Boletim de ocorrência

Boletim de ocorrência

Aos dezessete dias de novembro do ano de mil, novecentos e quatorze, nesta cidade do Rio de Janeiro, pelas duas e meia horas da manhã, na casa à Rua São Clemente cento e trinta e quatro, onde foi vindo o Ilustríssimo Delegado do Septimo Districto, commigo escrivão, foi colhido o depoimento do Excelentíssimo Senhor Doutor Rui Barbosa de Oliveira, residente naquele endereço.

O depoente alega ter sido despertado em torno das onze e meia horas por uma balbúrdia nos fundos de sua residência, tendo vestido seu robe de chambre e se dirigido à varanda de atrás para verificar o que se passava; que, ao lá chegar, deparou-se com um ladrão que havia violado sua propriedade a fim de roubar-lhe as galinhas, patos e marrecos que se achavam em seu cercado junto à estrebaria; que, ao flagrá-lo do alto da varanda, segurando uma galinha debaixo de cada braço, ergueu o dedo irritado e lhe disse:

“Não é pelo bico-de-bípede, nem pelo valor intrínseco do galináceo; mas por ousares transpor os umbrais de minha residência. Se for por mera ignorância, perdoo-te. Mas, se for para abusar de minha alma prosopopeia, juro-te pelos tacões metabólicos de meus calçados, que dar-te-ei tamanha bordoada, que transformarei sua massa encefálica, em cinzas cadavéricas. Reduzir-te-ei a zero!”; que, ao ouvi-lo, o ladrão respondeu enrubescido: “Tudo bem, seu Rui mas… É pra levar as galinhas ou deixar as galinhas?”

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