O dia em que a Terra (quase) parou: riscos existenciais e decisões morais no tormentoso Século XX

O dia em que a Terra (quase) parou: riscos existenciais e decisões morais no tormentoso Século XX

LEONARDO BRAGA

Oficial Superior da Marinha do Brasil

 

 

A aniquilação, em escala industrial, de populações civis no século XX, desafia o entendimento humano sobre a natureza das decisões morais. Na década de 40, em particular durante a Segunda Guerra Mundial (2ª GM) e no pós-guerra imediato, foi possível observar situações especialmente paradoxais quando analisamos os processos e os discursos que legitimaram o extermínio de populações civis em larga escala. Não só os ataques propriamente ditos, mas o uso ostensivo de munições incendiárias e mais tarde de artefatos nucleares implicava a clara e deliberada opção de causar mortes horrendas e sofrimento inominável entre não combatentes, o que nos causa estranhamento, especialmente quando tais ataques foram perpetrados por democracias liberais. Neste artigo a literatura e o cinema de ficção científica serão utilizados como fio condutor para as discussões sobre arbítrio moral. São realizadas comparações entre obras de diferentes épocas (1940 e 1951), buscando identificar e descrever os contextos de seus diferentes tempos históricos, com ênfase nos eventos relacionados à 2ª GM e ao desenvolvimento da bomba nuclear norte-americana. No final deste trabalho propõe-se uma explicação, ainda como hipótese, para o paradoxo moral.

Estados Unidos, outubro de 1940. A ilustração colorida na capa da “Astounding Science-Fiction” trazia a um homem vestido de macacão laranja e botas de cano longo, numa posição de manequim de vitrine. A figura parecia um “príncipe valente” do futuro, com seu corte de cabelo estilo cogumelo, à frente de um fundo de anteparas metálicas, válvulas e painéis de controle luminosos. O Príncipe Valente propriamente dito, de Hal Foster, havia estreado pouco mais de três anos antes. Ficção científica e fantasia haviam conquistado espaço na cultura pop desde a década de 20, e seu veículo preferencial eram os livretos de contos e histórias em quadrinhos, impressos em papel jornal.

O conto “Farewell to the Master” constava daquela edição, mas sem o destaque que a capa pouco inventiva dera, alternativamente, à história “Slan!” de A. E. van Vogt (EMORY UNIVERSITY, 2019). O lançamento discreto não antecipava o futuro sucesso da prosa envolvente e compassada de Harry Bates (1900-1981), como base para o roteiro de “O Dia em que a Terra parou” de 1951.

O filme começa com um objeto voador não identificado, muito veloz, ingressando na atmosfera terrestre. Detectado pelos radares, seu destino foi traçado para a Costa Leste dos Estados Unidos. A narrativa se segue com o objeto pousando na capital norte-americana e exibindo seu formato de disco e silhueta prateada no gramado de Elipse Park.

Cercado por tropas, imprensa e curiosos, o disco se abre para a saída de um alienígena vestido com traje espacial e capacete. Ele saúda os presentes:

– Nós viemos visitá-los em paz e com boas intenções.

Logo ele retira da roupa um artefato, pouco maior que uma lanterna, que passa a empunhar. Um dos soldados, temendo que o estranho dispositivo fosse uma arma, atira e atinge o recém-chegado no ombro. O incidente revela que o visitante não está sozinho. Enquanto o astronauta ferido jaz sobre o gramado, um robô humanoide sai da nave e revida o ataque, atingindo as armas humanas com raios, fazendo-as desaparecer.

O visitante das estrelas, de aparência humana, é levado para o hospital e se recupera rapidamente. Lá ele revela o seu nome: Klaatu. Vestindo um terno roubado da lavanderia, ele foge do hospital e circula insuspeito pelas ruas de Washington na busca de abrigo e de um encontro com os líderes da Terra. Ao longo do filme sua missão se torna mais clara, assim como sua crítica à violência e à estupidez humana (que embora seja por ele conhecida desde muito tempo, teria passado dos limites com o surgimento das armas nucleares). No final, após dar sinais dos seus imensos poderes, ser perseguido e morto pelos humanos e ressuscitado pelo seu robô (Gort), Klaatu dá o seu recado aos líderes mundiais – não da política, mas da ciência, os únicos que aceitaram reunir-se para ouvi-lo: os seres humanos devem abdicar da violência como forma de solução dos seus conflitos; se não o fizerem, a Terra será destruída por uma força de robôs superpoderosos, responsáveis por garantir a segurança no Universo. Segundo Klaatu, não se trata de abdicar da liberdade, mas apenas da “liberdade de agir de forma irresponsável”.

Em uma cena anterior do filme, Klaatu se refere com desdém à Guerra Fria como um conflito “mesquinho”, de segunda. De fato, é difícil explicar como nações se põe em marcha para planejar, construir e tornar operacionais mecanismos capazes de destruir a vida humana em escala planetária, a custos astronômicos.

Quando o conto original foi publicado, o mundo experimentava os horrores da Segunda Guerra Mundial. Os bombardeios a populações civis se tornaram corriqueiros. Na estratégia alemã, esta iniciativa se manifestou por meio dos ataques aéreos aos centros urbanos britânicos, resultando em mais de um milhão de casas destruídas (OVERY; IMPERIAL WAR MUSEUM [GREAT BRITAIN], 2009, p. 49) e 60.500 civis mortos (CHURCHILL, 2002, p. 224) ao longo da guerra. Em maio de 1940, ainda antes dos ataques à Grã-Bretanha, a cidade de Rotterdam foi bombardeada para forçar a rendição dos holandeses.

Em agosto daquele ano Albert Einstein (1879-1955) alertara o presidente Franklin Roosevelt (1882-1945) quanto à possibilidade técnica de se produzir grande quantidade de energia a partir da fissão do átomo de urânio. A carta, de duas páginas, urgia por apoio à comunidade científica nacional, controle das jazidas de urânio e monitoração das pesquisas em curso na Alemanha. Ainda segundo Einstein, a reação em cadeia da fissão do urânio “levaria também à construção de bombas, e é concebível – embora muito menos certo – que bombas extremamente poderosas de um novo tipo possam ser construídas.” (EINSTEIN, 1939)

A carta, datada de 2 agosto, foi entregue dois meses mais tarde, logo após a invasão alemã da Checoslováquia. O principal conselheiro científico do presidente Roosevelt, o engenheiro e político Vannevar Bush, permaneceu cético sobre a hipotética capacidade destrutiva do átomo. Relatos de cientistas alemães que fugiram para a Inglaterra o fizeram mudar de opinião. Disseram não haver defesa contra tal artefato e que a única solução possível era tê-lo antes dos nazistas. Convencido, Bush passou a apoiar fortemente o programa de desenvolvimento da bomba nuclear a partir de 1942 (ELLSBERG, 2018). O cientista americano Robert Oppenheimer (1904-1967) foi designado para a liderar o programa. Homem afável, físico respeitado e amante de átomos e literatura, Oppenheimer engajou-se na consecução do projeto desde os seus primeiros dias para, na sua visão, conter a ameaça nazista (BIRD; SHERWIN, 2005).

O século XX havia produzido uma geração de físicos teóricos e experimentais cujo legado redefiniria as bases do campo, viabilizando aplicações técnicas até então restritas ao campo da especulação. O conhecimento por eles produzido assentou o substrato do qual se serviu a empreitada norte-americana – o projeto “Manhattan”. Mas não só o conhecimento foi útil – as relações entre os notáveis foram igualmente importantes na constituição de uma rede de cooperação e reflexão, capaz de formular e resolver problemas teóricos e práticos de imensa complexidade.

O epicentro do projeto foi uma vila especificamente construída para abrigar os cientistas e suas instalações. Localizada no deserto do Novo México, Los Alamos foi aberta em março de 1943. Em pouco mais de um ano contava com 3.500 pessoas; no verão de 1945 já eram 4.000 civis e 2.000 militares labutando em 37 prédios, incluindo instalações para processamento de plutônio, laboratórios, escritórios, paióis e uma fundição (BIRD; SHERWIN, 2005, cap. 13). Embora os números impressionem, Los Alamos era apenas um nódulo de uma rede bem maior de produção científica e industrial que chegara a envolver 65.000 pessoas trabalhando em 30 localidades espalhadas pelos EUA e Canadá (SIRACUSA, 2015, p. 16).

Para a concepção preliminar da bomba, os cientistas se debruçaram sobre um desastre de grandes proporções ocorrido na cidade costeira de Halifax (Canadá) durante a Primeira Guerra Mundial. No início de 1917, o Almirantado britânico se convencera da necessidade de agrupar os navios mercantes em comboios escoltados por navios de guerra, a fim de minimizar os riscos de afundamento por submarinos alemães (KEEGAN, 2000). Isso impôs, por outro lado, o adensamento do tráfego marítimo em proporções atípicas, estressando a capacidade de coordenação e controle das chegadas e partidas e do trânsito de navios por trechos mais estreitos dos canais de acesso. Halifax não era exceção, já que o Canadá era aliado dos norte-americanos e britânicos, e o porto estava fortemente engajado no esforço logístico da guerra.

Na manhã do dia 6 de dezembro de 1917, um navio francês, o Mont Blanc, e um navio norueguês, o IMO, colidiram enquanto se cruzavam em um dos estreitos. T. Joseph Scanlon (1933-2015), jornalista e importante pesquisador na área de desastres, descreve o que se seguiu após o acidente marítimo, no que se tornaria o pior desastre da história do país:

“O Mont Blanc transportava gasolina de aviação e explosivos, e a colisão o incendiou. Vinte minutos depois da colisão, ele explodiu com um sétimo do poder da primeira bomba atômica. Houve 1.963 mortos e 9.000 feridos. O extremo norte da cidade ficou em ruínas ou em chamas. Os navios no porto foram danificados, tanto pela explosão como por um tsunami que ela criou. O rebocador, Hilford, foi alçado em seis metros e caiu em destroços sobre as docas. Comunicações e transporte foram interrompidos. O corpo de bombeiros perdeu seu pessoal sênior, incluindo o chefe. A busca inicial e o resgate foram feitos pelas famílias, vizinhos e visitantes, depois por grupos organizados às pressas. As vítimas foram despejadas em casas de médicos, onde os médicos se esforçavam para ajudar, apesar de seus próprios ferimentos. Os hospitais ficaram superlotados; os pacientes podiam ser encontrados no chão, debaixo das mesas, até mesmo, apesar do tempo frio, do lado de fora nos degraus.” (SCANLON, 1997, p. 151, tradução nossa)

A partir do desastre de Halifax, estimando que uma bomba nuclear alcançaria de duas a três vezes a potência da explosão, Oppenheimer dirigiu as pesquisas para a concepção de um artefato com esse nível de potência, pequeno o suficiente para ser usado militarmente. (BIRD; SHERWIN, 2005, cap. 13). Mais tarde consolidou-se a opção de usar plutônio, o que implicava na necessidade de obtê-lo a partir do enriquecimento de Urânio 238. Tal feito tornou-se possível por meio do comissionamento do primeiro reator nuclear do mundo em 1942, trabalho dos cientistas Leó Szilárd (1898- 1964) e Enrico Fermi (1901-1954) (ELLSBERG, 2018, p. 27).

Em maio de 1945 a Alemanha se rendeu. Isso, em tese, teria resultado na interrupção do projeto ou pelo menos no redirecionamento de seus esforços. Todavia, se por um lado o regime nazista havia sido derrotado, por outro os EUA se encontravam numa guerra inclemente contra o Japão desde 1941. O Japão, além de ter atacado ferozmente possessões americanas no Pacífico, invadira boa parte das colônias e países independentes do Sudeste Asiático, numa campanha que incluiu terríveis violações do direito humanitário, perpetradas contra populações civis e prisioneiros de guerra.

Após a derrota da Alemanha, as discussões se dirigiram, em decorrência, ao uso potencial da bomba contra o Japão. Nesse momento, nenhum protótipo havia sido testado, mas os impressionantes avanços técnicos indicavam que, em breve, a bomba se tornaria realidade. O presidente Franklin Roosevelt havia falecido e a administração Truman se via em meio aos movimentos finais (e brutais) da guerra no Pacífico.

Reproduzindo a estratégia do bombardeio massivo utilizado contra as cidades alemãs, forças americanas atacaram a cidade de Tóquio no dia 9 de março de 1945. Trezentos e trinta e quatro aeronaves B-29 decolaram das ilhas Marianas carregando bombas incendiárias Mk47 de 100 libras (182 por aeronave) e M69 de 6 libras (1.520 por aeronave) e algumas bombas explosivas para deter o trabalho das brigadas de incêndio (SELDEN, 2007).

O conceito desse tipo de operação militar havia sido testado com sucesso pela primeira vez na campanha britânica contra a Alemanha em 1943, durante o bombardeio à cidade de Hamburgo (SELDEN, 2007). A ideia por trás desse tipo de ataque era mobilizar e potencializar efeitos físico-químicos de combustíveis e explosivos em proveito da destruição de vastas regiões urbanas e seus habitantes, numa espécie de “tempestade de fogo”.

“Todos morreram na área dentro do círculo de fogo, alimentados por ventos provenientes de todas as direções, a até 150 quilômetros por hora. Aqueles em abrigos morreram de asfixia, se não de calor. O carbonato de cálcio no cimento se decompõe e a areia de silicato no concreto pode derreter a esta temperatura, fazendo com que os edifícios entrem em colapso. O asfalto derreteu e os bombeiros ficaram presos; seu equipamento atolou na rua, impedindo que eles se movessem. Pessoas fugindo das chamas ficaram igualmente presas no asfalto e se tornaram tochas flamejantes. O calor irradiado em si, sem a chama visível, era tão intenso que atravessou as barreiras contra incêndio e as ruas, espalhando o fogo dentro dessa zona da morte. Cerca de quarenta e quatro mil civis morreram em Hamburgo.” (ELLSBERG, 2018, p. 247, tradução nossa)

Em Tóquio a “tempestade de fogo” consumiu as vidas de aproximadamente 97.000 pessoas e feriu 125.000 (SELDEN, 2007, p. 8), sem que, a despeito da ampla publicidade dos ataques, tal estratégia suscitasse discussão pública (BIRD; SHERWIN, 2005). Nas palavras de Oppenheimer:

“‘Eu me lembro do Sr. Stimson [o secretário de guerra] dizendo para mim’, observou Oppenheimer mais tarde, ‘que ele achava chocante que não houvesse protestos pelos ataques aéreos que estávamos realizando contra o Japão, que no caso de Tóquio levou a uma perda de vidas tão extraordinariamente pesada. Ele não disse que os ataques aéreos não deveriam ser realizados, mas ele achava que havia algo errado em um país onde ninguém questionava isso…’” (BIRD; SHERWIN, 2005, cap. 12, tradução nossa)

Em maio de 1945, um comitê de assessoria sobre o uso da bomba foi montado e após discussões entre civis e militares, incluindo Oppenheimer, ficou decidido que a bomba deveria ser usada para fins militares contra o Japão, descartando-se alternativas como demonstrações de força ou o lançamento em áreas desabitadas do país (BIRD; SHERWIN, 2005). Liderados por Leó Szilárd, parte dos cientistas envolvidos no projeto se opuseram decididamente contra a linha de ação aprovada. Seus esforços, contudo, foram parcialmente neutralizados pela atuação habilidosa de Oppenheimer.

Em 6 de julho de 1945, seguindo a concepção inicial do projeto (plutônio), a primeira bomba nuclear do mundo foi testada. A explosão liberou o equivalente a 21.000 toneladas de TNT, superando as estimativas iniciais. Um olhar atento revela, contudo, uma faceta muito mais sombria do experimento. Antes do teste havia incertezas sobre a amplitude das consequências de uma explosão daquela magnitude. Entre as hipóteses estavam: (1) a destruição de uma enorme parcela do Estado do Novo México, incluindo as instalações de teste e toda a equipe de cientista e (2) a ignição de toda a atmosfera terrestre decorrente de uma reação em cadeia de combustão do nitrogênio, gás que compõe 78% da composição da atmosfera (BIRD; SHERWIN, 2005, cap. 13). Essa informação nunca chegou ao presidente; a possibilidade de que um teste extinguisse, por asfixia, toda a vida consciente no planeta Terra foi levantada e aceita por uma fração exígua da humanidade, representada pelo pequeno grupo de cientistas sêniores do projeto (ELLSBERG, 2018, p. 282).

Em 6 de agosto de 1945, seguindo os planos concebidos antes do teste de julho, uma bomba nuclear foi lançada contra a cidade de Hiroshima, matando instantaneamente entre 80.000 e 140.000 pessoas e ferindo outras 100.000 (SIRACUSA, 2015, p. 22). Três dias depois uma outra bomba foi lançada contra a cidade de Nagasaki, ceifando a vida de outras 24.000 e ferindo 23.000 (SIRACUSA, 2015, p. 24). A primeira bomba utilizara urânio enriquecido e não havia sido testada previamente; sua construção era considerada mais simples, levando os cientistas a crerem que as chances de detonação eram altas. A segunda obedeceu à concepção inicial do projeto (bomba de plutônio).

 

UM INVENTÁRIO DA BRUTALIDADE

Na Europa, o resultado combinado da aplicação titânica de forças destrutivas pelos grandes atores (Alemanha, Grã-Bretanha, Estados Unidos e União Soviética), promoveu o esfacelamento de vastas redes sociais, econômicas e culturais. Os números são tão altos que chegam a desafiar os limites da credulidade. Em torno de 36,5 milhões de pessoas morreram; entre elas 19 milhões de civis (JUDT, 2008, p. 52 e 53).

As regiões sob o domínio da União Soviética suportaram a maior parte da destruição, lá perecendo 27 milhões de pessoas (LOWE, 2017, cap. 2). Os civis mortos somaram 16 milhões, cabendo uma ressalva importante: 5 milhões de pessoas morreram nos territórios ocupados pela Alemanha ou URSS que pertenceram à Polônia (JUDT, 2008, p. 53). Antes do início da guerra esse país foi objeto da repartição pactuada entre as duas potências por meio do tratado secreto de Molotov-Ribbentrop. O acordo de não-agressão, assinado em 23 de agosto de 1939, repartiu a Europa oriental em duas áreas de influência – Finlândia, Estônia, Letônia, partes da Polônia e Romênia para a URSS e Lituânia e parte da Polônia para a Alemanha – concerto político que foi assistido por um tratado adicional, em que os soviéticos se comprometeram a fornecer combustível, alimentos e matéria-prima para a Alemanha nazista (OVERY; IMPERIAL WAR MUSEUM [GREAT BRITAIN], 2009, p. 20 e 21).

Com esse alerta, é oportuno perceber que a 2ª GM teve início com invasões conduzidas tanto pela Alemanha quanto pela União Soviética, respeitando-se a partilha dos espaços acordada pelo tratado. Somente em 1941 a Alemanha romperia o pacto com a URSS e iniciaria a grande ofensiva oriental, mobilizando 3 milhões de soldados ao longo de um front de 1.600 quilômetros (SMITHSONIAN INSTITUTION., 2006, p. 138). Neste front ou em decorrência dele, morreram a maior parte dos civis em território soviético, com o peso maior recaindo sobre a Ucrânia (entre 7 e 8 milhões de pessoas, cerca de 1/5 da população do país)(LOWE, 2017, cap. 2). A Alemanha seria responsável ainda pela barbárie meticulosamente perpetrada contra judeus e ciganos, que resultou na morte respectivamente de 5,7 milhões e 221 mil pessoas.

Na Ásia as atrocidades contra populações civis começaram mais cedo. Alguns autores consideram que a eclosão da 2ª Guerra Sino-Japonesa posicionaria em 1937 o início da 2ª GM, época em que Alemanha e Itália já se punham em armas apoiando o General Franco na Guerra Civil espanhola (movimento que não é considerado parte do conflito, mas um prelúdio das hostilidades).

A então complexa, ambígua e volátil rede de relações internacionais chinesas é bem ilustrada pelo curioso percurso histórico dos filhos de Chiang Kai-shek (líder da China), na década de 30. No verão de 1939, seu filho mais novo, Chiang Wei-kuo, se encontrava entre as fileiras do exército alemão após dois anos de instrução militar no país; um meio-irmão havia passado 12 anos na URSS, era casado por lá e já contava até mesmo com um nome russo (HARMSEN, 2018, Prefácio). Peter Harmsen, historiador dedicado à pesquisa sobre o conflito na Ásia, esclarece o momento em que a nascente aliança nipo-germânica desloca a China para a esfera de influência dos Estados Unidos:

“A história de Chiang Wei-kuo era um reflexo de como os laços sino-alemães haviam crescido nos anos 1930, quando a indústria de armamentos da Alemanha estava exportando grandes quantidades de equipamento militar para o regime nacionalista chinês, cujo esforço para construir um grande exército moderno foi também assistido por um corpo de experientes consultores alemães. A assistência provou ser particularmente útil desde 1937, depois que a guerra em larga escala estourou entre a China e o Japão. Em 1939, no entanto, a Alemanha tornava-se cada vez mais amigável com o Japão e se distanciava do regime de Chiang. Como resultado, a presença de Chiang Wei-kuo estava começando a parecer deslocada; e quando ele passou por Berlim a caminho da fronteira polonesa e visitou a embaixada da China, recebeu novas ordens: ele deveria viajar para os Estados Unidos para treinamento militar lá.” (HARMSEN, 2018, Prefácio, tradução nossa)

Nos primeiros 40 anos do século XX, a industrialização do Japão e sua ascensão como potência regional suscitou conflitos armados contra a Rússia e a China e comerciais contra os EUA, na busca por matérias-primas, mercados e território (recursos que as potências ocidentais, por sua vez, obtinham de vastas possessões coloniais). De 1904 a 1905 o Japão lutou e venceu a guerra russo-japonesa, tornando-se a primeira nação asiática a derrotar um país europeu num conflito armado. Essa vitória conteve as pretensões expansionistas da Rússia e garantiu ao país o controle de parte da Manchúria e da Coreia. A monarquia russa mais tarde cairia na Revolução de 1917.

Contra uma China dividida, às voltas com disputas intestinas, o Japão se engajaria militarmente desde os primeiros anos da década de 30. Entre 1937 e 1938 as campanhas ganharam maior vulto com a ampliação do controle japonês da região norte da China, incluindo a captura de Pequim e uma grande ofensiva ao longo do rio Yangtze (SMITHSONIAN INSTITUTION., 2006, p. 130).

Ao analisar o que aconteceu na cidade de Shanghai, Peter Harmsen adotaria a expressão “Stalingrado no Yangtze” em analogia à longa e sangrenta batalha entre a Alemanha e URSS, que ocorreria cinco anos mais tarde na Europa às margens do rio Volga (HARMSEN, 2013). Maior metrópole da China à época, conhecida como “Paris do Oriente”, Shanghai sofreu os efeitos combinados de forças navais, fluviais, terrestres e aéreas em combate; subindo o rio, a execução sumária e o estupro em massa, colocariam a cidade de Nanjing no mapa das inomináveis barbáries japonesas; os números são imprecisos, mas estima-se que morreram 300.000 pessoas no total (LAI; RAVA, 2017).

 

O QUE ABORRECIA KLAATU?

Segundo Klaatu, a Terra já vinha sendo observada fazia um tempo. O que mais ele poderia ter visto (além da 2ª GM) que pudesse justificar o ultimado contra os seres humanos? Bem, aos roteiristas não faltariam más impressões sobre o comportamento da humanidade entre 1945 e 1950, mais do que suficientes para adensar a composição e a convicção messiânica do personagem. Em primeiro lugar, o monopólio atômico dos EUA caiu por terra em 1949, ocasião em que a URSS testou com sucesso o seu primeiro artefato nuclear – ficaram assentadas as bases para um possível holocausto global. Em segundo lugar, as disputas pelo controle e reorganização dos espaços político-econômicos na Europa e na Ásia levaram à construção do chamado “mundo bipolar”, sob a égide da atrição permanente entre os EUA e a URSS – fenômeno que se manifestou logo após a rendição da Alemanha, com o bloqueio soviético de Berlim.

Klaatu poderia, por outro lado, ser mais crédulo na capacidade das democracias ocidentais em defender a liberdade, a paz e o direito à vida, assim como um outro alienígena fizera anos antes, engajando-se (nos quadrinhos) contra os japoneses – o Super-Homem (GLEN, 2016). Bem, os bombardeios aliados contra as populações civis japonesa e alemã resultaram em 1,5 milhão de mortos, mais de dois milhões de feridos e 16 milhões de desabrigados ao longo de todo o conflito (HEWITT, 1983). Apostar as fichas no Ocidente provavelmente não daria muita credibilidade ao personagem e até mesmo atentaria contra a ideia dele como embaixador de civilizações avançadas e, portanto, muito mais inteligentes.

Richard Overy, historiador britânico e autor de extensa bibliografia sobre a 2ª GM, se detém igualmente sobre o que considera “O mais impressionante paradoxo moral dos anos de guerra”, a disposição de Estados liberais de se engajarem no assassinato deliberado de centenas de milhares de civis inimigos por meio de ataques aéreos (OVERY, 2006, cap. 9). Sobre isso ele conclui:

“Considerações sérias foram às vezes dadas ao uso de armas químicas e biológicas. Havia pouca evidência de escrúpulos morais nas discussões sobre o uso de armas atômicas. Esse paradoxo pode ser explicado em parte pela escolha deliberada feita pelas democracias ocidentais para salvar as vidas de suas próprias populações, recorrendo a soluções tecnológicas, em vez de estratégias com altas perdas de mão de obra. A bomba atômica foi a expressão suprema da dependência da tecnologia para infligir danos insustentáveis, enquanto reduzia as perdas das democracias a virtualmente zero. O uso da tecnologia produziu uma distância entre aqueles que planejaram e executaram ataques e as próprias vítimas. Um exército terrestre ocidental nunca teria entrado em Hamburgo e matado quarenta mil pessoas. O bombardeio permitia uma espécie de distanciamento moral, evidente na linguagem que o cercava.” (OVERY, 2006, cap. 9, tradução nossa)

A hipótese explicativa deste trabalho é outra: em vez de distanciamento moral, tal paradoxo só seria possível por meio de delegação moral. O distanciamento, na verdade, seria um artifício necessário para prevenir empatia entre contendores. Supõe-se que, a partir dessa mesma crença, as grandes lideranças nacionais acreditassem que a existência das nações se sustentava por meio de uma arquitetura de delegação moral, formada pelas instituições e pelos indivíduos. Assim, proteger essa arquitetura e destruir a arquitetura do outro era central na estratégia da guerra. Tal hipótese, se verdadeira, permite reunir num mesmo arcabouço elucidativo as iniciativas de proteção de populações civis próprias (defesa civil) e os bombardeios estratégicos contra as populações inimigas.

 

A HIPÓTESE MORAL

Tal como proposto em “Fragmentos para uma Sociologia dos Desastres”, considera-se nesta análise que a sociedade humana pode ser mais bem modelada como um ecossistema de inteligências coletivas, como nações, empresas, famílias e comunidades religiosas, formadas por seres humanos e seus artefatos tangíveis (construções, ferramentas, dispositivos) e intangíveis (linguagem, valores, normas) (MARTINS, 2018).

Essas inteligências coletivas, especialmente as maiores, permitiriam a associação de diversas inteligências individuais num esforço coordenado, capaz de compreender e solucionar problemas muito mais complexos e alcançar objetivos mais ambiciosos, ao longo de períodos mais alongados de tempo. Esses entes biopsicossociais podem ter, ao contrário dos homens, séculos de vida, tal como o Império Romano, a China, países ocidentais como Portugal, Inglaterra, França e comunidades religiosas como o Cristianismo, o Budismo e o Islamismo. No mundo moderno podemos elencar até mesmo empresas, como companhias de petróleo, fabricantes de automóvel e vinícolas.

Um primeiro alerta se faz necessário. O uso corriqueiro do termo “inteligência” está comumente associado à impressão que as pessoas têm sobre a qualidade da ação consciente de alguém, medida pela sua capacidade de solucionar problemas e de mobilizar conhecimento para a lidar com situações novas. Para este artigo, inteligência não é isso; trata-se, alternativamente, da propriedade que alguns sistemas exibem (biológicos ou não) de realizar escolhas. Realizar escolhas não necessariamente implica em resultados melhores. Um bom número de processos biológicos é automático e me preocuparia bastante ter que, por exemplo, voluntariamente comandar o meu coração para que ele batesse, ou o intestino para que ele digerisse os alimentos.

A inteligência é um fenômeno recente na história evolutiva, produto de um alto nível de complexidade. Fazer escolhas implica necessariamente em dispor de mecanismos de formulação de opções e predição dos resultados da ação escolhida. A inteligência não é possível sem a memória, pois o futuro precisa ser depreendido a partir do passado. Também não é possível sem a consciência de si mesma, pois a ação no mundo se dá por meio das capacidades que aquela inteligência possa mobilizar.

Portanto, memória, história, futuro, consciência e decisão estão intimamente ligados e não podem ser dissociados na investigação dos fenômenos da inteligência. A teorização e o levantamento desses fenômenos, assim como o mapeamento dos processos que lhe dão corpo, tem ocupado pesquisadores de campos como a psicologia social, a psicologia organizacional, a antropologia cultural, as neurociências cognitivas e as neurociências sociais.

Não é propósito deste trabalho inventariar as diversas contribuições desses campos e seus afastamentos/aproximações. A estratégia aqui é demonstrar a validade da arquitetura de delegação moral como conceito operacional útil para a compreensão de comunidades, mercados, organizações e Estados-Nação como inteligências coletivas, a fim de justificar a pertinência da hipótese apresentada.

 

A PRIMEIRA INTELIGÊNCIA

Na história evolutiva a possibilidade de escolha não surgiu “do nada”. Ela emerge como uma propriedade nova em “plataformas” orgânicas reguladas por sistemas automáticos sofisticadíssimos, que nos esforçamos ainda hoje para compreender. A inteligência se tornou possível a partir do surgimento de células especializadas, os neurônios e glias, mas que certamente não produziram comportamentos inteligentes de forma imediata; produziram, sim, circuitos de coordenação ágeis entre diferentes partes de um mesmo organismo multicelular, como patas, tentáculos e cílios, mormente a serviço da locomoção (DAMÁSIO; MOTTA, 2011).

Portanto, é possível estimar uma sequência provável de desenvolvimento dos organismos multicelulares até o nascimento da inteligência: (1) a constituição de comunidades de células especializadas, coordenadas pela comunicação físico-química proporcionada pelo transporte de substâncias, sob a égide da autorregulação e da autopoiese, capazes de se multiplicar, exibir comportamento reativo e sincronismo com fenômenos externos, tais como mudanças sazonais de temperatura, pH e umidade; (2) sobre essas estruturas, a constituição de um grupo particular de células capazes de proporcionar coordenação pela propagação/supressão de impulsos elétricos, ainda em proveito de comportamentos reativos e/ou sincrônicos; (3) a capacidade de se locomover e explorar o ambiente certamente proporcionou vantagem competitiva aos organismos equipados com neurônios, favorecendo a reprodução de seres dotados de redes neurais, progressivamente maiores e mais complexas; (4) em algum momento essas redes neurais passaram a exibir novas propriedades, como a memória e a capacidade (a partir dela) de reconhecer padrões e criar um “campo de expectativas”; nesse momento é possível supor que essa consciência rudimentar fosse um mero espectador dos processos automáticos (como quem assiste a um filme tentando prever o que vai acontecer nas cenas seguintes, mas sem controle do protagonista); (5) Em algum momento essa rede interneural sofisticada (no ser humano, o cérebro) se tornou grande e eletricamente poderosa o suficiente para interferir nos processos automáticos que controlavam o movimento e o processamento dos sensores.

Nesse último passo teria surgido a primeira forma de escolha, a única possível – o não. Explicando melhor: todo o repertório de ações até esse momento era coordenado e disparado por processos automáticos. Isto significa que, para essa forma de consciência essencial, a inibição de uma ação automática era a única expressão possível de arbítrio.

Mais tarde o crescimento e complexificação da rede interneural levaria, no caso do homo sapiens, ao pensamento simbólico, à linguagem, à estética, à empatia e a todas essas propriedades que somos capazes de exibir de forma tão peculiar. Mas tudo isso assentado nas lógicas do automático/arbítrio, sendo o arbítrio uma camada processual construída por sobre o automático, cumprindo o papel de modular as respostas automáticas e criar novas possibilidades além daquelas produzidas pura e simplesmente pela evocação de comportamentos previamente experimentados ou imitados (DAMÁSIO; MOTTA, 2011; KAHNEMAN, 2011).

 

TIPOS DE DECISÃO MORAL

A partir dos referenciais das neurociências cognitivas, é possível depreender dois tipos de decisão moral num sistema inteligente: (1) a decisão relacionada ao julgamento do futuro desejado (o que estou buscando alcançar é bom ou ruim?), que chamaremos de moral visionária; e (2) a decisão relacionada ao julgamento das ações propriamente ditas, na capacidade delas de ajudarem ou atrapalharem, em maior ou menor grau, o alcance do futuro desejado (o que estou fazendo ou pretendo fazer é bom ou ruim para o alcance do resultado desejado?). Este chamaremos de moral executiva.

O que as primeiras exibições fugazes de inteligência provavelmente experimentaram foi o arbítrio apenas na moral executiva. A visão de futuro buscada e desejada teve provavelmente como fonte o atendimento dos desejos de níveis anteriores de complexidade, preexistentes ao nascimento da inteligência. Um futuro bom seria, entre outras coisas, manter-se respirando, estar alimentado, hidratado, termicamente confortável e ser um parceiro reprodutivo bem sucedido.

Muitos autores consideram que o aumento da capacidade cognitiva e a socialização caminharam de mãos dadas, num processo de coevolução (VAN BAVEL; CUNNINGHAM, 2010). Se isso for verdadeiro (julgo que sim), é possível inferir que a capacidade que tenha se ampliado mais foi a moral executiva, em proveito da melhor mobilização e coordenação social a serviço das visões de futuro comuns. A partir desse momento, as visões de futuro basais ganharam um verniz adicional, uma camada de significados sobre fenômenos como a vida, a morte, a reprodução e a alimentação, entrelaçando-se para formar um todo biopsicossocial. Outras visões de futuro foram adicionadas em virtude das exigências impostas pela vida social. Além de alimentado, abrigado e protegido, tornou-se igualmente necessário ser aceito, acolhido, respeitado, admirado, leal e belo. Essa conclusão dialoga com Piaget (1896-1980) na percepção de que os homens de fato alcançam muito pouca autonomia na vida adulta, praticamente permanecendo fiéis aos modelos (heteronomias) que os grupos sociais utilizam para moldar e adequar o comportamento de seus partícipes.

A hipótese adicional que levanto é a seguinte: o ser humano sofre de uma hipertrofia da capacidade moral executiva em relação à capacidade moral visionária. Essa hipertrofia teria contribuído imensamente para a explosão de complexidade da sociedade humana, na medida em que permitiu que inteligências individuais fossem mobilizadas em arquiteturas de delegação moral, onde suas capacidades cognitivas foram canalizadas para execução de planos maiores, em grandes coletivos, permanecendo a determinação da “visão de futuro” restrita a alguns poucos elementos centrais da cadeia de liderança.

Dessa forma, imensas máquinas sociais de destruição e morte puderam ser postas em marcha, mesmo contrariando princípios morais particulares, como a preservação da vida. Autores da biografia mais premiada de Oppenheimer, Kay Bird e Martin Sherwin nos apontam de forma imensamente esclarecedora que:

“Em contraste com as pessoas em Chicago, os cientistas de Los Alamos, trabalhando freneticamente para testar o modelo de bomba de implosão de plutônio o mais rápido possível, tiveram pouco tempo para pensar sobre como ou se seu artefato deveria ser usado contra o Japão. Mas eles também sentiram que podiam confiar em Oppenheimer. Como observou o biofísico do Met Lab, Eugene Rabinowitch, um dos sete signatários do Relatório Franck, os cientistas de Los Alamos compartilhavam um ‘sentimento difundido de que podemos confiar em Oppenheimer para fazer a coisa certa’”. (BIRD; SHERWIN, 2005,
cap. 13, tradução nossa).

 

FAREWELL TO THE MASTER

Na época da publicação da “Astounding Science-Fiction” (1940), a era nuclear e os bombardeios estratégicos contra a Alemanha e Japão não tinham se iniciado. O que Klaatu, então, exigira dos seres humanos?

No conto original de Harry Bates, a chegada da nave alienígena em Washington é contada como parte de um passado distante. Quando chegou à Terra, o visitante nada conseguiu dizer além de “Eu sou Klaatu e esse é Gnut”. Alvejado por um fanático religioso, Klaatu morreu e foi enterrado sem que fosse possível saber qual era sua missão e as intenções do primeiro contato. O robô que o acompanhava (Gnut) cessou seus movimentos no instante do assassinato e nunca mais voltou a se mover.

Com receio de sofrer represálias de uma civilização mais avançada, o governo realizou um funeral com honras extraordinárias e construiu, à época, um mausoléu para Klaatu. Uma ala adicional do Museu da cidade foi construída a partir da extensão do prédio principal. No tempo corrente da narrativa, o robô estático e a nave (ambos feitos de material inescrutável) ocupam este espaço numa exposição permanente aberta ao público. No mausoléu, junto ao corpo de Klaatu, jazem as gravações tentando demonstrar que a morte dele foi acidental.

Nosso herói é Cliff Sutherland, um jornalista que percebe uma pequena diferença entre duas fotografias corriqueiras do robô Gnut, indicando que (pasmem) ele havia se movido. Na trama, permeada de suspense, Cliff faz investigações e busca respostas. Tudo termina com uma demonstração espetacular de força, quando Gnut sai do museu em direção ao mausoléu, abre a cripta e apanha as gravações. Durante a confusão Cliff habilmente consegue ingressar no interior da nave, descobrindo que lá dentro há um outro Klaatu – um clone, que após um curto e comovente diálogo desfalece. Ainda com o segundo Klaatu nos braços, ele se dirige ao robô:

“Gnut”, disse ele sério, segurando cuidadosamente o corpo flácido em seus braços, “você deve fazer uma coisa para mim. Ouça com atenção. Eu quero que você diga ao seu mestre – o mestre ainda por vir – que o que aconteceu com o primeiro Klaatu foi um acidente, pelo qual toda a Terra está imensamente arrependida. Você fará isso?”

“Eu sei disso”, o robô respondeu gentilmente.

“Mas você promete contar ao seu mestre – apenas estas palavras – assim que ele chegar?”

“Você entendeu mal”, disse Gnut.

Ainda gentil, ele calmamente disse mais quatro palavras. Quando Cliff as ouviu, sua visão ficou turva e seu corpo dormente. Ao se reestabelecer e retomar a consciência, percebeu que a grande nave havia desaparecido. Assim, de repente, não estava mais lá.

Ele deu um passo ou dois atrás. Em seus ouvidos, como grandes sinos, ecoavam as últimas palavras de Gnut. Nunca, em toda uma vida, ele teria desvendado aquele segredo.

“Você entendeu mal”, dissera o poderoso robô. “Eu sou o mestre.”(BATES; SINE, 2008, cap. 1, tradução nossa).

 

 

 

O autor é professor do Programa de Pós-Graduação em Defesa e Segurança da Universidade Federal Fluminense (UFF) e Conselheiro da Associação Brasileira de Redução de Riscos de Desastre (ABRRD)

bragamartins@gmail.com

 

 

 

Bibliografia

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