Ok, Darwin, você venceu: considerações sobre a libitina pós-bacteriológica

Ok, Darwin, você venceu: considerações sobre a libitina pós-bacteriológica

KELLY NASCIMENTO

Jornalista

 

 

Cada vez que alguém ingere um comprimido antibiótico em algum lugar do mundo, a humanidade dá um passo em direção à morte. O aparente paradoxo explica a gênese das superbactérias, micróbios que aprenderam a “hackear” medicamentos em favor da longevidade de sua espécie. Silenciosamente, enredam uma das pandemias mais graves que o homem terá de enfrentar nos próximos anos: a infecção fatal. Em 2050, esses micro-organismos invisíveis matarão mais que o câncer. Uma estimativa fúnebre projeta 10 milhões de óbitos. O mais apavorante é que quase nada vem sendo feito para deter essa ameaça. Trata-se de mais um débito da indústria farmacêutica com a sociedade: mais uma vez, os gastos com pesquisa estão muito aquém da necessidade.

Em 2019, esses micro-organismos serão responsáveis pelo desaparecimento de 700 mil humanos, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU). A nova epidemia mudará a forma que os seres humanos se relacionam com suas enfermidades. Costumamos pensar hospitais como locais de cura. Afinal, foram criados com esse propósito. Então, quando se tem uma doença mais séria, as pessoas correm para seu centro médico de confiança. Como se fosse a única salvação possível. Com as superbactérias, não será. A disseminação em massa desses serezinhos transformará ambulatórios mundo afora em campos de concentração do futuro.

Caminhamos para um cenário em que, em 2050, circular por corredores de emergências será tão arriscado quanto ter transitado nos arredores da usina nuclear de Chernobyl nos dias seguintes à fatídica explosão do reator 4. É que hospitais são os locais favoritos desses micróbios, o ambiente propicia sua multiplicação e o consequente contágio em massa de humanos. Ter uma infecção hospitalar será mais comum que bocejar. Só que não haverá remédio capaz de curar esse processo infeccioso.

 

GUERRILHA MICROBIANA

A revolução bacteriana que está em curso é silenciosa. Os micro-organismos adquirem resistência quando expostos parcialmente aos antibióticos. O tamanho apego do homem ao medicamento colocou sua existência a perder. O mau uso desse tipo de remédio resulta numa espécie de treino para guerra. As bactérias conhecem, de antemão, as armas do inimigo – no caso, nós, humanos – e preparam sua defesa. Seus soldados, os genes, ativam o mecanismo de contra-ataque: a mutação. As bactérias sobreviventes repassarão a seus descendentes esse upgrade evolutivo. Essas deixam de ser sensíveis aos princípios ativos dos antibióticos, que passam a se tornar cada vez mais agressivos e tóxicos ao corpo humano. E inócuos: já existem bactérias resistentes até mesmo a esses medicamentos de última geração.

Recentemente, a Organização Mundial da Saúde (OMS) publicou a primeira lista de “agentes patogênicos prioritários” resistentes aos antibióticos – um catálogo de 12 famílias de bactérias que representam a maior ameaça para a saúde humana. A relação destaca a ameaça de bactérias do tipo gram-negativas (as que possuem uma parede de peptidoglicano mais fina) resistentes a múltiplos antibióticos. Elas têm capacidades inatas de encontrar novas formas de resistir ao tratamento e repassar a habilidade adiante para seu grupo de guerrilheiras invisíveis.

Uma das superbactérias com maior incidência mundial é a Klebsiella Pneumoniae Carbapenemase. Chamada de KPC pelos íntimos – ou melhor, por médicos e pesquisadores –, ela é uma das veteranas entre as mutantes com superpoderes contra humanos. A medicina tomou conhecimento do risco representado em 2000, com um caso nos Estados Unidos. Sucessivas mutações genéticas lhe conferiram a robustez necessária para permanecer imune ao ataque de diversos antibióticos – notadamente aos carbapenêmicos. “Por sua potência e amplo espectro de ação, estes antimicrobianos foram considerados a ‘última linha’ para o tratamento de infecções graves, principalmente aquelas associadas às Infecções Relacionadas à Assistência à Saúde (IRAS) que é a terminologia utilizada, de maneira mais apropriada, para se referir ao que antes denominávamos ‘infecção hospitalar’”, explica Claudio Penido, médico assistente da Comissão de Controle de Infecção Hospitalar do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FMRP-USP).

Eram eles, os carbapenêmicos, a última fronteira de escudos que protegiam as células humanas de sucumbirem a uma infecção hospitalar. Dotados de um espectro abrangente de ação contra micro-organismos, eram opção preferencial no tratamento de processos de contaminações polimicrobianas graves. É o caso de septicemia na região do abdômen, por exemplo. A KPC se esconde em desde lugares óbvios a outros nem tão imagináveis assim. Pode estar no solo e na água. Em frutas e cereais. E também nas fezes. Sua maior concentração se dá no ambiente hospitalar. Os hospitais são as “raves” dessas bactérias.

Crianças, idosos, pessoas debilitadas, com doenças crônicas e imunidade baixa ou submetidas a longos períodos de internação são os alvos preferenciais. A transmissão se dá por meio do contato com secreções de outro paciente, previamente infectado. Uma vez instalada no organismo de sua presa, a KPC escolhe seu repertório fatal. Pode começar com uma infecção urinária ou uma pneumonia como aperitivo. Segue com uma infecção sanguínea como entrada, que culmina no prato principal: quadro de infecção generalizada, muitas vezes, mortal. Nem precisa de sobremesa. Passa para a próxima vítima. A KPC não age sozinha nesse mortífero esquema. Integram esse esquadrão da morte velhas conhecidas dos médicos: a Acinetobacter spp, os Enterococcus Faecalis e Faecium, a Staphylococcus Aureus (MRSA) e a Streptococcus Pneumoniae.

Elas não atacam só os enfermos. Segundo estudo do Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC, na sigla em inglês), um em cada dez infectados repassam os germes para pessoas saudáveis que circulam pelos hospitais – visitantes, médicos e enfermeiros. Por estarem saudáveis, esses novos hospedeiros não adoecem de imediato. Mas isso não necessariamente é uma boa notícia. Essas pessoas tornam-se portadores silenciosos de doenças, repassando adiante as bactérias assassinas.

Talvez o pulo do gato – ou melhor, da bactéria –, esteja no truque de transformar o homem em seu próprio algoz. O corpo humano é o veículo que transportará esses micro-organismos pelo mundo afora. Germes com uma vida sem fronteiras. Nesse sentido, a globalização é um dos fatores que impulsionaram a difusão desses micróbios. Há registro de casos de bactérias resistentes originárias da Índia e que chegaram à Grã-Bretanha graças ao turismo de ingleses ao país de Mahatma Gandhi. Assim, essas viagens expandem para países ricos problemas decorrentes da pobreza em diferentes regiões do planeta. É mais comum, em nações pobres, que pessoas não cheguem a completar os tratamentos por falta de recursos, o que facilita o surgimento de resistências.

 

LABIRINTO INFECCIOSO

Há uma corrente de pesquisadores que acredita que as vacinas podem ser o caminho para deter a resistência bacteriana. A recomendação é: mais agulhas, menos comprimidos. A premissa é que um grande número de doenças bacterianas hoje tratadas com antibióticos podem ser liquidadas por meio de campanhas massivas de vacinação. A imunização de todas as crianças do mundo seria a kriptonita que levaria à derrota das superbactérias. Entre os defensores dessa teoria está o diretor de Saúde do Banco Mundial, Tim Evans.

A saída para esse labirinto infeccioso passa também pela gestão precisa de antibióticos. Um estudo realizado pela Sociedade Espanhola de Médicos de Atendimento Primário (Semergen) recomenda a adoção, em nível global, de um Programa de Otimização do Uso de Antibióticos. A instituição fez uma pesquisa anônima com 120 médicos da Grande Barcelona para saber o motivo da banalização do remédio. Entre as justificativas está a insistência do paciente, que tem meios de conseguir o medicamento, mesmo sem receita.

Os sanitaristas envolvidos na busca por solução questionam as dosagens padrão recomendadas pelos colegas médicos. Eles recomendam que a dose passe a ser calculada levando-se em consideração características particulares do doente (como peso, altura e ritmo de absorção do organismo). A tecnologia também pode ser uma aliada nessa batalha. Espera-se que a inteligência artificial auxilie a monitorar a quantidade do princípio ativo necessitada em cada momento, adequando a dosagem em tempo real.

Outra frente de ação deve ser voltada à indústria de proteína animal. As fazendas de criação de bois, porcos e frangos são verdadeiros parques de diversão das bactérias. A alta concentração de animais por metro quadrado facilita as infecções que requerem um uso frequente e maciço de antibióticos. Os animais criados para serem abatidos também recebem dose extra do remédio para ganharem peso de maneira acelerada, chegando mais rápido às prateleiras dos supermercados. Essa banalização do uso acaba funcionando como uma vacina para os micróbios, que se familiarizam com o princípio ativo que, em tese, deveria acabar por extingui-los. Um estudo realizado na China, publicado na revista PNAS, dá a dimensão do problema. Cientistas identificaram cem genes que forjam a resistência aos antibióticos em bactérias encontradas no esterco e no solo de diversas fazendas de criação de suínos. Nesses locais, a presença desses genes era entre 192 e 28 mil vezes superior à encontrada em granjas onde não se utilizavam antibióticos.

O fardo das doenças infecciosas em humanos e animais será agravado não só pelo uso indiscriminado ou indevido de medicamentos. A ONU lista outras razões que se somam às principais. São elas: insuficiente acesso à água potável; falta de saneamento básico; más condições de higiene em unidades de cuidados de saúde, no campo, escolas, habitações e comunidades; prevenção insuficiente de infecções e doenças; desigualdades no acesso a vacinas e meios de diagnóstico; sistemas frágeis de saúde; e falta de tratamento adequado de lixo. Esse é o mosaico da tragédia que nos aguarda.

 

FORÇA-TAREFA ANTIBACTERIANA

São necessários esforços adicionais, investimentos e incentivos para desencadear um processo de inovação de medicamentos antimicrobianos, meios de diagnóstico, vacinas e instrumentos de tratamento de resíduos, alternativas seguras e eficazes aos antimicrobianos e práticas alternativas, assim como investigação operacional e investigação sobre a implementação na área da saúde humana e animal. Há muitas pessoas em todo o mundo que ainda não têm acesso a antibióticos. Uma componente essencial da resposta mundial à resistência antimicrobiana passa justamente pela garantia ao acesso equitativo e financeiramente comportável a agentes antimicrobianos de qualidade e o seu uso responsável e sustentável.

A Organização Mundial da Saúde alertou sobre a necessidade “urgente” de novos antibióticos contra 12 famílias de supermicróbios perigosos para o ser humano, como o Streptococcus pneumoniae sem sensibilidade à penicilina e o Staphylococcus aureus resistente à meticilina. Segundo a entidade, mais de 20 novos tipos de antibióticos foram desenvolvidos até os anos sessenta. Desde então, apenas três novos chegaram ao mercado. Não é nada frente ao tamanho do desafio. Tanto que o último a ser desenvolvido foi “hackeado” pelas bactérias em apenas um ano.

Mais assustadora que a proliferação das superbactérias, é a falta de investimento em Pesquisa & Desenvolvimento (P&D), que poderiam levar à criação de superantibióticos. Nessa guerra contra as bactérias, a indústria farmacêutica parece ter escolhido o lado errado do campo de batalha. Em comunicado à imprensa, Marie-Paule Kieny, subdiretora-geral da OMS para Sistemas de Saúde e Inovação, fez um apelo: é preciso investir em P&D para responder às necessidades urgentes de saúde pública mundial. “A resistência aos antibióticos está crescendo, e estamos ficando sem opções de tratamento. Se deixarmos as forças do mercado sozinhas, os novos antibióticos que precisamos mais urgentemente não serão desenvolvidos a tempo”, reforçou.

Pesquisadores da área de Saúde afirmam que, para os laboratórios, não é economicamente interessante sintetizar novos antibióticos: o investimento é alto e o preço final para o consumidor é baixo. Além de serem usados por um curto período de tempo (no máximo, oito dias), o que reduz a rentabilidade do produto. Pautados pela visão de mercado, avaliam ser mais interessante concentrar esforços em medicamento para enfermidades como o câncer, mais caros e de uso prolongado. Outra explicação para o aparente descaso é o fato de os antibióticos terem uma absorção comercial muito lenta. Assim, normalmente não oferecem aos laboratórios uma receita significativa até pouco antes do vencimento da patente. A resistência crescente das bactérias também pode resultar na descontinuação das vendas antes que as receitas máximas sejam alcançadas – o que, até o momento, significou a falência de muitas empresas menores. Hoje há quase um consenso sobre a necessidade de mudança nos modelos de criação e distribuição de antibióticos e as falhas de mercado que nos levaram a esse status quo. Uma das sugestões que estão na mesa seria aumentar o prazo de duração de patentes, a fim de garantir que eles pudessem ver os produtos recuperarem alguns dos custos de P&D.

Para sensibilizar a indústria e os ricos espalhados ao redor do globo, a ONU calculou o estrago que os supermicróbios têm potencial para promover no PIB mundial. “Os danos econômicos de uma resistência antimicrobiana descontrolada só são comparáveis ao choque provocado durante a crise financeira mundial de 2008-2009, como resultado de uma despesa com os cuidados de saúde que aumentou drasticamente, do impacto sobre a produção de alimentos e rações, comércio e meios de subsistência e do aumento da pobreza e das desigualdades”, alerta o relatório do Grupo de Coordenação Interagências contra a Resistência Antimicrobiana, divulgado em abril deste ano. Até 2030, a resistência antimicrobiana poderá levar 24 milhões de pessoas à pobreza extrema, devido a aumentos com os gastos de saúde e a prejuízos para os sistemas alimentares.

Nos países de rendimentos mais elevados, um pacote de intervenções simples para combater a resistência antimicrobiana podia pagar-se a si próprio, devido a custos que seriam evitados. Nos países de rendimentos mais baixos, são necessários urgentes investimentos adicionais, embora ainda relativamente modestos. Se esses investimentos e a ação sofrerem ainda mais atrasos, o mundo vai ter de pagar bastante mais no futuro, para poder lidar com o desastroso impacto da resistência antimicrobiana descontrolada. O problema também tem impacto na produção de alimentos, onde o aparecimento de bactérias e microrganismos resistentes pode prejudicar a criação de animais e outros setores agrícolas.

 

ADEUS, LONGEVIDADE

Ao lado de vacinas e medidas sanitárias básicas, os antibióticos pavimentaram o caminho que alongou a jornada do homem sobre a Terra. Se a ameaça das superbactérias não for atacada, voltaremos a uma época em que as pessoas perdiam suas vidas devido a uma infecção em uma pequena cirurgia.

É que o homem já não se lembra. Mas há quase oito décadas, um corte ou até um arranhão podia se tornar uma sentença de morte. Bastava alguma bactéria contaminar a área para gerar uma infecção. Aos médicos, não restava muito mais que providenciar cuidados paliativos e torcer para que o sistema imunológico do doente reagisse sozinho.

A humanidade deve a um médico escocês os anos extras de vida proporcionados pelo advento dos antibióticos. O desalento de ver milhares de soldados morrerem durante a Primeira Guerra Mundial, por feridas infectadas, somado à sensação de impotência por não poder salvá-los, fez com Alexander Fleming se envolvesse em pesquisas que culminariam com a criação, em 1941, da penicilina – o primeiro antibiótico do planeta. O feito é considerado uma das mais vitais descobertas da história humana. Hoje, a maioria dos antibióticos disponíveis em farmácias ao redor é feita a partir de duas fontes – substâncias liberadas por bactérias ou produzidas por fungos.

A menos que o mundo tome urgentemente uma atitude, a resistência antimicrobiana irá ter um impacto desastroso dentro de uma geração. Doenças comuns, como infecções respiratórias, urinárias e também infecções sexualmente transmissíveis, estão se tornando cada vez mais difíceis de serem tratada. Por enquanto, não há muito que o cidadão comum possa fazer. Talvez aprender com quem viveu na época em que as bactérias representavam uma ameaça real à perpetuação da espécie humana na Terra. Um dos precursores nas pesquisas sobre esses temíveis seres invisíveis foi o francês Louis Pasteur. Ficou tão impressionado com suas descobertas que deixou de cumprimentar as pessoas com o tradicional aperto de mão. Tudo para evitar contaminação. Talvez devamos todos ser paranoicos. Pelo bem da Humanidade.

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