Amor e frieza em Zygmunt Bauman

Amor e frieza em Zygmunt Bauman

LUIS CARLOS FRIDMAN

Cientista social

 

 

Quanto do amor pode ser desvelado pela Sociologia? Os mais céticos, ou mais prudentes, diriam aos sociólogos que pouco os habilita a penetrar nas profundezas dos sentimentos humanos e esperar deles esclarecimento suficiente para trazer conforto às batidas apressadas dos corações partidos.

Não foram poucas as tentativas de correntes de pensamento na Sociologia de compreender as flutuações do envolvimento interpessoal na moldura mais ampla das relações sociais; no entanto o prestígio e a eficácia dessa aproximação mantiveram-se predominantemente reservados à obra de Sigmund Freud e de seus seguidores.

Em tempos recentes, outro Sigmund com grafia diversa, Zygmunt, trouxe contribuições à reflexão sobre a relação entre a dinâmica das instituições contemporâneas e as disposições amorosas dos indivíduos. No seu tratamento sobre as mudanças sociais em curso, Zygmunt Bauman estudou os elos entre os processos macrossociológicos e as inclinações sentimentais nas interações cotidianas. Para ele, na atualidade os vínculos não têm a “garantia da permanência” (Bauman, 2004, p.7), como está escrito em Amor líquido”. Os laços porventura estabelecidos são frouxos e a frieza se torna o espectro que ronda as vontades de compromisso afetivo.

Nas últimas décadas, a obra de Bauman se distinguiu como um extenso programa de estudos e pesquisas orientados pelo diagnóstico de que vivemos em uma “era de desengajamento”. Laços frágeis são observados na economia, no mundo do trabalho, na política, nas formas de sociabilidade, na condução da vida cotidiana e no amor. Entre as inspirações de Bauman figura a emblemática frase “tudo o que é sólido desmancha no ar”, do “Manifesto Comunista” de Marx e Engels, ao assinalar que os poderes de derretimento se deslocaram para os padrões de interação e dependência entre os indivíduos com alterações profundas na convivência coletiva. É o que se lê no “Prefácio” de Modernidade líquida”:

“Os sólidos que estão para ser lançados no cadinho e os que estão derretendo neste momento, o momento da modernidade fluida, são os elos que entrelaçam as escolhas individuais em projetos e ações coletivas – os padrões de comunicação e coordenação entre as políticas de vida conduzidas individualmente, de um lado, e as ações políticas de coletividades humanas, de outro.” (Bauman, 2001, p.12)

Em Vida líquida”, Bauman adiciona que nessa mutação “os indivíduos vivem em condições de incerteza constante” (Bauman, 2007, p.8), atormentados pelo isolamento e pela insegurança que resultam no esfriamento geral dos laços interpessoais. Em decorrência, seres tementes com o que lhes reserva o futuro não se mostram tão dispostos a correr os riscos que a ação política solicita. De outro lado, nas interações cotidianas, sobressaem as “políticas de vida conduzidas individualmente”, ou seja, a região dos esforços de amealhar recursos e meios individuais para o enfrentamento das precariedades e de sustentação para se seguir em frente. Tais tendências alcançam as inclinações amorosas, que são afetadas pela frieza.

Em “A corrosão do caráter – consequências pessoais do trabalho no novo capitalismo” (1999), o sociólogo americano Richard Sennett se aproxima desse diagnóstico quando conclui que o sistema atual se caracteriza pela “força dos laços fracos” (Sennett, 1999, p.25). Em sua pesquisa sobre o mundo do trabalho, Sennett conclui que as novas funções laborais da reorganização produtiva do capitalismo da especialização flexível requerem indivíduos dispostos a “descartar-se das experiências já vivenciadas” e abandonem laços constituídos anteriormente.

Os trabalhadores devem se prontificar à reinvenção permanente sob o princípio de que “não há longo prazo”, pois as aptidões consolidadas nas carreiras são dispensáveis na rotação frequente em torno de “projetos” e “campos de trabalho”. As tarefas e equipes se desfazem constantemente e o comportamento mais adequado às novas situações é o distanciamento e a cooperação superficial. O princípio de que “não há longo prazo” na organização produtiva corrói a confiança, a lealdade e o compromisso mútuo entre os trabalhadores, que são valores que só se consolidam com o tempo e no convívio duradouro. O que acontece nas funções produtivas impregna as demais esferas da sociabilidade.

Na “era do desengajamento”, a dependência e a necessidade do outro ganham o epíteto de condição vergonhosa e experimentada com culpa. Nas parcerias, não é incomum que a autonomia venha associada à “liberdade” de não se apegar a compromissos e à bagagem incômoda de seus conflitos, sentimentos desencontrados, negociação de vontades e desencantos. A caricatura presente na linguagem comum, que desabona a expressão “discutir a relação”, é um exemplo desse desapego. Não há disposição para essas minúcias cansativas se as preferências sentimentais e sexuais podem ser exercidas em “relacionamentos de bolso”, aqueles “que se pode ‘dispor quando necessário’ e depois tornar a guardar” (Bauman, 2004, p.10).

Por mais que sentimentos petrificados estejam por todo lado, a insistência humana no encontro amoroso suscita fenômenos específicos na “era do desengajamento”. No passado recente, “All you need is love”, a canção dos Beatles, embalava gerações na esperança de que tal intensidade colorisse o conjunto das relações sociais. Atualmente, como Bauman escreve em “Amor líquido”, a atenção pública para o tema dos “relacionamentos” envolve um grande mercado de pareceres de “especialistas” para auxiliar a “desfrutar das doces delícias de um relacionamento, evitando, simultaneamente, seus momentos mais amargos e penosos” (Bauman, 2004, p.9). O esforço contínuo e exaustivo para estar à altura dessa maleabilidade não atenua os ônus da frieza nas relações humanas.

Em O mal-estar da pós-modernidade (Bauman, 1998), ele aponta uma tendência atual das disposições interiores onde “é mais importante esquecer do que lembrar” em um mundo onde “nenhum emprego é garantido, nenhuma posição é inteiramente segura, nenhuma perícia é de utilidade duradoura” (Bauman, 1998:36), nessa contínua adaptação sustentada “tão-somente pelas provisões notoriamente erráticas da energia emocional”. A observação de Bauman é corroborada por Sennett quando este afirma:

“A maioria das pessoas não é assim, precisando de uma narrativa contínua em suas vidas, orgulhando-se de sua capacitação em algo específico e valorizando as experiências por que passou. Desse modo, o ideal cultural necessário nas novas instituições faz mal a muitos que nelas vivem.” (Sennett, 2006, 14-15).

 

O DOMÍNIO DOS AUSENTES

Durante todo o século XX, o capital se estabeleceu duradouramente nas localidades e territórios. Hoje seu movimento dispensa raízes firmemente cravadas nas localidades, transita na velocidade do sinal eletrônico e não tem dificuldade de “desarmar as suas tendas” (Bauman, 1999a, p.18). Em “Modernidade líquida”, a imagem construída é a de que “hoje o capital viaja leve – apenas com a bagagem de mão, que inclui nada mais que pasta, telefone celular e computador portátil” (Bauman, 2001, p.70).

Seu modo de existir é caracterizado pela “economia política da incerteza”, definida como “o conjunto de ‘regras para pôr fim a todas as regras’, imposto pelos poderes financeiros, capital e comercial extraterritoriais sobre as autoridades políticas locais” (Bauman, 2000, p.175), que altera decisivamente os parâmetros da condição humana e da “vida como um todo” para quem está pregado na territorialidade (Bauman, 1999a, p.16). A economia política da incerteza denota a ultrapassagem, enfraquecimento ou remoção de qualquer rede densa de vínculos entre indivíduos, grupos e classes.

Bauman se serve da metáfora da união conjugal para evidenciar as mudanças nas relações entre o capital e o trabalho. Na “modernidade sólida”, a luta de classes era um “casamento às turras entre o capital e o trabalho”, duradouro, pontilhado por ataques profundos, fustigações e tréguas ocasionais, com cônjuges destinados a um conflito sem solução, mas “mutuamente engajados” (Bauman, 2001, p.166). As conquistas do capital eram interpeladas por demandas pela distribuição da riqueza, onde um dos cônjuges (os trabalhadores assalariados), em seus rompantes históricos ao longo do século XX, desejou transformar a natureza da relação construindo um novo lar, supostamente habitado por parceiros em igualdade de condições.

Na “modernidade líquida”, o capital abandonou o casamento às turras e deixou à deriva o cônjuge que busca mitigar suas precariedades e sofrimentos. Agora as funções de administração, gerenciamento, negociação com as garantias e direitos dos trabalhadores e obediência a leis nacionais podem ser exercidas de maneira volátil, sem enraizamento ou compromissos estendidos no tempo. Assim os detentores do dinheiro se tornam “senhores ausentes”: estão em todo lugar e em lugar nenhum. Os poderosos da economia e as elites extraterritoriais se abstêm do litígio e consolidam sua supremacia pela capacidade de movimentação no tempo e no espaço, que Bauman define em “Modernidade líquida” como mecanismos de desengajamento e fuga. Os “senhores ausentes” são um alvo móvel difícil de ser atingido:

“[…] as principais técnicas do poder são agora a fuga, a astúcia, o desvio e a evitação, a efetiva rejeição de qualquer confinamento territorial, com os complicados corolários de construção e manutenção da ordem, e com a responsabilidade pelas consequências de tudo, bem como com a necessidade de arcar com os custos.” (Bauman, 2001, p.18)

A força de trabalho, que não transita em velocidade supersônica entre os continentes, nem vende a sua capacidade de produzir a cada toque do mouse, se vê em um horizonte social onde sucumbem as redes densas que garantiam vigor nas disputas através dos nexos entre os desejos e privações particulares com as aspirações e demandas coletivas. Enquanto na modernidade “sólida” havia engajamento mútuo, “às turras”, a modernidade “fluida” ou “líquida” é marcada pelo desengajamento, fuga fácil e perseguição inútil. Agora mandam os mais escapadiços, os que são livres para se mover de modo imperceptível (Bauman, 2001, p.140). Tais relações carecem de fixidez e ganham contornos e conteúdos distintos daqueles que marcaram o desenvolvimento do capitalismo industrial.

A ação à distância do parceiro escapadiço produz efeitos deletérios no cônjuge à deriva, pois a incerteza se soma à exploração material. Como o capital pode se mover com rapidez e leveza, a insegurança ameaça permanentemente a força de trabalho fixada nas localidades e territórios, definindo “a principal base da dominação e o principal fator das divisões sociais” (Bauman, 2001, p.141). No livro “Em busca da política”, Bauman traduz em números o desengajamento no mundo do trabalho. Os dados não são recentes e indicam que o processo se acentua progressivamente:

“Um em cada três empregados nos Estados Unidos da América está há menos de um ano no seu emprego e empresa atuais. Dois em cada três estão há menos de cinco anos na ocupação que têm hoje. Vinte anos atrás, 80% dos empregos na Grã-Bretanha eram – em princípio, senão de fato – do tipo “40/40” (isto é, de 40 horas de trabalho por semana durante 40 anos), gozando de proteção de uma rede de direitos sindicais, previdenciários e salariais. Hoje, não mais de 30% dos empregos estão nessa categoria e a proporção continua a diminuir velozmente.” (Bauman, 2000, pp.26-27).

Um dos pilares da “economia política da incerteza” é o desmantelamento do Welfare State (que contém implicitamente a declaração política de que a sociedade se responsabiliza pelas aflições socialmente produzidas nos contingentes mais vulneráveis) e das redes de proteção social. O fim da regra que norteava o Welfare State revela a preponderância de uma política social onde os indivíduos se tornam os únicos responsáveis pelos seus infortúnios. Durante sua longeva permanência no poder, a primeira-ministra inglesa Margaret Thatcher declarou sua oposição ao acolhimento dos vulneráveis pelo Estado na frase “não existe essa coisa chamada sociedade” (Bauman, 2000, p.75). Para ela, nesse deserto da solidariedade, indivíduos e famílias escolhem soluções de vida a partir dos meios alcançados para o cumprimento de objetivos intransferíveis. Segundo tal concepção, a liberdade é a liberdade de cada um, descartada qualquer interferência supraindividual como o Estado, a coletividade ou a política. Em Vida a crédito, Bauman (2010) pontua que, diante das evidências das vidas arruinadas, desenvolveu-se “uma cultura da caridade, da humilhação e do estigma”.

O alcance dessas alterações na condição existencial dos imobilizados na territorialidade, pela compressão do tempo e do espaço, ultrapassou as relações de trabalho e destruiu as vias de agregação dos sofrimentos privados em demandas públicas:

A vida insegura é vivida na companhia de gente insegura. Não sou eu apenas que tenho dúvidas sobre a durabilidade do meu eu atual e até quando os que me cercam estarão dispostos a endossá-lo. Tenho todas as razões para suspeitar que os que me cercam vivem a mesma situação embaraçosa e se sentem tão inseguros quanto eu. A indiferença e irritação tendem a ser partilhadas, mas partilhar a irritação não se transforma em comunidade os que sofrem de solidão. O tipo de insegurança em que vivemos não é o estofo de que são feitas as causas comuns, as uniões, os grupos de solidariedade. Os golpes e oportunidades parecem selecionar as suas vítimas ou beneficiários ao acaso, de modo que a regularidade imposta pela norma pode muito bem ser desvantajosa quando se trata de aproveitar a oportunidade e de pouca serventia para desviar o golpe.” (Bauman, 2000, p.31).

Seres deixados à própria sorte envidam esforços permanentes para mitigar a incerteza, na medida em que o terreno em que se pisa é movediço. As condições comuns de fragmentação e isolamento não facilitam a cooperação e a luta comum, e assim perde-se de vista um canal de escoamento das infelicidades reunidas: o nome desse canal é Política (com P maiúsculo), segundo Bauman. Opera-se então um efeito de deslocamento da Política para a “política da vida”, assim definida em “Modernidade líquida”:

“…são os homens e mulheres individuais que a suas próprias custas, deverão usar, individualmente, seu próprio juízo, recursos e indústria para elevar-se a uma condição mais satisfatória e deixar para trás qualquer aspecto de sua condição presente de que se ressintam”. (Bauman, 2001, p.155)

O deslocamento proveniente do desmantelamento das redes de proteção social demarca o terreno de soluções biográficas para contradições sistêmicas. Mais especificamente:

A “privatização” transfere a tarefa de lutar contra os problemas socialmente produzidos (espera-se) para os ombros dos indivíduos, homens e mulheres, na maioria dos casos fracos demais para esse propósito, consoante suas competências, na maior parte das vezes inadequadas, e seus recursos insuficientes. O “Estado social” tendia a unir seus integrantes, numa tentativa de proteger todos e cada um da devastadora e competitiva “guerra de todos contra todos” e da “disputa entre os homens” (Bauman, 2010, p.56).

No atual momento de desregulamentação, a ideia freudiana de que “a civilização se constrói sobre uma renúncia ao instinto” não encontra substratos institucionais para a sua confirmação. Na cultura do consumo, “a liberdade individual reina soberana” (Bauman, 1998, p.9), com implicações evidentes sobre as possibilidades da “política da vida”. Nas perdas e ganhos, que Freud formulou anteriormente através da expressão “repressão cria cultura”, hoje “os homens e as mulheres pós-modernos trocaram um quinhão de suas possibilidades de segurança por um quinhão de felicidade” (Bauman, 1998, p.10). Todos querem imitar os “felizes globais que viajam leves” (Bauman, 2001, p.187), sabe-se lá a que preço, e a grande massa de devedores nos cartões de crédito acreditam perseguir a felicidade driblando a incômoda contenção dos instintos. Com o mercado inteiramente organizado para satisfazer todas as demandas de estilos de vida, Bauman escreve em “Modernidade e ambivalência” que atualmente é possível comprar “maneiras de ser”:

“O mercado põe à disposição uma ampla gama de “identidades”, das quais pode-se escolher uma. Os reclames comerciais se esforçam em mostrar em seu contexto social as mercadorias que tentam vender, isto é, como parte de um estilo de vida especial, de modo que o consumidor em perspectiva possa conscientemente adquirir símbolos da autoidentidade que gostaria de possuir. O mercado também oferece instrumentos para “construir identidade”, que podem ser usados diferencialmente, isto é, que produzem resultados algo diferentes uns dos outros e que são assim “personalizados”, feitos “sob medida”, melhor atendendo às exigências da individualidade. Através do mercado, podem se colocar juntos vários elementos do “identikit” completo de um eu. A mulher pode aprender como se expressar de forma moderna, liberada, desembaraçada ou como uma dona de casa razoável, séria, cuidadosa; pode-se aprender a ser um magnata impiedoso, autoconfiante, empreendedor, ou um camarada amável, calmo, ou um macho de físico exuberante, ou uma criatura sonhadora, romântica, sedenta de amor – ou qualquer mistura de algumas ou todas essas imagens […] A incerteza quanto à viabilidade da identidade autoconstruída e a agonia de procurar confirmação são assim evitadas.“ (Bauman, 1999, pp.216-217, grifos do autor).

A “customização” da identidade pode ser contratada e também serve para afastar o fantasma da derrocada no cenário da incerteza. A aquisição de “mercadorias de ser”, disponíveis no mercado, é uma das condições para “estar por dentro da onda” e contar, nos devidos contextos, com a aceitação dos indivíduos que partilham dos mesmos valores e símbolos sociais. Os detalhes identificadores do eu se renovam ininterruptamente perfazendo um frenesi existencial acessível às diversas faixas de consumidores:

É um conhecimento que se deve atualizar semanalmente – do contrário você e os outros que o enxergam não saberão mais decidir “quem você é”, e você mesmo não terá ideia quanto ao que obter para compor adequadamente sua imagem externa. A resposta à questão relativa à sua identidade não é mais um “engenheiro da Fiat (ou da Pirelli)”, ou um “servidor público”, ou um “mineiro” ou um “gerente de loja da Benetton”, mas, como num recente comercial descrevendo uma pessoa que usaria o prestigioso logotipo nele anunciado, alguém que “adora filmes de terror, bebe tequila, usa saiote escocês, é fã do Dundee United F.C., da música dos anos 1980, da decoração dos anos 1970, viciado nos Simpsons, cria girassóis, a cor favorita é cinza-escuro, fala com as plantas”. No número seguinte da revista, aparece outra pessoa usando o mesmo logotipo: ele “toca gaita de foles, tem uma cobra de estimação, adora filmes de Hitchcock, tem 15 jeans, ainda usa máquina de escrever, lê ficção científica”. Os dois “atestados de identidade” levam à mesma conclusão: “tudo está no detalhe”. Desnecessário dizer que todos os detalhes mencionados e qualquer outra coisa mencionável estão disponíveis nas lojas.” (Bauman, 2007, pp.114-115)

Compra-se também as recomendações dos “conselheiros”, esses profissionais a quem se paga para obter recomendações “especializadas” para conduzir a “política da vida” no âmbito privado. O aconselhamento e a oferta desses serviços se difundem pelos jornais, programas de tevê, publicidade, sites e “filósofos midiáticos” que pontificam sobre cada problema da existência: dietas, sexo, estilo, desempenho nos círculos de trabalho ou convivência, entre outros. E, claro e sempre, relacionamentos e amor.

As receitas para a boa vida têm “data de validade” e a obsolescência delas é permanente. Essa roda não para de girar no mundo das incertezas e os arrancos das novidades solicitam dos indivíduos atualização constante, que fornece os signos que Bauman chama, em “O mal-estar da pós-modernidade”, de “identidade de palimpsesto”, em que é mais importante esquecer do que lembrar (Bauman, 1998, p.36). Um exemplo:

“A cirurgia plástica não é para remover uma cicatriz ou alcançar uma forma ideal negada pela natureza ou pelo destino, mas para ficar em dia com padrões que mudam com rapidez, manter o próprio valor de mercado e descartar uma imagem que perdeu sua utilidade ou seu charme, de modo que uma nova imagem pública seja colocada em seu lugar – num pacote que inclui (espera-se) uma nova identidade e (com certeza) um novo começo”. (Bauman, 2008, p.130)

Assim as mudanças de largo alcance no mundo do trabalho e a “política da vida” (e seus bálsamos para suportar a insegurança) compõem o seguinte quadro:

“E assim a política de “precarização” conduzida pelos operadores dos mercados de trabalho acaba sendo apoiada e reforçada pelas políticas de vida, sejam elas adotadas deliberadamente ou apenas por falta de alternativas. Ambas convergem para o mesmo resultado: o enfraquecimento e decomposição dos laços humanos, das comunidades e das parcerias. Compromissos do tipo “até que a morte nos separe” se transformam em contratos do tipo “enquanto durar a satisfação”, temporais e transitórios por definição, por projeto e por impacto pragmático – e assim passíveis de ruptura unilateral, sempre que um dos parceiros perceba melhores oportunidades e maior valor fora da parceria do que em tentar salvá-la a qualquer – incalculável – custo.” (Bauman, 2001, p.187).

Em linguagem de maximização, o custo-benefício de vínculos densos e duradouros é visto como deficitário. A postura dos escapadiços observada nas relações entre o capital e o trabalho se estende às outras esferas da sociabilidade, sob a égide da satisfação efêmera ou do abandono sumário por conveniência naturalizada socialmente. Essa volúpia, dirigida a sensações não experimentadas anteriormente e supostamente mais intensas do que aquelas já conhecidas, resulta em uma acumulação que nunca é satisfatória. Esse trânsito desmemoriado no eterno presente é o de uma identidade que não se completa, numa dinâmica de desmantelamento e reconstrução que nunca alcança um ponto fixo e assombra homens e mulheres contemporâneos pela incerteza permanente e irredutível.

Podem-se colecionar amores fugazes, valores temporários, enredos vagos de histórias pessoais tornadas desimportantes, consistências do “eu” sempre possíveis de serem apagadas e martírios neutralizados por novos desempenhos. Nesse ambiente, os ineptos da plasticidade requerida pela adoção dos kits de identidade se vêm submetidos a uma hierarquização perversa dos modos de ser e se tornam os deslocados da “modernidade líquida”.

“Carente” e “dependente” são palavras depreciativas na performance social e os estigmas a elas associados podem atingir duramente pessoas em suas atividades profissionais ou nas diversas regiões do convívio cotidiano. Essa é uma cultura de “colecionadores de experiências e sensações”, que exerce influência sobre as vontades, desejos e anseios empenhados nos laços sentimentais e amorosos. Em “Vida para consumo”, Bauman descreve tais interações como “…antes atraentes, mas agora repulsivas, entulhando o hábitat e limitando a liberdade de explorar o interminável desfile de momentos plenos e de novas e aprimoradas atrações” (Bauman, 2008, p.136).

 

ETERNO AMOR FUGAZ

Em “Utopia, amor, ou a geração perdida”, de “Vida a crédito”, Zygmunt Bauman cita Emily Dubberley, autora de “Brief Encounters: The Women’s Guide to Casual Sex”, onde ela observa que para obter sexo hoje é “como pedir uma pizza… Agora você pode entrar on-line e encomendar genitália” (Bauman, 2010, p.209). Esse tipo de serviços para encontros é eficiente e rápido, bastam alguns cliques no mouse e informações preenchidas sem maior dificuldade. No mundo virtual não é necessário que os indivíduos se aventurem nos esforços trabalhosos de sedução, que implicam o balé face a face em busca de pontos de contato, aí incluída a sombra da frustração se as expectativas não forem levadas a bom termo. Os sites de relacionamento prometem (e cumprem) a função de apresentar uma variada gama de ofertas para todos os gostos e quiçá todas as extravagâncias do universo do desejo.

Apesar da mais antiga das profissões ainda ser dotada de grande prestígio, nesse caso são partícipes livremente dispostos à manifestação de vontades a serem saciadas. Basta que os perfis na tela se ajustem; se a exibição dos dados pessoais não agradar, é só deletar no teclado. Em parcerias assim constituídas há até mesmo quem se case, mas a maioria desses encontros resulta em prazeres de uma só noite, quando não trazem decepções e estranhezas lamentáveis. A essa lista pode ser adicionada a sobrevivência temporária de relações fugidias que, após o arrefecimento dos ímpetos iniciais, trazem a constatação de sua inviabilidade. Tais ações podem ser repetidas indefinidamente, assim como a repetição do descarte.

“As agências de namoro on-line (e mais ainda, entre elas, as agências de sexo instantâneo) tendem a apresentar os potenciais parceiros de uma noite num catálogo em que as “mercadorias disponíveis” são classificadas de acordo com suas características selecionáveis, tais como altura, origens étnicas, tipo de corpo, cabelos etc. (os métodos de classificação variam dependendo do público-alvo e da noção hoje dominante de “relevância”). Desse modo, os usuários podem compor o parceiro como se ele fosse um mosaico, a partir de cacos e pedaços que acreditam ser determinantes para a qualidade e os prazeres de uma relação sexual (e esperando que seus usuários procedam de forma semelhante).” (Bauman, 2010, pp.212-213)

Os atributos do “kit” são como peças em exposição e, quando compostas, dispensam as misteriosas interferências de emoções mutuamente referidas, que não pedem licença para eclodir. No eventual encontro face a face, se verá o quanto cada indivíduo estará confortável nas fileiras do exército de “colecionadores de experiências e sensações”.

Bauman não propugna uma vida devotada à pureza sentimental e à sexualidade bem dirigida, seja lá o que isso significa. Ele atenta para as modalidades de relacionamento em uma institucionalidade profundamente modificada, onde as relações virtuais são particularmente expressivas de tendências gerais. Em uma palavra, as tendências ao comportamento “escapadiço”, que tem causas sociais e culturais bem definidas, a uma distância considerável da disponibilidade para laços densos e relacionamentos duradouros.

No campo dos afetos, a solidez depende de investimentos trabalhosos:

“O amor é produto de um esforço longo e laborioso, arriscado e sempre sob risco de um retrocesso, que não exige nada menos que uma preparação para um incômodo compromisso e um duro autossacrifício… o amor partilha experiências, alegrias, frustrações, fascínios, fobias, concentra a atenção e afasta a indiferença.” (Bauman, 2010, pp.217-218)

Bauman não se arroga a discutir as variações de estados interiores que vão dos idílios à suspensão da tranquilidade. Nas páginas iniciais de “Amor líquido”, ele se apressa em dizer que tal conhecimento talvez possa alcançar alguma suficiência na… infinitude do tempo. Seu exame crítico foca a fragilidade dos laços e o mundo encantado prometido por especialistas (devidamente remunerados, vistos na mídia ou lidos nas edições de autoajuda), que oferecem bulas existenciais para todo tipo de embaraço no mundo das incertezas.

A atualização desse tipo de informação constitui, para os consumidores da expertise dos conselheiros, o aprendizado de como entrar e sair dos relacionamentos sem a amarga carga de culpa, remorso ou vergonha, que impedem a “leveza do ser” para escolhas futuras. São vendidos os roteiros adequados à ambientação na “cultura descartável de gratificação instantânea”, expressão do psicoterapeuta Phillip Hodson que Bauman reproduz em “Vida a crédito”.

Os indivíduos são estimulados à adoção de estilos de brevidade emocional e ética, e, nesse quadro, “denso” pode significar “ultrapassado”, “grudento”, além da contribuição semântica indelével do linguajar nacional para essa modalidade de hierarquia nas interações sociais: as “pessoas mala”.

O mesmo se passa com o sentido pejorativo conferido aos “carentes” e aos “dependentes”, que estancam nas demandas de afeto ou contam com os outros como referências indispensáveis na vida. Inglória condição para os introvertidos, os reflexivos em excesso, os ensimesmados, os lunáticos, os devaneadores, os românticos incorrigíveis e todos cujas dúvidas sobre a condução rotineira influem sobre a performance social. Tais relações de poder, imbricadas na “política da vida”, acabam por estabelecer um bullying social de enorme abrangência, cujas linhas divisórias envolvem, de um lado, os traços psíquicos adaptáveis aos “relacionamentos de bolso” e, de outro, as condições materiais para o consumo e a adoção de “kits identitários”.

Descartada a pretensão de decifrar as injunções particulares da psique dos indivíduos, Bauman desenvolve a crítica do festival ideológico das “promessas de felicidade”, a cargo de consultores do amor, que oferecem receitas e sugestões de “equipamentos existenciais” para a subjetividade transitar na roda-viva dos encontros e desencontros. A política da vida é um sem-fim, e seu embate de forças ocorre no interior de cada indivíduo, para então forjar os perfis a serem adotados.

No capítulo “Sobre a dificuldade de amar o próximo” de “Amor líquido”, Bauman discute com Anthony Giddens as concepções em torno dos “relacionamentos”, em que ficam bem demarcadas as diferenças entre eles sobre o amor, a confiança e a frieza nas atuais configurações institucionais. Segundo Giddens, um dos fenômenos da modernidade avançada na vida privada consiste na democratização das emoções nas vivências íntimas de indivíduos libertos das amarras tradicionais. Com base no conceito de reflexividade, realça que “as práticas sociais são constantemente examinadas e reformadas à luz de informação renovada sobre estas próprias práticas, alterando assim constitutivamente seu caráter” (Giddens, 1991, p.45) e, portanto, “a revisão crônica das práticas sociais à luz do conhecimento sobre estas práticas é parte do próprio tecido das instituições modernas” (Giddens, 1991, p.47). Tais pressupostos informam a análise da confiança na vida privada no campo dos “relacionamentos”, conceito que a princípio parece meramente descritivo ou carecer de conteúdo sociológico.

Mas, olhando mais de perto, “relacionamentos” são tratados como vínculos positivos a partir de processos reflexivos “onde a confiança não é pré-dada, mas trabalhada, e onde o trabalho envolvido significa um processo mútuo de autorrevelação”. Neles é possível o reforço da confiança e a abertura do indivíduo para o outro e da descoberta de si (Giddens, 1991, p.123). Ele não esconde um entusiasmo prudente com a “transformação genuína da própria natureza do pessoal” (Giddens, 1991, p.122), fonte de possibilidades novas de autenticidade, sociabilidade e lealdade.

O conceito de “relacionamento puro” insinua a possibilidade da “democracia das emoções”, o que transparece em outra definição como “…um relacionamento de igualdade sexual e emocional, explosivo em suas conotações em relação às formas preexistentes do poder do sexo” (Giddens, 1993, p.10). Mais extensamente:

Um relacionamento puro nada tem a ver com pureza sexual, sendo um conceito mais restritivo que descritivo. Refere-se a uma situação em que se entra em uma relação social apenas pela própria relação, pelo que pode ser derivado por cada pessoa da manutenção de uma associação com outra, e que só continua enquanto ambas as partes considerarem que extraem satisfações suficientes, para cada uma individualmente, para nela permanecerem.

Para a maior parte da população sexualmente “normal”, o amor costumava ser vinculado à sexualidade pelo casamento, mas agora os dois estão cada vez mais vinculados através do relacionamento puro. O casamento – para muitos, mas de forma alguma para todos os grupos da população – tem-se voltado cada vez mais para a forma de um relacionamento puro, com muitas outras consequências. Repetindo, o relacionamento puro é parte de uma reestruturação genérica da intimidade (Giddens, 1993, pp.68-69).

O relacionamento puro contém o princípio da modificação das hierarquias entre os parceiros. O conceito busca capturar as tendências de mudança com a democratização dos vínculos na esfera sentimental e amorosa. Em dimensão histórica, Giddens destaca o papel das mulheres no século XX no rearranjo da vida privada. Nesse sentido, a intimidade tornou-se uma esfera social de democratização, envolvendo relações de igualdade emocional e sexual no casamento, diversidade de vínculos de atração e afeto, alteração nas formas de parentesco e amizade, além de novas formas de relação entre pais e filhos.

O “relacionamento puro” traz, em suas condições básicas, a proibição da violência, a negociação de um “contrato móvel” (e, portanto, passível de desistência de uma das partes segundo o padrão da autonomia) e o compromisso segundo as necessidades e o grau de satisfação de cada um na relação. Supõe a determinação dialogal das condições da própria associação e uma comunicação livre e aberta. Trata-se na verdade de um tipo-ideal, com o qual Giddens trabalha conscientemente quando afirma que “…a distância entre os ideais e a realidade é considerável”, com a observação de que “…as mudanças que ajudaram a transformar os ambientes da ação pessoal já estão bem avançadas, tendendo para a realização das qualidades democráticas” (Giddens, 1993, p.206).

A política da vida, na concepção de Giddens, também se traduz em uma “ética do pessoal” que abarca os vínculos afetivos, com destaque para destradicionalização da família, cujos laços estão sendo profundamente modificados. Constata que no passado não se observava “o nível de intimidade que associamos às relações pessoais e sexuais hoje em dia” (Giddens, 1991, p.143). Giddens defende a ideia de que há uma simetria real entre a possibilidade de uma “democracia das emoções” no âmbito da vida pessoal e o potencial para o aprofundamento da democracia na sociedade como um todo. Segundo ele, a igualdade sexual e emocional aumenta as chances de relações mais solidárias, dialógicas, que fazem avançar processos democráticos de longo alcance. Giddens projeta que “…as questões da política-vida provavelmente assumirão cada vez maior importância nas arenas públicas e jurídicas dos Estados” (Giddens, 2002, p.208):

“Os indivíduos que têm um bom entendimento de sua própria constituição emocional, e que são capazes de se comunicar de maneira eficiente com os outros em sua base pessoal, provavelmente estão bem preparados para as tarefas e responsabilidades mais amplas da cidadania.” (Giddens, 1996, p.25)

A simetria entre a “democratização das emoções” e a democratização política se baseia na percepção de mecanismos correlatos entre a suspensão das hierarquias na vida íntima e as regras que orientam a vida democrática. As “relações livres e iguais” entre os indivíduos guardariam elementos comuns a uma ordem democrática, baseadas na autonomia, na determinação das condições de sua associação e na proteção contra o uso arbitrário da coerção. A “intimidade democrática” também aponta para a democratização através de uma “remoralização” das escolhas de vida (Giddens, 1993, p.215).

No entanto, distorções restam intocadas mesmo entre pessoas dispostas à “abertura para o outro” e que buscam autenticidade, revelação e satisfação em limites ampliados pela reflexividade moderna. O “relacionamento puro” – esse tipo ideal compatível com a destradicionalização – parece ocupar uma região a salvo das emanações da incerteza estrutural, assim como traz a suposição de que os propósitos conscientes estariam imunes às novas hierarquias provenientes da “liberdade” dos escapadiços.

Na convivência amorosa, a destradicionalização não corresponde necessariamente aos mais sinceros desejos de igualdade emocional, que é um ponto de chegada ao invés de um ponto de partida. A “autonomia” não é um vale-tudo da expressividade de cada um dos componentes da relação, como se houvesse um pressuposto de que eles já reunissem os elementos e as forças necessárias para suportar as agruras do amor. Ficam assim ocultadas as dificuldades do envolvimento profundo, que requerem a disposição de enfrentar as misteriosas e complexas oscilações dos sentimentos na convivência duradoura. Cuidados mútuos dão trabalho, e a “satisfação suficiente” (nas palavras de Giddens) pode definhar e ser revivida inúmeras vezes pelos parceiros nas batalhas pela preservação dos laços ao longo do tempo.

A definição de Giddens de “política da vida”, bem diversa daquela operada por Bauman, tem a seu favor a percepção da publicização de questões existenciais e da formação de correntes de opinião e de disputa pela afirmação da diversidade dos estilos de vida. No entanto, o “relacionamento puro”, tal como percebido por Giddens, não alcança os novos dilemas que se sobrepõem com a “liquefação” dos laços e suas consequências sobre as interações e as condições de dependência.

Como Bauman aponta em “Amor líquido”, as subordinações não parecem progressivamente desmontadas no mundo dos afetos, pois compromissos duradouros (ou mesmo incondicionais) são vistos como armadilhas, pois “investir fortes sentimentos na parceria e fazer um voto de fidelidade significa aceitar um risco enorme: isso o torna dependente de seu parceiro” (Bauman, 2004, p.112). O “relacionamento puro” pode conter desigualdades vividas com grande sofrimento, quando o “dependente” se afunda na culpa de limitar a liberdade do outro. Ao final, as hierarquias e mecanismos de poder na parceria acabam repostos:

“Para esfregar sal na ferida, a dependência – devido à “pureza” de seu relacionamento – não pode nem precisa ser recíproca. Assim, você está amarrado, mas seu parceiro continua livre para ir e vir, e nenhum tipo de vínculo que possa manter você no lugar é suficiente para assegurar que ele não o faça. O conhecimento amplamente compartilhado – na verdade, um lugar-comum – de que todos os relacionamentos são “puros” (ou seja, frágeis, fissíparos, tendentes a não durar mais do que a conveniência que trazem, e portanto sempre “até segunda ordem”) dificilmente seria um solo em que a confiança pudesse fincar raízes e florescer.” (Bauman, 2004, p.112)

Uma parte significativa daqueles que adotam kits de identidade certamente não padece dos tipos de repressão sexual que atormentava os pacientes de Freud nem de seus sucedâneos ao longo do século XX. No entanto, com seus corpos equipados com recomendações para evitar o incômodo da dependência ou o peso da bagagem emocional dos parceiros, podem ser suficientemente frios para deixar para trás relações insatisfatórias no cálculo do custo-benefício dos impulsos sexuais ou do compromisso amoroso que solicita empenho, paciência e humildade para atravessar conflitos, decepções e diferenças. Tudo bem “resolvido” e cada um “livre” para colecionar novas experiências e sensações.

“All you need is love” parece uma recomendação pouco útil àqueles que jogam o jogo do realismo do prazer na feira dos identikits. Para os refratários ao mercado das emoções liquefeitas, a música dos rapazes de Liverpool ainda pode soar como um convite às histórias de amor, ainda que não obedientes à sentença definitiva de “até que a morte nos separe”.

 

O autor é professor titular em Sociologia do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da UFF

lcfridman@globo.com

 

 

 

BIBLIOGRAFIA

BAUMAN, Zygmunt. O mal-estar da pós-modernidade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998.

— Modernidade e ambivalência. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1999.

— Globalização – As consequências humanas. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1999a.

— Em busca política. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2000.

— Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2001.

— Amor líquido. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2004.

— Vida líquida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2007.

— Vida para consumo. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2008.

— Vida a crédito. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2010.

GIDDENS, Anthony. As consequências da modernidade. São Paulo: Editora Unesp, 1991.

— A transformação da intimidade – sexualidade, amor e erotismo nas sociedades modernas. São Paulo: Editora Unesp, 1993.

— Para além da esquerda e da direita. São Paulo: Editora Unesp, 1996.

— Modernidade e identidade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2002.

SENNETT, Richard. A corrosão do caráter – consequências pessoais do trabalho no novo capitalismo. Rio de Janeiro: Editora Record, 1999.

 

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