu maior inimigo. Os monumentos, seja lá de quem for, em Paris, Londres ou Nova York, são latrinas dos pombos.”

Não sou temporal ou atemporal, já morri. Aliás, eu já tentei me matar duas vezes, em 2005 e 2010. A minha depressão é grave. Porque é de fora para dentro. Não sou um depressivo clássico. Não tenho uma estrutura psíquica depressiva. Mas tomo remédio até hoje, em doses altas, o que me mantém com humor.

Tenho medo, claro que tenho medo. Até Jesus teve medo quando estava na cruz. E morreu sem fé. Basta lembrar o que ele disse: “Ó, Deus, por que me abandonastes?” Estou relendo também o maior romancista vivo, injustiçado pelo Nobel, Philip Roth, que eu adoro. Ouço música clássica. Mozart é o maior de todos. E amo as letras. Leio a Bíblia de trás pra frente e de frente pra trás. Quase não saio de casa (um amplo apartamento no bairro de Higienópolis) porque tenho dificuldades de me movimentar devido a problemas de coluna, por isso tenho tantas bengalas. Gosto de Higienópolis, porque é mais parecido com o Rio dos anos 50. Mas gostaria mesmo é que o presidente Emanuel Macron a sua ministra da Cultura, Françoise Nyssen, restaurassem o Palácio de Fontaineblau, onde morou François I,

maior rei do renascimento. Assim eu poderia pedir emprego a eles. Quem sabe não me aceitam como mordomo?

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