Reabilitação e desagravo de Antônio Conselheiro

Reabilitação e desagravo de Antônio Conselheiro

 

Por Marcus Fabiano, Jurista e escritor

 

  1. O teatro do crime

 

reduzindo a mata de angicos ao rasteiro arbustivo, lâminas de diorito na mão dos índios: assomava a caatinga, deserto sem Cristo. e pelas curvas do Vaza-Barris, logo apareciam os canudos de pito. e um tanto depois a dita “Troia de taipa”, ninho de camponeses libertos e mestiços, mães, jagunços, pajés ou coriscos fugindo à fome e ao jugo dos senhores sem tino. um arraial por lá então florescia no abandono dos eitos compáscuos, uma comunidade católica ao redor de um beato, certo peregrino agora fixado: Antônio Vicente Mendes Maciel, o Conselheiro. mercê de rezas e lavores, todos juntos prosperavam e eram até escolarizados, para desgosto do barão de Jeremoabo e outros coronéis já sem braços (livres ou escravos) em seus latifúndios cada vez mais vazios e estagnados. a recente República aí passa pronto a acusar o Conselheiro de monarquista cediço, justo ele que repudiava os impostos abusivos daquele novo regime de um golpe nascido. depressa foram enviadas expedições contra o novo inimigo. o tenente Pires Ferreira foi surpreendido em Uauá, relatando uma gente que não se deixava assustar. o major Febrônio Brito surgiu no povoado e abalou-se aturdido, deixando atrás de si um arsenal farto e fatídico. o corta-cabeças, coronel Moreira César, foi ligeiro ferido em esparrela, sucumbindo no campo de batalha enquanto sua legião se dispersa. era a humilhação total e completa. mas sob o comando do general Artur Oscar, uma nova força federal a Matadeira trouxera: o canhão Withworth 32, apontado do alto do morro da Favella, tudo sob as ordens do marechal Bittencourt, o próprio Ministro da Guerra.

 

em toda a Bahia, Belo Monte tornara-se apenas menor que Salvador: 5.200 casas e mais de 20.000 almas, dentre as quais poucas permaneceram encarnadas. a pujança da criação de cabras fornecia carne boa e farta, além do leite e dos finos couros que até se exportavam. o arraial tornara-se uma exitosa cooperativa comandada pelo Conselheiro, fonte de prosperidade e até de certo sossego para seus membros. porém a chacina que se pranteia nunca será suficientemente conhecida: o garrote do cerco cingindo-se, a degola perversa dos rendidos, mulheres violadas lançando-se ao querosene em flama com filhos, velhos perecendo de sede e famintos, crianças vivas jogadas ao rio. era o extermínio completo e gratuito, um autêntico genocídio, termo ainda inexistente à época de Euclides, o grande & o ambíguo: “A campanha de Canudos lembra um refluxo para o passado. E foi, na significação integral da palavra, um crime. Denunciemo-lo.” (CUNHA, 1902: 7). mas ao revelar as abjeções da República, Euclides também elege outro destino para seu repúdio: Antônio Conselheiro, causa e motivo de tanto tumulto.

 

 

  1. O monstro monarquista

 

há pouco proclamada a República, omitido o sagaz abolicionista, forjaram do beato Antônio um fanático a tramar a volta da monarquia, ela mesma antiescravagista. todavia para Euclides o Conselheiro acabou “indo para a História como poderia ter ido para o hospício”, o que, aliás, ele dizia sem jamais tê-lo visto. exatamente por isso, leia abaixo a pluma desse suposto acometido por uma “psicose progressiva” e portador de “tremenda tara hereditária”, para quem Euclides cunhou, como ruidosos guizos de lata, os mais infamantes epítetos: “grande homem pelo avesso”, “desnorteado apóstolo”, “gnóstico bronco”, “documento vivo de atavismo”, alguém que encarnava “todas as crenças ingênuas, do fetichismo bárbaro às aberrações católicas, todas as tendências impulsivas das raças inferiores, livremente exercitadas na indisciplina da vida sertaneja.”. Os Sertões criavam assim uma atmosfera de terror e suspense até o irromper daquela criatura tida por truanesca e demente, um vesano visonho, o asceta com foros de lobisomem: “E surgia na Bahia o anacoreta sombrio, cabelos crescidos até os ombros, barba inculta e longa; face escaveirada; olhar fulgurante; monstruoso, dentro de um hábito azul de brim americano; abordoado ao clássico bastão, em que se apoia o passo tardo dos peregrinos…” (CUNHA, 1902: 76).

 

mas à revelia desse espectro até hoje mal desmentido, Antônio Conselheiro fora homem bom, são e distinto: antigo comerciante, era versado em francês e no idioma latino. advogara com sucesso em muitas comarcas, tendo um português admirado por juízes e rábulas. ministrou suas aulas da geografia à matemática e ainda organizava mutirões que erguiam planejados cemitérios e belas igrejas, além de cavarem açudes contra o flagelo das secas. quando pregava, o fazia com autorização eclesiástica, recrutado ante a escassez de vigários. ademais, nunca se portou como milagreiro ou sequer conduziu sacramentos reservados ao clero. apenas nutria a fé de um leigo esclarecido e honesto, carregando sempre consigo pena, papel e tinta para registro de sua formosa caligrafia. graças a isso deixou-nos dois manuscritos, quem os conhece os têm por belos e bastante incisivos.

 

 

  1. O pregador abolicionista

 

sob o manto macabro e o mito terrível do “anacoreta sombrio”, pelo tanto que sobre ele se cala, mais conviria passar-lhe logo a palavra. porém não sem antes lembrar de sua realíssima Joana Imaginária, a santeira popular continuadora de sua linhagem, uma devota de Maria bem longe da hierarquia das mitras. em discurso sobre a liberdade e seus desígnios, o Conselheiro dizia:

 

“É preciso, porém, que não deixe no silêncio a origem do ódio que tendes à família real, porque sua alteza a senhora Dona Isabel libertou a escravidão, que não fez mais do que cumprir a ordem do céu; porque era chegado o tempo marcado por Deus para libertar esse povo de semelhante estado, o mais degradante a que podia ver reduzido o ente humano; a força moral (que tanto a orna) com que ela procedeu à satisfação da vontade divina constitui a confiança que tem em Deus para libertar esse povo, não era motivo suficiente para soar o brado da indignação que arrancou o ódio da maior parte daqueles a quem esse povo estava sujeito. Mas os homens não penetram a inspiração divina que moveu o coração da digna e virtuosa princesa para dar semelhante passo; não obstante ela dispor do seu poder, todavia era de supor que meditaria, antes de o pôr em execução, acerca da perseguição que havia de sofrer, tanto assim que na noite que tinha de assinar o decreto da liberdade, um dos ministros lhe disse: Sua Alteza assina o decreto da liberdade, olhe a república como uma ameaça; ao que ela não liga a mínima importância, assinando o decreto com aquela disposição que tanto a caracteriza. A sua disposição, porém, é prova que atesta do mundo mais significativo que era vontade de Deus que libertasse esse povo. Os homens ficaram assombrados com tão belo acontecimento, porque já sentiam o braço que sustentava o seu trabalho, donde formavam o seu tesouro, correspondendo com ingratidão e insensibilidade ao trabalho que desse povo recebiam. Quantos morriam debaixo dos açoites por algumas faltas que cometiam; alguns quase nus, oprimidos da fome e de pesado trabalho. E que direi eu daqueles que não levavam com paciência tanta crueldade e no furor ou excesso de sua infeliz estrela se matavam? Chegou enfim o dia em que Deus tinha de pôr termo a tanta crueldade, movido de compaixão a favor de seu povo e ordena para que se liberte de tão penosa escravidão.” (MACIEL, 1897: 391).

 

 

  1. O escritor ignorado

 

ora, quem diria (e depois do que tanto já se disse): Antônio Vicente Mendes Maciel, dito o Conselheiro do arraial do Bom Jesus de Belo Monte, é autor de dois livros, ambos sobejamente ignorados por Euclides. o primeiro chama-se “Apontamentos dos Preceitos da Divina Lei de Nosso Senhor Jesus Cristo para a salvação dos homens”. Datado de 1895, como impresso é raramente visto, embora conserve-se intacto o seu manuscrito, o qual também compila diversos textos bíblicos. E além deste existe ainda um outro título: “Tempestades que se levantam no Coração de Maria por ocasião do mistério da Anunciação”. datado de 1897 e publicado há mais de 40 anos, tornou-se pouco conhecido, embora seja quase um poema mariano em seu fito, assim como em seus trechos, quase nunca insípidos, plenos de cor e de ritmo. abaixo transcrevo um fragmento seu para que não se fiem tão-só no que digo:

 

“Contemplemos que além da pobreza da sagrada Família, era mui distante e mui corrompido o país destinado ao seu desterro e, para ali chegar, não só era preciso passar por terras pouco habitadas, como por grandes desertos, não só deviam viajar por entre populações mais ou menos obedientes às leis, como por entre ladrões e malfeitores. Mas todas estas considerações não desanimam nossa querida Mãe: porque via bem o perigo em que Jesus estava e que por isso mesmo era preciso subtrai-lo das mãos da tirania, ainda quando ela sofresse muito grandes incômodos e passasse pelos maiores perigos. Entretanto, vemos que não empreendem aquela prolongada e penosa viagem sem correr pelas faces da Senhora copiosas lágrimas. E, se cumprindo um dever da natureza, Maria chora por deixar a sua pátria, por se separar de seus parentes, incontestavelmente mais forçoso o motivo do seu pranto pelo que dizia respeito a seu mimoso Filho, pois tinha de o ver durante a jornada sofrer as inclemências do ar e das estações, quando tinha de o ver acompanhar com o choro o balido dos cordeirinhos espalhados aqui e ali pelos prados. Ah! Quanto devemos a Maria pela sua caridade, quanto pelo seu prodigioso afeto para conosco! Dela pois devemos aprender a fazer a vontade de Deus, ainda sofrendo os maiores incômodos.”. (MACIEL, 1897: 64).

 

 

  1. Despedida e desagravo

 

aqui não apenas lamento nem faço do Conselheiro defesa tardia: trata-se antes de uma memória vilipendiada que se reabilita. e se o tempo agora desnuda os temores de suas brumas, é preciso ouvir, em seu próprio instante, aquelas vozes mais lúcidas, justamente as que se ergueram em prol do arraial contra toda uma turba, saindo em defesa de Antônio sem vê-lo como praga, ameaça ou monstro. Machado de Assis, desde sua tribuna de jornalista, amiúde ironizava na Gazeta de Notícias: “Defendamos a liberdade e o direito. Enquanto esse homem não constituir partido político com seus discípulos, e não vier pleitear uma eleição, devemos deixá-lo na rua e no campo, livre de andar, falar, alistar crentes ou crédulos, não devemos encarcerá-lo nem depô-lo.” (ASSIS, 1896). e ainda antes da sanha assassina, Machado censura a infâmia paranoide dos florianistas, sedentos de sangue e tomados de ira, a difundir intrigas de restauração a cada esquina: “Palpita-me que ele se fará intitular simplesmente Conselheiro, e, sem alterar o nome, dividi-lo-á por uma vírgula: Antônio, Conselheiro, por ordem de Deus e obediência do povo… Terá um conselho, câmara única e pequena, não incumbida de votar as leis, mas de as examinar somente, pelo lado ortográfico e sintático, pelo número de letras consoantes em relação às vogais, idade das palavras, energia dos verbos, harmonia dos períodos, etc., tudo exposto em relatórios longos, minuciosos, ilegíveis e inéditos.” (ASSIS, 1896b).

 

após 05 de outubro de 1897, data do fatídico assalto, correm fartos relatos da jugulação gratuita dos vencidos, a gravata vermelha aplicada aos conselheiristas, ação cuja maldade excessiva a todos revolta por sua imensa covardia. a degola a sabre dos inocentes ultrapassa nossas fronteiras e o Brasil é associado a crimes de guerra pelos doutos de uma conferência. caso curioso foi também o de Rui Barbosa: embora aderindo à versão psiquiátrica, dizia-se advogado das vítimas e criticava o massacre em um discurso sutilmente deixado à posteridade: “Suprimistes uma colônia de miseráveis; mas não tocastes na miséria que a produziu. […] A lição não está nessa exibição atroz de uma cabeça cortada ao corpo exumado de um louco, profanação agravada de um cadáver e de uma sepultura, espetáculo oriental, que os nossos sentimentos repelem, e que nem o pretexto da curiosidade científica absolve.” (BARBOSA, 1897: 301).

 

nem insanos, nem miseráveis: no Belo Monte vivia-se o vigor de uma economia próspera e viável, a mesma que pagava vultosos tributos sobre seus curtumes e onde havia entretanto algum futuro: trabalho, comida e estudo, inclusive para indígenas e negros cultuando os deuses de seus mundos. no arraial sob ataque, poucos dias antes da derrocada, Antônio Conselheiro assim conclui sua prédica de Despedida: “Praza aos céus que abundantes frutos produzam os conselhos que tendes ouvido.” (MACIEL, 1897: 624). e eu aqui perplexo vos digo: se lá estivesse, quiçá o teria seguido. que essas lembranças ora mal coligidas sobrevivam às ruínas calcinadas da submersa Belo Monte, com as águas do Cocorobó lavando a honra desse homem: Antônio Vicente Mendes Maciel, intelectual letrado, peregrino religioso, líder comunitário, um indivíduo perseguido pelo vil consórcio entre a Igreja, os oligarcas e o Estado. cuidemos pois de reabilitá-lo desses estigmas do grotesco ou do bárbaro. e para tal desagravo, lanço seu nome no rol de nossos autores mais respeitados.

 

O autor é professor do Departamento de Direito Público da Universidade Federal Fluminense (UFF)

marcusfabiano@terra.com.br

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