A angústia e o desejo de imagens violentas

A angústia e o desejo de imagens violentas

 

Por Pedro Cattapan, Psicólogo

 

Sigmund Freud sempre se interessou pelo efeito da percepção de uma imagem violenta sobre a mente humana. Este tema atravessa toda sua obra, sendo reformulado em momentos cruciais de seu pensamento. O tema da angústia nem sempre esteve ligado a esta investigação, mas num momento crucial se fundiu ao tema da cena violenta, do trauma.

Entendo que pode ser interessante buscar no instrumental clínico-teórico de Freud sobre o trauma e a angústia referências que possam nos ajudar a lidar com um fenômeno contemporâneo: as imagens de cenas violentas que têm sido transmitidas pela TV, pelo cinema e pela internet numa frequência muito maior do que alguns anos atrás. Esta exposição frontal da violência em sua atrocidade ímpar aparece aos telespectadores especialmente no noticiário de TV – vê-se decapitações executadas pelo Estado Islâmico, atropelamentos, tiroteios, execuções, linchamentos. Certamente as câmeras dos telefones celulares permitiram a captação de cenas atrozes fugidias antes não registradas – como ocorreu no linchamento público do corpo de Muammar al-Gaddafi, na Líbia, em 2011. Mas essa violência também aparece de forma frequente nas obras de ficção apresentadas no cinema – basta compararmos os filmes juvenis de super-heróis feitos por Hollywood hoje com aqueles feitos nos anos 1980, por exemplo, e se constatará que o cinema atual também se apresenta como irradiador de cenas violentas até mesmo a um público bastante jovem. Buscarei demostrar como a angústia é um tema-chave na abordagem desse fenômeno contemporâneo e buscarei refletir por que estamos veiculando e assistindo tanto à violência.

Mas, para tanto, antes será preciso esclarecer ao leitor de que modo o tema dos efeitos da percepção da violência por parte do sujeito se relaciona com a angústia na obra de Freud. Entendo que a melhor maneira de mostrar esta relação é recapitular a trajetória do próprio Sigmund Freud na lida com este problema que foi, para ele, antes de tudo, clínico.

 

Freud e o trauma

No início de sua trajetória como neurologista clínico – e, portanto, antes de criar a psicanálise – Freud já se defrontou com o problema da imagem violenta, horrorosa. A Europa do fim do século XIX via estarrecida uma espécie de epidemia de quadros psicopatológicos registrados como histeria (VAN HAUTE & GEYSKENS, 2016). O neurologista Sigmund Freud recebeu em seu consultório uma parcela desses casos, considerados difíceis, e um grande desafio profissional se impunha, uma vez que não se conhecia método curativo eficaz para tal sofrimento. No livro “Estudos sobre a histeria” (BREUER & FREUD, 1893-95), escrito em parceria com seu protetor Josef Breuer, encontraremos as soluções desenvolvidas por Freud para tornar o tratamento das histerias possível. O método empregado por Freud tornava o tratamento da histeria e a pesquisa científica a respeito da causa daquela psicopatologia concomitantes, senão idênticos. E esta pesquisa-tratamento traz à luz uma apreciação pormenorizada do tema da cena violenta e de seu efeito sobre a mente humana.

Os casos clínicos apresentados por Freud em “Estudos sobre a histeria” e seu respectivo tratamento encontram alguns pontos em comum: em estados hipnóticos ou de grande relaxamento, as pacientes eram capazes de lembrar cenas antigas, da juventude ou infância, que as abalaram emocionalmente de forma profunda. Estas cenas não eram lembradas em vigília, mas quando tornadas conscientes pelo médico causavam no paciente o que Freud denominou de ab-reação; ou seja, uma catarse emocional e a eliminação do sintoma psicopatológico, como, por exemplo, paralisias musculares ou cegueiras, ambas de causa psíquica. A cura dos sintomas tornou Freud um clínico otimista, mas não somente isso – ele também se tornou um teórico otimista.

A teoria desenvolvida por Freud a respeito da histeria era, basicamente, a seguinte: essas pacientes sofriam de um recalcamento, ou seja, elas tornaram inconsciente certas lembranças de cenas desagradáveis por elas presenciadas. Porém, esse recalcamento tornou impossível a descarga do afeto causado pela percepção de tais cenas; o destino dos afetos foi a produção dos sintomas. Caso a lembrança seja novamente evocada, o afeto é descarregado e os sintomas tornam-se desnecessários. A cena desagradável causadora da psicopatologia será compreendida como danosa e, por isso mesmo, a ela se associará o termo “trauma”.

Em “Estudos sobre a histeria”, a teoria de Freud não é inteiramente expressa. Podemos ver na correspondência de Freud com seu grande amigo Wilhelm Fliess (FREUD, 1950a [1887-1902]) que havia mais ideias na teoria freudiana que não foram explicitadas no livro em conjunto com Breuer.

Na correspondência com Fliess ficamos sabendo que Freud destacava que as cenas traumáticas que suas pacientes histéricas recalcavam eram sempre cenas de conteúdo sexual – e muito frequentemente experiências de sedução sexual vividas por essas pacientes na infância, sendo o sedutor ou um adulto (em geral o pai) ou uma criança mais velha. Esta cena sexual era experimentada pela criança pequena como desprazerosa e enigmática – e, por isso, a retiraria de sua consciência para o inconsciente. Portanto, o recalcamento incidiria sobre um conteúdo sexual.

No entanto, em 1897, na correspondência com Fliess (op. cit.), Freud declara não crer mais em sua teoria. Se havia uma epidemia de histeria na Europa, a teoria freudiana levaria a acreditarmos que haveria um número demasiado grande de adultos – e, em especial, pais – sedutores de crianças. Freud não acreditou. Além disso, alguns relatos de suas pacientes pareciam contraditórios ou inverossímeis a respeito desta cena de sedução. Freud reformulou sua teoria retirando o foco das cenas traumáticas e concedendo mais espaço ao fator psicopatologizante das fantasias sexuais de seus pacientes, construídas já na infância. A cena de sedução não necessariamente teria ocorrido, mas certamente teria sido fantasiada. Foi nesse momento que Freud passou a considerar a sexualidade infantil não como uma situação excepcional, mas como regra, o que seria exposto anos mais tarde em seus “Três ensaios sobre a teoria da sexualidade” (FREUD, 1905d).

Uma consequência dessa reformulação teórica é que a fantasia de sedução não era uma experiência desprazerosa; ao contrário: para Freud a fantasia será, a partir daí, concebida como uma tentativa do psiquismo humano de dar um sentido prazeroso, de realizar um desejo diante de um mal-estar atual (FREUD, 1908e [1907]). A fantasia seria a tentativa de solucionar uma experiência de frustração atual através da reedição de uma experiência de satisfação passada, o que ligaria passado, presente e futuro: é a fantasia que instaura a dimensão da temporalidade no aparelho psíquico humano. E é por isso que o trauma será concebido, nesse contexto teórico, como um trauma em dois tempos, ou seja: é a evocação de uma experiência passada a partir de uma atual que dá à primeira o sentido traumático. O trauma agora não é apenas uma cena que levaria a um excesso afetivo, ele é um sentido sexual para uma frustração atual, sentido produzido a posteriori. A lembrança da cena ganha este estatuto traumático por conta do processo psíquico do fantasiar.

O tema do potencial das fantasias e desejos levarem o sujeito a sofrer a ponto de produzir sintomas psicológicos foi fundamental para que Freud fundasse a psicanálise. Explico: quando o trauma era uma cena presenciada pela criança seduzida, o inconsciente era considerado como um efeito patológico da defesa contra a cena traumática. Agora Freud reconhece que as fantasias e desejos que habitam a vida psíquica de todos nós constroem traumas que só existem intrapsiquicamente, mas que ainda assim são considerados verdades pelo fantasiador, e, por isso devem ser recalcados; desse modo, todos temos um inconsciente – e a psicanálise surge exatamente dessa base teórico-clínica.

Desse modo, percebe-se que, apesar de figurar como instrumento fundamental do pensamento freudiano no início de seu percurso, o trauma foi perdendo a dimensão de uma cena cujos efeitos eram violentos sobre o psiquismo e passou a ser efeito psíquico de uma fantasia.

A importância do evento externo na formação dos caminhos e descaminhos do psiquismo humano assim diminuiu, mas não desapareceu. De certo modo, houve um deslocamento do pai sedutor traumatizante para a mãe sedutora erotizante. Nos já citados “Três ensaios sobre a teoria da sexualidade” (op. cit.), Freud defende a tese de que a sexualidade infantil é tão precoce quanto a primeira mamada do bebê. A mãe lhe daria o seio, o leite e… prazer sexual. A busca de prazer oral desvinculado da necessidade de nutrição, como ocorre na sucção relaxante da chupeta, seria um exemplo de como a busca de prazer erótico está presente desde muito cedo na vida humana – e a experiência de prazer da criança estaria indelevelmente marcada por este agente “sedutor”: a mãe. No entanto, essa experiência não seria patologizante como era o trauma nas reflexões pré-psicanalíticas de Freud. Ao contrário, ela seria fundante de um aparelho psíquico voltado para a busca do prazer e a evitação do desprazer.

O trauma, então, realmente passa a habitar o segundo plano das reflexões freudianas, mas nunca desaparecendo completamente. Um bom exemplo é o caso clínico conhecido como “O homem dos lobos” (FREUD, 1918b [1914]); atendimento realizado em 1914. Ali Freud insiste obstinadamente em localizar o acontecimento real que teria levado o paciente a desenvolver seu quadro psicopatológico. Freud parecia não querer abandonar aquilo que disse ter abandonado: a necessidade de uma cena real traumática na base da neurose. Pararemos por um instante nossa história do trauma em Freud e nos debruçaremos sobre sua abordagem do fenômeno da angústia. Esta pausa é necessária porque as duas histórias se cruzarão.

 

A angústia

No mesmo período em que Freud tratava das histerias através de seu método catártico e ab-reativo e começava a desconfiar de sua teoria do trauma, Freud escreveu sobre a angústia.

O artigo “Sobre os fundamentos para destacar da neurastenia uma síndrome específica denominada ‘Neurose de angústia’” (FREUD, 1895b [1894]) nos mostra um Freud preocupado com o sintoma da angústia, a tal ponto de criar uma nova nomenclatura para determinados casos psicopatológicos que se assemelhavam à neurastenia, dando-lhes o nome de “neurose de angústia”. Freud relaciona o sintoma da angústia a uma excitabilidade sexual do organismo que não foi descarregada nem foi incluída no campo discursivo-psíquico; esse excesso sexual que não foi “elaborado” psiquicamente é experimentado como angústia.

Portanto, é outra psicopatologia diferente da histeria que levou Freud a se interessar pelo tema da angústia. Aliás, como dizia, as histéricas costumavam viver sua neurose numa belle indiference, sem nenhuma angústia aparente; a neurose de angústia era diametralmente oposta a uma indiferença: o sujeito estava sempre desesperado diante de seus ataques de angústia ou mesmo diante de uma angústia constante. A histeria dizia respeito a um problema psíquico (o trauma sexual) que, por conta do recalcamento, produzia sintomas corporais. A neurose de angústia, ao contrário, era uma excitação sexual corporal que não encontrava entrada no mundo psíquico (LAPLANCHE & PONTALIS, 1982). Dois universos diferentes. A história da angústia no pensamento freudiano começa num campo muito diferente daquele do trauma e das cenas violentas, mas essas duas histórias se encontrarão, como já dissemos e veremos mais à frente.

Convencionou-se que a fundação da psicanálise é a publicação da obra seminal de Freud, “A interpretação dos sonhos” (FREUD, 1900a, 1900b). E com justiça, afinal é nesse volume que o autor apresenta ao público, pela primeira vez, seja seu método interpretativo e investigativo do material inconsciente da psique humana como também – nos capítulos VI e VII – expõe sua concepção teórica do funcionamento psíquico fundada no conflito tópico entre um Inconsciente, base dos desejos (sexuais) e um Consciente que recalca. Essa construção teórica de Freud, bastante influenciada pela eletrodinâmica, pensa o aparelho psíquico como um circuito por onde deve passar a energia psíquica sexual, desde sua entrada através dos sentidos até sua descarga através do aparelho motor. Pois bem, nesse circuito, o Inconsciente antecede o Consciente, o que quer dizer que tudo que vem à consciência humana passou antes pelo Inconsciente, mas nem tudo que está no Inconsciente já esteve na consciência. É por isso que o que vem à consciência só pode ser compreendido através de uma investigação do Inconsciente: isso fundamenta toda a clínica psicanalítica e em especial, no livro em questão, a interpretação dos sonhos. Os sonhos seriam um produto do Inconsciente para Freud tal qual o são os sintomas neuróticos. Seguindo a lógica da formação dos sintomas, o sonho seria um destino dado para um excesso excitatório sexual elaborado numa fantasia que não encontra uma descarga motora por conta do recalcamento; essa fantasia – lembremos – é a solução imaginada de uma frustração atual a partir de um prazer passado. Ora, é isso o que quer dizer a famosa frase de Freud: “Todo sonho é a realização de um desejo”. O sonho, como forma de expressão de uma fantasia, realiza algum desejo do sonhador.

Mas por quê estamos entrando nesta discussão sobre os sonhos? Porque Freud nos lembra quão frequentes são os sonhos de angústia. Como equacionar sonhos de angústia e realização de um desejo? Não é difícil para Freud fazê-lo, já que concebe o aparelho psíquico em conflito. Os sonhos de angústia ocorreriam quando a realização do desejo inconsciente despertasse horror à consciência não inteiramente adormecida. Assim, a angústia seria um afeto do Consciente diante da emergência do material recalcado. Mas essa concepção da angústia será revista.

Já estabelecido o campo psicanalítico, Freud tenta novamente relacionar o tema da angústia com o do recalcamento no célebre e curto artigo “O recalque” (FREUD, 1915d), um dos componentes dos chamados “Artigos sobre metapsicologia”. Ali Freud retoma o tema da belle indiference das histéricas para justificar porque considera a histeria de conversão a neurose mais eficiente. O critério de eficiência da neurose aqui é o quanto o processo de recalcamento das lembranças ou fantasias sexuais impediu o surgimento do desprazer que se ligaria a elas na consciência. Freud continua sua argumentação propondo que o afeto desvinculado da ideia recalcada, mas permanecendo na consciência, pode transformar-se em angústia; os exemplos seriam as crises de angústia dos neuróticos obsessivos e dos fóbicos (ou histéricos de angústia), que estariam relacionadas a um recalcamento de uma ideia sexual tal como na histeria de conversão, todavia os destinos dados ao afeto sexual seriam muito diferentes: a histeria de conversão se caracterizaria pela conversão do afeto ao corpo, a neurose obsessiva pela flutuação do afeto no campo do pensamento como angústia e a histeria de angústia ou fobia teria a angústia projetada num objeto externo, sendo sentida ora como ansiedade ora como medo. Aqui cabe frisar que Freud nomeia recalcamento o processo que desliga ideia sexual de seu conteúdo afetivo desprazeroso, sendo a ideia o objeto do recalcamento, ou seja, do esquecimento, da manutenção dela no Inconsciente, enquanto que o afeto precisa encontrar algum destino, caso contrário é sentido como angústia. Por isso poder-se-ia dizer que a neurose é uma espécie de tiro que saiu pela culatra.

Ainda assim, essa também não foi a última palavra de Freud sobre a angústia. Mas a retomada do tema da angústia só terá sido necessária porque antes o trauma voltou ao lugar central que já teve.

 

O trauma volta ao centro do pensamento freudiano

Sim. O trauma volta ao centro do pensamento freudiano, como já se insinuava no caso do “Homem dos lobos”. Porém não se trata de um retorno à primeira concepção de trauma em Freud. Trata-se de uma nova teoria do trauma.

Em 1920 Freud publica “Além do princípio do prazer” (FREUD, 1920g), texto explosivo que fez ruir parte do constructo teórico-clínico psicanalítico para fazer vicejar o que sobrasse. Novamente, foi a clínica que impôs uma modificação radical do pensamento e da prática psicanalíticos. Especificamente um quadro clínico que parecia, após a epidemia de histeria do fin du siècle, ser a nova epidemia, nesse caso não de fin du siècle, mas de fim da Primeira Grande Guerra. Me refiro às neuroses de guerra. No artigo, Freud aborda o quadro clínico das Neuroses Traumáticas, causadas pelas mais diversas experiências de violência intensa, mas que ao mesmo tempo não causassem nenhum dano físico substancial na testemunha; mas entre as neuroses traumáticas, as neuroses de guerra se proliferaram mais do que as outras, devido à grande tragédia que foram o morticínio e as consequentes destruição de famílias, cidades, economias e projetos de vida causados pela Primeira Guerra Mundial.

As neuroses de guerra, sendo traumáticas, obviamente remetiam ao tema do trauma. Novamente Freud tinha de se haver com quadros neuróticos causados pela percepção de uma cena de violência terrível. Porém, agora, de certo modo, a neurose traumática se apresentava como o avesso da histeria. Enquanto as histéricas de “Estudos sobre a histeria” não conseguiam lembrar – a não ser sob hipnose – dos traumas por elas sofridos, ou seja, das cenas de sedução de que foram vítimas e espectadoras passivas, os neuróticos de guerra não conseguiam esquecer as cenas atrozes que viram. As cenas se repetiam em sua memória, mesmo nos sonhos que, até então, eram interpretados como realizações de desejos. Freud teve de admitir que os sonhos de repetição do trauma nas neuroses traumáticas são uma exceção à afirmação de que todos os sonhos são realizações de desejos.

Nas neuroses traumáticas, o que estaria em cena seria uma experiência limite que colocaria o princípio do prazer – ou seja, a busca de prazer e evitação do desprazer – em suspenso. O sujeito continuaria a repetir uma experiência absolutamente desprazerosa. Outros dados clínicos além das neuroses traumáticas puderam, assim, encontrar o ensejo de serem levados em conta por Freud, como os comportamentos autodestrutivos de alguns pacientes que repetiam cenas que não poderiam ter gerado prazer, como, por exemplo, terem sido abandonados pela mãe na primeira infância. Freud formula, então, uma nova teoria do trauma para dar conta destas situações.

Nesta nova teoria, o trauma passa a ser compreendido como uma experiência de excesso excitatório que não encontra, por parte do psiquismo do afetado, capacidade de lhe dar algum significado e a expressão de algum desejo erótico. Estamos falando da falência da capacidade de fantasiar. Trata-se de experiência de pura dor, sem nenhuma possibilidade de erotismo.

E, agora, o trauma se conjugará com o afeto da angústia. Em “Além do princípio do prazer” (op. cit.) Freud entende que o afeto que acompanha o trauma é o susto, na medida em que este é o afeto da experiência da surpresa, do despreparo do aparelho psíquico em lidar com aquela situação; o inesperado não é significado. Diferente da angústia, que expressa melhor uma expectativa, a tentativa de antecipar a cena violenta; também diferente do medo, que não só tenta antecipar a cena violenta como a liga a um objeto horroroso específico.

Mas essa é apenas meia verdade da situação. Pois se o susto foi o afeto da cena traumática, o afeto que acompanha a insuportável repetição mental (e, às vezes, comportamental) da cena traumática é a angústia. A compulsão à repetição da experiência violenta, característica da neurose traumática, é acompanhada de uma constante angústia semelhante àquela da neurose de angústia a que Freud se referia no texto de 1895 (op. cit). Eis a descrição clínica que Freud nos dá da neurose traumática: sintomas motores, alta indisposição subjetiva, debilitamento e perturbação abrangente de muitas capacidades mentais levando a uma compulsão à repetição da lembrança do trauma. Freud faz menção também a uma espécie de inibição generalizada. O que o neurótico traumático não consegue fazer é construir um caminho, através da fantasia, entre o que viu, o que sente a partir do que viu e a descarga motora do afeto. Ou seja, é uma falência da capacidade de simbolizar e interpretar por parte do sujeito o que faz com que a cena vista seja violenta, traumática.

Em 1926, em “Inibições, sintomas e angústia” (FREUD, 1926d [1925]), aliás, a própria definição do que é o trauma convergirá perfeitamente com o que escrevi acima. Por que algo é traumático para alguém e não é para outra pessoa? Porque o trauma é agora um conceito relativo. É preciso que o sujeito se avalie desamparado diante de algo visto como uma situação de perigo para que a cena seja traumática. Não obstante, há situações extremas, não para indivíduos, mas para grupos e até mesmo populações inteiras, que podem ser consideradas traumáticas, na medida em que são avaliadas por esses grupos como perigos extremos diante dos quais se sentem desamparados. A morte ocupa sempre, certamente, um potencial traumático, na medida em que a humanidade não conseguiu vencer esse obstáculo sem sentido e destruidor de amores e prazeres. Logo, uma carnificina como a Primeira Guerra Mundial foi palco de uma epidemia de neuroses traumáticas jamais vista.

É preciso acrescentar que essa epidemia jamais foi vista antes, não somente porque até então não tinha ocorrido de uma guerra ser tão letal, mas também porque aquela guerra fez ruir um conjunto de interpretações que amparavam a civilização que ruiu com a guerra: os mitos da guerra nobre e honrada, do heroísmo, do progresso do iluminismo, de sua cria, o positivismo, e/ou da moral religiosa em tornar o homem feliz e bom. Thomas Mann descreveu bem o mundo que ruiu com a Primeira Grande Guerra em “A montanha mágica” (MANN, 1924). Descreveu todo um estilo de vida, toda uma sensibilidade e uma rede interpretativa que, ao desabarem, não deixaram aos sobreviventes recursos interpretativos para as cenas que viram. Um dos recursos interpretativos que ruiu foi a própria teoria psicanalítica tal como existia antes. Freud via a psicanálise como uma cura de mazelas incapacitantes e, portanto, como parte do projeto progressista e sanitarista que se desenvolvia de modo acelerado desde o século XVIII (FOUCAULT, 1976). A compulsão à repetição de experiências desagradáveis – não só pelos neuróticos traumáticos – levou Freud a constatar que o erotismo não era onipotente diante das excitações psíquicas que, se não fossem descarregadas, seriam experimentadas como insuportáveis ao ponto de a própria morte parecer uma solução para a dor (e foi assim que Freud lidou no seu leito de morte com o câncer que corroía sua mandíbula a anos) (GAY, 1988). Haveria em cada ser humano uma luta entre vida e morte, agora, segundo Freud – e não somente entre sexualidade e consciência recalcante. O conflito entre Eros e Thanatos marcaria o pensamento de Freud, mas também sua clínica, voltada a fazer Eros resistir a Thanatos, uma força maior. A vida é tomada como uma potência, mas não mais como onipotente diante dos obstáculos. Freud será mais desconfiado quanto ao poder curativo da psicanálise, como está explícito em seu testamento “Análise terminável e interminável” (FREUD, 1937c).

“Inibições, sintomas e angústia” (op. cit.), como o título indica, se debruça sobre o tema da angústia. Mas desta vez articulando-a com a nova teoria do trauma de maneira diferente daquela realizada em 1920. Freud concebe dois tipos de angústia: a primeira não traz novidades, é dela que Freud já falava. Agora a chama de angústia sinal para especificar que a angústia tem a função de preparar o aparelho psíquico para o perigo, para evitar a situação de desamparo, de susto, realmente traumática. Mas qual o afeto sentido caso a angústia sinal falhe e a cena traumática seja percebida? A angústia, mas numa magnitude muito maior, sendo destrutiva na medida em que é o afeto sentido com o acúmulo de excitação não sexual pelo aparelho psíquico. Para diferenciar essa angústia extrema diante da cena traumática daquela preparatória, sinal, Freud chamou aquela de angústia realística. Trata-se do pavor diante do perigo, da pura exposição diante da cena de violência, que, em última instância, sempre remete à morte.

A ruína, com a Primeira Grande Guerra, de um campo interpretativo para as dores da vida se fez em velocidades diferentes, em lugares diferentes. Em termos psicanalíticos, talvez possamos dizer, calcados nas histórias da angústia e do trauma na obra de Freud, que o esforço freudiano de fazer o campo fantasístico se destacar em sua obra entre 1897 e 1920 como o fator da causalidade psíquica e ser considerado mais importante que o trauma tem um paralelo na crença progressista que dominava corações e mentes de sua época, que acreditava que o potencial fantasístico-criativo humano era capaz de se sobrepor aos limites que a realidade por ora impunha. Mas para isso era preciso ignorar, o quanto se pudesse, o maior obstáculo que a realidade impunha e ainda impõe ao progresso da humanidade à felicidade: a morte.

A Primeira Guerra Mundial não permitia mais que se ignorasse a morte, nem que se relativizasse os ganhos que o suposto progresso da humanidade teria trazido. É sob esse clima que Freud redige seu “O mal-estar na civilização” (1930a [1929]). Uma constatação de que o Titanic naufragou, de que o iceberg é mais forte que o aço fundido pelo homem. De que as cenas reais de violência podem botar todo um mundo de fantasias a perder.

 

As cenas de violência hoje exibidas pela mídia

Passou-se o século XX e a história constatou que muitas fantasias compartilhadas por grupos humanos no Ocidente, no começo do século XX, ruíram ou estão ruindo. Não se fala mais em progresso pela ciência e pela tecnologia com o otimismo dos leitores de Jules Verne da virada do século XIX para o XX. Não se crê mais em implementação de programas de construção da felicidade humana como se cria em 1917. É possível que não se adira mais à vontade paterna como os neuróticos atendidos no consultório paterno faziam. Isso não quer dizer que esse movimento chamado iluminismo tenha chegado ao fim. Mas talvez tenha chegado num impasse. É isso o que sustenta o filósofo Peter Sloterdjik em sua “Crítica da razão cínica” (SLOTERDJIK,1983). Nessa obra, o autor nos mostra como se desenvolveu entre os supostos esclarecidos ocidentais uma espécie de cinismo diante da radicalidade do movimento de libertação que o iluminismo representa. O homem esclarecido da segunda metade do século XX – e acredito que o contemporâneo ainda seja assim – em geral é um cínico que, para o que nos interessa aqui, diante da decadência das fantasias compartilhadas, se atém aos fatos. Os fatos seriam uma defesa contra as fantasias para esse cínico que se considera liberto das fantasias construídas por seus antepassados. Mas o que aconteceu foi algo diverso, ao menos do ponto da história da clínica psicanalítica: A força crua dos fatos, das cenas violentas, demoliu as fantasias e continuou a se repetir compulsivamente. O Ocidente fracassou em erguer novas fantasias que interpretassem e dessem um lugar para a realização de desejos diante das cenas de horror. No entanto, o cínico, diante do horror, apenas vê potência em dizer que “há males que vem para o bem”, que os fatos sempre precisam se impor às fantasias. O que aparenta ser uma atitude libertária iluminista é um aprisionamento no fato e uma aceitação prostrada de que estamos incapazes de fantasiar. De certa maneira, Walter Benjamin tratou desse assunto em “O narrador: reflexões sobre a obra de Nicolai Leskov” (BENJAMIN, 1936) quando anunciou a derrocada do hábito de contar histórias e das grandes narrativas e viu crescer no seu lugar o discurso da imprensa, aferrado ao fato, crendo estabelecer assim um discurso neutro, indiscutível, a apresentação de uma cena inegociável, diante da qual temos de nos submeter.

Na esteira de Benjamin, Jurandir Freire Costa (COSTA, 2004), ao descrever as características do contemporâneo, chama atenção para as transformações que as figuras de autoridade sofreram ao longo do século XX. Isso é importante na medida em que vem delas o discurso tomado como verdadeiro, como prioritário na interpretação da experiência. Segundo Costa, as práticas e discursos da moda e da ciência (e acrescentaríamos a isso o fato jornalístico) têm por característica tomar como irrelevante ou como obstáculo a tradição e o passado. Tradição e passado são tomados aqui como um campo imaginário oriundo da duração de fantasias compartilhadas ao longo dos tempos. Portanto, a ciência – como prática e discurso – tem a potência até mesmo de destruir o sonho de felicidade que a ciência moderna já significou. E a moda torna qualquer esforço interpretativo ocioso, na medida em que quando é proferido, a moda já passou; a interpretação está sempre desatualizada quanto ao fato. A aderência à nova moda, ao fato científico e sua caricatura jornalística e o desdém pelo passado formam uma rede simbólica muito específica em relação às cadeias associativas que tendiam ao infinito, como testemunharam, cada um à sua maneira, Freud e Proust (PROUST, 1913-27). Hoje o campo simbólico busca coincidir com um real que inibe ou torna o aparelho psíquico incapaz de fazer associações, acessar ou construir uma história – tratar-se-ia de um campo associativo reduzido ao mínimo, que tenderia a manter traços mnêmicos como um puro registro que não se traduz numa interpretação (FREUD, 1950a [1887-1902]).

Na ausência ou dificuldade de construção de fantasias e suas consequentes interpretações e imposições de sentidos, não é possível barrar a compulsão à repetição das cenas violentas. As cenas se impõem. São mostradas, são vistas. Somos passivos diante delas. Não parecemos ter repertório interpretativo que as estetize, censure, erotize etc. E assim assistimos a um desfile crescente de imagens que outrora eram censuradas ou contextualizadas de tal maneira que a violência era antevista e elaborada através da angústia sinal. Hoje, aos sobressaltos diante dos horrores do Estado Islâmico, dos criminosos e da polícia brasileiros, do descaso europeu com refugiados morrendo no litoral etc., nos assustamos diante de cenas violentas, experimentamos a angústia realística do indivíduo inibido e desamparado, mas que, cinicamente, quer acreditar que é melhor ver uma cena de violência sem cortes, narrativas ou preparação do que não vê-la. No entanto, nada se faz com isso a não ser angustiar-se.

Benjamin claramente lamenta no artigo anteriormente citado a perda do hábito compartilhado da narrativa, que nos ampararia diante da passagem do tempo e das dores do mundo. Pois aqui proponho que nos permitamos fantasiar mais sobre as cenas violentas, os fatos; que não acreditemos que vamos lidar com eles como lidamos com a última tendência da moda ou a última novidade científica. Só ao produzir discurso e crítica sobre a experiência podemos agir e modificá-la. Este artigo é, portanto, uma tentativa e uma espécie de apologia à fantasia e à contagem de histórias. Espero que produza efeitos (e aqui me permito um chiste): a começar, que contradigam os “fatos” descritos aqui.

 

O autor é chefe do Departamento de Psicologia da Universidade Federal Fluminense (UFF-RJ)

pedrocattapan@hotmail.com

 

 

BIBLIOGRAFIA

 

BENJAMIN, W. (1936) Le narrateur: réflexions à propos de l’oeuvre de NicolasLeskov. In: ______. Écrits français, Paris: Gallimard, 1991, p. 251-298.

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(1930a [1929]) Mal-estar na civilização, v. XXI;

(1937c) Análise terminável e interminável, v. XXIII;

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VAN HAUTE, P.; GEYSKENS, T. Uma antropologia clínica da histeria em Freud e Lacan, Belo Horizonte: Autêntica, 2016.

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